segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Um processo histórico no sertão

"Ele (Germano Neto) nos empresta seu olho - e o olho da sua câmara, sua objetiva- para dirigir o nosso olhar para uma realidade que pede socorro.(...) Porque são lugares à beira do risco, em vias de desaparecimento(...)mostra veredas que secam o seu verde por conta da agressão feita pela monocultura do eucalipto, da soja, do capim; veredas violentadas, com as águas estancadas para servirem à irrigação das grandes fazendas, em que apodrecem os buritizais."

Adélia Bezerra de Menezes. Apresentação de "Saudades de Rosa e sertão"


OS BURITIS LAVADOS DE VERDE


OS BURITIS MORRENDO SECOS



quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

ANO NOVO FUTEBOLÍSTICO

O ano futebolístico começa agora em janeiro, já estava com saudade!
Como eu pertenço ao seleto grupo dos "Santistas roxos", estou esperando pelo tricampeonato no paulistão!
Ainda não sei se isso pode rolar tranqüilamente ou nem vai... perdemos (ou nos livramos ) o Luxa, mas como santista é antes de tudo um chato, ele logo foi substituído por outro chatinho no mesmo nível... Emerson Leão, nosso comandante no inesquecível time de 2002, volta afim de reviver aquelas emoções, mas eu não sei, viu... pra reviver 2002 não basta o Leão, precisaríamos do trio genial "Diego, Robinho e Elano", mas isso é assunto para o lindo mundo da imaginação...
No mundo da vida real, eu tinha visto na segunda feira que o Maldonado já estava com sua saída do Santos acertada! Entrei em desespero!
MALDONADO NÃO PODE SAIR!
Ele foi o jogador de desempenho mais freqüente de 2007, o que demonstrou mais raça, ele foi o pé de colho do Peixe ... rsrs Agora fui atrás de informações mais confiáveis, mas não achei ( já li que ele já saiu; que não saiu e que a saída ainda está em fase de acertos... coisas de futebol), vejamos no que vai dar!
Vamos entrar no túnel do tempo agora. Quando eu era criança, tinha um padrinho torcedor da portuguesa e proprietário de uma padaria rs (básico) ...Como toda criança eu tinha cá meus segundos interesses nesse padrinho, ele me dava sempre um pirulito roxo que eu adorava, chamava Dip Lick rs
Para ganhar pirulitos eu disse a ele que eu também torcia para a Lusa (mercenária eu) e ele me presenteou com uma camiseta infantil da Portuguesa, que eu guardo até hoje... o tempo passou, eu cresci e pirulitos deixaram de fazer parte dos meus interesses, mas a camiseta guardo até hoje e digo com orgulho que meu primeiro time foi a Lusa!
Só que agora, na fase adulta, eu faço parte do grupo dos SANTISTAS ROXOS!
Sempre vou torcer para o Glorioso, mas quando joga contra a Lusa, não tem tanta graça ganhar!
Dia 16 de janeiro, às 22:00, o primeiro jogo do Peixe vai ser contra a Portuguesa, aqui no Canindé! Tô até vendo, vou ficar uma pilha, mas estava com saudade da emoção!
Vamos Santos, rumo ao terceiro título em sequência!
Agora quem dá a bola é o Santos!

domingo, 23 de dezembro de 2007

Uma estória rosiana para o natal...

