domingo, 7 de agosto de 2011

Qual o poblema do Brasil mestiço?

Leia este texto, que colo aqui:

Brasil: mestiço, improdutivo e desarmônico?
Livro atribuído a norueguês que matou 77 pessoas em ataque afirma que miscigenação seria causa de atraso brasileiro
Ronaldo Pelli

5/8/2011
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Envie essa matéria para um amigo Centro de Oslo, capital da Noruega, logo após a detonação de explosivos em prédios do governo, que matou oito pessoas / Fonte: wikimedia-cc

O absurdo ataque do norueguês Anders Behring Breivik que resultou em 77 vítimas fatais também resvalou – em muito menor escala, é verdade – no Brasil. Logo após o massacre no país nórdico, foi divulgado um manifesto com mais de mil páginas chamado “2083 – A European Declaration of Independence” (algo como “2083 – uma declaração de independência europeia”) que seria de sua autoria. A obra prega, entre outras medidas de extrema direita, uma Europa “livre” de imigrantes, o que ocorreria entre 20 a 70 anos – daí a data do título. O Brasil é citado algumas vezes nesse tratado de intolerância exatamente como um péssimo exemplo por ser um país miscigenado.

Para Breivik, que escreve em inglês e assina com o nome Andrew Berwick – uma adaptação para o inglês de seu nome –, os conservadores europeus “devem tomar o poder político e militar através de uma combinação de lutas armada e democrática dentro de 70 anos”. Segundo o homem de 32 anos, a alternativa a essa “tomada de poder” “é o modelo de abastardamento contínuo, muito semelhante ao modelo brasileiro”.

A partir de então, Berwick começa a explicar o que seria esse paradigma verde-amarelo e a consequente, em sua opinião, falta de união nacional. Para começar, ele afirma que a mistura de raças no Brasil foi feita a partir de europeus, africanos e asiáticos – sem explicar se os indígenas representariam os asiáticos citados. É possível que sim, já que em outros trechos, ele assegura que os indígenas são “nórdicos por definição”, além de juntar no mesmo grupo de nações que ele considera produtivas e harmônicas a Escandinávia, a Alemanha, a Coreia do Sul e o Japão. Como se “nórdico” assumisse a denotação de “puro”, de “não-contaminado”. Portanto, em uma lógica torta, os indígenas seriam asiáticos, porque puros, e todos, em conclusão, “nórdicos”.

Outro trecho sem uma explicação clara afirma que essa mistura entre europeus, asiáticos e africanos teria acontecido graças à “revolução brasileira marxista”. De qualquer forma, o texto defende enfaticamente que essa mistura de raças se mostrou catastrófica tanto para o Brasil quanto para qualquer outra nação que tenha institucionalizado e facilitado esse cruzamento.

“O Brasil se estabeleceu firmemente como um país de segundo mundo com um baixíssimo grau de coesão social. Os resultados são evidentes e são manifestados através de um elevado grau de corrupção, falta de produtividade e eterno conflito entre as várias ‘culturas’ concorrentes como a miríade de recém-criadas ‘subtribos’ (preto, mulato, mestiço, branco) paralisa qualquer esperança de algum dia chegar ao mesmo nível de produtividade e harmonia como, por exemplo, Escandinávia, Alemanha, Coreia do Sul ou Japão”, escreve ele, em uma tradução livre, que completa: “Vendo a falta de coesão social no Brasil, e a produtividade média do brasileiro médio, é evidente que uma abordagem semelhante na Europa seria devastadora e retardaria a nação, sem mencionar que seria um crime grave (genocídio) para contribuir de qualquer forma para a aniquilação desconstrução e genocídio dos povos indígenas que são nórdicos, por definição.”

Tal afirmação repercutiu nos meios de comunicação e entre nomes como o músico Caetano Veloso. Em sua coluna no jornal “O Globo” do último domingo (31 de julho), Caetano disse que sua oposição a esse programa é “visceral”: “Tudo o que faço tem esse núcleo”, escreveu.

