quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

Amor pré-histórico

A cena do beijo, pintura rupestre registrada na Serra da Capivara (PI)

Em um sítio arqueológico localizado no Parque Nacional Serra da Capivara, no Piaui podemos encontrar a pintura rupestre chamada pelo arqueólogos do parque de  "a cena do beijo" , feita a mais de 12 mil anos. O portal ambiental tur registra ser este o registro de um beijo mais antigo encontrado até hoje.   

domingo, 29 de dezembro de 2019

Art Popular - Agamamou (ft. Jorge Ben Jor)


Eu tinha o áudio, mas agora temos o vídeo, com Jorge Ben dando uma canja no show do Art Popular: AMO MUITO TUDO ISSO! (coloquei as duas versãoes, em MP4 e em link do Youtube, para nunca perdemos essa relíquia!
#OMelhorDoBrasilÉJorgeBen



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sábado, 28 de dezembro de 2019

PRESENTES DE NATAL PARA CAMILA

capas

Porque eu passei  minutos  na loja do  Sesc Bom Retiro ontem, acabei me encantando com as coisas que eles vendem ali e isso  me levou aos dois presentes de natal mais legais para mim. Escolhi dois CD's que sabia serem completamente a minha cara e que estavam muito baratos, saindo R$ 10 e R$ 13.
O primeiro deles é  "Um gosto e Sol" (2011),  onde  Maria Eugênia Melo e Castro interpreta Clube da Esquina.

O disco da fadista  é graficamente uma obra de arte, com relevos e cores inspiradores realçados pelo projeto gráfico  assinado por Rodrigo Guimarães e explica porque, às vezes, é fundamental  ter o CD físico. A escolha das doze faixas  é muito boa :

Um Gosto de Sol
1-"Um gosto de Sol";
2- "Luz e Mistério";
3. "Fruta Boa";
 4-"Sol de Primavera";
5- "Tarde"; 
6-"Cais"; 
7-"Vaga no Azul"; 
8-"Fogo de Palha;
9-"O Cerco";
10-"Dança da Lua"
11-"Maldição"
12- "Vinheta do Bituca"




É  emocionante observar o resumo da percepção de Maria Eugênia a respeito do cancioneiro mineiro,  especialmente as canções eternizadas pelo Beto Guedes e a grande homenagem ao Bituca, o gênio. A voz de Maria Eugênia é doce, ao cantar docemente essas canções da minha vida, me emocionou demais, especialmente quando ela recita o excerto "A Hora Absurda" de Fernando Pessoa ao fim da canção "Cais". Ao fundo, a voz divina de Bituca pontua o CD e fica algo celestial.  Mas apesar de lindo, confesso que  o disco não ficou tão bom de se ouvir, especialmente de você é louco pelas versões mineiras, pois se sente a falta  de um pouco mais do frescor juvenil das versões originais. Mas é preciso entender que estamos diante de uma  homenagem que propõe um filtro fadista àquelas músicas, fica bonito, mas triste demais. 

Já o outro  disco/presente não tem nada de tristeza, é um desbunde musical e também  uma volta ao meu interesse em música instrumental, que andava meio esquecido,  trata-se do álbum  "Duo+Dois" (2019), do  quarteto   formado pelos violonistas do Duofel - Fernando Melo e Luiz Bueno - o percussionista do Clube da Esquina Robertinho Silva e o mestre dos sopros Carlos Malta. Como todo disco de  conjunto instrumental, estamos falando do som mais elegante produzido pelo homem! Nesse caso, as faixas dão um baile ao trazer canções deliciosas do cancioneiro brasileiro, como os afro sambas;Tom Jobim; Edu Lobo; Milton Nascimento; Ronaldo Bastos; Dorival Caymmi; João Donato...   que na interpretação desses mestres, brilham mais: 
Duo+Dois

"Canto de Yemanjá"
"Casa Forte"
"Upa Neguinho
"Ponteio"
"Águá de beber"
"Dindi"
"Cais"
"Marcangalha"
"Medley Emoriô/Bananeira"
"Medley Consolação/ Berimbau"
"Canto de Xangô"


Bom, se tem afro sambas, já bate um orgulho de ser brasileira, com mais Tom Jobim e Clube da Esquina, nem comento. Não paro de ouvir o  disco completo e quero repetir e repetir, o que comprova a veracidade do que diz o crítico musical e autor do blog Alma Negra, Carlos Calado, no encarte do CD:
"Depois de escutar este disco outras vezes, tenho certeza de que a alegria, a liberdade criativa e a fina musicalidade que o quarteto  "Duo+Dois" transmite nessas gravações também vai contagiar muitos ouvintes"
A mim contagiou e muito... parece um show do Instrumental Sesc Brasil, amei!

