quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

Tom Zé pela Orquesta Jovem de Paquetá, em turnê na Alemanha

Disse o TomZé no Facebook: 
"Tom ZéOlá, pessoal da Orquestra Jovem Paquetá! Aqui em casa a gente ouviu sem respirar. Fiquei o tempo todo me lembrando de Zé Miguel Wisnik, porque muita coisa desse arranjo se deve à armação que ele fez com 2 ou 3 horas de gravação e com o que ele me pedia pra compor depois da música pronta. Ele merece ouvir também. 
O trabalho de vocês é incrível em várias dimensões: o arranjador pescou as coisas mais nucleares da peça feita para dançar. Mas o que ultrapassa toda a expectativa é o desmanche feito com essa instituição que é a orquestra sinfônica, desmanche que começa pelo movimento da moçada do jovem grupo orquestral e renasce como a lenda do fênix, numa metamorfose em que a orquestra dá a impressão de ser recriada, de novo, vindo do horizonte para o centro do palco. 
Essa parte da invenção de vocês com o maestro naturalmente vai se consagrar porque, uma vez aberto o caminho, muita orquestra nova repetirá esse milagre estratégico. Agora é que soube que esse número foi executado na Alemanha. Muito a propósito que o desmanche tenha sido praticado no berço da civilização orquestral. 
Parabéns, abraços para todos." 

O som é essa aqui, bem ruinzinho, não acham? rsrs

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

História social da criança e da família, de Philippe Ariès

Capa na 2a, ed. brasileira, de 1981.


Vamos falar de um  clássico:  "História Social da Criança e da Família" de Philippe Ariès, que foi primeiro escrito em francês e publicado na França em 1960 (Ariès, Philippe. (1960)  'L'Enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime', com trad. inglesa: Centuries of Childhood. New York, 1965). No Brasil só foi traduzido a partir da terceira edição francesa e publicado em 1978. Ainda que aqui  no Brasil o livro tivesse sido mais recente, e que não se pensa mais, de forma alguma, em fazer uma história da criança usando exclusivamente esse modelo, não podemos deixar de destacar seu pioneirismo, e uma coisa que importa muito ao meu trabalho: trata-se de um livro que expressa ideia não podemos deixar passar que ele é um material pioneiro e que expressa ideia, interesses e mentalidades da década de 1960. Sobre ele nos conta Peter Burke em seu livro sobre a "Nova História":

"'L'Enfant et la vie familiale sous l'Ancien Régime' é um livro polêmico e foi mesmo criticado por muitos historiadores, justa e injustamente. Especialmente na Idade Média econtraram evidências contra suas generalizações excessivas sobre o período. Outros historiadores criticaram Ariès por estudar a evolução européia, apoiando-se eclusivamente em evidências quase que exclusivamente limitadas à França, e por não distinguir com clareza entre as atitudes dos homens e das mulheres, das elites e do povo comum. Pelo sim, pelo não, foi uma contribuição de  Ariès colocar a infância no mapa histórico, inspirar centenas de estudos sobre a história da criança em diferentes regiões e períodos, e chamar a atenção de psicólocos e pediatras para a nova história. (Neste e nos  trabalhos posteriores de P.Ariès)  se encontram a mesma audácia e a mesma originalidade, o mesmo uso de uma ampla variedade de evidências, que inclui literatura e arte, mas não as estatísticas, e a mesma vontade de não traçar categorias regionais ou sociaisde diferenças."
BURKE, Peter. "A Escola dos Annales 1929-1989 : a revolução francesa da historiografia".  Trad. Nilo Odalia. São Paulo: Editora da UNESP, 1997, p. 82-3



sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

No metrô, com Julio Cortázar

NO METRÔ COM CORTÁZAR  :
"...A regra do jogo era aquela, um sorriso na vidraça da janela e o direito de seguir uma mulher e esperar desesperadamente que sua conexão coincidisse com a decidida por mim antes de cada viagem ; e então - sempre, até agora - vê-la tomar outro corredor e não poder segui-la, obrigado a voltar ao mundo de cima e entrar num café e continuar vivendo até que, pouco a pouco, horas ou dias ou semanas , a sede de novo reclamando a possibilidade de que tudo coincidisse eventualmente , mulher e vidraça da janela, sorriso aceito ou rejeitado, conexões de trens e então finalmente sim, então o direito de aproximar-se e dizer a primeira palavra , espessa de tempo estacado, de inacabável pilhagem no fundo do poço entre as aranhas de cãibra." 

Julio Cortazar - "Manuscrito achado num bolso", in "Octaedro", p. 43.


