Sobre o Golpe em andamento no Brasil, com a palavra o professor Wilson Barbosa, do Departamento de História da FFLCH ...
quinta-feira, 24 de março de 2016
segunda-feira, 21 de março de 2016
Cortesia literária
Em 08 de março de 2016 eu recebi um e-mail da editora Tordesilhas me oferecendo como cortesia o romance "O arco de virar réu", recém lançado e em fase de divulgação, e isso porque eu havia comentado nesse post aqui um livro de Marcelino Freire, autor que também comentou positivamente o lançamento. Aceitei, claro , e no sábado dia 19 de março recebi o exemplar pelo correio.
Diz a capa que o romance conta a história de um historiador social, interessado em sociedades indígenas, e seus encontros com a loucura, e eu não sabia o que esperar. Ai ontem fui começar a ler e, que delícia; estava diante de um texto literário! Logo nas duas primeiras páginas Antonio Cestaro me jogou no olho do furação, comentando literariamente algumas metodologias do historiador da cultura. Como é belo, como é importante para o historiador, copio logo o longo trecho inicial do romance, que ainda estou ruminando internamente, os destaques são meus:
“...Eu dizia a ele que a dobradiça havia cedido ao peso do tempo e ao inabalável apetite de cupins de incontáveis gerações. Que o vão da veneziana caída e entreaberta projetava um facho de luz poeirento no quarto emudecido por tempo de difícil constatação. Que quem ali passava vislumbrava uma janela velha numa casa em ruínas, recuada e parcialmente recoberta pela vegetação outrora tratada como jardim. Mas também queria fazê-lo entender que, para mim, mais que isso, a ruína consistia na fagulha que acende o fogo, na água que desloca o monjolo, na queda, no choro, na semente e no troco apodrecido. A parte e o todo num único fragmento ou no transcurso de uma existência. (p.9)
Dou expediente na observação da relevância dos pequenos sinais e na observação da relevância dos pequenos sinais e na perseguição de histórias sem valor histórico, da memória de logradouros que não dizem muito a ninguém, e chego amiúde a raízes originais impregnadas de cultura tupi, o fim da linha para quem foi ou apenas o começo para quem volta. Trabalho o efeito do tempo na matéria, o que torna as velharias o meu ponto de partida constante. Perpasso, através da biografia dos objetos, ocorrências regulares e tragédias, aletra para identificar o momento exato em que o sopro cruel que a todos assombra apaga impiedosamente a chama que mantém a vida. (p.10)”
... com certeza meus olhos estão brilhando muito nesse momento. :)
Muito obrigada pela cortesia editora Tordesilhas, muito obrigada Antonio Cestaro, estou feliz de novo!
Em tempo:Uma coisa que quero deixar de deixar bem claro é que, já que esse livro chego até mim porque comentei o ótimo romance do Marcelino Freire, devo dizer que para mim o Antonio Cestaro faz um uso muito mais elaborado da linguagem literária do que o próprio Freire (pelo menos no romance "Esses Ossos"). Me lembro de quando comecei a ler o "Ver:Amor" do David Grossman com certa má vontade, achando que leria mais um depoimento sobre a crueldade do holocausto, mas me deparei com outra coisa: um texto literário, e dos melhores!
Em tempo:Uma coisa que quero deixar de deixar bem claro é que, já que esse livro chego até mim porque comentei o ótimo romance do Marcelino Freire, devo dizer que para mim o Antonio Cestaro faz um uso muito mais elaborado da linguagem literária do que o próprio Freire (pelo menos no romance "Esses Ossos"). Me lembro de quando comecei a ler o "Ver:Amor" do David Grossman com certa má vontade, achando que leria mais um depoimento sobre a crueldade do holocausto, mas me deparei com outra coisa: um texto literário, e dos melhores!
domingo, 20 de março de 2016
As crianças e Deus em Janusz Korczak e Pedro Bloch?
Janusz Korczak era judeu, só que não foi uma pessoa religiosa, mas vejam que interessante, ele achava que as crianças precisavam acreditar em Deus e rezar, especialmente aquelas crianças com conviveu e junto das quais morreu num campo de extermínio num campo de concentração nazista. Antes disso ele escreveu o livro chamado "A sós com Deus - orações dos que não oram", que ainda não li, mas talvez ele me interesse, porque está no site da editora que "Não se trata de um livro convencional de preces, mas de uma proposta de análise psicológica de nossas relações com Deus. Korczak se coloca no lugar de uma criança, de uma mãe, de um cientista, de um artista, de um jovem, de um velho - e assim por diante - que fazem suas orações a Deus, cada qual com seus conflitos, ansiedades e maneiras de ser. Os textos são poéticos e provocam uma reflexão sobre as nossas relações com o divino.", e o Pedro Bloch, que também era judeu, não sei ainda de praticante, escreveu um livro (que ainda não li ) chamado "Deus é um só", publicado no ano em que ele morreu (2004). São tantas aproximações entre os dois... ainda vou desvendar esse mistério, por enquanto só a intuição e a pergunta: se houve alguma, qual teria sido, realmente, a relação entre Janusz Korczak e Pedro Bloch?