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

Relembrando 2019 : Faces de Camila em 2019


Relembrando 2019 : Balanço das Metas 2019



Terminando a série “relembramento” do ano e antes de traçar as metas para 2020, tenho que fazer um balanço das metas que tinha traçado para 2019, mesmo em meio à tanta instabilidade, sabendo que o Brasil caminhava rumo a um cenário catastrófico, tracei poucas metas. Será que consegui alcançar alguma?


1-CONTINUAR VIVA: SIM, ESSA CONSEGUI COM LOUVOR, mesmo vivendo num país que está sob um governo que gostaria de exterminar o que eu sou - mulher, negra, historiadora -, e que tantos dos meus tenham sido exterminados esse ano, eu consegui sobreviver e até mesmo consegui  viver, me divertir o um pouco, apesar dos cortes e de tudo de ruim, novamente a retrospectiva do ano foi melhor do que eu esperava ser. Gratidão a Deus, aos Orixás e ao Universo!

2 - ACHAR UM MOZÃO : Meta da vida! Não foi alcançada esse ano, ainda, aliás em 2019 eu estava o tempo todo com o corpo fechado, não tinha condições para me abrir para amores. Em 2020 eu pretendo abrir mais meu coração, mas peço aos pretos que também me ajudem e : MELHOREM!

3- ENCONTRAR OCUPAÇÕES: Por incrível que pareça, esta meta também cumprida. Não da maneira que eu esperava no começo do ano (trabalhando, estudando, escrevendo ou palestrando), mas estive muito ocupada dando um suporte para a minha mãe em seu tratamento de saúde. Só tenho a agradecer pela bênção de terminar mais um ano ao lado de mamãe.

4- AMPARAR MINHA MÃE: Vejam que interessante, quem poderia imaginar que a terceira e a quarta meta iriam se fundir e ambas seriam plenamente cumpridas em um dos maiores desafios que já passei na vida, mas que cumpri junto com ela, com a bênção de Deus e de todos os Orixás!

5- TREINAR BASTANTE: Outra meta cumprida, claro que não como eu imaginei quando tracei essa para o ano, pois nunca imaginava que iria estar tão ocupada, indo em consultas e hospitais o tempo todo, o que me deixava exausta e me fez até engordar um pouquinho pela falta de regras, mas mesmo assim é preciso destacar que não parei de treinar, nenhum momento, mesmo que não tivesse mais aquele pique, ao menos o mínimo para me manter saudável, consegui fazer. Num ano pesado como esse, com tanto hospital envolvido, tenho muito a agradecer por não ter tido nenhum problema com a EM.

Viram só? Não foi tão ruim, na verdade, não mesmo. Bora pensar em quais serão as metas para 2020, em alguns dias !



domingo, 22 de dezembro de 2019

Relembrando 2019: Os melhores do ano de Camila


Tirando leite de pedra de 2019, vamos ver o que consegui destacar de melhor nesse ano que podia nem ter existido:


1 ROLÊ – Esse ano foi o dos roles diferentões, com o final do Todo Domingo Musical na Casa das Caldeiras em maio, eu tive que circular pela cidade atrás daquelas mesmas festas que aconteciam todo domingo aqui no quintal de casa. O Samba do Sol , por ser gratuito, foi muito meu foco e graças a ele conheci o  Espaço Mangaba na Augusta e o Estrella Galicia Estação Rio Verde na Vila Madalena, que por ser perto de casa, virou um  lugar que muito frequentei e onde aprendi me divertir. Mais no final do ano, fui às rodas de samba mesmo na Comunidade do Samba Maria Zélia, no metrô Belém, lugar onde também fui muito feliz, mas de todas as festas, a melhor de 2019 aconteceu mesmo no domingo, 17 de fevereiro de 2019, na Casa das Caldeiras, com o Ensaio pré carnaval do Bloco Lua Vai, organizada pelo coletivo Pardieiro e, gente, o que aquilo? Muito pagode anos 90, muito coração carente, muito calor e ninguém aguentava mais de saudade do carnaval! Que festa inesquecível!

