quinta-feira, 7 de maio de 2009

COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO


"O Terceiro Mundo tem uma crescente população. A maioria se transforma em uma espécie de "andróides", quase sempre analfabetos e com escassa especialização para o trabalho.Isso acontece aqui nas favelas do Rio, São Paulo e do Nordeste do país.E em toda a periferia da civilização.
Esses andróides são mais baratos que o robô operário fabricado em Alemanha e Japão. Mas revelam alguns "defeitos" inatos, como criar, pensar, dançar, sonhar; são defeitos muito perigoso para o Patrão Primeiro Mundo.
Aos olhos dele, nós, quando praticamos essas coisas por aqui, somos "andróides" COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO.
Pensar sempre será uma afronta.
Ter idéias, compor, por exemplo, é ousar. No umbral da História, o projeto de juntar fibras vegetais e criar a arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será ."


TOM ZÉ

quarta-feira, 6 de maio de 2009

TOM ZÉ = MÁQUINA DE CRIATIVIDADE


Novamente eu fui ao show do Tom Zé na Virada Cultural. Desta vez eu fui equipada por todo meu amor de fã: não hesitei um momento em passar três horas e meia na fila para entrar no Teatro Municipal - enquanto rolavam outros shows que eu nunca tinha visto e gostaria muito de ver também, como o de Geraldo Azevedo -, já começaram anunciando que eu era uma tomzémaníaca. E sou.
Tinha visto o show "Estudando a Bossa" de Tom Zé no dia 15.03, no SESC Pinheiros, então eu ainda estava mais ou menos nutrida da energia que os shows dele sempre passam, e sabia que na Virada ele a apresentar o show de "Grande Liquidação", de 1968, que significa que eu ia ver a remontagem de um show projetado onze anos antes de eu nascer... uma historiadora não resiste a esses "detalhes", não é?
Fui esperando duas coisas: 1- Viajar no tempo até antes de eu sequer existir; 2- Como era um show do Tom Zé - aquele ritual energético- então também queria aquela descarga descomunal de coisas boas de sempre...
O que eu obtive na hora?
Tive uma descarga de informações históricas (digo a respeito de "depoimentos" sobre a sensação e ideário da Tropicália. Isso foi reforçado pelos protestos violentos que aconteceram durante o show, como se estivessem dizendo a ele, tanto anos depois, que sua intervenção ainda não era completamente aceita por algumas mentes ... pobres mentes, mal sabem o que estão perdendo!) era um passado, mas estava acontecendo ali eu estava participando! Isso acontece com poucas pessoas, e aconteceu comigo! Para meu primeiro desejo saí completamente satisfeita.
Mas sobre meu segundo desejo, não saí plenamente satisfeita na hora. Encontrando Neusa (sua esposa) ao final do show comentei com ela rapidamente que aquilo não tinha sido propriamente um "show do Tom Zé" como sempre tinha sido... não saí com a típica vontade de dançar na rua com os transeuntes, etc...Não senti que outras pessoas tivessem tido tal sensação. Por que será?
Primeiro eu pensei que talvez tivesse sido pela idade do espetáculo, mesmo que ele ainda despertasse protestos... eu tenho 29 anos e aquele show era mais de uma década mais velho que eu, então aquela energia, aquela sonoridade, que na época podia ter despertado várias coisas, pode também ter enfraquecido...
Mas Tom Zé é uma máquina de criatividade, ele trabalhou para "rejuvenescer" sua obra, em modificações nos arranjos e nas letras. Eu gostei e não gostei dessas mudanças.
Se aquele disco não é o que eu chamaria de "super conhecido" hoje em dia, alguma coisa sempre se ouve sobre ele e quando esse resíduo é radicalmente modificado, as pessoas não se sentem tão imersas no clima.
Eu falo isso porque quando assisti no cinema o documentário "Fabricando Tom Zé" no cinema eu vi uma das coisas mais sensacionais que eu tinha visto: Quando exibiram um trecho do show no qual ele tocava "Parque industrial", as pessoas levantaram das poltronas e começaram a DANÇAR NO CINEMA! Eu pensei : Esse é o cara!
Pois no show ao vivo ele fez tantas (e ótimas claro) modificações que a sensação era de que a gente não estava naquele ambiente. Sensação. Mas ela ficou evidente para mim quando ele apresentou a música na forma tradicional no Bis e aí, sim, as pessoas se levantaram das poltronas ...Tom Zé não ia decepcionar, claro!
Outra coisa que eu gostaria de comentar foi a aparência cada vez mais jovial dele! Cada vez mais somos presenteados com piruetas e cambalhotas contagiantes! No dia seguinte ao show da Virada saiu uma foto na imprensa que me emocionou, porque não é a imagem de um músico de 72 anos, mas sim a de um menino que se fantasiou pra brincar de polícia e ladrão! Especialmente pela luz que saem dos seus olhos:



Sobre Tom Zé eu penso: É isso que eu queria para mim... produzir criatividade em uma constância que fosse capaz de me manter verdadeiramente viva por muito tempo, como ela está mantendo meu querido Tom Zé!
Em breve volto a comentar meu próximo show do Tom Zé, como boa tomzémaníaca que sou!

sábado, 25 de abril de 2009

AQUELE PAÍS, AQUELA HISTÓRIA, AQUELAS FLORES VENCENDO O CANHÃO... TUDO ME EMOCIONA!



AGORA EU COLOCO AQUI A PRIMEIRA VERSÃO DE "TANTO MAR", QUE CHICO BUARQUE FEZ SOBRE AQUELA REVOLUÇÃO, MAS QUE FOI CENSURADA PELA DITADURA MILITAR:

O mundo infantil

Etmologicamente a palavra infância vem do latim in­fans, pressupõe literalmente a “ausência de fala”, e deve corresponder ao grupo que abarca os indivíduos de pouca idade –crianças - ou que ainda não adquiriram o direito de serem ouvidos em eventos importantes, como em contexto de juízo.
Em relação às crianças, entretanto, mais do que a impossibilidade de falar, observamos mais acentuadamente a impossibilidade de serem ouvidas, já que sabemos que as crianças falam muito, desde quando estão começando a exercitar experiências de linguagem nos primeiros tempos de vida, - quando se expressam através de “palavras mágicas”, até atingirem outra fase no processo de comunicação, quando constroem e aprendem a lidar com seu próprio discurso. Esta fase inicial do desenvolvimento lingüístico está sempre centrada no recurso da palavra, que é uma das formas com a qual as crianças acreditam ser possível (re)construir o mundo a sua volta.
As crianças conseguem construir outro tipo de discurso sobre o mundo, porque elas não tem nenhum pudor em confiar na "liberdade de inventar". Em seus jogos, nenhuma das regras que sustentam nossa convivência em sociedade - como estabelecimentos temporais ou especiais - valem da mesma forma, pois ali o que vale mais são as regras do seu jogo... Eu vou estudar o universo infantil em meu futuro doutorado, e hoje eu penso que uma das melhores "definições de criança" está na música "A Casa", de Vinicius de Moraes: Pertence ao mundo dos infantes aqueles que conseguem viver na casa que "não tinha teto, não tinha nada..." nada material, pois tudo é construído pela imaginação...
É por isso que eu penso que as crianças deveriam receber mais incentivos de diversas linguagens, as musicais,imagéticas, narrativas e etc, que vão para além dos estímulos trazidos pela televisão, ou pelo computador...
Eu penso isso influenciada por leituras de muitos intérpretes, mas atualmente o discurso que tem mais vezes acessado meu pensamento é o desenvolvido por
essa palestra do Café Filosófico.
Como ela tem cerca de 50 minutos, se não quiser acompanhá-la, ligue o som do seu PC e se delicie com uma ótima animação para a música de Toquinho e Vinicius de Moraes:


sexta-feira, 24 de abril de 2009

25 ANOS DAS DIRETAS JÁ

SE VOCÊ TIVER SOM NO PC, LIGUE E ACOMPANHE ESSAS FOTOS DAS DIRTAS JÁ, É DE ARREPIAR:
EU ERA TÃO PEQUENA, CERCA DE CINCO ANOS, MAS ME LEMBRO DE TER VISTO TUDO NA TV, COMO SE TIVESSE SIDO ONTEM...

quinta-feira, 23 de abril de 2009

EU ESTOU VESTIDA COM AS ROUPAS E AS ARMAS DE JORGE...



