sábado, 29 de maio de 2010

EM TESE UMA TESE

Vamos para a mais pura verdade:

"Sabe tese, de faculdade? Aquela que defendem? Com unhas e dentes? É dessa tese que eu estou falando. Você deve conhecer pelo menos uma pessoa que já defendeu uma tese. Ou esteja defendendo. Sim, uma tese é defendida. Ela é feita para ser atacada pela banca, que são aquelas pessoas que gostam de botar banca.

As teses são todas maravilhosas. Em tese. Você acompanha uma pessoa meses, anos, séculos, defendendo uma tese. Palpitantes assuntos. Tem tese que não acaba nunca, que acompanha o elemento para a velhice. Tem até teses pós-morte.

O mais interessante na tese é que, quando nos contam, são maravilhosas, intrigantes. A gente fica curiosa, acompanha o sofrimento do autor, anos a fio. Aí ele publica, te dá uma cópia e é sempre – sempre – uma decepção. Em tese. Impossível ler uma tese de cabo a rabo.

São chatíssimas. É uma pena que as teses sejam escritas apenas para o julgamento da banca circunspecta, sisuda e compenetrada em si mesma. E nós?

Sim, porque os assuntos, já disse, são maravilhosos, cativantes, as pessoas são inteligentíssimas. Temas do arco-da-velha. Mas toda tese fica no rodapé da história. Pra que tanto sic e tanto apud? Sic me lembra o Pasquim e apud não parece candidato do PFL para vereador? Apud Neto.

Escrever uma tese é quase um voto de pobreza que a pessoa se autodecreta. O mundo pára, o dinheiro entra apertado, os filhos são abandonados, o marido que se vire. Estou acabando a tese. Essa frase significa que a pessoa vai sair do mundo. Não por alguns dias, mas anos. Tem gente que nunca mais volta.

E, depois de terminada a tese, tem a revisão da tese, depois tem a defesa da tese. E, depois da defesa, tem a publicação. E, é claro, intelectual que se preze, logo em seguida embarca noutra tese. São os profissionais, em tese. O pior é quando convidam a gente para assistir à defesa. Meu Deus, que sono. Não em tese, na prática mesmo.

Orientados e orientandos (que nomes atuais!) são unânimes em afirmar que toda tese tem de ser – tem de ser! – daquele jeito. É pra não entender, mesmo. Tem de ser formatada assim. Que na Sorbonne é assim, que em Coimbra também. Na Sorbonne, desde 1257. Em Coimbra, mais moderna, desde 1290. Em tese (e na prática) são 700 anos de muita tese e pouca prática.

Acho que, nas teses, tinha de ter uma norma em que, além da tese, o elemento teria de fazer também uma tesão (tese grande). Ou seja, uma versão para nós, pobres teóricos ignorantes que não votamos no Apud Neto.

Ou seja, o elemento (ou a elementa) passa a vida a estudar um assunto que nos interessa e nada. Pra quê? Pra virar mestre, doutor? E daí? Se ele estudou tanto aquilo, acho impossível que ele não queira que a gente saiba a que conclusões chegou. Mas jamais saberemos onde fica o bicho da goiaba quando não é tempo de goiaba. No bolso do Apud Neto?

Tem gente que vai para os Estados Unidos, para a Europa, para terminar a tese. Vão lá nas fontes. Descobrem maravilhas. E a gente não fica sabendo de nada. Só aqueles sisudos da banca. E o cara dá logo um dez com louvor. Louvor para quem? Que exaltação, que encômio é isso?

E tem mais: as bolsas para os que defendem as teses são uma pobreza. Tem viagens, compra de livros caros, horas na Internet da vida, separações, pensão para os filhos que a mulher levou embora. É, defender uma tese é mesmo um voto de pobreza, já diria São Francisco de Assis. Em tese.

Tenho um casal de amigos que há uns dez anos prepara suas teses. Cada um, uma. Dia desses a filha, de 10 anos, no café da manhã, ameaçou:

- Não vou mais estudar! Não vou mais na escola.

Os dois pararam – momentaneamente – de pensar nas teses.

- O quê? Pirou?

- Quero estudar mais, não. Olha vocês dois. Não fazem mais nada na vida. É só a tese, a tese, a tese. Não pode comprar bicicleta por causa da tese. A gente não pode ir para a praia por causa da tese. Tudo é pra quando acabar a tese. Até trocar o pano do sofá. Se eu estudar vou acabar numa tese. Quero estudar mais, não. Não me deixam nem mexer mais no computador. Vocês acham mesmo que eu vou deletar a tese de vocês?

Pensando bem, até que não é uma má idéia!

Quando é que alguém vai ter a prática idéia de escrever uma tese sobre a tese? Ou uma outra sobre a vida nos rodapés da história?

Acho que seria um tesão."