2 MÚSICA - Para ganhar esse prêmio eu tenho que ter ouvido muito essa música durante o ano OU ela, de alguma forma, representasse algo que eu vivi o ano todo. Atendendo a esses dois  critérios teria tido um empate, porque a música que mais ouvi em 2019, em oportunidades distintas (até sonhei com essa música) foi  Temporal Arte Popular, a ela dedico o prêmio de menção honrosa, reforçando que 2019 foi o ano do Pagode 90 na minha vida.  Outra que ouvi e dancei muito nos rolês, nas Caldeiras e também no Rio Verde e que  resumiu minha vida pessoal de 2019, ano em que eu só me defendi dos "boys lixo", foi  CorpoFechado, do  Johnny Hooker (part. Gaby Amarantos). Só esse trechinho define minha postura em 2019:
"Nem vem com esse papo, que eu sei bem quem tu és!
Tu já levou farelo, chora nos meus pés
Tô pouco me lixando em te ver correndo atrás
Não te faz de doido, só te digo vai
Vai me ver dançando
Vai me ver amando
Vai cair pra trás"  

3 LIVRO - Li bastante esse ano. De de Saramago, com o esquisito O homem Duplicado ,à belíssima biografia,do Marinho da Vila Reflexos no Espelho,  mas não tenho como não dar esse prêmio a algum dos romances de  Milton Hatoum , o autor no ano, que me levou tantas vezes à Manaus em diversos tempos e que preencheu meu ano. Poderia dizer que vai ser difícil escolher um deles e  tal, mas não é verdade, apesar de Relado de um certo oriente ter sido um livro que perturbou muito (ainda não consigo entender porque ela enlouqueceu e eu não), Cinzas do Norte ser um baita romance bem estruturado, propriamente dito e até mesmo o mais fraquinho,  Orfãos do Eldorado tenha me deixado saudades, o vencedor é mesmo o romance Dois irmãos, livro excelente, perturbador, cheio de sensações, odores, poesia sobre o qual comentei aqui ... uma história da gente, humanos e suas famílias e  loucuras.

4 FILME - Esse foi o quesito mais concorrido do ano, porque vi muitos filmes nesse ano estranho! Como frequentei muito o Cinesesc, acabei vendo filmes nacionais como Bacurau, Sócrates; A serpente.  E vi também filmes africanos, como os curtas da Mostra de Cinemas Africanos, que meio que mudaram minha vida na época, e depois o belo filme queniano Rafiki. Houve também os clássicos, filmes dos meus diretores, o maduro  Dor e Glória de Almodóvar e o divertido   Era uma vez m Hollywood, de Tarantino. Mas o incrível é que quem vai levar esse prêmio é um filme antigo, "Moonlight Sob a luz do luar"(2016), que fala de coisas tão diferentes da minha vida, mas que mesmo assim me arrebatou tanto, de tantas formas, especialmente pela estética blue/black. Eu sei o que é estar diante de uma pele negra,tão negra que fica azul e que parece que nem existe.Pelas luzes de Moonlight,ele foi o filme do ano.

 5 FOTO - Não teve nem concorrentes: foi essa linda foto minha,  tirada pelo fotógrafo Marcelo Justo/ UOL, num Samba do Sol nas Caldeiras. Eu amei ser a  MUSA DO SAMBA  <3 span="">


6 BEBIDA - Duas concorrente : água e água com gás. A que faz cosquinha na boca ganhou de lavada!

7 SHOW - Apesar do sonhado show do  Jorge Ben no Dia da Consciência Negra na Praça da República, o melhor show que assisti em 2019 foi  Ilê aiê convida Paula Lima e Elen Oléria na Virada Cultural 










8 ROUPAS E ACESSÓRIOS -  Muitos concorrentes. Começo com a menção honrosa ao gloss, que fez meus lábios brilharem muito

 Mas   vou escolher uma foto onde estou com a roupa e o acessório do ano : os brincos Viva o Samba que usei o ano inteiro em todos os sambas que fui, recebendo elogios e a  blusa de moletom Fun cinza, costurada pela amiga Andressa, que me aquececeu nos dias frios

9 CONQUISTA DO ANO  - Foi ter conseguido passar o ano todo ao lado da minha mãe no seu tratamento, que nunca foi fácil e mesmo eu  tendo ficado exausta, não deixei de estar presente,  não pude deixar de ir à academia, nem à terapia, nem aos rolês. Vencemos essa etapa e eu me sinto muito bem em poder dizer isso.
 

