terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

DJ Killa: um presente de verão !


Na Casa das Caldeiras tem sempre tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo que a gente sabe que, por mais que a gente aproveite, perdeu mais da metade do que aconteceu ali. No cado do DJ Killa, esse boy novinho acima (parece um dos garotos da minha aula de hip hop), só fui parar para ouvi-lo (deixando Desculpa qualquer coisa e funk lá embaixo) quando começou a tocar uma seleção só de  Jorge Ben, adorei ... nem deu pra gravar muito , dancei demais 



 Claro que aquilo foi só uma introdução, mas o Killa  é  DJ do Rap e Hip Hop, pincelado com o melhor do suingue da música brasileira, ele tocou muito, muito tempo, adorei tudo. Tocou Stive Wonder. Sabotage, Mano Brown, Bob Marley, Sean Paul, Dawn Penn,mil coisas ... queria mesmo ter trazido pra casa para tocar só para mim! 




sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

"Famintos",de James Ribeiro : poesia escrita por um preto

Foto publicada no grupo Biblioteca do Povo Preto - BPP


Famintos


Primeiro comeu a minha orelha,
Delicadamente.
Aos poucos...
E se alimentava, também,
Do arrepio que me escapava.

Depois pelo pescoço,
E era instantâneo o cio.
E não me escapava, outrora,
Reinava em mim.
Consumia em gosto adentro.

Comeu meu peito,
Conduzindo a saliva e a língua,
Meu mamilo. Duro.
Endurecendo e delirando.
Favorecendo...

E desceu pela barriga,
Apertando os dentes,
Apetitosamente
A boca que, na procura da fome,
Me tirava o gosto.
Que de tanto gosto,

Foi parar ali: rígido.
Ardendo em aguardo.
Uma abocanhada precisa.
E o sugar do sumo.

Era hora da sobremesa, enfim,
E caprichosamente
Me pôs em seu prato,
Acariciando meus cabelos,
E me colocando pra comer.

Bom apetite!

James Ribeiro 

Poeta James Ribeiro, 
foto do acervo pessoal em 2018


quinta-feira, 30 de janeiro de 2020

Oxum e o poder feminino

Depoimento de Oxum, publicado na Carta Capital e disponível neste link

Dizem que sou linda! Um pouco vaidosa, talvez. Gosto de estar arrumada, de harmonizar cores e acessórios, gestos e movimentos, olhares e palavras. Também dizem que sou elegante, orgulhosa, sofisticada. Permitam que me apresente: sou Oxum, senhora de muitas águas.

