quinta-feira, 26 de setembro de 2019

Começando a ler "Cinzas do Norte", de Milton Hatoum

Capa dura

SOBRE "CINZAS DO NORTE" - Muita expectativa para mais um romance de Hatoum, nessa maratona deliciosa e complicada. Tendo amado "Relato de um certo oriente" e sobretudo "Dois irmãos", livros nos quais me identifiquei de forma amarga, com o "Cinzas..." está sendo diferente. Talvez porque o livro demorou a chegar; talvez porque, ao contrário da minha predileção (embora, inexplicavelmente, eu tenha escolhido essa edição) ele não ser de bolso e ter até capa dura, dai ser literalmente mais duro, como se fosse inalcansável... mas, as palavras menos poéticas, a leitura dói menos no coração. Talvez me afaste o tema, ditadura militar, muito provavelmente me desagrada a falta de certo "oriente" que temperou os outros romances, esses detalhes não me deixaram ainda mergulhar no livro. Na maratona de leitura de Hatoum, talvez eu precisasse estar agora de fronte a essa obra mais racional, o pequeno "Relato..." foi muito lá no fundo , foi lido e relido e ainda está sendo digerido. Ainda vou escrever sobre como meu vi retratada nos dois primeiros romances de Hatoum e isso não foi nada agradável.Sigamos, sigamos.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Bacurau : Catarse e oxigênio para o Brasil de 2019


Na sexta, 20 de setembro de 2019 , estaria passando "Era uma vez em Hollywood" do Tarantino  no Cinesala (a preços populares), filme que eu assisti assim que foi lançado, e eu queria ir ao cinema, mas como nunca revi um filme do Tarantino inteiro, deixei a oportunidade para outros assistirem e fui ao  Cinecesc, como de costume,  sem saber o que ia assistir, chagando lá vi que a última sessão seria Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles), ai já comecei a me preparar psicologicamente pra ADORAR , porque a pressão para que a gente goste (vinda de pessoas que admiramos) é muito forte, então me perguntava "e se eu não gostar? Sobreviverei?". Havia a possibilidade, enfim. 
Sai do cinema pensando que, numericamente, Bacurau tem muito mais mortes do que o novo do Tarantino (que neste último estava mais leve), mas a catarse é a mesma: o cinema todo (inclusive eu), em algum momento, acabou critando "morre FDP"

Foi impossível não sair de alma lavada do cinema, é uma resposta para o Brasil atual, com mensagens diretas e claras, mas também com um simbolismo complexo, que alguns não conseguiram ou não quiseram perceber. 
Depois de assistir, vi alguns, não muitos, vídeos sobre no Youtube, gostei muito deste do Spartakus Santiago, ou esse do Meteoro e  do canal Mixido. Mas uma crítica muito rasa  que eu eu encontrei  no texto "Bacurau:: Celebração da barbárie"  de Eduardo Escorel, que precisei comentar.
Em principio, eu  também me senti pressionada a amar acriticamente o filme antes de ver, vai que eu não tivesse gostado? Boas colocações , mas do jeito como está ali,  acho essa crítica muito rasa. É verdade que a violência extrema assusta (o que me fez lembrar o velho Tarantino, e nem sei se essa é a melhor opção para um filme, mas como é que alguém que escreve uma crônica em uma revista como a Piauí, não faz nenhuma menção às lutas da história do povo nordestino (que , como toda história. não é lá , muito pacifica), como esquecer da história de Lampião e da imagem icônica das cabeças do grupo expostas pelo Estado como exemplo do que não fazer ? Como falar de guerra sem violência? 
Cabeças dos cangaceiros expostas em Santana do Ipanema/AL
Fonte: Livro " Lampião e as Cabeças Cortadas, pg. 204, Antonio Amaury e Luiz Ruben.