10  PRETO DO ANO  -Ao contrário dos anos passados, nesse ano, embora tenha conhecido alguns que me fizeram sentir uma princesa, uma mulher especial por alguns minutos,no final não era amor, era cilada, então esse ano não houve vencedor desta categoria. Eu tinha pensado em trocar por "Beijo do ano", ai sim teria concorrentes, pois mais de um boy me deu aquele beijo de posse pegando na nuca e que  ao final, eu só podia recitar  o verso de Hilda Hilst "dize de mim, és minha"  , mas não posso comunicar a nenhum deles o resultado, então deixei para lá. Em 2020: Pretos, melhorem!

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

“Afro é todo o Brasil e está dentro da gente”: Os Afro sambas de Baden Powell (1990)


 “Afro é todo o Brasil e está dentro da gente”: Os Afro sambas de Baden Powell (1990)
Camila Rodrigues (publicado originalmente em 16.10.2018)

Conforme havíamos lembrado no final do texto sobre os Afro-Sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, de 1966, em 1990,  dez anos depois da morte de Vinicius em 1980, Baden Powell regravou as oito faixas do álbum original e acrescentando mais três músicas ainda inéditas, inaugurando uma outra fase na história do disco. Inicialmente a ideia da nova gravação surgiu do convite de um banco a Baden Powell, pois  gostaria de presentear seus clientes com uma peça original e então gravada com toda sorte de tecnologia já disponível, coisa que falta na primeira gravação do álbum tido como dos mais importantes da história da música brasileira. Dois anos depois o disco foi lançado na França e posteriormente no Brasil pela gravadora Bicoito Fino.  Nesta continuação do legado dos Afro-sambas, além do violonista Baden Powell participando como compositor, arranjador, diretor musical e vocalista, o disco também contou com os vocais do Quarteto em Cy,  um time de músicos reconhecidos como Ernesto Gonçalves no contrabaixo;Paulo Guimães na flauta; Sutinho na bateria, tamborim e agogô; Flávio Neves no afoxé; Alfredo Bessa no ganzá, cuíca atabaque, tamborim  e berimbau; Flavio Neves no atabaque, no banzá, no surdo  no berimbau.

O disco contém onze faixas, dez de autoria dividida entre Baden e Vinicius e uma canção que abre o trabalho, Abertura, apenas composta pelo violonista. Além das oito músicas já gravadas na primeira versão, agora dispostas em ordem diferente, a obra conta com as canções inéditas, a terceira faixa, Labareda, e Variações sobre Berimbau. Como já destacamos a herança afro do primeiro disco, aqui comentaremos brevemente uma ou outra alteração percebida na comparação entre as gravações originais e as novas, mas nos debruçaremos  sobre esta tríade de faixas inéditas, comentando mais detalhadamente suas ligações com o legado cultural afro.

As  regravações do primeiro álbum começam a partir da segunda faixa, com a canção sobre a peleja dos orixás contra a divindade das folhas no  Canto de Ossanha ,  na qual as cordas dos violão de Baden brilham na contestação “do homem que cai no canto de Ossanha traidor”, com o vocal de fundo do Quarteto em Cy. Na quarta faixa retomamos ao tema de Tristeza e Solidão de forma bastante melancólica e na quinta faixa, Canto de Pedra Preta, assim como na versão original, a entidade volta a ser louvada com uma marcação percussiva forte, remetendo ao Samba de Roda. Na sexta faixa retoma-se o sofrido  Canto de Xangô, com uma percussão bem marcada, mas unida ao som delicado das flautas  que combinam com o vocal do quarteto de vozes femininas que clamam ao orixá para, enfim, morrer de amar. Nas faixas seis e sete, Bocochê e Canto de Iemanjá, ouvimos com uma maior qualidade de gravação, os dois belos afro-sambas amplamente conhecidos. Na penúltima faixa do disco, Tempo de amor, destaca-se o ritmo mais acelerado da disputa entre o violão de Baden e a percussão fortemente marcada, que vem sempre pontuada pelo canto das Cys, no belo louvor contra o amor em paz. Mas a regravação que mais impressiona é mesmo a da última canção, o Lamento de Exu, que na versão original era uma peça instrumental, caracterizada como um lamento vocal, agora já  ressalta fortemente a percussão atuando junto ao violão de Baden, e mesmo continuando sem letra, a canção é pontuada com chamamento ao orixá iorubano Exu em suas diversas manifestações como Tiriri, Marabô, Lalu, e na sequencia o violão dá lugar a percussão, como se a divindade convocada já estivesse presente, ouvem-se palmas de louvor ao orixá mais conhecido e considerado como mais próximo do ser humano.

