quarta-feira, 10 de julho de 2019

Caetano lê poema Logun Edé, de Eduardo Brechó

Logun Edé
Nos contam os mitos, e uma canção de Caetano, que  Logun Edé é o "menino Deus de corpo azul dourado", 
filho de Oxum Ipondá e Oxóssi Inlè ou Érinle.
No vídeo Cae lê poema de Eduardo Brechó, um poeta negro,
cuja obra cultua os orixás, membro da banda Aláfia.
Neste poema ele trata de Logun Edé: 



COISA MAIS LINDA! 

sábado, 6 de julho de 2019

Morre João Gilberto!


Gênios não morrem. Apenas o corpo de João Gilberto descansou em paz, livrou-se das brigas pelo seu espólio, descansou.
O legado imenso fica para quem sabe ouvir, pois, nas palavras de um de seus maiores admiradores, Caetano Veloso:

"Melhor do que o silêncio, só João"
Dai Cae se manifestou, primeiro ao saber da notícia : 

Depois, refletindo melhor, mas mantendo a dor incomensurável da perda: 
VIVA JOÃO GILBERTO!

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Santiago Itália: Moretti faltou ao encontro, mas a História compareceu

cartaz


Eu gosto do  Nanni Moretti, seja como ator ou diretor de cinema, posso dizer que seus filmes pontuam momentos fortes da minha vida, a ele associo narrativas leves.  

Apenas inspirada nesse histórico, fui assistir ao seu novo filme como uma naufraga que precisa sobreviver. Eu queria uma  uma narrativa ficcional para não morrer de excesso de realidade, como a personagem Cecilia de  A Rosa Púrpura do Cairo , de Woody Allen. A esse encontro, Moretti não veio, mas a História compareceu.

 Logo no início do filme, percebi que se tratava de um  documentário. E era um tradicional, composto quase que exclusivamente por depoimentos de ex presos políticos na ditadura chilena na década de 1974, sem muitos diálogos com o diretor, como tão bem fazia Eduardo Coutinho, ao qual mal comparo com seu Edifico Master, cujo tema e cenário era um prédio e o conteúdo centrava-se nos depoimentos de deus habitantes.
No caso do filme de Moretti, o tema e também personagem principal da película, é a embaixada italiana durante a ditadura chilena. Moretti parece querer extrair dos seus depoentes falas sobre como aquela instituição foi importante para que conseguissem passar por aquela realidade autoritária extrema, porque, ao contrário do que nos contam os noticiários atuais, nem sempre a Itália foi hostil aos refugiados.
Pensando na História do mundo,  esse filme é muito importante, pois discute um tema atualíssimo. Analisando como brasileira, ele também tocou fundo, não tanto pela dureza de seu conteúdo, pois, como historiadora, conheço muitos depoimentos de antigos presos políticos que foram torturados na ditadura civil militar brasileira muito mais duros e intragáveis, inclusive colhidos pela Comissão Nacional da Verdade,  mas no filme italiano,  a História do golpe de Estado no Chile, os primeiros momentos, as dinâmicas da população e reações relembradas se parecem tanto com algumas coisas que vimos acontecer aqui no Brasil, não mais na ditadura, mas agora, desde 2016. Lamentável e preocupante.     


Enfim, recomendo que assistam a esse filme. e assistam agora, porque é do momento atual que ele está tratando.

domingo, 30 de junho de 2019

Um monólogo de "Dor e Glória", de Almodovar

Asier Etxeandia interpreta Albarto Crespo

No filme  "Dor e Glória" de Pedro Almodóvar, um momento impactante é quando o basco Asier Etxeandia, no papel do ator Alberto Crespo,  interpreta um belo  monólogo do cineasta em declínio Salvador Mallo.

Em frente ao fundo vermelho vivo, comum ao Almodóvar tradicional (mas quase inexistente em Dor e Glória, quando os vermelhos tendem mais para o vinho), conta uma história de amor homossexual adolescente, que imediatamente me lembrou o conto "Frederico Paciência", de Mário de Andrade. Mais tarde, no filme, ficamos sabendo que uma das personagens que teriam dado origem ao monólogo se chama Frederico.


Coincidência deliciosa, né?
Vamos ver um breve trecho do monólogo, para nos deliciarmos?




