Vocês receberam notícias sobre os pés de laranja que tratores do MST destruíram em uma fazenda de São Paulo, não é? Eu estive revendo essas cenas e ouvindo comentários vários sobre ela o dia inteiro...
É que todo mundo sabe que a reforma agrária é algo importantíssimo de se realizar no Brasil, mas sempre me pergunto se o caminho que o MST está percorrendo vai garantir esse objetivo, será?
Se alguém for procurar quais os argumentos do MST para ter destruído os pés de laranja vai, pelo menos, parar para pensar um pouco... A fazenda pertence a Cutrale,que é uma das maiores produtoras de suco de laranja do mundo, a cada três copos de suco tomado no mundo, um foi produzido pela Cultrale, que vêm adiquirindo empresas estrangeiras, e é frequentemente acusada de cartel por outros produtores de laranja. O MST levantou dados de que fazendas ocupadas pelo movimento, que fazem parte do grupo Cutrale, são áreas ilegalmente ocupadas pela empresa, uma vez que a fazenda está localizada em uma região onde 10 mil hectares de terras pertencem à União, então a empresa está sediada em terras do governo federal, o INCRA já havia se manifestado denunciando que à ocupação de tais terras pelo latifúndio dos Cutrale é ilegal. (isso quem esclareceu foi uma pessoa ligada ao MST,que não foi ouvida pela mídia, claro). Então,quem invadiu primeiro a terra da União foi a Cultrale, o MST só veio fazer isso depois? Parece que sim e isso está de pleno acordo com a ideologia defendida pelo MST de lutar contra o predomínio de latifúndios,entretanto, sair destruindo laranjais- sem ter recomeçado imediatamente a plantar o feijão prometido para brecar a monocultura- e ficar pichando muros são manisfestações infantis que são usadas nas greves da USP e que só podem levar a indignação da sociedade (que como sabemos, morre de medo de entrar em contato com algumas coisas como a questão fundiária e com esse tipo de atitude do MST, acabam achando alguma legitimidade para esse medo... péssimo!)
Por outro lado, claro que eu fico sem palavras com as opiniões apresentadas pela mídia,como sempre...O Alexandre Garcia, nesta manhã, entoou um verdadeiro discurso indignado pela existência e permanência de ORGANIZAÇÕES AUTÔNOMAS QUE SE APRESENTAM COMO MOVIMENTOS SOCIAIS, COMO O MST...E o direito da livre manifestação? Péssimo isso de pensar e agir com arbitrariedade.
Assim,sou eu é quem fica com medo, medo de ignorância paga com mais ignorância e arbitrariedade paga com mas arbitrariedade... nessa luta por saber quem é o mais hostil, e as questões fundiárias e trabalhistas acabam ficando à margem e são usadas por interesses politiqueiros de todos os lados.
Assim, todos perdem e, como sabemos,os mais fracos perdem mais.. mas quem são os mais fracos, mesmo?
Tô confusa, eu sei,mas eu acho que é uma questão para ser muito discutida, muito mesmo, mas como a luta para saber quem grita mais, vamos apenas ouvir ruídos demais!
terça-feira, 6 de outubro de 2009
domingo, 4 de outubro de 2009
"Y una hermana muy hermosa que se llama libertad..."
Não é com nenhuma alegria que fico sabendo que neste dia 04 de outubro nos deixou aqui sozinhos nesse mundo quase todo errado uma das pessoas que mais lutou, louvou e se preocupou com a fraternidade no mundo: Morreu Mercedes Sosa.
Muitas canções que ela entoou me emocionaram e emocionam,mas essa do vídeo é especial... e quando penso que ela morreu, só me lembro do poema de Drummond, em seu lindo e melancólico livro Farewell, no poema "Liberdade" :
"O pássaro é livre
na prisão do ar.
O espírito é livre
na prisão do corpo.
Mas livre, bem livre,
é mesmo estar morto."
Que Mercedez voe em direção a sua "hermana muy hermosa que se llama libertad..."