“É a velha hipótese que tinha vigência dentro do próprio Brasil (e, claro, nunca foi descartada de todo — nem por todos), só sendo realmente abalada pela virada que representou ‘Casa grande e senzala’, digam o que disserem os neorracialistas. Gilberto Freyre, ‘Gabriela, cravo e canela’, o ‘Amálgama’de Jorge Mautner e aquele hino à miscigenação que Aldir Blanc escreveu faz uns anos para a TV Globo parecem mais bonitos se confrontados com o criminoso norueguês que matou dezenas de jovens individualmente”, completou.

A escritora e professora do Departamento de Antropologia da USP Lilia Moritz Schwarcz mostrou ainda um ângulo que torna essas declarações mais complicadas. Apesar de esse tipo de discurso não fazer mais parte do âmbito acadêmico nem do político, já que a ciência acabou com qualquer apoio para o conceito de raça, no século XIX, ainda, ela chama a atenção para como em ambientes públicos essas ideias ainda encontram solo para se propagar.

“O que me chama atenção desse discurso não é o quanto ele pode ser anacrônico, mas o quanto essa declaração faz parte do senso comum. O senso comum é uma ideologia muito poderosa. Não é incomum no Brasil que se fale mal da mestiçagem, dizendo que ela é deletéria”, opinou a antropóloga por telefone. Ela, de qualquer forma, defende a possibilidade de qualquer pessoa se expressar, mesmo que um extremista. Essa proposta ecoa a opinião do primeiro-ministro norueguês Jens Stoltenberg, que, mesmo em um momento de intensa crise em seu país, argumenta que a circulação de pensamentos é livre, desde que não haja a tentativa de “implementar essas ideias com violência”.

“A única forma de esclarecer é permitir que essas ideias apareçam, que a intolerância apareça”, acrescentou Schwarcz, elogiando a coragem do primeiro-ministro norueguês. “A política de esclarecimento é contrária à proibição. Bem claro que sobre a violência que foi aplicada, não há tolerância que dê conta. Estamos falando da expressão de ideias que nós consideramos execráveis. A diferença é exatamente isso.”

A antropóloga também ressaltou o fato de o Brasil ser um exemplo da miscigenação, lembrando que é uma leitura freyreana, “que faz o igual ser igual à igualdade”, exemplificando que “inclusão cultural e a mestiçagem biológica não são sinônimos de igualdade”.

“Gilberto Freyre teve papel fundamental na divulgação dessas ideias, mas ele fez parte de uma geração, o que as pessoas esquecem em geral”, explicou. “Ele só pôde fazer isso porque desde o século XVI a representação do Brasil é de um país mestiço. A diferença é que a representação varia do positivo ao negativo. As primeiras descrições do Brasil dos viajantes seiscentistas eram do país da grande fauna e da mistura de raças. Claro que alguns viam isso com descrédito. Mas se você pegar Montaigne, em ‘Dos canibais’, é evidentemente positiva à gente do Brasil. Essa mesma noção é a de Rousseau, do bom selvagem. Que está lá no movimento romântico. Os indigenistas do século XIX falavam em uma mistura entre os nobres da terra e os nobres portugueses.” Ela continua:

“O primeiro vencedor do concurso do IHGB, que perguntava como escrever a história do Brasil, é Von Martius, cuja tese falava que o Brasil era composto de três grandes rios: o rio branco, mais caudaloso; o indígena, menor; e o negro, ainda menor. Para você ver, a primeira tese em que se escreve a história do Brasil, já foi feita com esse modelo”, explica a professora, para quem “não existira Gilberto Freyre sem existir outros”.