Será mesmo que, ao abordar esse tema , os diretores de Bacurau querem só fazer filme para inglês ver, e não há nenhuma justificativa para tanto? Tantas perguntas as de uma historiadora que lê, e leu muita história, muita literatura (de Guimarães Rosa a Graciliano Ramos), ouviu muitas canções brasileiras, das singelas às mais bélicas...
Sobre a trilha sonora de Bacurau, falam muito da bela canção Réquiem para Matraga , de Vandré, mas para mim ela sempre estará relacionada ao filme para a qual a música foi composta, A Hora e a vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos (1965), e para mim é à melhor adaptação de Rosa para o cinema, Mas em Bacurau, logo no começo do filme, quando a gente ainda nem sabe realmente do que se tratará, ai toca "Objeto não identificado" nesta versão quase inteirinha... uma as canções mais fofas ever, eu me deliciei demais ...só depois ficamos sabendo que o buraco é mais embaixo... de qualquer forma, achei esta a cena mais bonita do filme.
Um último comentário : Tantas vezes foi oferecido aos forasteiros que visitassem o Museu Histórico de Bacurau. Acho que devem ter se arrependido das negativas. A história pune.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

A Chave da memória nas estórias de "Relato de um certo oriente"

Capa de Jeff Fisher, para edição de bolso,
Cia das Letras,  2008

Li "Relato De Um Certo Oriente" (1989) porque, depois de conhecer o excelente "Dois Irmãos"(2000), queria mesmo mergulhar na escrita de Milton Hatoum: cortante e poética. No livro uma narradora (da qual não sabemos o nome), depois de vinte anos vivendo no Sul, volta a sua cidade natal, Manaus e, a pedido do seu irmão caçula, que está vivendo em Barcelona, propõem-se a  lhe  relatar em detalhes como estão as coisas e as pessoas com quem conviveram quando crianças, desde quando sua mãe biológica os deu para serem criados pela matriarca libanesa Emilie e, a partir de então, passaram  a fazer parte da família.

Comecei a ler o romance em 29 de agosto 2019, há menos de um mês,  na sala de espera do Icesp, enquanto esperava minha mãe terminar um tratamento, ai li  o primeiro capítulo e, mesmo conhecendo a escrita de Hatoum, foi um choque,  o tempo todo tive a  certeza de que vou querer  reler, vou querer mergulhar mais naquela densidade,  quando estiver longe de conversas, som de TV, aviso de troca de senha. A escrita de Hatoum é muito trabalho de ourivesaria e nisso me lembra muito Rosa.

Como em Dois Irmãos, somos jogados em Manaus, mas que neste texto a cidade aparece  menos urbana que no outro livro , os lugares que servem de "cenário" a esta história são mais privados, lugares de memória, ou importantes para a família, como a loja A Parisiense, ou a luxuosa casa da matriarca Emilie, onde a narradora passou a infância e que, em certo momento, chama de  "cidade imaginária, fundada numa manhã de 1954" (p.10)

Sobre a cidade como local público, o curto livrinho, fala pouca coisa, mas um trecho muito lindo, todo ele centrado no rio como elemento principal da cidade  , aparece :
"Eu não queria ser uma estranha, tendo nascido e vivido aqui .Procurava caminhar sem rumo, não havia ruas paralelas, o traçado era uma geometria confusa, E O RIO ERA O PONTO DE REFERÊNCIA, ERA A PRAÇA E A TORRE DA IGREJA QUE ALI INEXISTIAM" (...) decidi retornar ao centro da cidade por outro caminho: queria atravessar o igarapé dentro de uma canoa, VER DE LONGE MANAUS EMERGIR DO RIO NEGRO, LENTAMENTE A CIDADE DESPRENDER-SE DO SOL, DILATAR-SE A CADA REMADA, REVELANDO OS PRIMEIROS CONTORNOS DE UMA MASSA DE PEDRA AINDA FLÁCIDA, EMBAÇADA. (...)COMO SE EU TIVESSE FICADO MUITO TEMPO NA CANOA. TIVE A IMPRESSÃO DE QUE REMAR ERA UM GESTO INÚTIL: ERA PERMANECER INDEFINIDAMENTE NO MEIO DO RIO. DURANTE A TRAVESSIA ESTES DOIS VERBOS NO INFINITIVO ANULAVAM A OPOSIÇÃO ENTRE MOVIMENTO E MOBILIDADE" (p. 110)
Gosto deste trecho pela bela imagem de Manaus emergindo das águas do rio Negro, que seria o grande ponto de referência de lá, e também gosto da ideia de se colocar numa canoa no meio do rio (seria uma imagem literária da própria vida), que mesmo que você não reme, te leva a algum lugar ...