Sobre as três canções inéditas do álbum, a canção instrumental, Abertura, é o que poderíamos chamar de uma síntese sonora dos Afro-sambas, aquele samba mais nego sobre o qual falamos no texto sobre o primeiro disco, e não sendo nenhuma das cantigas conhecidas como Afro-Sambas, nos traz um um ambiente sonoro, legitimando os Afro como um estilo musical próprio. Nesse álbum tudo é muito melhor trabalhado, expondo aos nossos ouvidos a presença de outros instrumentos antes ocultados pelo protagonismo do sensacional violão de Baden. Na segunda música inédita, a terceira faixa Larareda, novamente um samba de roda tão utilizado em rituais religiosos afro-brasileiros,  surge uma figura feminina, remetendo a  entidade Pomba-Gira do mesmo nome que a canção e que, no afro samba,  é caracterizada assim:

Labareda
O teu nome é mulher
Quem te quer
Quer perder o coração
Rosa ardente
Bailarina da ilusão
Mata a gente
Mata de paixão

reforçando a educação sentimental de Vinicius de Moraes, na qual viver é amar e amar é sofrer. Como nos lembra o artigo de Ricardo de Paula, se nos terreiros, entre outras coisas, a figura da Pomba-Gira é a responsável por fornecer aconselhamentos de toda a ordem, mas especialmente nos assuntos afetivos, a presença desta canção no disco experimenta novamente a exposição do tema a partir do imaginário afro-religioso.

Na nona faixa do álbum, a inédita Variações sobre Berimbau, vamos encontrar uma ligação mais direta com a história do primeiro disco, quando nos deparamos com o resultado musical da influência sofrida por Baden Powell, depois de ouvir pela primeira vez na Bahia ainda na década de 1960, o som do instrumento de percussão chamado berimbau. Conforme nos conta o músico e pesquisador musical Carlos Sandroni,

O beribaum se tornou a principal referencia musical da capoeira, embora também fosse ‘usado pelos afro-brasileiros em suas festas e sobretudo no samba de roda, como até hoje ainda se vê, se bem que muito raro e como não deixa de alertar o historiador Mauricio de Barros Castro, em sua tese Rosa do mundo: Mestre João Grande: entre a Bahia e Nova York, o berimbau fazia parte da cultura baiana, tendo sido apropriado pela vadiação não apenas para cantar e tocar, mas também para avisar a chegada da polícia desde a época em que jogar capoeira era proibido, o que sublinha a importância desse som para a história do negro brasileiro. Ainda que já na década de 1950 o compositor baiano Oscar da Pena, O Batatinha, tivesse utilizado o repertório da capoeira em suas composições, foi mesmo com as canções de Baden e Vinicius da década seguinte que o tema ganhou notabilidade. Segundo depoimento do etnólogo baiano Waldeloir Rego sobre nosso compositor, em seu Capoeira Angola: Ensaio sócio-etnográfico :

Aproveitando sua estada na Bahia, tive a oportunidade de conhecê-lo e trocar ideias sobre a música popular brasileira no presente. Baden não perdeu um só instante,às voltas com o capoeirista Canjiquinha (Washington Bruno da Silva), de quem recolheu muitos toques de berimbau e suas respectivas cantigas .

Algumas dessas cantigas são entoadas por Baden na faixa nove do disco, como:

menino quem foi teu mestre?
Meu mestre foi Salomão
A ele eu devo dinheiro, saber e obrigação
Quando  o segredo de São Cosme quem sabe é São Damião
Ê ê Camará
Paranauê, paranauê Camará

ou assumindo a alusão ao mundo da capoeira: “Capoeira é pra valer/Joga bonito que eu quero aprender”.    Segundo a tese de Mauricio B. Castro citada acima,  embora pouco se fale disso, em meados do século XX a capoeira, “não apenas sua temática, mas também sua musicalidade e linguagem” foram absorvidas por uma geração de  compositores brasileiros. Musicalmente esta influência estava sintetizada no som do berimbau, que além da capoeira, também fazia referência  e nesse contexto que ela contribui na composição nos Afro-sambas pois,segundo Castro,em 1963, um ano antes do golpe militar, Baden Powell e Vinicius de Morais lançaram a primeira música de uma série de Afro-sambas,como ficariam conhecidas as canções da dupla que remetiam à cultura afro-brasileira. A música se chamava Berimbau, instrumento de capoeirista que Baden imitava ao violão.