SALVE SÃO JORGE GUERREIRO!
AQUI UMA ORAÇÃO DE SÃO JORGE MUSICADA PELO JORGE BEN JOR E INTERPRETADA PELO MEU FAVORITO, CAETANO VELOSO:

quarta-feira, 22 de abril de 2009

"A PIADA PRONTA" pelo meu ex-orientador!


Para atender a um pedido de uma moça que conheci em São Carlos, que sabendo que eu fui orientanda do Elias Thomé Saliba, queria algum texto que ele tivesse escrito sobre o Barão de Itararé, o que é fácil (mas dificultoso para ela, o Elias estuda o humor na Belle Époque brasileira, então quase todo o seu livro (livre-docência em História social) fala do Barão e corelatos... mas eu pincelei um trechinho que eu adoro (não vou nem mentir que minha preleção é devida a alfinetada nos engenheiros, tão donos da verdade sempre...) e enviei a ela por e-mail. Posto aqui o email:Justificar
" BRASIL: PAÍS SEM GRAÇA OU PAÍS DA PIADA PRONTA?

'O humorismo tem objeto no contraste direto entre o que é e o que deverá ser. Ora, no Brasil, como em todas as nações de su idade mental, tudo é precisamente como não deverá ser, de modo que se torna impossível este contraste e, portanto, igualmente impossível o humorismo'
Palavras surpreendentes - ainda mais vindas de um humorista! A surpreendente observação foi feita por Mendes Fradique, quando o notável humorista brasileiro passava por um momento de 'mau humor', no ano de 1935. Mais surpreendente ainda é o exemplo que ele menciona para comprovar sua tese de que no Brasil é impossível o humorismo, pois o caso citado em seguida, parece ilustrar exatamente o contrário: que o Brasil, como diz um humorista contemporâneo(Aqui Elias fala de José Simão), é o país da piada pronta:

'Se nós segredarmos ao ouvido de Von Papen que na América do Sul há um país em que se construiu uma grande avenida e que, durante esta construção, o único prédio que ruiu por erro de técnica foi o do Clube de Engenharia, é claro que o fidalgo alemão sorrirá à ficção da anedota; mas aqui o caso não é para rir, nem é ficção, mas é verdade, foi o que de fato aconteceu, e contra o que a anedota não pode dar contraste e, portanto, não egendra o sorriso do sense de humour.'
Ora, então o humorismo seria impossível no país porque a realidade superava a anedota? Quase na mesma época, um outro humorista brasileiro, Aparício Torelly, mais conhecido como Barão de Itararé, numa rara ocasião em que falava sério, assegurou:

'Querem ver uma coisa? Às vezes, quando estou numa fila de ônibus, chega alguém e pergunta: por que será que o ônibus que a gente espera nunca aparece? Eu respondo: porque se aparecesse, a gente não tinha de esperar.[...] A influência do humorista? Muito levemente benéfica e bastante entorpecente. Ele apenas mostra a metade das verdades. Para mim, todo mundo é humorista. eu mesmo não me considero um humorista profissional. Sou do vale-tudo e não entro nessa história de apontar esse ou aquele.'

Para Fradique Mendes, o humor era impossível no Brasil pela ausência de contraste 'entre o que é e o que deverá ser'' ; para Aparício Torelly, se não há contraste , é porque o humor para o brasileiro "faz parte da vida, portanto é indistinguível." Como faces da mesma moeda, as duas observações goravam em torno de um dilema: país sem graça ou país da piada pronta? A rsposta pode estar no estudo das raízes do humor brasileiro na Belle Époque."

(Saliba, Elias Thomé. Raízes do riso: A representação humorística na história brasileira - da belle époque aos primeiros tempos do rádio. São Paulo: Cia das Letras. Pp. 32-3