PRESEPE

"TODOS foram à vila, para missa-do-galo e Natal, deixando na fazenda Tio Bola, por achaques de velhice, com o terreireiro Anjão, imbecil, e a cardíaca cozinheira Nhota. Tio Bola aceitara ficar, de boa graça, dando visíveis sinais de paciência. Tão magro, tão fraco: nem piolhos tinha mais. Tudo cabendo no possível, teve uma idéia.
Não de primeira e súbita invenção.
Apreciara antes a ausência de meninos e adultos, que o atormentavam, tratando-o de menos; dos outros convém é a gente se livrar. Logo, porém, casa vazia, os parentes figuravam ainda mais hostis e próximos. A gente precisa também da importunação dos outros. Tio Bola, desestimado, cumpria mazelas diversas, seus oitentas anos; mas afobado e azafamoso. Quis ver visões.
Seu espírito pulou tão quanto à vila, a Natal e missa, aquela merafusa. Topava era tristeza - isto é, falta de continuação. Por que é que a gente necessita, de todo jeito, dos outros? Velho sacode facilmente a cabeça. A idéia lhe chegou então, fantasia, passo de extravagância.
- "Mecê não mije na cama!" - intimara a Nhota,quando, comido o leite com farinha, ele fingia recolher-se. Não cabia no quarto. Natal era noite nova de antiguidade. Tomou o aviso e voltou-se: estafermado, no corredor, o Anjão fazia-lhe pelas costas gesto obsceno. Ordenou-lhe então - trouxesse ao curral um boi, qualquer!
Saiu o Anjão a obedecer, gostava do que parecesse feitiço ou maldade. E no pequeno cercado estava já o burro chumbo, de que os outros não tinham carecido. Sem excogitamento, o burrinho dera a Tio Bola o remate da idéia.
Lá tora o escuro fechava. O Anjão no pátio acendera fogo, acocorava-se ante chama e brasa. Esse se ria do sossego. Também botara milho e sal no cocho, mandado.
Natal era animação para surpresas, tintins tilintos, laldas e loas! O burro e o boi - à manjedoura - como quando os bichos falavam e os homens se calavam.
Nhota, em seus cantos, rezava para tomar ar, não baixando minuto, e tudo condenava. Tio Bola esperava que o Anjão se fosse, que Nhota não tossisse mas adormecesse.
Estava de alpercatas, de camisolão e sem carapuça, esticando à janela pescoço e nariz, muito compridos. Os currais todos ermos, menos aquele... Tremia de verdade.
Veio, enfim, à sorrelfa; a horas. Pelas dez horas. Queria ver. Devagar descera, com Deus, a escada. Burro e boi diferençavam-se, puxados da sombra, quase claros. Paz. Sem brusquidão nem bulir: de longe o reconheciam.
Os olhos oferecidos lustravam. Guarani, boi de carro, severo brando. Jacatirão, prezado burrinho de sela. Tio Bola tateou o cocho: limpo, úmido de línguas.
Empinou olhar: a umas estrelas miudinhas. Espiou o redor - caruca - que nem o esquecido, em vivido. Tio Bola devia distrair saudades, a velhice entristecía-o só um pouco. Riu do que não sentiu; riu e não cuspiu. Estava ali a não imaginar o mundo.
Por um tempo, acostumava a vista.
Nhota dormia, agora, decerto; até o Anjão. Os outros, no Natal, na vila, semelhavam sempre fugidos... Quem vinha rebater-lhe o ato, fazer-lhe irrisão? De anos, só isto, hoje somente, tinha ele resolvido e em seu poder: a Noite, o curralete, cheiro de estercos, céu aberto, os dóis dredemente - gado e cavalgadura. Boi grosso, baixo, tostado, quase rapé. Burro cor de rato. Tão com ele, no meio espaço, de-junto. Caduco de maluco não estava. Não embargando que em espírito da gente ninguém intruje. Apoiou-se no topo do cocho. Bicho não é limpo nem sujo. Ia demorar lá um tanto. Só o viço da noite - o som confuso?
O Anjão, rondava. Nhota, também, com luz em castiçal, corria a casa; não chamava alto, porque lá a doença não lhe dava fôlego. Turro, o boi ainda não se deitara, como eles fazem - havia de sentir falta do Guaraná, par seu de junta. Burro não deita: come sempre, ou pára em pé, as horas todas. A gente podia esperar, assim como eles, ocultado num ponto do curral. Tudo era prazo.
Deitava-se no cocho? Não como o Menino, na pura nueza... O vôo de serafins, a sumidez daquilo. Mas, pecador, numa solidão sem sala. E um tiquinho de claro-escuro.
Teve para si que podia - não era indino - até o vir da aurora. Que o achassem sem tino perfeito, com algum desarranjo do juizo!
Tão gordo fora; e, assim, como era, tinha só de deixar de fora seus rústicos cotovelos. Agora, o comichar, uma coceira seca. Viu o boi deitar-se também - riscando primeiro com a pata uma cruz no chão, e ajoelhando-se - como eles procedem. O mundo perdeu seu tique-taque. Tombou no quiquiri de um cochilo. Relentava. Ouviu. O Anjão estava ali, no segundo curral, havia coisa de um instante.
Que se aquietasse, pelo prazo de três credos.
Manteve-se. A hora dobrou de escura. Meia-noite já bateu? Abriu olhos de caçador. Dessurdo, escutou, já atilando. Um abecê, o reportório. Essas estrelas prosseguiam o caminhar, levantadas de um peso. Fazia futuro. O contrário do aqui não é ali... - achou. O boi - testo lento, olhos redondos. O burrinho, orelhas, fofas ventas. Da noite era um brotar, de plantação, do fundo. A noite era o dia ainda não gastado. Vez de espertar-se, viver, esta vida aos átimos... Soporava. Dormiu reto. Dormindo de pés postos.
Acordou, no tremeclarear. Orvalhava. A Nhota dormia também, ali sentada no chão, sem um rezungo. O Anjão, agachado, acendera um foguinho. Conchegados, com o boi amarelão e o burro rato, permaneciam; tão tanto ouvindo se passarinhos em incerta entonação.
A estrela-d'alva se tirou. Já mais clareava. As pretas árvores nos azulados... O Anjão se riu para o sol. Nhota entoava o Bendito, não tinha morrido. Cantando o galo, em arrebato: a última estrelinha se pingou para dentro.
Tio Bola levantou-se - o corpo todo tinha dor-decabeça. Deu ordens, de manhã, dia: o Anjão soltasse burro e boi aos campos, a Nhota indo coar café. Os outros vinham voltar, da vila, de Natal e missa-do-galo. Tio Bola subiu a escada, de camisolão e alpercatas, sarabambo, repetia: - 'Amém, Jesus!'"
João Guimarães Rosa. Presepe. In: Tutaméia. P.174-177

domingo, 16 de dezembro de 2007

Pequenidade

"Conta-se, comprova-se e confere que, na hora, Joãoquerque assistia à Mira frigir bolinhos para o jantar, conversando os dois pequenidades, amenidades, certezas. Sim, senhor, senhora, o amor. Cercavam-nos anjos-da guarda, aos infinilhões."

João Guimarães Rosa - Estória no. 3. In: Tutaméia. P. 49

Segundo o Léxico de Guimarães Rosa, Pequenidade é pequeneza,
coisa de pouca importância intelectual.