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sábado, 3 de outubro de 2009
UFANISMO UTÓPICO

Mas a idéia também é minha: Esse entusiasmo adolescente não está mais colando em mim...
Como no dia que seria divulgado o resultado da disputa do local a ser realizado em 2016 foi decretado PONTO FACULTATIVO!... Sei lá, esse tipo de envento não dá certo sem muito empenho e muita grana (que grana?)
Eu não fiquei tão "feliz"... mas é apenas a minha opnião...
O que vocês acham?
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sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Certidão de batismo da literatura do lugar que viria a ser o Brasil
Sexta-feira, 1º de Maio de 1500
“... Entre todos os entes que aqui vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho ao redor de si. Porém, ao assentar, não fazia gande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal,que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha..
Ora, Vossa Alteza, se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação. (...)
Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar,nalgumas partes,grandes barreiras,delas vermelhas.delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo ‘sartaam’ nos pareceu, vista do mar, muito grande porque a estender olhos,não podíamos ver senão terra com arvoredos,que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata,nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é gaciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se á nela tudo, po bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. (...)
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
De Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha ”
“... Entre todos os entes que aqui vieram, não veio mais que uma mulher moça, a qual esteve sempre à missa e a quem deram um pano com que se cobrisse. Puseram-lho ao redor de si. Porém, ao assentar, não fazia gande memória de o estender bem, para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal,que a de Adão não seria maior, quanto a vergonha..
Ora, Vossa Alteza, se quem em tal inocência vive se converterá ou não, ensinando-lhes o que pertence à sua salvação. (...)
Esta terra, Senhor, me parece que da ponta que mais contra o sul vimos até outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista, será tamanha que haverá nela bem vinte e cinco léguas por costa. Tem, ao longo do mar,nalgumas partes,grandes barreiras,delas vermelhas.delas brancas; e a terra por cima toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta, é tudo praia-palma, muito chã e muito formosa.
Pelo ‘sartaam’ nos pareceu, vista do mar, muito grande porque a estender olhos,não podíamos ver senão terra com arvoredos,que nos parecia muito longa.
Nela, até agora, não pudemos saber que haja ouro, nem prata,nem coisa alguma de metal ou ferro; nem lho vimos. Porém a terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo agora os achávamos como os de lá.
Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é gaciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se á nela tudo, po bem das águas que tem.
Porém o melhor fruto, que dela se pode tirar, me parece que será salvar esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza nela deve lançar. (...)
Beijo as mãos de Vossa Alteza.
De Porto Seguro, da vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro de maio de 1500.
Pero Vaz de Caminha ”
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Se eu seria personagem
No conto “Se eu seria personagem”, do livro Tutaméia de Guimarães Rosa o narrador duvida da própria existência e deseja a chegar a existir (que seria ser realmente personagem), assim como seu amigo Tito-lívio Sérvulo. Como tudo do Guimarães Rosa este texto é sublime, vejamos como ele começa:
Faz cerca de duas semanas eu acompanhei pela televisão a história de um homem que se inventou, como se ele mesmo fosse uma personagem de ficção. Falo da História de Julio César Santos, que foi contada em uma reportagem do Globo repórter.
Julio Cesar, nome que foi a única informação que ele recebeu sobre sua origem desde quando foi entregue a um abrigo no Rio de Janeiro em 1970, com menos de 2 anos de idade e sobre o qual não se sabia quase nada além deste primeiro nome, nem o sobrenome, nem a data de nascimento, nem a identificação dos pais...isso ele, com mais de 40 anos, ele foi buscar, com a ajuda de uma assistente social, pois ele pensava (e com razão) que ele tinha direito a ter na certidão de nascimento um sobrenome e o nome da mãe.... aí foi dado a ele o direito de inventar sua realidade. Escolheu o sobrenome Santos porque ele assistia muitos filmes evangélicos e a idéia de alguma coisa “santa” rondava sempre sua cabeça, e o que eu achei mais importante: para a mãe ele escolheu um nome extraído do seu nome, se ele era Julio César, a mãe poderia ser Juliana...