Mesmo que o Brasil seja visto até hoje como o país da mestiçagem, principalmente externamente, há também movimentos preconceituosos e que prezam por uma suposta pureza no Brasil, contrários a nordestinos por exemplo. A professora lembra que, se o Brasil não vivenciou o ódio racial escrito em lei, ou que provocou chacinas, a experiência da escravidão nos deixou marcas até hoje.

“Lidamos com a escravidão de maneira silenciosa. Um exemplo é o nosso hino da República, feito, portanto, um ano e meio após a abolição da escravidão que dizia: ‘nós nem cremos que outrora escravos tenha havido em tão nobre país’. Outrora era um ano e meio”, ressalta ela. “Estamos numa época em que há vários marcadores sociais da diferença. Toda a sociedade carrega os seus marcadores, classe, etnia, região, idade. Raças vêm aparecendo mais. É impressionante que quanto mais a gente destrói o conceito biologicamente, mais ele vai sendo recriado. Cria-se novos eixos, novos olhos, novas representações. É impressionante.”

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Emmerkar e o senhor de Aratta (498 ss) 2100 UR III

Para não dizer que passei em branco pela ANPUH que este ano está sendo aqui na USP, estou acompanhando o Mini curso "Escrita, saberes e tradições escribais na Antiga Mesopotâmia", ministrado pelos professores Marcelo Rede (FFLCH) e Carlos Henrique Barbosa Gonçalves.

Achei muito legal ficar vendo escrita cuineiforme... soube que a escrita, para os mesopotâmeos, era algo enviado pelos deuses, o ENK Ira muito inventivo...mas a escrita também estava sob a proteção da deusa NISABA e do Deus NABU, que era casado com TASHMETUM

O professor Rede trouxe uma narratinvinha sobre o nascimento da escrita na Mesopotâmia:


"Naquele dia, as palavras do senhor (...) sentado no (...) prole de princípes (...) eram muito longas e difíceis, seu significado não era compreensível. Uma vez que a boca do mensageiro era muito lenta e ele era incapaz de reproduzi-las, o senhor de Kullab (= Uruk) tomou argila e moldou as palavras (inim) em um tablete (dub). Antes desse dia, ninguém havia colocado as palavras sobre um tablete; mas agora, nesse dia, sob esse sol, isso foi feito."


Esta explicação é circustantial e tópica.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