Por Mario Prata
Publicado no jornal O Estado de São Paulo, Caderno 2, 1998
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domingo, 23 de maio de 2010

DATAS SÃO PONTAS DE ICEBERGS


Cito Alfredo Bosi - meu magister- sobre questões que me incomodam desde que comecei a graduação em História:

"DATAS
1492,1792,1822,1922.
Datas. Mas o que são datas?
Datas são pontas de icebergs.

O navegador que singra a imensidão do mar bendiz a presença dessas emersas, sólidos geométricos, cubos e cilindros de gelo visíveis a olho nu e a grandes distâncias. Sem essas balizas naturais que cintilam até sob a luz noturna das estrelas, como evitar que a nau se espedace de encontro às massas submersas que não se vêem?
Datas são pontas de icebergs. (...)


1956 (...)

Debaixo dessa ponta de iceberg, o que vamos encontrar?

Em 1956 o presidente bossa-nova, Juscelino Kubitscheck, recém empossado, lança o seu ambicioso Programa de Metas que incluirá a mudança da Capital para o Oest, a ousada construção em pleno e ermo cerrado de uma cidade inteiramente planejada, Brasília, pensada por dois paladinos da nossa modernidade artística, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

1956 significará também a abertura do país ao capitalismo internacional e a criação da indústria automobilistica. 56, na cabeça dos políticos modernizadores, representa o ano do deslanche do desenvolvimento, a aceleração dos ritmos. Cinquenta anos em cinco, eis um lema sintomático que, para nós, tem tudo a ver com a imagem daquele tempo vectorial, daquele tempo-flecha que avança na direção de um estágio que deverá superar os anteriores. Um ritmo que quer queimar etapas; de resto, sabe-se que acelerar o processo se diz também: aquecer a economia.

Aos olhos de uma sociologia reducionista da cultura, pela qual o externo dos fatos sociais se converte no interno das criações da arte, o programa modernizador de Juscelino teria encontrado a sua imagem especular no lançamento da Poesia Concreta em São Paulo naquele mesmo ano quente de 56. (...)

1956 é também o ano em que Guimarães Rosa, o maior escritor brasileiro do século, lança o seu Grande sertão:Veredas.

Agora, debaixo da ponta do iceberg, as massas submersas apresentam outra e estranha consistência.

Em Rosa a linguagem narrativa não é só sitáxe, sequência, é também mito e poema. Como tal, alcança reviver, polifonicamente, as riquezas e os enigmas da sabedoria arcaica mediante a travessia pelas mentes e pelos corações sertanejos e pela sua oralidade tal como se manifestava nas Minas Gerais do começo do século.(...)
Mas onde estamos em 1956? No mito, na linguagem arcaica e popular, na evocação do contexto jagunço , na volta apaixonada^à natureza mais agreste? Ou na arrancada para a modernização definitiva?
João Guimarães Rosa, cidadão que, na vida profissional e pública, foi estreitamente ligado ao governo de Juscelino, dá as costas para qualquer veleidade modernizante. O seu tempo existencial é outro. Outra é a sua matéria vertente.(...)"
________________________________________________________
BOSI, Alfredo. O tempo e os temposIn: NOVAES, Adalto (org.) Tempo e História. São Paulo: Cia das Letras. 1992 Pp. 19-32

quinta-feira, 20 de maio de 2010

And babies? And babies.

Assisti a uma fenomenal palestra do Sevcenko no Simpósio de Estudo sobre Cultura, ele falou sobre arte perfomática.
Entre todas as interessantes imagens que ele mostrou essa ficou marcada por motivos óbvios (não só porque eu estudo representações de infância, mas especialmente porque eu sou humana e tenho sentimentos):


Trata-se desta imagem do massacre promovido pelo exército da França, em 29 de Novembro de 1947, durante a ocupação francesa do Vietnã. O extermínio aconteceu numa vila de cerca de 700 pessoas, quando os homens tinham ido trabalhar fora ali restaram para serem mortos mulheres, idosos AND BABIES? AND BABIES.
Sem mais comentários.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Um abraço da cidade

Morar em São Paulo nem sempre é fácil.
A cidade e sempre tão arisca com seus moradores!

Mas tudo tem seu outro lado.

Ontem, na noite em que se encerrava a Virada Cultural (que esse ano eu não acompanhei), eu estava na Avenida Paulista, isso já um pouco tarde - umas 22:30- e cheguei bem no final do vão livre o MASP, que estava mesmo muito livre, naquele frio...

Mas a cena que se via era muito mais bonita e muito mais intensa do que está em qualquer cartão postal ou foto, como dizia a música do Caê:

Ali a cidade nos abraçava!

É tão reconfortante, que nos dá vontade de retribuir, abraçando também!

A Paulista - tão feia, tão cinza - nos dá alguns presentes de vez em quando : o espetáculo de fogos do Reveillon Paulista, a Casa das Rosas, o Parque Trianon, a Visa do Vão Livre do MASP...

Nada deve ser só ruim, basta que nossos olhos treinem para enxergar o lirismo!