Começou assim a criação da personagem Julio César Santos, bombeiro,que adotou pais depois de adulto ...sim, ele não foi adotado por ninguém quando criança, e nos relatórios de sua internação nos abrigos sempre só constou que “não se sabia de ninguém que o tivesse vindo procurar” , mas depois que saiu do abrigo ele mesmo “adotou” um casal que apresentou a esposa e aos filhos como sendo seus pais...sim, ele nunca dizia a ninguém sobre o que realmente tinha lhe acontecido, que tinha sido entregue em um abrigo, ainda bebê e lá permaneceu, pois tinha medo de ser rejeitado pelas pessoas. Esta verdade lhe doia muito. Eu entendo muito bem do que ele está falando e o tamanho da dor que ele sente.
Eu não conseguia escrever sobre isso (e ainda é difícil), porque embora eu saiba que minha história não é como a dele, eu tenho pais e família que me acolheram desde sempre e ainda me acolhem (os meus me adotaram, não precisei adotá-los depois de adulta), o que é ótimo para mim, claro, e significa uma ferida a menos, mas eu também sei que a ferida mais aberta não está na adoção – que é um história bela e de acolhimento-, mas sim no que aconteceu antes dela... quando a gente sabe que a primeira coisa que lhe aconteceu quando surgimos no mundo foi que fomos abandonados, como ter uma grande auto estima? Como qualquer abandono, tolo que seja, pode não doer mortalmente em você?
Não pode.
Julio César precisou contar a sua história para a Globo, e o fez na esperança de que a sua mãe (que pode não se chamar Juliana, mas é a “única pessoa que ele gostara que ouvisse seu relato”),porque pensa que isso fizesse com que doesse menos. Será?
Comigo a história é ligeiramente diferente. Me dói muito aquilo que a minha mãe (a mulher que me adotou) contou a história de como eu apareci aqui em casa, uma linda história, da qual eu só posso me orgulhar, mas quando me narrou ela ainda comentou (um pouco sem ter noção de quanto doeria) “achei estranho que a sua mãe (ela referia-se a mulher que me pariu) nunca ter te procurado,nem por curiosidade...
Claro, você pode achar isso um detalhe tolo, mas digo-lhe que não é. No fundo, no fundo, eis a base desse meu (inexplicável a primeira vista) sentimento de não pertencimento a esse mundo onde vivo...
Não vou procurar a mulher que me pariu há 30 anos atrás, nem procurar a Globo numa atitude desesperada de resgatá-la, porque ela já significa quase nada naquilo que eu vim a me tornar, mas não sei se é intencional ou não, não posso esquecer que eu escolhi -e lutei muito para sustentar essa escolha- estudar as crianças abandonadas da literatura de Guimarães Rosa com0o tema do meu doutorado e como anunciei claramente na defesa do meu mestrado em março, aquela dissertação só existiu porque Guimarães Rosa escreveu “Lá, nas campinas” , que é a história de Drijimiro, que é mais ou menos como a de Julio César Santos, alguém que sabia quase nada da sua origem ... estudar essas questões e tocar profundamente em feridas são formas de tentar digerir o que não é digerível.
Boa sorte para Julio César, para mim, e para todos que começaram a vida a partir de um nada, porque é possível, sim, que este “quase nada” se transforme em tudo, como na palavra Tutaméia, que quer dizer “quase nada”, mas também quer dizer “tudo o que é meu”.
“Note-se e medite-se. Para mim mesmo, sou anônimo; o mais fundo de
meus pensamentos não entende minhas palavras; só sabemos de nós mesmos com muita
confusão.” (Guimarães Rosa. Se eu seria personagem. In Tutaméia.P.199)Para um texto de Antonio Candido, já mais antigo que eu, a personagem de romance (que estou entendendo aqui como personagem de ficção escrita no geral) :
“a personagem é um ser fictício, -expressão que soa como paradoxo.Mas por que eu trago estas colocações tão teóricas e literárias neste texto? Existe uma motivação real.