sábado, 9 de julho de 2011

A ESCRIVANINHA

O médico achou que eu era míope. E me prescreveu não só óculos, mas também uma escrivaninha. Era engenhosamente construída. Podia se deslocar o assento de modo que ficasse mais próximo ou mais afastado da prancha inclinada, onde se escrevia. Além disso, havia uma trave horizontal no espaldar, que dava apoio às costas, sem falar de um pequeno suporte de livro removível e que coroava o conjunto. Essa escrivaninha junto à janela logo se tornou meu recanto favorito. O pequeno armário oculto sob o assento continha não só os livros de que eu precisava na escola, mas também o álbum de selos e outros três ocupados pelos cartões-postais. E no gancho firme da lateral da escrivaninha ficavam pendurados, ao lado da madeira, não só minha pasta, mas também o sabre do uniforme de hussardo e o tambor de herborista. Frequentemente, ao voltar da escola, a primeira coisa que eu fazia era festejar meu reencontro com a escrivaninha, ao mesmo tempo em que já a transformava no palco de uma de minhas ocupações prediletas – a decalcomania, por exemplo. Num instante, no lugar antes tomado pelo tinteiro, surgia uma xícara de água morna, e eu começava a recortar as figuras. Quanto me prometia o véu atrás do qual me fitavam das folhas dobradas e dos cadernos! O sapateiro inclinado sobre as encóspias e as crianças sentadas nos galhos da árvore colhendo maçãs, o leiteiro diante da porta com a soleira coberta de neve, o tigre que se dobra para saltar sobre o caçador, cuja espingarda acaba de detonar, o pescador na relva diante de um riacho azul e a classe atenta ao professor que ensina algo no quadro-negro, o farmacêutico à entrada de sua loja bem sortida e cheia de cores, o farol com o veleiro em frente – tudo isso era coberto por um sopro de névoa. Porém, quando, suavemente iluminadas, repousavam na folha de papel; quando a grossa capa saía em rolinhos delgados sob a ponta de meus dedos que, cautelosamente, girando, esfregavam e raspavam seu reverso;quando, por fim, a cor despontava, doce e íntegra, do reverso fendido e esfolado, era como se irrompesse sobre a turva manhã de um mundo descolorido o sol radiante de setembro, e todas as coisas, ainda umedecidas pelo orvalho que refrescava no crepúsculo, ardessem agora com a chegada de um novo dia da Criação. Embora, afinal, eu me fartasse também daquele passatempo, era assim que sempre encontrava um pretexto de adiar os deveres de casa. Era com prazer que revia velhos cadernos, dotados agora de um valor especial, que era o de eu tê-los resgatado do domínio do professor, que teria direito sobre eles. Agora deixava o olhar recair sobre as correções ali registradas em tinta vermelha, e um prazer sereno me tomava. Pois, assim como os nomes dos mortos gravados nas sepulturas já não podem ser úteis ou prejudiciais, ali estavam notas que haviam entregado todo seu poder a outras mais antigas. Com outro espírito e com a consciência mais tranquila eu podia perder horas na escrivaninha tratando dos cadernos e dos livros escolares. Os livros exigiam capa feita de papelão azul, e quanto aos cadernos, o regulamento insistia que a cada um se juntasse o respectivo mata-borrão de forma que este não se perdesse. Para esse fim havia pequenos cordéis que se vendiam em todas as cores. Prendiam-se esses cordõezinhos na capa de cada caderno e no mata-borrão por meio de obreiras. Se quiséssemos obter uma riqueza cromática, poderíamos forjar arranjos variados, dos mais sóbrios aos mais vistosos. Assim, aquela escrivaninha guardava, sem dúvida, certa semelhança ao banco escolar, mas sua vantagem era que nela eu ficava protegido e dispunha de espaço para esconder coisas de que ele não devia saber. A escrivaninha e eu éramos solidários frente a ele. E mal me havia recuperado após um aborrecido dia de aula, ela já me cedia novo vigor. Eu podia me sentir não só em casa, mas também numa cela como a daqueles clérigos que se veem nas iluminiras medievais, ora em seu genuflexório, ora em sua mesa de trabalho, como se estivessem dentro de uma couraça. Nesta cela comecei a ler Dédito e crédito, Duas cidades. Buscava a hora mais calma do dia e esse lugar, o mais isolado de todos. Então, ao abrir a primeira página, sentia-me tão solene como quem pisa num novo continente. De fato, tratava-se de um novo continente, no qual a Criméia e o Cairo, a Babilônia e Bagdá, o Alasca e Taschkent, Delfos e Detróit, se comprimiam uns sobre os outros tão compactamente como as medalhas douradas das caixas de charuto de minha coleção. Nada mais reconfortante do que permanecer assim cercado por todos os instrumentos de minha tortura – vocabulários, compassos, dicionários – num lugar onde de nada valiam suas reivindicações.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II- Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense.1995.Pp.118-120

quarta-feira, 6 de julho de 2011

http://www.youtube.com/watch?v=WxCz9SdpWJE

No show do Elomar esta foi a primeira música que ele tocou, então já comecei chorando de emoção, especialmente porque ele disse ao final "Quando eu toco esta música sempre tenho a sensação que estou indo para um lugar muito longe no espaço, vocês também não sentem isso?" E eu disse ao Caio que eu também sinto isso, não só no espaço, mas também no tempo, com tal cantiga tão "medieval"... Estudar infância em Guimarães Rosa, pela História é, para mim, abrir novas possibilidades de espaço e tempo, estas ainda não totalmente comprometidas com as linguagens, assim como são as crianças ou os sertanejos...