Eu não acho que nenhuma foto vá chegar nem perto do que eu vi ontem à noite, mas essa tentou, mesmo tendo sido tirada de dia e não apresentando as características luzes da cidade, entretanto, essa é a minha cidade:

sábado, 15 de maio de 2010

MÚSICA BASILEIRA

No curso de pós que eu estou assistindo, sobre a escrita da oralidade, o professor - que diz no programa do curso que pretende abordar poemas do Oswald de Andrade - trouxe para nós uma folha com um poema de Olavo Bilac.

Isso, claro, foi algo inesperado, pois todos temos internalizada a crítica rasa "Olavo Bilac é parnasiano, o príncipe dos poetas, eca"
Mas com esse tipo de discurso, nunca paramos para ler o que ele escreveu para podermos fazer,sim, uma crítica com propriedade (que não é nem boa nem má de antemão).

Mas o professor nos colocou esse desafio de ler Bilac, pensando no seu contexto histórico e literário...

No contexto literário, o poema foi publicado (o livro de poesia TARDE, de 1919) era, sim, um avanço para a época, não podemos ser anacrônicos e achar que eles tinham as mesmas concepções que temos hoje em dia, por favor!

Falando propriamente do poema, temos uma reflexão social, com um eu lírico que assume estar olhando tudo a partir de uma perpectiva superior (reparem como a segunda pessoa do singular determina o tom do discurso de superioridade, que não combina com o tema "música brasileira",como disse o professor, parece que o tema "cultura musical' estava tão fortemente presente que as belas letras não podiam mais se calar, então a idéia era falar sobre, mas assumindo um papel de superioridade em relação à algo tão popular ...

No que se refere ao contexto histórico, o poema aborda uma idéia muito da época, mesmo que hoje a consideremos ultrapassada e tal, que é a teoria das três raças. Se lembrarmos bem, em 1840 o IHGB (Instituto histórico georáfico do Brasil) promoveu um concurso que premiaria a melhor resposta para a pergunta "qual a melhor maneira de escrever a História do Brasil?" Quem ganhou o concurso foi Carl von Martius, com a proposta de que se deveria valorizar a contribução portuguesa (especialmente a monarquia), mas salientar que o processo histórico brasileiro devia considerar a fusão das três raças.

Mas não foi Matius quem executou sua idéia vencedora, mas sim Francisco Adolfo Varnhagen, que partiu dela para escrever sua História geral do Brasil, em 1854.

Nesse pouco mais de 50 anos entre a publicação do livro de Varnhagen e a do poema de Bilac, cresceu uma percepção de que essas três raças tinham em comum um sentimento de desadequação, pois a presença delas nestas terras eram produto de três povos em total estado de indeterminação, pois as três estava em trânsito quando da formação do Brasil: (a mata que não era mais o lugar só de índio; o deserto, que também não era mais o lugar do negro; e o mar que era o lugar transitório do colonizador português)

Todos precisavam mover-se em busca de algum pólo fixo, desta sensação, surge o Estado Brasil, que é definido pela falta de um ponto de chegada...

Alguns aninhos depois (lembrem-se que nalquela época não havia o imediatismo da intenet...) isso se concretizou como idéia no livro do Sergio Buarque de Holanda, Raizes do Brasil (1936), no qual lemos que somos estrageiros em nossa própria terra.

Não é pouca coisa lembrar, também, que essa idéia já aparecia em 1919, em um poema parnasiano, quem diria, heim!


Por isso que eu detesto criticas que apostam na POSITIVAÇÃO DA NEGATIVIDADE, porque acho que quem usa esse recurso pensa que fazer critica é simplesmente falar mal de algo, como uma mulher que um dia me disse não gostar do barroco mineiro por não gostar de igrejas... Como é?
Se formos por ai, perdemos algumas das maiores obras de arte do mundo, como a música de Bach... mas só podemos criticar com propriedade, se não formos ignorantes e construirmos nossa própria opinião, o mais longe de ideologias possível .

Enfim, leiamos o poema:


MÚSICA BASILEIRA
Olavo Bilac

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras na cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, chiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

BILAC, Olavo. Poesias. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 23ª edição. 1964, p.263.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Semiótica à Luz de Guimarães Rosa



Já foi publicado, pela o livro do Luiz Tatit, com o conteúdo do curso que eu assisti no ano passado.Eu achei o curso delicioso de assistir (Tatit é ótimo), mas o conteúdo eu achei um pouco perigoso...apesar de fazer todo o sentido pensar em analisar o texto de Guimarães Rosa à luz da semiótica (como se fosse uma super semântica), aplicar apenas os conceitos semióticos (que servem tão bem para as canções, mas para literatura nem tanto) pode resultar em leituras rasas, o que eu vejo agora na leitura dos críticos à teoria do signo. O resultado (que foi claramente percebido por mim no curso e não deve ser diferente no livro) é que o universo rosiano serve muito bem para explicar alguns conceitos da semiótica, não o contrário. Ou seja, a gente a prende sobre conceitos semióticos, mas não sobre Guimarães Rosa. Mas vale a indicação.