Mas o livro é sobre memória e narrativa (historiadores piram)  e  nos presenteia com trechos assim 

"...tio Hakim continuava falando, e só interrompia a fala para rever os animais e dar uma volta no pátio da fonte. onde molhava o rosto e os cabelos; depois retornava com mais vigor, com a cabeça formigando de cenas e diálogos, COMO ALGUÉM QUE ACABA DE ENCONTRAR A CHAVE DA MEMÓRIA. " (p.71)

O livro, portanto, trata de memórias (discurso fragmentado, assim como a narrativa oral), a narradora, além de se lembrar, busca ouvir narrativas de outros, até entre aspas mesmo,  para compor seu "relato", configurado a partir de tantos depoimentos:

"Tantas confidências de várias pessoas em tão poucos dias ressoavam como um coral de vozes dispersas. Restava então recorrer à minha própria voz, que planaria como um pássaro gigantesco e frágil  sobre as outras vozes. Assim os depoimentos gravados, os incidentes, e tudo o que era audível e visível passou a ser norteado por uma única voz, que se debatia entre a hesitação e os murmúrios do passado. "(148)

Mas  como narrar estas memórias? Para compor seu relato de um certo oriente, certo porque é um pedaço dele que floresceu aqui no norte do Brasil, um oriente manauara,  o descendente de libaneses Hatoum, recorre às "1001 Noites" , escrevendo para ela uma  apologia, afirmando que aquelas narrativas orais  já estariam  incorporadas às biografias de tantos (não sei se posso dizer de todos), que não há relatos sobre oriente que escape delas.

 Relato de um certo oriente  me pareceu mais  denso do que Dois Irmãos, a leitura é mais poética e a prosa não é linear exige extrema atenção, tanto que, mesmo com a leitura já concluída, volto a ele, para rever detalhes , pois o que é importante ali, longe de ser  "o que acontece" na trama, o fundamental é mesmo entrar no ritmo daqueles vários relatos (e uma das graças da leitura é  ir descobrindo quem é que está falando agora)... 

Com tempo devo escrever sobre uma "comparação pessoal" entre os dois romances de Hatoum, mas por hora devo alertar que já comprei "Cinzas do Norte" e  pretendo continuar na Maratona do autor.

domingo, 8 de setembro de 2019

Samba Do Sol homenageou a África

206ª edição 

Em  08 de setembro, o Estrella Galícia  Estação Rio Verde recebeu a 206ª edição do Samba Do Sol celebra a África.
Começando com um dos mais bonitos da história do Samba do Sol:
Um dos mais belos cartazes 

No começo tivemos o Tambor de Crioula, com o Grupo Sarrabulho, trazendo repertório tradicional, com as dançarinas com saias rodadas.
Foto @duleoliveira / Studio Vikings
Foto @duleoliveira / Studio Vikings

Mas a festa só começa mesmo quando o teatro abre e incia-se a Roda de Samba, desta vez comandada pelo  grupo Firma o Ponto - Samba de Terreiro, mesclando samba  tradicional a toques para orixás!
Fima o Ponto 
Foto @duleoliveira / Studio Vikings




Continuando a festa, tivemos a divertida apresentação de Dois Africanos, uma dupla linda de garotos negros muito simpáticos que agradou a todos.
Foto @duleoliveira / Studio Vikings
Além de sua beleza africana, as roupas, a energia, também ensinaram uma coreografia, para não dar pra gente não gostar
Para encerrar,  recebemos o muso da festa, o DJ Sankofa, de Gana.









Residente em Salvador, que trouxe um pouquinho de algumas realidades musicais africanas. Para ele, que é também radialista,  se formos a uma loja brasileira procurar música negra, achamos facilmente sons americanos como o da Beyoncé, mas nada original de África. 
Assim,trouxe um pouco da musicalidade de vários países africanos, tocou uma Semba (origem do samba?). Sobre  influências musicais, percebi  que muitas das batidas ouvidas em trabalhos de  artistas brasileiros, como  o Rincon Sapiência, combinam muito com o som africano. 
Enfim, foi mais uma festa inesquecível, comprovando que o #SambaDoSolÉOMelhorRolê
Foto @duleoliveira / Studio Vikings

 

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sobre minha rejeição ao romance de Saramago

O Homem Duplicado

Se houver algum motivo concreto para essa rejeição, ela tem caráter circunstancial, mas não a encontrei , por isso não vai estar expressa didaticamente aqui. Posto isso, devo dizer que depois de muitos anos fui reler comecei a ler O Homem Duplicado, de José Saramago (minha primeira pesquisa com  História e Literatura), que eu tinha aqui faz tempo, mas nunca tinha lido.  Tenho que dizer que fui ler meio à contragosto, porque estava ainda tentando sair  da sinestésica de Dois irmãos, que tinha me arrebatado, ai tive que me jogar num texto mais real do que poético. 

