quarta-feira, 24 de agosto de 2011

As crianças e as cores








"A cor é 'nuvem', superfície de deslocamento, linha de fuga no imaginário para divagações laterais, escapa para fora da página, compreende-se que ela suscite a desconfiança dos pedagogos. Em relação à conduta, ela favorece o afastamento; em relação à profundidade ou à verticalidade do sentido, ela ensina o charme do não sentido. Ela desvia as palavras de sua acepção corrente e impede a criança de se tornar semelhante aos 'modelos de moralidade'; ela proíbe a identificação obrigatória, familiar ou pedagógica.(...) De fato, o uso sujo das cores é, por sua vez, algo da ordem do deslizamento mimético pelos improvisos imprevistos do imaginário: lambuzada, imunda, brincando de pintar ou de tatuar o corpo, a criança rejeita, assim, identificar-se com a imagem que se exige dela: ao usar o visível para se tornar invisível aos outros, ela escapa à vigilância deles."
(SCHÉRER, René. Infantis- Charles Fourier e a infância para além das crianças. Belo Horizonte: Autêntica. 2009. Pp. 126-131)

domingo, 21 de agosto de 2011

Felicidade Eterna - José Eduardo Agualusa

Antigamente todos os contos para crianças terminavam com a mesma frase, e foram felizes para sempre, isto depois de o Príncipe casar com a Princesa e de terem muitos filhos. Na vida, é claro, nenhum enredo remata assim. As Princesas casam com os guarda-costas, casam com os trapezistas, a vida continua, e os dois são infelizes até que se separam. Anos mais tarde, como todos nós, morrem. Só somos felizes, verdadeiramente felizes, quando é para sempre, mas só as crianças habitam esse tempo no qual todas as coisas duram para sempre.

José Eduardo Agualusa, in 'O Vendedor de Passados'

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

“EXPERIÊNCIA HISTÓRICA”: O DIA QUE A HISTORIADORA ENCONTRA SEU OBJETO VIVO!

Hoje é dia 19 de agosto - o dia do historiador – mas a gente não costuma ganhar presentes, só que ontem eu ganhei o meu! Eu fui a mesa redonda do lançamento do livro “Justa – Aracy de Carvalho e o resgate dos judeus: trocando a Alemanha nazista pelo Brasil”,de Mônica Raissa Schpun, que aconteceu no IEB/USP. Eis o livro:



Foi um prato cheio para qualquer historiador, mas para uma que, como eu, estuda Guimarães Rosa talvez sejam dois pratos transbordando! Isso porque a mesa redonda, além da autora do livro, contou com a professora Sandra Guardini T. Vasconcelos e o senhor Eduardo Tess, filho de Aracy, que foi esposa de Guimarães Rosa. Nesta foto, da esquerda para a direita, vemos a autora Mônica Raissa Schpun, a professora Sandra G.T. Vsconcelos e o senhor Eduardo Tess:



Foi muito emocionante tudo, a pesquisa de 20 anos feita pela Mônica, o orgulho e o reconhecimento de Tess e de todos os outros que lá estavam mostra que algumas vidas, como a de Aracy, tiveram valor inquestionável, tanto que ela recebeu um dos dois títulos brasileiros de “Justos entre as nações”, pelo resgate de judeus durante a segunda guerra mundial. Foi lindo, emocionante, porque alguns familiares de pessoas que foram resgatadas àquela época estavam no lançamento para prestigiarem a autora do livro.

Mas o Sr. Eduardo Tess, que é filho de dona Aracy, a segunda esposa de Guimarães Rosa, levou duas convidadas que me interessaram demais: sua esposa sra. Beatriz Tess e uma de suas filhas, Vera Tess.

Sim, sim, Vera Tess a Verinha, a neta que, como alerta a professora Sílvia Maria Azevedo, era neta adotada, porém tão legítima que era a preferida de Rosa.

Foi uma grande emoção para mim porque as correspondências mantidas por Rosa e Vera e sua irmã Beatriz Helena são um dos meus objetos de estudo no doutorado, então ver que hoje a Vera, que já não é mais a Verinha de três aninhos que a foto acima mostra no colo do Vovô Joãozinho, ela é a doutora Vera, médica psiquiatra do HC de São Paulo!