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sábado, 19 de março de 2016
MORO É O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS, por Sidney Chalhoub
(O artigo abaixo foi escrito pelo professor e historiador Sidney Chalhoub. Ex-Unicamp, Chalhoub leciona agora História da América Latina e do Caribe na universidade de Harvard e foi copiado daqui. )
MORO É O ALIENISTA DE MACHADO DE ASSIS.
POR SIDNEY CHALHOUB, DE HARVARDItaguahy é aqui e agora, diria talvez Machado de Assis, ao observar o ponto ao qual chegamos. Ao inventar Simão Bacamarte, o protagonista de “O alienista”, Machado mobilizou sem dúvida referências diversas, tanto literárias quanto políticas. Parece certo que se inspirou também em personagens históricas concretas, ou em situações de sua época que produziam tais personagens.Na década de 1880, habitante da Corte imperial, ele assistia havia décadas à ciranda infindável de epidemias de febre amarela, varíola, cólera, etc. e a luta inglória dos governos contra tais flagelos.O pior da experiência era que o fracasso contínuo das políticas de saúde pública, ou da higiene pública, como se dizia com mais frequência, provocava, paradoxalmente, o aumento do poder de médicos higienistas e engenheiros. Esses profissionais se encastelavam no poder público munidos da “ciência” e da técnica que poderiam renovar o espaço urbano de modo radical e “sanear” a sociedade.Demoliam-se casas populares, expulsavam-se moradores de certas regiões, reprimiam-se modos de vida tradicionais, regulava-se muita cousa sob o manto do burocratismo cientificista. E as epidemias continuavam.Machado de Assis refere-se a esse quadro como “despotismo científico”, em “O alienista” mesmo, ao descrever “o terror” que tomara conta de Itaguahy diante das ações de Bacamarte. Havia inspetor de higiene e engenheiro da fiscalização sanitária a agir com convicção de Messias, cheios de autoridade, inebriados de seus pequenos poderes.Simão Bacamarte, portanto, é desenhado d’après nature, para usar a expressão daquele tempo meio afrancesado, por mais caricatural que a personagem possa parecer. A arte imita a vida, segundo Machado de Assis, quem sabe. A estória que contou é conhecida por todos, talvez uma das referências intelectuais clássicas mais compartilhadas nesta nossa república da bruzundanga.Por isso é uma estória boa para pensar a nossa condição coletiva, Brasil, março de 2016. Bacamarte queria estabelecer de maneira objetiva e irrefutável os limites entre razão e loucura. Conseguiu amplos poderes da câmara municipal, dinheiro para construir a Casa Verde, seu hospício de alienados, e passou a atuar como que ungido por suas convicções científicas.Ao contrário do que imaginara inicialmente, encontrou uma diversidade assombrosa de loucos. Se o eram mesmo, continuam conosco, como os impagáveis loucos “ferozes”, definidos apenas como sujeitos grotescos que se levavam muito a sério. A galeria de loucos que tinha a mania das grandezas é quiçá a mais relevante em nossa situação atual. Havia o cara que passava o dia narrando a própria genealogia para as paredes, aquele pé rapado que se imaginava mordomo do rei, e outro, chamado João de Deus, propalava que era o deus João.O deus João prometia o reino do céu a quem o adorasse, e as penas do inferno aos outros. Ainda hoje em dia Simão Bacamarte acharia material humano de sobra para encher a Casa Verde. Se ampliasse a pesquisa para a internet, ele teria de investigar a hipótese de a loucura engolfar o planeta inteiro.Afinal, segundo ele, “a razão é o perfeito equilíbrio de todas as faculdades; fora daí insânia, insânia, e só insânia”. Ou talvez não. Se Bacamarte lesse e visse a grande mídia brasileira, é possível que concebesse um conceito mais circunscrito de alienação mental. Sem a cacofonia virtual estaríamos expostos apenas à monomania de uns poucos, e a diversidade de opiniões é sacrossanta nesta nossa hora. Bendita internet.O messianismo cientificista de Bacamarte se foi. Mas o curioso é que a ficção dele criou raízes na história brasileira, virou realidade. Muitos dentre nós, de cabelo bem grisalho ou até nem tanto, lembrarão da situação do país no final dos anos 1980 e no início da década seguinte, a viver a passagem sem ponte da ditadura para a hiperinflação.Em retrospecto, penso que havia um quê de continuação da ditadura naqueles planos econômicos todos que produziram até uma nova caricatura de Messias, o caçador de Marajás. Agora a população não era mais culpada de viver na imundície e nos maus costumes, a causar epidemias de febre amarela.No entanto, estava inoculada pelo vírus da cultura inflacionária. Daí vieram os czares da