De fato, como pode uma ficção ser? Como pode existir o que não existe? No
entanto, a criação literária repousa sobre este paradoxo, e o problema da
verossimilhança no romance depende desta possibilidade de um ser fictício,
isto é, algo que, sendo uma criação da fantasia, comunica a impressão da
mais lidima verdade existencial. Podemos dizer, portanto, que o romance se
baseia,antes de mais nada, num certo tipo de relação entre o ser vivo e o ser
fictício, manifestada através da personagem, que é a concretização
deste.” (Antonio Candido. A personagem do romance. In A
personagem de ficção. P.55)
Faz cerca de duas semanas eu acompanhei pela televisão a história de um homem que se inventou, como se ele mesmo fosse uma personagem de ficção. Falo da História de Julio César Santos, que foi contada em uma reportagem do Globo repórter.
Julio Cesar, nome que foi a única informação que ele recebeu sobre sua origem desde quando foi entregue a um abrigo no Rio de Janeiro em 1970, com menos de 2 anos de idade e sobre o qual não se sabia quase nada além deste primeiro nome, nem o sobrenome, nem a data de nascimento, nem a identificação dos pais...isso ele, com mais de 40 anos, ele foi buscar, com a ajuda de uma assistente social, pois ele pensava (e com razão) que ele tinha direito a ter na certidão de nascimento um sobrenome e o nome da mãe.... aí foi dado a ele o direito de inventar sua realidade. Escolheu o sobrenome Santos porque ele assistia muitos filmes evangélicos e a idéia de alguma coisa “santa” rondava sempre sua cabeça, e o que eu achei mais importante: para a mãe ele escolheu um nome extraído do seu nome, se ele era Julio César, a mãe poderia ser Juliana...
Começou assim a criação da personagem Julio César Santos, bombeiro,que adotou pais depois de adulto ...sim, ele não foi adotado por ninguém quando criança, e nos relatórios de sua internação nos abrigos sempre só constou que “não se sabia de ninguém que o tivesse vindo procurar” , mas depois que saiu do abrigo ele mesmo “adotou” um casal que apresentou a esposa e aos filhos como sendo seus pais...sim, ele nunca dizia a ninguém sobre o que realmente tinha lhe acontecido, que tinha sido entregue em um abrigo, ainda bebê e lá permaneceu, pois tinha medo de ser rejeitado pelas pessoas. Esta verdade lhe doia muito. Eu entendo muito bem do que ele está falando e o tamanho da dor que ele sente.
Eu não conseguia escrever sobre isso (e ainda é difícil), porque embora eu saiba que minha história não é como a dele, eu tenho pais e família que me acolheram desde sempre e ainda me acolhem (os meus me adotaram, não precisei adotá-los depois de adulta), o que é ótimo para mim, claro, e significa uma ferida a menos, mas eu também sei que a ferida mais aberta não está na adoção – que é um história bela e de acolhimento-, mas sim no que aconteceu antes dela... quando a gente sabe que a primeira coisa que lhe aconteceu quando surgimos no mundo foi que fomos abandonados, como ter uma grande auto estima? Como qualquer abandono, tolo que seja, pode não doer mortalmente em você?
Não pode.
Julio César precisou contar a sua história para a Globo, e o fez na esperança de que a sua mãe (que pode não se chamar Juliana, mas é a “única pessoa que ele gostara que ouvisse seu relato”),porque pensa que isso fizesse com que doesse menos. Será?
Comigo a história é ligeiramente diferente. Me dói muito aquilo que a minha mãe (a mulher que me adotou) contou a história de como eu apareci aqui em casa, uma linda história, da qual eu só posso me orgulhar, mas quando me narrou ela ainda comentou (um pouco sem ter noção de quanto doeria) “achei estranho que a sua mãe (ela referia-se a mulher que me pariu) nunca ter te procurado,nem por curiosidade...
