segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

VESTIBULAR 2010: LIVROS OBRIGATÓRIOS USP/UNICAMP

Saiu no dia 14 de janeiro a lista de livros obrigatória para o vestibular 2010 da USP e UNICAMP.
Somente três obras foram substituídas. Saíram Sagarana de Guimarães Rosa, A Rosa do povo de Drummond e Poemas escolhidos de Alberto Caeiro, e estraram Capitães de areia de Jorge Amado, Antologia 1960 de Vinicius de Moraes e O Cortiço, de Aluisio Azevedo.
Penso que a opção por Capitães da Areia, de Jorge Amado, ao invés de Sagarana me parece mais adequado para um vestibulando, pois não é um livro raso, mas também não exige uma interpretação tão profunda quando pede uma obra de Guimarães Rosa... Claro que Rosa é (para mim) incomparável, mas justamente por isso sou contra a obrigatoriedade de sua leitura. Se for para ler obrigado, acho bem melhor que seja Jorge Amado, que também tem muito pano para manga, pois trás sempre conflitos culturais e sociais a serem discutidos.

Já em relação à retirada de A Rosa do Povo, de Drummond, sou contra. Claro que é um livro bastante denso como todo Drummond, mas é de agradável leitura (apesar da densidade de alguns poemas...) e tem em sua base todo um contexto histórico (a Segunda Guerra) e todas as insatisfações frementes nesta época, o que poderia ser muito mais explorado, apesar de eu também ser a favor da entrada do poetinha nesta lista (poetinha sempre foi discriminado academicamente, mas ele também é um dos "grandes poetas do Brasil", como Drummond...) neste livro que foi indicado temos alguns dos meu favoritos dele,como Pátria minha e Operário em construção... talvez se ao invés de apostar na poesia de Vinicius para a inserção do autor no contexto da academia, pudéssemos ter apostado na prosa de Vinícius (que é forte também!) e mantido Drummond ... mas para começo, está bom.
Sobre o livro de Aluízio Azevedo, penso que é uma escolha padrão - embora o realismo já estivesse representado por Eça de Queirós com A Cidade e as Serras, mas Brasil já não é mais Portugal na época do realismo, então é interessante que apareçam as duas faces.
Resumindo eu achei a lista boa, espero dar muitas aulas sobre esses livros todos esse ano (porque as de literatura são as aulas que eu mais gosto de dar, apesar de eu estar redescobrindo o gosto bom da história, que pode ser muito divertida). Um dos nove livros da lista eu nunca li, o do Eça, mas como ele continua firme na indicação, acho que vou animar ler.
Esta nova lista de livros de leitura obrigatória, ao que me parece, apresenta alguma espécie de mudança na mentalidade pois derruba preconceitos tolos, mas vejamos como esses autores que sempre estiveram à margem serão aproveitados.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

VIOLAS E VIOLEIROS VÃO LOUVAR CANTANDO VOCÊ...

Toda vez que eu ouço Elomar, sinto uma coisa boa... uma espécie qualquer de orgulho de ser brasileira, terra onde esses pequenos milagres como a existência dele acontecem: um arquiteto, fazendeiro, musico, musicólogo, cantador, trovador, que infelizmente tão pouca gente conhece! Mas também sinto uma dor, um banzo qualquer roubado dos olhos cor de terra seca deste sertanejo. Um sertanejo como ele roubou a luz dos meus olhos e me levou a executar violências imperdoáveis contra mim mesma, uma dor sem fim! Mas como alertava Guimarães Rosa, o sertão é "uma espera enorme", eu esperei por meu trovador a vida toda, em 2008 duas figuras me remeteram diretamente a essa imagem, mas só uma delas foi "lua nova do céu que já não me quer".
É porque Vitória da Conquista - terra de Elomar - sempre aparece em minha vida, mas nunca consegui realizar completamente a experiência de Conquista, porque o evento que eu ia visitar em julho acabou não ocorrendo e o amor que eu guardei para lá acabou por aqui mesmo! Mas eu desejei muito. Será que ainda desejo? Acho que sim, por isso ouço Elomar sem parar,por enquanto, é a saudade, que Rosa explicou que é "ser depois de ter". Reparem nos olhos trstes dele:


sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

SANTA MARIA, ESTRELA DO DIA ...