Economia ou ministros da Fazenda, ou que nome tivesse aquela desgraceira. As “autoridades” daquela ciência cabalística confiscavam poupança, congelavam preços, nomeavam “fiscais” populares dos abusos econômicos, podiam fazer o que lhes desse na veneta. Mas dava errado.A inflação voltava, os caras não acertavam. Vinha outro plano, mais confisco, mais arrocho salarial, e nada. Viveu-se assim por uma década, ou mais. Cada ministro era um pequeno deus, cujo poder tinha relação direta com a sua profunda ignorância sobre o que fazer para dar jeito na bruzundanga.Os higienistas do final do século XIX e os economistas do final do século XX tinham muito em comum. Em algum momento, o despotismo econômico se foi. Tinha de passar, passou. Tivemos democracia por algum tempo, com todos os seus rolos, mas sem salvadores da pátria, o que era um alívio. Livres, ainda que sob a batuta do deus Mercado, uma espécie de messianismo sem Messias, ou sem endereço conhecido.Eis que surge, leve e fagueiro, o messianismo judiciário.De onde menos se esperava, a cousa veio. Simão Bacamarte encarnou de novo, vive-se a história como a realização radical da ficção, hiper-ficção. As operações de despolitização do mundo são as mesmas –no despotismo científico do XIX, no despotismo econômico do XX, no despotismo judiciário do século XXI.De repente, num processo que historiadores decerto explicarão no futuro, com a pachorra e a paciência daqueles que não vivem o presente às tontas, pois não sabem esquecer o passado, um determinado poder da república se emancipa dos outros, se desgarra, engole tudo à sua volta. Em nome da imparcialidade, da equidade, da prerrogativa do conhecimento (tudo igualzinho aos higienistas e aos economistas de outrora), eles provincializam a nação inteira, e negam, a cada passo, o que professam em suas perorações retóricas: agem de forma partidarizada, perseguem determinados indivíduos e organizações, transformam a sua profunda ignorância histórica num poder avassalador.Todos sabemos como terminou a estória de Simão Bacamarte. Depois de testar tantas hipóteses, de achar que a loucura poderia quiçá abarcar a humanidade inteira, ele concluiu que o único exemplar da espécie em perfeito equilíbrio de suas faculdades mentais era ele próprio.Por conseguinte, o anormal era ele, alienado só podia ser quem não tinha desequilíbrio algum em suas faculdades mentais. Bacamarte trancou-se na Casa Verde para pesquisar a si próprio e lá morreu alguns meses depois. Pode ser que haja aí um bom exemplo. Alguém saberia dizer, por favor, onde Machado de Assis deixou a chave da Casa Verde?P.S. A semelhança entre Simão Bacamarte e um determinado juiz de província do Brasil atual me foi sugerida por um amigo aqui de Harvard, a quem agradeço pela inspiração. Obrigado a todos aqueles que saíram às ruas, neste 18 de março, em defesa da democracia.
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terça-feira, 15 de março de 2016
Gabriel Sater pela série INSTRUMENTAL SESC BRASIL
Ontem, dia 14 de março, tive uma cia afins e assistimos ao show do Gabriel Sater pela série INSTRUMENTAL SESC BRASIL e, além dele, o show também foi muito bonito. É claro que o Gabriel é mesmo a cara do pai, mas é mais hibrido e jovem, uma espécie de Almir ainda verde (só pensei "como ele ainda pode melhorar'), mas o sujeito toca muito bem. E vale muito a pena assisti-lo ao vivo, tem carisma e legitimidade... percorremos vários momentos da carreirinha dele (um passado recente, atualidade e também um tema que integrará um disco futuro). Foi muito gostoso ter passado aqueles minutos ouvindo aquele som e compartilhando aquela energia. Valeu demais!
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sexta-feira, 11 de março de 2016
"A respeito dos Cadernos de Guimarães Rosa e o questionamento da História" Camila Rodrigues
Enfim eu escaneei meu artigo "A respeito dos cadernos de Guimarães Rosa e o questionamento da História" que foi publicado no livro "Compêndio de Crítica Genética na América Latina" (2015) . Escaneei porque quero usá-lo como um dos textos de apoio para o minicurso que ministrarei em junho. Eu tenho ele em PDF, mas para socializar, tentei colocar em imagens no blog, se ficar muito ruim de ler, por favor solicitem a versão PDF. Grata!
terça-feira, 8 de março de 2016
No dia Internacional da Mulher, abordo as MULHERZINHAS DO ROSA
Nesse slide que apresentei na defesa da tese vemos a representação gráfica de três delas (Nhinhinha, Brejeirinha e Fita Verde). A quarta, Dajaiai, até hoje não possui uma imagem além das palavras de Rosa ...
Como amo essas meninas!
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