Claro, você pode achar isso um detalhe tolo, mas digo-lhe que não é. No fundo, no fundo, eis a base desse meu (inexplicável a primeira vista) sentimento de não pertencimento a esse mundo onde vivo...
Não vou procurar a mulher que me pariu há 30 anos atrás, nem procurar a Globo numa atitude desesperada de resgatá-la, porque ela já significa quase nada naquilo que eu vim a me tornar, mas não sei se é intencional ou não, não posso esquecer que eu escolhi -e lutei muito para sustentar essa escolha- estudar as crianças abandonadas da literatura de Guimarães Rosa com0o tema do meu doutorado e como anunciei claramente na defesa do meu mestrado em março, aquela dissertação só existiu porque Guimarães Rosa escreveu “Lá, nas campinas” , que é a história de Drijimiro, que é mais ou menos como a de Julio César Santos, alguém que sabia quase nada da sua origem ... estudar essas questões e tocar profundamente em feridas são formas de tentar digerir o que não é digerível.
Boa sorte para Julio César, para mim, e para todos que começaram a vida a partir de um nada, porque é possível, sim, que este “quase nada” se transforme em tudo, como na palavra Tutaméia, que quer dizer “quase nada”, mas também quer dizer “tudo o que é meu”.
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terça-feira, 15 de setembro de 2009
Retratos de crianças do êxodo, de Sebastião Salgado
SALGADO, Sebastião. Apresentação de “Retratos de crianças do Êxodo”. São Paulo: Cia das Letras. 2000. Pp. 07-09
“ Este livro é dedicado a todas as crianças
que olharem para estas fotografias e forem
levadas a pensar sobre as vidas atrás dos rostos ”
“Em todas as situações de crise, seja guerra, miséria ou desastre natural, as crianças são as maiores vítimas. Mais fracas fisicamente, são sempre as primeiras a sucumbir à fome ou à doença. Emocionalmente vulneráveis, não têm condições de compreender por que estão sendo expulsas de suas casas, por que os vizinhos passaram a atacá-las, por que foram viver numa favela cercada de detritos ou num campo de refugiados cercado de dor. Isentas de responsabilidade pelos próprios destinos são, por definição, inocentes.
Mesmo assim – a não ser que estejam gravemente enfermas-, mesmo nas piores circunstâncias as crianças são a fonte da mais pura energia. Todos os fotógrafos que já tenham trabalhado entre refugiados ou migrantes urbanos verificou este fato. Há crianças por toda parte, em geral mais visíveis do que os adultos. Ao ver uma câmera, dão pulos de entusiasmo, riem, acenam, empurram-se umas às outras na esperança de serem fotografadas. Às vezes sua energia de viver chega a interceptar o registro fotográfico do que está acontecendo com elas. Como é possível uma criança sorridente representar o infortúnio mais profundo?
Esse paradoxo foi o ponto de partida deste livro. Eu estava trabalhando em Moçambique, em meio a pessoas deslocadas que haviam fugido da guerra civil para uma região chamada Mopéia. Como sempre, em todo lugar aonde eu ia era cercado por crianças. Acabei fazendo-lhes a seguinte proposta: ‘vou ficar sentado aqui. Se vocês quiserem que eu tire fotos de vocês, façam uma fila. Eu tiro a foto e depois vocês podem ir brincar”. Em pouco tempo eu já havia tirado uns 30 retratos. O estratagema funcionou. Felizes da vida, as crianças me deixaram tranqüilo por algum tempo. Claro, era só eu chegar em outro lugar que elas imediatamente reapareciam – e eu tornava a dizer –lhes para formar uma fila que eu ia fotografá-las.
Quando voltei para casa, em Paris, um belo dia dei com aquelas fotos e no mesmo instante percebi sua intensidade. Crianças que alguns segundos antes de serem fotografadas estavam rindo e gritando, de repente haviam ficado sérias. O grupo ruidoso se transformara em indivíduos que, por meio da roupa, da pose, da expressão e do olhar, contavam suas histórias com franqueza e dignidade desarmantes. O olhar daquelas crianças, mais do que qualquer outra coisa, eram como janelas de suas almas. E, através deles, a tristeza e o sofrimento que elas haviam encontrado em suas curtas vidas eram dolorosamente visíveis.