Fui conversar com ela, claro... eu pensava que estava tendo uma chance que os historadores quase nunca têm, porque nós não costumamos pesquisar “pessoas vivas” ... ossos do ofício! Mas como eu não estava preparada para encontrá-la, embora soubesse que seria minha grande chance e precisava falar algo, mas não sabia o que ... acabei fazendo perguntinhas tolas (como era o contato com Rosa; se ela se lembra dos lápis de cor; se ela era mesmo a neta favorita...) , e ela me respondeu na medida do possível, afinal ela me lembrou de um detalhe que eu (JUSTO EU, QUE SEMPRE ME PREPAREI PARA NÃO ESQUECER DISSO) estava esquecendo na hora: tudo aquilo que eu perguntei ela viveu, sim, mas quando tinha apenas três aninhos, não tinha lembrança nem conhecimento detalhado de tudo aquilo! Ou seja: lá estava eu exercendo o “ofício do historiador” e pisando em terreno fragmentado, novamente, porque o que se passava na cabeça de Verinha e da sua relação com o vovô Joãozinho já não podemos mais saber e o mais interessante, talvez nem mesmo ela possa!

Mas são impressionantes as armadilhas que o tempo nos prega e que nem mesmo os historiadores conseguem fugir sempre... o ofício do historiador é entrar no país das maravilhas como faz Alice e descobrir que a única coisa irrefutável a qual se tem acesso é que nada será tão claro e lógico como gostaríamos, mas que teremos que inventar novas maneiras de lidar com a densidade das temporalidades expressas naquilo que chamamos tão levianamente de passado!

Acho que por enquanto é isso que eu posso comentar, ainda preciso assimilar melhor aquela “experiência histórica” que vivi ontem e que eu acho que está sintetizada nesta foto aqui:

O mais interessante é que temos que interpretá-la em perspectiva, afinal a cena nos mostra mais próxima do nosso olhar a figura de Vera Tess (a moça de blusa cor de rosa) e lá no fundo da sala a figura elegante do seu pai o senhor Eduardo Tess, entre eles temos a imagem de um diálogo estabelecido entre uma parente de um dos resgatados do nazismo pela Sra. Aracy Carvalho (a senhora de cabelos curtos e roupa preta) conversando com a mãe de Vera, a sra Beatriz (a de cachecol vermelho), como se ali naquele momento estivessemos registrando em perpectiva pelo menos três vivências temporais distintas.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O que Guimarães Rosa faz com seu leitor, e qual os seus motivos...






A explicação está claramente exposta nestas linhas de Monique Balbuena:

“Em sua elaboração de um texto estético, poético, artisticamente belo, Guimarães Rosa trouxe grandes inovações linguísticas em todos os níveis: léxico, gramático-sintático, poético e retórico. Como já vimos, Rosa ” buscava transformar o mundo com a força criadora da linguagem, e uma linguagem rasa, meramente comunicativa ou referencial, não seria eficaz na realização de seus projetos mais ambiciosos. Dessa forma, a ‘revolução linguística’ pela qual seria responsável está indissociada da necessidade que via em modificar os hábitos mentais do homem e libertá-lo de arcaicas categorias de pensamento, resgatando a linguagem como verdadeira expressão da vida.
Suas obras, muitos já o disseram, apresentam sérias dificuldades de fluência e compreensão a uma primeira leitura. O leitor, acostumado a textos mais coerentes e tradicionais, se vê atordoado, desnorteado e dominado, sem clemência, por uma prosa acidentada, difícil, com formas e sons inusitados, um manancial léxico desconhecido, compondo um estilo muito original. Passadas as primeiras investidas, conseguida a penetração na densa selva após a apreensão da chave léxica e, com ela, a possibilidade de descodificação, o leitor, só então, se sente recompensado pelo seu esforço e persistência: estabelecida a comunicação, Rosa se revela em seu esplendor, e, banhado em luz e música, o leitor disso não mais quer se privar.
Ao contrário, ele passa a tomar parte importante no próprio processo de criação, pois o estranho texto de Rosa deixa lacunas intencionais que devem ser preenchidas, apresenta formulações ou estruturas sintáticas que exigem reflexão constante...Em suma: ele faz pensar, proíbe a automatização e impede a letargia.”


BALBUENA, Monique Rodrigues. Poe e Rosa à luz da cabala. Rio de Janeiro: Imago Ed, 1994.Pp. 78-9