Um grande amigo meu, sabendo da minha paixão por Van Gogh, me marcou nesse vídeo no Facebook e eu achei a coisa mais linda! Adorei mesmo! Eu acho exatamente isso que o critico disse de Van Gogh: É o melhor por muitos motivos, mas especialmente porque para retratar a dor a transformou em beleza imensa e poucos souberam fazer isso. Outro que também é assim é o Guimarães Rosa, que conta as histórias mais terríveis, mas sempre encharcadas de lirismo... enfim.
Surpreendendo muita gente, uma das questões do ENEM 2017 problematizava uma música dos Racionais MC's. Fim de Semana no Parque é talvez a música mais conhecida dos Racionais e hoje eu ainda me pergunto como foi que eles conseguiram tocar tanto no rádio (sim, no fim dos anos 1990 se ouvia rádio) e essa popularidade com essa música tão não comercial, tão questionadora, tão difícil de ouvir ? Acho um fenômeno ainda sem explicação. É como se houvesse uma força da natureza que dissesse que todo mundo ia ouvir e gravar na memória esse som que "ninguém gosta". E que é assim mesmo, não é feito para agradar.
Já faz tempo que os grandes processos seletivos como vestibular e ENEM abordam a canção popular no Brasil, não é para menos, afinal essa é quase uma instituição nacional e seria muito mais dificil do que já é entender esse país sem passar por ela. Mas agora falamos de outra coisa, bem diferente: Não se trata mais apenas de problematizar a "instituição" canção no Brasil, aliás é muito ao contrário disso: Vamos problematizar também esse retorno propositadamente difícil de ouvir, como diz ESTE TEXTO marcante de Maria Rita Kehl é cheio de consoantes que pipocam no ouvido como tiros de balas, sem tantas vogais melódicas com as quais sempre adoramos nos identificar. Acho um marco, quase tão inexplicável quanto o fato de lembrar que quem era adolescente na época e que não ouvia RAP como eu, ainda saberem de cor Fim de Semana no Parque, mais de vinte anos depois.
Ano passado se falou muito do Nobel de literatura ganho por Bob Dylan por suas canções e passou-se a perguntar que se agora canção também é literatura, quem devia ganhar no Brasil? Ai surgiam aqueles nomes de sempre Chico Buarque, Cartola, Tom Jobim, etc...todos esses que já aparecem nas provas, com toda a legitimidade. Me lembro bem que eu e poucas pessoas dissemos na lata: Mano Brown devia ganhar! Sim, Mano Brown dos racionais mesmo (não aquele delicioso de Boogie Naipe e black music) ! Pensei no Brown justamente porque aquilo que ele faz é música, mas não é canção, é o seu oposto, é um texto que canta não mais lirismo, mas sons duros e quase impossíveis de escutar , acessa locais não muito doces, incomoda e literalmente joga na nossa cara tudo que a gente rejeita mas também é o que somos como brasileiros, por isso precisamos escutar e guardar. Acho arrepiante a força que isso tem. Este também é o som da resistência dos negros no Brasil atualmente e também é o que somos, apesar do quão difícil é reconhecemos isso!
Ilustração de Valéria Saraiva, para o livro Bruna e a galinha d'angola, de Gercilga de Ameida
"- Vó, por que a Conquém (galinha d'angola) está junto com o pombo e o lagarto neste panô?
-Bruna, minha querida,conta a lenda da minha aldeia africana que estes foram animais que vieram ajudar a Conquém na criação do mundo e de meu povo. Conquém espalhou a terra quando desceu do céu para a Terra, o lagarto desceu para ver se a terra estava firme e o pombo foi avisar aos outros animais que já podiam descer para habitar naquele lugar. Esta é a história da criação do mundo que minha avó já me contava enquanto eu pintava panôs como este."
Gercilga de Ameida no livro "Bruna e a galinha d'angola" (Rio de Janeiro, EDC e Pallas Editora, 2011)
Ganhei esse disco quando completei 18 anos, há 20 anos e ouvido hoje percebo que ele continua DEMAIS! É um disco para ouvir inteirinho, ainda agrada do começo ao fim. Ouvindo todo eu percebendo que as críticas sociais continuam valendo tanto quando há 20 anos : a miséria da mendicância, o racismo, a violência do uso de armas... se fosse um disco lançado hoje, estaria super atual. Raridade isso!
"A experiência do sagrado é uma experiência muito profunda, muito sincera, tem a ver com o sentido da vida, então quando você é limitado, quando você é violentado simplesmente por exercer a sua fé, é o seu íntimo que está sendo violentado, é a sua verdade mais profunda" Henrique Vieira (pastor e professor)
Não vou entrar no debate a respeito do pensamento do Jessé Souza ou o seu papel como interprete do Brasil ou mesmo na História da esquerda brasileira, mas compartilho esta entrevista porque, como historiadora, acho sempre válido ler. Dela, me chamou especial atenção essa parte
"Qual o tamanho da redução da desigualdade no Brasil durante os governos Lula e Dilma, período que você também dirigiu o IPEA ?A redução pra mim foi real, especialmente quanto aos aumentos reais do salários mínimo. Isso é que foi decisivo. E principalmente aqui no Nordeste, com o bolsa-família. Mas essas coisas, quando você só pensa no dado econômico, tornam pesquisas sempre mancas. Porque você não percebe coisas muito mais importantes. Mais importantes do que dinheiro é você abrir espaço para quebra de privilégios, romper privilégios. Por exemplo, você romper o privilégio do acesso ao ensino universitário é muito mais importante do que qualquer medição monetária dessa, porque você está abrindo espaço novo para o futuro e importante porque o conhecimento é o único capital efetivamente democratizado no contexto capitalista. E o fato do Governo do PT ter feito 400 escolas técnicas, várias universidades, aumentar de 3 para 8 milhões os estudantes, obviamente foi o motivo dele ter caído. Não tem nada a ver com corrupção. Se fosse corrupção essa classe média coxinha tinha saído agora às ruas. É óbvio, isso é método comparativo das ciências sociais. Se fosse corrupção agora, com comprovações muito mais explicitas… mas pessoas continuam soltas e a coxinhada estaria em peso nas ruas. Cientificamente não foi a corrupção. O que foi então ? Foi a redução da distância entre as classes. A corrupção é um mero pretexto."
Essa pergunta e a resposta certeira (porém dolorosa) de Jessé, evidenciando aquilo que vemos acontecer todos os dias no Brasil de Temer: a crise na educação brasileira é um projeto, como disse Ribeiro ... E foi ela, através da expansão e da facilidade de acesso ao ensino superior por classes mais baixas nos governos Lula e Dilma, que Jessé julga ter sido a responsável pelo maior esgarçamento da hierarquia social.
É muito terrível ver que, pelo menos nessa parte, Jessé tem razão.