No início, não pensei em publicar aqueles retratos : depois de cada viagem, em geral eles eram os últimos a ser revelados e ampliados, mas no decorrer de minhas viagens,continuei tirando fotografas de crianças sempre que elas se punham a andar atrás de mim. Nem sempre isso acontecia : em umas poucas situações, por exemplo nas travessias clandestinas de fronteira, não havia crianças à vista. Outras vezes, como nos comboios de refugiados, elas viajavam amontoadas com as famílias. Nos campos de refugiados Hutu, em Goma, no Zaire, elas pareciam fracas demais, talvez assustadas demais, para me seguir. Mas em muitos campos de refugiados e muitas favelas urbanas sempre havia bandos de crianças buscando água, jogando futebol,inventado alguma travessura - e loucas para serem fotografadas.
Mas acabei chegando à conclusão de que elas mereciam um foro próprio. Sua história pode ser a mesma dos pais, mas elas vivenciaram – e contavam –na de outro jeito.
E o que, na realidade, elas estão sentindo? Só podemos tentar adivinhar. Este livro mostra crianças de origens drasticamente diferentes que tiveram suas vidas destroçadas. Isso não as impede de continuarem crianças, com a mesma facilidade para rir e para chorar, para se entusiasmarem e se desapontarem, para serem comunicativas num minuto e reservadas no minuto seguinte. Seu mistério é justamente parte do que nos atrai nas crianças. Quando elas olham para a câmera, estão atrás de esperança e compaixão? Ou isso é apenas o que nos parece que elas merecem?
No decorrer de minhas viagens, repetidas vezes encontrei situações em que as crianças não tinham razões para sentir esperança. Num centro para crianças abandonadas, em São Paulo, dezenas de bebês brincavam num terraço de onde se avistava a cidade na qual, quando eles quase certamente estariam condenadas a tornar-se párias sociais. Em Hong Kong, havia vinte e cindo mil imigrantes ilegais do Vietnã detidas nas prisões; por incrível que pareça, 40% desses prisioneiros eram crianças nascidas ali mesmo, que jamais haviam visto uma flor a vida. No Sul do Sudão, órfãos pré-adolescentes costumavam ser recrutados compulsoriamente por bandos armados. Parecem destinados a morrer tão jovens quanto seus pais antes deles.
Em todos os casos, deparei com crianças que estavam em encruzilhadas de suas vidas. No Brasil encontrei algumas acampadas à beira da estrada em grupos de agricultores sem terra em busca de alguma propriedade rural improdutiva para ocupar. Essas crianças se achavam em estado de desnutrição, mas seus pais tinham esperança. Em alguns casos, era uma esperança justificada. Mais tarde visitei cooperativas formadas por ex-sem terra e constatei que seus filhos agora freqüentavam escola. Onde há escola, há esperança. Nas favelas urbanas,seja na América Latina seja na Ásia,quando os filhos dos migrantes analfabetos aprendem a ler e a escrever,estão dando o primeiro passo na direção de uma vida melhor. Alguns deles, graças ao talento, à sorte, talvez consigam até entrar na universidade.
O futuro das crianças refugiadas, porém, é particularmente incerto. Quando a fuga de povoados e cidades é feita de forma súbita e caótica, muitas crianças são separadas dos pais e familiares. Em determinado momento da brutal guerra civil de Moçambique havia nada menos que 350.000 crianças ‘perdidas’,que não faziam a menor idéia se os pais estava vivos ou mortos. Mais recentemente, milhares de crianças desacompanhadas faziam parte do êxodo em massa de Kosovares para a Albânia e Macedônia, embora nesse caso, pelo menos, a Cruz Vermelha Internacional e outras instituições humanitárias tenham tido condições de reagrupar boa parte das famílias num prazo de algumas semanas.