Vim das terras de Ijexá e Oxobô, da Nigéria, da África. De lá transborda meu rio, o Rio Oxum, de águas douradas e calmas que se expandem e tomam muitas formas, que se transformam e se confundem, que se ampliam e desaguam. Águas sinuosas, um dia calmas, outro revoltas, mas nunca as mesmas.
A mim, não importa o que sou, mas tudo que posso ser. Posso ser chuva, cachoeira, rio e mar. Água é água? Engano seu! Se pensa que me conhece, aí que te surpreendo. Lembre-se: há rios que se cruzam, mas não se misturam. Posso ser a donzela, a madrasta e a bruxa. Mato sua sede, mas posso te matar.
Sobre a terra, sou riacho, sou bênção. Sob a terra, sou infiltração, sou tragédia. Cantando faço uma revolução. Com um espelho na mão, venço uma guerra. Não se engane comigo, sou vaidosa, mas não sou fútil. Sei onde posso chegar e sei o que quero. Sou Oxum, sou mãe sem deixar de ser mulher.
Se tenho uma arma? Sim, a sedução! Continuo plena diante do rei, olho diretamente em seus olhos e deixo que meu corpo fale. Nunca quis estar à frente de nada, mandar em quem manda já me basta. Sou o poder mais genuíno, a força propulsora de toda existência, sou água, sou vida.
Sou amor e, acredite, sou razão. Alcione cantou-me assim: “sou doce, dengosa, polida. Fiel como um cão, sou capaz de te dar minha vida. Mas olhe, não pise na bola…” Sou Oxum e te amo intensamente, enquanto me convém.
Não me apraz a simplicidade. Não saberia viver sem brilhos, sem luzes, sem espelhos. Não aprendi a praticar o desapego, muito menos a viver modestamente. Sim, sou amor, mas só amor não me é suficiente. Quero mais, quero a riqueza e tudo que ela proporciona, quero a glória, a opulência. Quero a felicidade, quero a mesma alegria da terra seca ao receber as águas do verão. Ser fértil, brotar, florescer. Ser mãe!
Sou Oxum. Transparecendo doçura venci todos os meus inimigos. Resisti com meu povo à escravidão, à fome, à humilhação. Minhas filhas, essas mulheres tão lindas, essas negras que exalam o doce perfume do macassá, sofreram as mais terríveis violências. Corpos expropriados, almas destruídas, ventres violados. Chorei ao parir esses filhos. Filhos da pior desgraça, filhos do medo, do abuso, da crueldade. Filhos que nem sempre pude amamentar, mas que amei como minhas mais belas joias, como minhas maiores riquezas.
Abençoei a luta dessas mulheres. Com mel e água curei suas chagas. Mesmo as dores mais profundas, abrandei. Nascer mulher é uma sina, um castigo? Que homem disse isso? Só quem desconhece a força da vida é capaz de negar o poder feminino. Sou Oxum, sou mulher. Sou a grande dama da sociedade, a Iyalodê! Sou rainha, sou mãe, sou feiticeira.
“Eu gosto de ser mulher. Sonhar, arder de amor…” Se Oxalá, o maior de todos, curvou-se a meus pés, quem poderá negar-me a coroa? Teve o “Senhor das Alturas” de reconhecer que sem mim a vida perece. A regra, o sangue, o símbolo do poder das mulheres. O ventre gerando, o ciclo, a vida. Mas parir não me resume, dar à luz é muito mais que isso. Não se engane. Não sou só um útero, uma reprodutora. Não sou só mãe, sou mulher!
E me insurjo a cada outono. De flor a fruto, faço surgir o múltiplo, o diverso, o único. Sou Oxum e todas as mulheres me pertencem. Todas, todas elas! Todas as que tiveram dom e vontade: as que nasceram, as que se descobriram, as que se revelaram, as que se transformaram. Todas, sem exceção. Todas as que tiveram coragem de se tornar mulher. Sou matrona e protetora de todas elas.
Esse ventre é o mundo… Porque um dia eu quis engravidar e não pude. Um dia eu quis gerar e me vi incapaz. Mas não há mulher que não possa ser mãe. Eu sou a prova. Se você acha que o que define uma mulher é o útero, lamento informar que lhe sobra estupidez. Não sou só um corpo, mas meu corpo me pertence. Não me force, não me obrigue, não me condene. Se não conhece minha dor, não determine meu lugar, muito menos o que devo ou não fazer. Respeite meu corpo, respeite meu ser e respeite minhas escolhas.
Lembre-se: essa doçura, essa calma, esse meigo olhar me levam onde eu bem quiser. Sei fingir, sei enganar, sei mentir e trair. Mas não o farei se você não me obrigar. Não se trata de cinismo, apenas um instinto de sobrevivência. Não nasci pra agradar a ninguém, mas se for preciso…
Sou Oxum. Sou menina, sou jovem, sou velha. Sou mulher sempre. Não se assuste com essas minhas confidências, mas não teste meus limites. Um rio, um regato, uma nascente, seja como for, não os desafie. Não afronte essa força intensa e inesperada, não provoque Oxum, não provoque as águas.
Meu silêncio é sempre uma ameaça. Como cantou lindamente Maria Bethânia, sou a “Senhora das águas que correm caladas”. Minha divindade se encanta na água doce. Não, eu não moro no rio. Na verdade, eu sou o rio. Um rio sinuoso, caudaloso. Embora ínfimo na fonte, até minha foz tomo formas surpreendentes. Fertilizo e devasto, sacio e afogo, arrefeço e aqueço. Um rio é uma divindade, portanto, tenha respeito e cuidado. Orixá nenhum aceita acintes, mas a natureza não ataca, apenas revida.





quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

Inferninho



No primeiro Samba do Sol nas Caldeiras de 2020, a festa foi absolutamente fenomenal. Curti até quase 23 hrs, sai trançando as pernas com o Samba da Natália Nagê, Grupo Reduto e principalmente os DJs sensacionais como a Renata Corr da festa 'desculpa qualquer coisa". Na semana eu f
ui à página do DJ Tahira
Tahira 
 para dar os parabéns pelo trabalho espetacular domingo , onde ele tocou pela primeira vez no meu querido "porão" e foi aplaudido ao final, porque como sempre arrasou.

 Ai ele respondeu que também "gostou de tocar naquele INFERNINHO" KKKKKKKK
Só melhora! Agora, para mim, o porão já virou "inferninho".
Que bom que não vamos deixar os bailes da Casa das Caldeiras morrerem em 2020! 
Saíram fotos minhas no inferninho no álbum ofinial do Samba do Sol, eu me divertindo muito 


segunda-feira, 27 de janeiro de 2020

O Itan da Oxum guerreira

 Na cultura Iorubá dá-se o nome de Itan ao conjunto de todas as narrativas sobre os Orixás,contadas nas mais diversas formas. Para esta cultura, essas narrações são equivalentes a fatos históricos. 



Essa da rainha Oxum é uma das minhas preferidas, a meu ver fala muito sobre ela:

"A SABEDORIA DE OXUM 


Na época em que Oxum, Oyá e Obá viviam no reino de Xangô, havia uma grande guerra. Xangô convocou as três esposas para irem com ele guerrear. Oyá e Obá disseram a Xangô que Oxum não sabia guerrear, então Xangô disse: "Oxum, tu deverás aprender a guerrear para se proteger caso o palácio seja invadido pelos inimigos". Oxum então respondeu: "Podem ir vocês, eu cuidarei do palácio, Xangô".