"Estávamos em 1981 e Madrid era nossa!"

sábado, 29 de junho de 2019

Dor e Glória : O Outono alaranjado de Almodóvar

Um registro perdido no tempo

Nesta última semana assisti  mais um filme de Pedro Almodóvar, o  Dor e Glória, na companhia de uma grande amiga e, como sempre, foi uma baita experiência. Fazia tempo que não ia ao cinema  e sobretudo fazia tempo que não via um Almodóvar, por isso praticamente pedi a uma amiga, que tem o mais belo olhar sobre as coisas que eu conheço, para assistir comigo. Fomos no famoso cinema da Augusta, hoje Cine Itaú, o antigo Espaço Unibanco e regressar àquele lugar que foi tão meu, onde vivi tantas experiências cinematográficas, foi como voltar a uma vida que eu achei que não existisse mais, mas ela existe e eu posso participar dela, ainda.
 Sobre o filme, deixei passar alguns dias, para o impacto esfriar um pouco e ainda acho que poderia falar de alguns temas interessantes, como os atores, a questão do desejo, as lembranças da infância, mas sobre tudo isso tantos já falaram com mais propriedade que eu que eu quero apenas deixar um brevíssimo comentário sobre a mudança estética  que eu vi ocorrer  nesta obra .
Continuamos vendo um filme no qual as  famosas "cores de Almodóvar", por si só, já dizem muito e são, sem dúvidas, personagens da película. Mas estas estão diferentes. Os tons mais usados são os azuis  e os vermelhos, mas ambos se apresentam mais frequentemente em tons  menos quentes do que de costume. Seja na caverna onde o personagem principal morou quando menino, ou na casa mal iluminada que vive na maturidade para afastar as crises de enxaqueca, a luz, que destaca a cor, é economizada, como se estivéssemos mesmo num alaranjado pôr do sol.
Seria o outono da cinematografia de Almodóvar?Vejamos algumas imagens:




Cores se diluem no começo do filme.
A mãe: flores

O reencontro: tons mais claros
Paisagens oníricas: vermelho e Amarelo formando o alaranado pôr do sol



Muito azul e vermelho em todo o cenário


Azul e vermelho na casa



A infância: pontos vermelhos
Edoardo: O desejo é um espaço em branco



segunda-feira, 24 de junho de 2019

Ainda a biografia de Martinho da Vila : a ancestralidade tomando o corpo social dos afrodescendentes

Na bio de Martinho, p. 100: Martonho com Mãe Teresa e
 Ruça na Folia de Reis, em Grajau ( sem data)nar legenda

Continuo lendo a bio do Martinho da Vila nas tardes de segunda feira e adorando.
Como já tinha deixado claro, Martinho é uma figura que muito me encanta, é um  sucesso, um sambista, um autor,  um militante, um negro que deu certo! Fequentemente, ao saber mais sobre os seus feitos, me emociono.
Hoje li mais sobre a presença da herança angolana nas composições musicais de nossos sambistas
Primeiro sobre de uma composição chamada Semba dos Ancestrais, que é do tipo que arrepia até a alma, especialmente a letra
Se teu corpo se arrepiar
Se sentires também o sangue ferver
Se a cabeça viajar
E mesmo assim estiveres num grande astral
Se ao pisar o solo teu coração disparar
Se entrares em transe em ser da religião
Se comeres fungi, quisaca e mufete de cara-pau
Se Luanda te encher de emoção
Se o povo te impressionar demais
É porque são de lá os teus ancestrais
Pode crer no axé dos teus ancestrais (Martinho da Vila Semba dos Ancestrais)
 Chama-se semba um ritmo angolano  que foi dos que originaram o nosso samba e nesta composição aparece em sua melhor forma:


Mas Martinho estava habituado à vivência da herança africana no Brasil e isso é louvado de muitas outras formas e seu trabalho. Segundo sua biógrafa Helena Theodoro, no disco Canto das Lavadeiras (1989), Martinho  homenageia as congadas, como forma de ocupação do espaço social pelos afrodescendentes. Nesse contexto, fez o Brasil inteiro cantar sua adaptação do canto da congada de Barra do Jucu no Espirito Santo. Quem não se lembra de Martinho cantando essa? 
De arrepiar, não acham?

sexta-feira, 21 de junho de 2019

Odilê Odilá: Martinho da Vila e João Bosco

Continuo lendo a bio do Martinho da Vila, e agora achei um trecho que trata do meu querido João Bosco. Eu sabia que João, dentre os músicos mineiros que se tornaram universais, ao contrário da galera do Clube da Esquina, que requintaram na harmonia, aproximou-se dos sons dos pretos e atribuía a isso músicas como Odilê Odilá. 
Mas na bio do Martinho soube que esta foi composta durante um passeio deles pela gelada madrugada de Sampa, quando encontraram uma baiana vendendo acarajé, que lhes gritou Odilê e ofereceu uma cachacinha pra esquentar, gesto que responderam com Odilá e uma batucadinha! Segundo a biógrafa Helena Theodoro:
Martinho da Vila: Reflexos no espelho, p. 92
Isso é muito História Cultural brasileira!