Pensando cada vez mais em Elomar, planejando escrever muitos posts sobre ele, eu achei um vídeo fenomenal sobre a referência a sonoridade medieval que nas músicas do sertanejo encontramos. A legenda deste vídeo no Youtube esclarece:
"O concerto Confissões reúne excertos do livro de Agostinho e mais algumas peças de compositores como J.Bach, Villa-Lobos, Elomar Figueira, dentre outros. Cada uma das peças é acompanhada da leitura de trechos das "Confissões", em que a música e a seleção da leitura estão condizentes e coerentes com a narrativa de Agostinho. Esse concerto é mais um dos elementos do projeto "Música & Literatura", Formado por: Petrônio Joabe,Elton Becker,Lana Sheila,João Omar
CANTIGA MEDIEVAL DE St.MARIA, D.Afonso X."
Ao escutar essa canção pensei que ela não me era estranha, a melodia era a mesma que Antonio Nóbrega - pesquisador da Cultura Popular pernambucana - citava em "Abrição de portas", primeira faixa do seu disco "Madeira que cupim não rói" ... Elomar é fortemente influenciado pela musicalidade trovadoresca, mas não só ele, toda nossa cultura popular! Esta é uma das graças da cultura: sozinha ela nunca exclui, apenas agrega e transoforma! Eu adoro História das Culturas!
Talvez no próximo eu volte a escrever mais diretamente sobre Elomar... veremos!

CANTIGA DE ARRUMAÇÃO

Em 2003 eu fiz uma viagem a Minas Gerais, passei dias seguido de Belo Horizonte até Diamantina e vivi muitas experiências estéticas, simbólicas, históricas, musicais e emocionais... Uma delas aconteceu em Diamantina, quando um casal que estava em lua de mel se contaminou com o clima seresteiro da cidade e começou a tocar e cantar em praça pública uma música que eu conhecia de muito tempo, e sempre chamou violentamente a minha atenção: era estranha, a letra era incompreensível e a sonoridade era toda nova, me dava medo... Era a cantiga de Arrumação, do cantador Elomar Figueira de Melo.

Recapitulado: Eu estava no norte de Minas- e um casal em lua de mel começou a cantar uma música que eu conhecia e que sempre me causou medo pelo estranhamento das linguagens utilizadas... deu para perceber, né? Estranhamentos lingüísticos sempre me chamaram a atenção. Eu lembro que eu escutava a finada Musical FM, a rádio MPB e foi nela que entrei em contato com a fina flor da música popular brasileira como Clube da Esquina, Chico e Caetano, Bossa Nova, Rita Ribeiro e... Elomar... Quando eu ouvia os acordes iniciais de Arrumação sentia um medo (medo do que eu não compreendia) mas não conseguia trocar de estação...só pensava “xi, de novo a música do feijão”, já que esta era uma das poucas palavras da letra que eu sabia o que era...(naquela época eu nem conhecia Guimarães Rosa ainda...) acabei me esquecendo dela, já que a Musical morreu e quando o casal começou a cantar, avisando que iam tocar uma música um tanto diferente da sonoridade das serestas dimantineiras, mas ainda assim com seu sentido para aquela viagem, já que estávamos a porta de entrada do sertão, quando Minas se aproxima da Bahia... Elomar é do sertão da Bahia, de Vitória da Conquista, cidade que está sempre aparecendo em minha vida, mas que ainda não conheci... Hoje senti saudade de um lugar que não conheço mas que eu sempre desejei, de Vitória da Conquista. Vamos ouvir a assustadoramente diferente canção de Elomar:



quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Será o fim da História? Ou porque Francis Fukuyama é um idiota...

Com vocês mais um trechinho da minha dissertação:

"O fim da história esteve na base da discussão epistemológica desde o século XIX e ganhou força renovada quando serviu de tônica para legitimar uma crise da historiografia no final do século XX. Depois do declínio do socialismo, da queda do Muro de Berlim em 1989, a história - como uma sequência de processos de mudanças contínua – pôde ser amplamente questionada.

Em fins dos anos 80, o estadunidense Francis Fukuyama escreveu um artigo sobre esta temática, (Fukuyama, Francis. Fim da historia e o ultimo homem. Rio de Janeiro : Rocco, 1992) no qual desenvolve uma análise panorâmica das abordagens históricas desde a Antigüidade para concluir que, após a destruição de projetos políticos como o socialismo, a humanidade teria atingido o ponto máximo de seu desenvolvimento com a democracia liberal decretando, assim, o fim da história.

Parece-nos claro, entretanto, que a história - como relação dos homens e o tempo em que vivem - não acabou, porque seu objeto legitimador - a humanidade - ainda persiste no mundo, e para nós não só é possível, como é fundamental articular, lembrar, reconstruir narrativas das nossas experiências no tempo, mesmo que os cenários – reais, políticos ou epistemológicos – possam nos parecer insustentáveis."