Obá enfurecida retrucou: "Como tu, Oxum, cuidarás do reino, se só sabes se embelezar?" E Oyá disse: "Iremos e os escravos tomarão conta dela". Oxum ficou sozinha com as escravas no palácio, e em uma noite, uma escrava lhe avisou assustada: "Oxum, minha rainha, o palácio está sendo invadido!!!" Oxum, calma em seu trono, disse à escrava: "Mandem entrar e sirvam a melhor comida e bebida. Eu os receberei." As escravas fizeram conforme Oxum havia mandado. Os inimigos de Xangô estranharam, mas entraram e se serviram, e Oxum, calmamente, sentada em seu trono, disse: "Xangô fugiu junto às suas duas outras esposas, me abandonando para trás. 

Fiquei sozinha. Vão, se sirvam! Mandei preparar este banquete para vós". No outro dia, Xangô, Obá e Oyá receberam a notícia de que Oxum estava em perigo e voltaram às pressas. Chegando no palácio, estranharam o silêncio e viram todos os soldados dormindo. Oxum explicou: "Está vendo, Xangô? Não precisei levantar a espada e nem usar a força, mandei servir a melhor comida e todos comeram. Coloquei esta poção nos pratos e matei todos, sem levantar a mão. Não se espanta o inimigo, mas se agrada. Com a própria raiva dele, ele cai sozinho". Oxum é calma por fora mas é uma tempestade por dentro." Arriscar minhas unhas?"

domingo, 26 de janeiro de 2020

Cadê a Camila? Tá no samba!


Como já comentei aqui, no  dia 26  de janeiro eu participei do Samba do Sol na Casa das Caldeiras e me diverti muito, apareci até nas fotos. Mas o melhor não cheguei a comentar: pareci sambando até na live da sambista Natália Nagê.
Que fique o registro de um dos momentos mais legais de 2020 até agora! <3 font="" nbsp="">

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

O par de brincos e o amor das irmãs em “A vida invisível”

cartaz do filme no Cina Belas Artes,  onde assisti 


Em 23 de janeiro assisti ao filme brasileiro “A vida invisível”, “melodrama tropical” dirigido pelo cearense Karim Aïnouz. Começando no final da década de 1940, conta a  contando a história das   irmãs Eurídice (Carol Duarte), então com de 18 anos e Guida ( Júlia Stockler), então com 20 anos,  jovens cariocas que carregam seus sonhos , a mais jovem de ser pianista, a mais velha de viver um grande amor. Muito unidas, ainda no começo do filme,  as irmãs acabam sendo separadas pelo pai, fato determinante para que cada uma tente viver sua própria vida sozinha na cidade do Rio de Janeiro.
arte divulgação do filme

Guida, definida pelo diretor aqui como uma "pipoca cheia de alegria", foge de casa  para viver um grande amor no estrangeiro, porém mantém, por quase a vida toda, o hábito de escrever para a irmã longas cartas contando sobre como a sua sobrevivência como mãe solteira no contato público da cidade.
Guida, usando os brincos da avó


 Na noite de fuga para um baile, apressada , Guida perde um dos brincos que tomou “emprestado” de sua falecida avó no jardim de casa. Esse par de brincos dourados é a grande metáfora da relação das duas irmãs, tanto que  e é muito significativo que Guida não deixe de usar apenas um brinco sem par por boa parte do resto do filme. Durante todo o filme, são muitas as cenas memoráveis envolvendo Guida, separei duas das mais bonitas e significativas, quando ela tem que se levantar para cuidar de si mesma após um parto solitário, em um hospital público.
 
pós parto de Guida
A outra é quando, depois de anos de rejeição da família paterna, ela reencontra ocasionalmente o pai, que a expulsou de casa grávida, num restaurante e consegue vê-lo através de um aquário cheio de peixes coloridos
peixes: cores e movimento

Já Euridice (nome da musa das músicas  de Orfeu), que é mais introvertida, é pianista e ,  embora tenha ajudado a irmã a sair de casa para ir ao baile, não entende o motivo dela não ter voltando mais, abandonado-a sozinha com os pais. Naquela noite, porém, ela acaba encontrando no jardim , o brinco perdido pela irmã e dele não se separa, chegando a usá-lo como pingente de um colar por muito tempo. Depois da partida da irmã, Euridice acaba se casando com Antenor (Gregório Duviver), um marido padrão do patriarcado, tomando posse se seu corpo, às vezes violentamente,  controlado-o como queria, interessando -se pouco pelos reais desejos da esposa e, sobretudo, rejeitado com força  o seu desejo de reencontrar a irmã desaparecida.
 Eurídice vê o seu próprio reflexo, com o a imagem do marido ao fundo

Algumas das cenas mais emocionantes do filme são as onde a pianista debruça-se sobre seu instrumento e a música que produz consegue dizer tudo o que as palavras não são capazes a respeito da sua “vida invisível”.
piano : a voz de Euridice

Trata-se de um filme pesado, que fala do amor entre duas irmãs, simbolizado  pelo par de brincos, mas é  também uma história  de tantas mulheres e a invisibilidade de seus desejos e corpos na sociedade patriarcal. Recomendo vivamente que assistam ao filme