(a caricatura é de Loredano)

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Esse é o famoso 16 toneladas ... Noriel Vilela

A Companheira Luiz Tatit

A Companheira

Luiz Tatit

Eu ia saindo, ela estava ali
No portão da frente
Ia até o bar, ela quis ir junto
"tudo bem", eu disse
Ela ficou super contente
Falava bastante,
O que não faltava era assunto
Sempre ao meu lado,
Não se afastava um segundo
Uma companheira que ia a fundo
Onde eu ia, ela ia
Onde olhava, ela estava
Quando eu ria, ela ria
Não falhava
No dia seguinte ela estava ali
No portão da frente
Ia trabalhar, ela quis ir junto
Avisei que lá o pessoal era muito exigente
Ela nem se abalou
"o que eu não souber eu pergunto"
E lançou na hora mais um argumento profundo
Que iria comigo até o fim do mundo
Me esperava no portão
Me encontrava, dava a mão
Me chateava, sim ou não?
Não
De repente a vida ganhou sentido
Companheira assim nunca tinha tido
O que fica sempre é uma coisa estranha
É companheira que não acompanha
Isso pra mim é felicidade
Achar alguém assim na cidade
Como uma letra pra melodia
Fica do lado, faz companhia
Pensava nisso quando ela ali
No portão da frente
Me viu pensando, quis pensar junto
"pensar é um ato tão particular do indivíduo"
E ela, na hora "particular, é? duvido"
E como de fato eu não tinha lá muita certeza
Entrei na dela, senti firmeza
Eu pensava até um ponto
Ela entrava sem confronto
Eu fazia o contraponto
E pronto
Pensar assim virou uma arte
Uma canção feita em parceria
Primeira parte, segunda parte
Volta o refrão e acabou a teoria
Pensamos muito por toda a tarde
Eu começava, ela prosseguia
Chegamos mesmo, modesta à parte
A uma pequena filosofia
Foi nessa noite que bem ali
No portão da frente
Eu fiquei triste, ela ficou junto
E a melancolia foi tomando conta da gente
Desintegrados, éramos nada em conjunto
Quem nos olhava só via dois vagabundos
Andando assim meio moribundos
Eu tombava numa esquina
Ela caía por cima
Um coitado e uma dama
Dois na lama
Mas durou pouco, foi só uma noite
E felizmente
Eu sarei logo, ela sarou junto
E a euforia bateu em cheio na gente
Sentíamos ter toda felicidade do mundo
Olhava a cidade e achava a coisa mais linda
E ela achava mais linda ainda
Eu fazia uma poesia
Ela lia, declamava
Qualquer coisa que eu escrevia
Ela amava
Isso também durou só um dia
Chegou a noite acabou a alegria
Voltou a fria realidade
Aquela coisa bem na metade
Mas nunca a metade foi tão inteira
Uma medida que se supera
Metade ela era companheira
Outra metade, era eu que era
Nunca a metade foi tão inteira
Uma medida que se supera
Metade ela era companheira
Outra metade, era eu que era

domingo, 19 de janeiro de 2014

Lilia, por João Bosco

No disco em comemoração aos 40 anos de cerreira de João Bosco, de 2012, esta é a minha faixa favorita... para mim ela mostra que João Bosco é MESMO a outra face da mesma  moeda do Clube da Esquina, e que esta moeda (música mineira) é de ouro! Muito bom demais...

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Os rolezinhos e o "Grande Sertão: veredas"

Guardando as devidas propoções,  com todo este incômodo causado pelos "rolezinhos" eu  não pude deixar de lembrar do catrumanos - os miseráveis do Grande Sertão: Veredas -, e especialmente o medo absurdo que Riobaldo sente deles:

"E de repente aqueles homens podiam ser montão,montoeira, aos milhares mis e centos milhentos,vinham se desentocando e formando, do brenhal, enchiam os caminhos todos, tomavam conta das cidades. Como é que iam saber ter poder de serem bons, com regra e conformidade, mesmo que quisessem ser? Nem achavam capacidade disso. Haviam de querer usufruir depressa de todas as coisas boas que vissem, haviam de uivar e desatinar." 
João Guimarães Rosa. Grande Sertão: Veredas, p. 553"

Diante deste medo tão profundo de que, de repente, os miseráveis saíssem das margens, tomassem a cidade, os espaços sempre negados a eles,  o jagunço chegou a declarar que nunca mais ia rir na vida... Sobre este medo de Riobaldo - que seriao grande medo do brasileiro -  Ettore Finazzi-Agrò falou no Seminário em homenagem aos 50 anos do romance em 2006, texto que foi publicado com o título "Pós tudo : banimento e abandono no Grande Sertão", na revista do IEB no. 44, p. 159-172