Camila Rodrigues "Mãos vazias e pássaros voando: Memória, invenção e história em Tutaméia de Guimarãe Rosa". P. 122


domingo, 25 de janeiro de 2009

“CENTRAL DO BRASIL” : UMA OUTRA HISTÓRIA DO BRASIL

Acordei com vontade de ouvir a trilha sonora do filme de Walter Salles, depois de mais de ano e eu mesma me surpreendi porque só de ouvir, sem ver a cena, me emocionei muito! A carta de Dora, os pedaços de depoimentos narrados a Dora sobre as dificuldades e sucessos, que antecedem “Preciso me encontrar” são uma síntese de tudo o que está sendo dito: Aqui nós sempre precisamos nos encontrar, por isso aprendemos desde cedo que precisamos andar, ir por aí a procurar rir pra não chorar ...Isso quem destacou foi Euclides da Cunha, quando escreveu que o sertanejo é antes de tudo um forte porque dentre outras coisas, aprendeu a ser capaz de sempre se locomover em busca da sobrevivência. Mas não importa “de onde” e nem “para onde”, a verdadeira história do Brasil é a contada por essas pessoas que sobrevivem sempre, seja no sertão, seja nas cidades (lembram-se da canção do Chico Buarque “Brejo da Cruz” que é assim “Mas há milhões desses seres que se disfarçam tão bem que ninguém pergunta de onde essa gente vem são jardineiros guardas-noturnos, casais são passageiros bombeiros e babás já nem se lembram que existe um Brejo da Cruz que eram crianças e que comiam luz?”Mas sobre este mesmo tema o próprio Chico Buarque se uniu ao Milton Nascimento e escreveu a melhor música de todas, “Levantados do chão”, que tem a pergunta que mais resume a história do Brasil: “Como assim levitante colono?”Sobre os que se deitam em cama de pó eu escrevi a conclusão do meu mestrado, a partir da interpretação do meu orientador de “Central do Brasil” e das idéias libertadoras sobre a linguagem desenvolvidas por Homi Bhabha, porque eu acho que esse é também um tema caro a Guimarães Rosa, mas em Tutaméia isso é especialmente destacado pois nas quarenta mini estórias, sempre tem alguém se movendo para sobreviver, sejam vaqueiros, miseráveis ou ciganos.. a eles falta o fio, a linha do tempo que os mantenha seguros.

Sobre essa temática saiu em 2008 o livro “A poética migrante de Guimarães Rosa”, organizado por Marli Fantini, no qual encontramos textos dos mesmos grandes rosianos geniais (ou nem tanto) : Walnice Nogueira Galvão, Ettore Finazzi Agrò, Cleusa Rios P. Passos, Francis Utéza, Luiz Roncari, Suzi Frank Sperber, Kathrin H. Rosenfield, Sandra Guardini T. Vasconcelos e etc... todos bons artigos para rosianos experimentarem o gosto de cada um deles, que logo eles irão perceber que os pesquisadores quase sempre vão se repetir e logo bastará apenas ler o nome do autor para saber sob qual perspectiva o texto abordará o tema proposto... o mais chato a respeito desse livro é que esses pesquisadores todos não adentram tanto no tema que propõe o título da coletânea. Poxa! Por isso que é preciso ler mais Homi Bhabha e atentar para os que não possuem terra para se sustentarem - os moventes - não é possível esperar uma história com grandes narrativas escritas de forma clara e objetiva, mais vale a informação oral, sonora, imagética...Esse tipo de coisa, pelo que eu já vi até agora, não é sequer citado na educação normal adotada, que até hoje, em pleno 2009, é a mesma que se usava em 1900. A outra história do Brasil - a que está além dos nomes dos presidentes “café-com-leite”, por exemplo - está expressa por vestígios deixados pelos que estavam mais ocupados em seus movimentos em busca da sobrevivência.Perdoem a confusão, mas esse tema me é tão caro, só que eu tenho ainda muito que estudar sobre ele para me manifestar de forma mais clara.

sábado, 24 de janeiro de 2009

A VERDADE SOBRE COMO EU TÔ

Tô chorando muito. Tenho falado com minha terapeuta pelo celular no terminal de ônibus, para dizer confissões doloridas e íntimas a ela e a todos os que estão ao meu redor. Tô lendo trechos de “O amor nos tempos do cólera”, do Gabo, pela milésima quinta vez. Tô ouvindo “Memórias,crônicas e declarações de amor”, da Marisa Monte. Tô lendo muito versos da Hilda Hilst, como se eu tivesse 20 anos novamente...Resumindo, tô no meio da dor da separação, lugar de onde eu tentei fugir dramaticamente no ano passado (sem sucesso), mas esse ano aconteceu alguma coisa em mim, acho que não estou mais capaz de sentir desejo, carinho, ciúme, alegria, raiva, não sou mais capaz de sentir nada que não seja puramente a dor da rejeição... todas as rejeições. Tem de ser assim, pra gente tentar se limpar e conseguir seguir caminhando.
Como eu disse a alguém, isso vai passar, tantas vezes já passou, eu só não sei se vou sobreviver dessa vez. Veremos.