Eis que eu estava vivendo novamente um dos maiores conflitos da minha vida intelectual, que atingiu seu auge quando me formei em 2003 e tinha acabado minha primeira pesquisa sobre literatura a partir da História, tendo como objeto a obra saramaguiana dos anos 80, e ao afinal  toda aquela relação de causa e efeito me irritou, eu queria outros fatores literários (jogos de linguagem, poesia, memória, o Brasil...),dai ter mergulhado fundo no Guimarães Rosa e não quis mais estudar Saramago. Isso permanece verdade.

Não que o livro de Saramago tenha tanta realidade que deixe ser literário, é literatura e das boas (imagine o duplo de professor de história chamado "Tertuliano Máximo Afonso" que, por sua vez, é ator e por isso seu normal é assumir diversas identidades), é uma baita construção ficional, mas para mim é muito racional  para eu suportar  nesses tempos difíceis, daí que meu eu profundo rejeitou  muito essa leitura agora, mesmo se tratando  de um professor de história, do que eu precisava era de mais prosa poética. 

Seria eu um duplo da leitora apaixonada que um dia já fui?



Não sei, só sei que  terminar a leitura foi um  alívio.  Mesmo que o final tenha agitado um pouco o enredo,até de forma surpreendente, a narrativa quase toda monótona ( como era Tertuliano Máximo Afonso e sua rotina ) ainda reverbera. Como romance, construção literária, tem seus pontos (muitos até) de brilho e o maior deles é mesmo o final, mas o fato é que não me agradou. 

Talvez minha identidade não esteja tão comprometida para me sensibilizar com as alegorias da obra, embora as tenha reconhecido todas, não as compreendi de verdade. Julguei sempre serem apoios narrativos ( tipo, jamais faria nada daquilo se encontrasse um duplo meu).

Resumido, não gostei do livro, mas já não sei se é por possíveis deficiências dele ou por deficiências da minha leitura. Alguém lei e quer me questionar? Estejam a vontade.
 Se não, sigamos com outro livro.

domingo, 1 de setembro de 2019

Meus discos favoritos de Jorge Ben

Capa do primeiro disco de Jorge Ben, 1963

Neste post eu vou comentar rapidamente os meus discos favoritos de Jorge Ben. Não vou falar de parcerias lindas como a com Gilberto Gil em Ogum Xangô (1975), vou me ater a discos solos. Todo mundo, até ele próprio, diz que o melhor álbum de Jorge Ben é a Tábua de Esmeralda (1974), alguns até contestam lembrando o África Brasil (1976) ou A Banda do Zé Pretinho (1978).

Eu acho todos esses maravilhosos, mas não tenho a menor dúvida em destacar que Samba Esquema Novo (1963) é o primeiro e tão genial que depois nem ele mesmo superou.
Se em A Tábua... temos o afrofuturismo, em África Brasil o reconhecimento político do Brasil africano e A Banda do Zé Pretinho o motivo de não se morrer sem ter visto um show do Jorge com toda aquela banda, no primeiro disco temos a herança africana, em seus detalhes, lida à contrapelo e que se salpica em outras canções na obra toda, está meio que super concentrada ali. 


sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Artigo sobre os Dicionários de Humor Infantil de Pedro Bloch

Capas dos dicionários de humor infantil de Pedro Bloch

É com imenso prazer que compartilho com todos a publicação do artigo sobre os dicionários de humor infantil de Pedro Bloch pela Revista de História da USP , que é o melhor texto que produzi durante minha pesquisa de pós doutorado. Trata-se de um material muito divertido, com o qual amei trabalhar. Para ler, acesse aqui.

Espero que gostem.