As crianças refugiadas também são vítimas de ferimentos mais difíceis de curar do que o trauma do deslocamento físico. Quando elas e os pais são vítimas de limpeza étnica, por exemplo, o desejo de vingança não é uma reação natural? Quando submetidas a exílios prolongados, as crianças crescem sabendo que tem um inimigo; quando um pai foi assassinado, que mãe pode ensinar os filhos a perdoar? Não é surpreendente que os campos de refugiados se transformem em centros de recrutamento para forças armadas guatemaltecos recrutavam adolescentes índios em campos de refugiados no México, os rebeldes palestinos utilizavam campos de refugiados no Líbano com o mesmo objetivo. As crianças refugiadas aprendem depressa que a derrota acarreta responsabilidades.
Algumas das cenas mais tristes que presenciei,contudo, envolveram os meninos de rua das atuais megalópoles. Essas imagens foram incluídas em Êxodos, e não aqui, porque aquelas crianças eram indiferentes a minha presença e não demonstraram interesse em poses para fotografias. Muitas vezes elas são usuárias de cola ou crack ou alguma outra droga,e conseguem sobreviver mendigando, roubando bolsas das passantes ou se prostituindo. O vírus da AIDS está se disseminando rapidamente entre elas, e é altamente improvável que venham a receber cuidados médicos. Em qualquer dos casos, foram abandonadas pela sociedade.
Todos os anos a UNICEF publica um relatório alarmante, sobre a situação das crianças no mundo todo. Fornece detalhes desanimadores sobre carências que afetam centenas de milhares de crianças em todo o planeta nas áreas de saúde, educação e moradia. Este livro de fotografias não pretende fazer esse tipo de análise. Simplesmente mostra noventa crianças de diferentes regiões da Terra num determinado dia de suas vidas. Elas aparecem lindas, felizes,orgulhosas, pensativas ou tristes. Por um breve instante , tiveram condições de dizer ‘Eu sou’. Em seguida, depressa demais, ficarão adultas e outras crianças tomarão seu lugar.”Sebastião Salgado
Paris, julho de 1999
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domingo, 13 de setembro de 2009
BRUXAS E O IMAGINÁRIO INFANTIL
Quando eu trabalhava como voluntária na biblioteca de uma escola pública, os livros infantis eram divididos por temas e o que fazia mais "sucesso" eram os das histórias de bruxas e fadas, por aí, para mim, o imaginário das crianças sempre foi povoado por serem fantásticos... um exemplo disse é o sucesso de Harry Potter e etc...
Pesquisando a história da cultura e da produção cultural, "descobri" o óbvio: no Brasil - o lugar que desde sempre era considerado o paraíso - o imaginário é uma das forças motrizes da história e ele tem se manifestado desde sempre, pelos mitos e lendas, pelas feiticeiras coloniais das Minas Gerais, mil outros exemplos interessantíssimos que me levam a não ter nenhuma religião: quero saber e entender de todas, todas, todas...
Uma pena que algumas pessoas (e até crianças) abraçam uma religião e a tomam como uma espécie de monopólio da felicidade... com isso acabam perdendo todo um imaginário riquíssimo que veio crescendo antes dela ... é uma perda cultural sem precedentes!
Sinto muito que isso esteja cada vez mais forte.
Pesquisando a história da cultura e da produção cultural, "descobri" o óbvio: no Brasil - o lugar que desde sempre era considerado o paraíso - o imaginário é uma das forças motrizes da história e ele tem se manifestado desde sempre, pelos mitos e lendas, pelas feiticeiras coloniais das Minas Gerais, mil outros exemplos interessantíssimos que me levam a não ter nenhuma religião: quero saber e entender de todas, todas, todas...
Uma pena que algumas pessoas (e até crianças) abraçam uma religião e a tomam como uma espécie de monopólio da felicidade... com isso acabam perdendo todo um imaginário riquíssimo que veio crescendo antes dela ... é uma perda cultural sem precedentes!
Sinto muito que isso esteja cada vez mais forte.
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