Sobre os afro-sambas, é preciso lembrar um acontecimento posterior a sua última gravação , já perto de sua morte em 2000 Baden se converte ao  culto evangélico, este que costuma considerar como errados posicionamentos diferentes ao seu, e passa a repreendê-los  duramente,  o que o levou nosso compositor  a renegar alguns afro-sambas, como podemos ler em entrevista dada em 1999, na qual afirma que:

Afro é todo o Brasil. Está dentro da gente. Eu e Vinicius gostávamos.(…)  Os caras pensam que fizemos música para macumba, candomblé. Não tem nada disso, não. É coisa de cultura.(…) Sou evangélico. Minha religião é Cristo. A briga dos evangélicos é com o Candomblé mesmo, não com a música. Você pode tocar o que quiser.(…) Não posso louvar, mas posso falar sobre o caso e tudo. Está entendido? “Berimbau” e “Consolação” são afro-sambas, posso fazer. “Canto de Iemanjá”, não, estaria contribuindo para uma coisa errada. A música, se existe, ela existe, não tem problema. Posso tocar no violão, mas não é o caso. Não é proibido, interditado, nada disso. Posso até falar muito bem, mas não louvo.

Independente do posicionamento evangélico extremista de Baden, sobrevoamos os afro-sambas em busca de marcas da herança africana naquelas composições, as encontramos bem fortes, tanto no registro da década de 1960 quanto no da década de 1990, lembrando que, ainda tenhamos esporádicas tentativas anteriores, de fato foi com esse álbum que se deu a popularização do uso dos elementos da cultura e religião afro na canção brasileira, e até hoje, ao ouvi-lo, os negros brasileiros saúdam uma identificação ali presente, como podemos observar nesse interessante comentário de Izaías de Oliveira no vídeo do disco de Baden no Youtube :

“Toda vez que escuto este disco tenho a certeza que DEUS me fez negro por um motivo ser melhor! (sem ofensa racista), Toda melodia deste maravilhoso disco foi baseado na cultura, etnia e religião africana. Baden Powell usou de toda sua performance de excelente violonista e musico para esta que uma obra de inspiração única!”

Encantados, nos despedimos dos afro-sambas, destacando tantas questões por eles levantadas que foram e ainda não importantes para se pensar a presença da cultura afro na música nacional e, mais uma vez, convidamos os leitores a para compartilhar e comentar estes discos sensacionais, bem como as questões por eles levantadas.

Refências

POWELL, Baden. Os Afro Sambas . Rio de Janeiro (Acesso 29 jul 2018)
BESOURO Anêmico (blog). Os Afro-sambas de Baden Powell (1990). 10 de agosto de 2015.
Os Afro-sambas (1990).

Bibliografia

BARROS, Mariana Leal de. Labareda, teu nome é mulher: análise etnopsicológica do feminino à luz de pombagiras.392 f. Tese (Doutorado em Psicologia)- Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2010
CASTRO, Mauricio Barros de. Rosa do mundo: Mestre João Grande: entre a Bahia e Nova Yourk. 2010. 277 f. Tese (Doutorado em História) – Universidade de São Paulo, São Paulo.
PAULA, Ricardo de. A figura da pomba-gira. In: Blog Loja Axé.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos orixás. São Paulo: Companhia das Letras, 2011.
REGO, Vandeloir. Capoeira Angola: Ensaio sócio-etnográfico. Editora Itapuã, 1968
SANCHES, Pedro Alexandre. Evangélico, músico não diz mais “saravá”.In:  Folha de São Paulo, São Paulo 13 de julho de 1999.
SANDRONI, Carlos. ANDRONI, Carlos. Adeus à MPB. In: Berenice Cavalcanti; Heloísa Starling; José Eisenberg. (Org.). Decantando a República: inventário histórico e político da canção popular moderna brasileira. v. 1 Outras conversas sobre os jeitos dacanção. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2004, p. 23-35.
SILVA, Isabela Martins de Morais. É,não sou : Ensaios sobre os afro-sambas no tempo e no espaço.2013. 290f.Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Universidade Estadual Paulista, Araraquara.
Versão recente melhora clássico de Baden. Folha de São Paulo. 29 fevereiro, 2008. Disponível em : (Acesso 29 jul 2018).