quarta-feira, 27 de maio de 2020

Mostra de Cinemas Africanos 2020 é online


cartaz da Mostra

Estamos em meio a uma pandemia e a cultura respirando por aparelhos. Neste contexto em que tudo foi adiado ou cancelado,  foi uma grata surpresa saber que a Mostra de Cinemas africanos  2020 vai acontecer. Aliás, já está acontecendo online. Demorei para ficar sabendo, me inscrevi quando dois filmes já tinham sido discutidos, mas espero que ainda possa assistir.
A programação deste ano é essa:

Se em 2019  foi no Cinesesc e eu curti demais até o programa maravilhoso com informações que ainda uso e mesmo só tendo assistindo curtas, oito filmes que deram o que falar, esse ano vou poder ver os longas e os comentários. Vou escrever sobre cada filme, assim que for assistindo.

Ver filmes africanos é resistir! A luta continua!

sexta-feira, 1 de maio de 2020

INTERPRETAÇÃO DAS FOTOS DE INFÂNCIA



Incrível para o mundo cheio de registros que vivemos atualmente, em 1979, quando eu era uma bebê recém nascida, tirar fotos era raridade.Ainda assim guardo essas duas queridas, que sempre achei que tivessem sido tiradas juntas, no mesmo dia, etc. Mas fui pegá-las para escanear direito e me dei conta de que não foram. Os tamanhos são diferentes. A primeira delas, que eu estou no berço, debaixo do cobertor rosa, é mais quadrada e menor (11 x 9 cm)e tem ao lado, quase imperceptível, o registro de que foi tirada em "out 79", logo eu tinha mesmo acabado de vir da maternidade!
Já a outra foto, eu de amarelinho (toda a vida), é maior em tamanho (13 x 9 cm), estou numa espécie de "bebê conforto", colocado no chão da sala (reconheço pelo chão de tacos de madeira) e com a cabeça sobre um travesseirinho de bebê. Pode não ter sido no mesmo dia, mas foi na mesma época que a primeira.
Em 40 anos eu, que sou historiadora, militante da hermenêutica das fontes, apaixonada pelas narrativas da infância de Walter Benjamin na Berlim de 1900, nunca tinha parado para interpretar realmente as minhas primeiras fotos. Como diz o ditado: em casa de ferreiro, espeto é de pau.

sexta-feira, 24 de abril de 2020

Mais do que anedotas infantis: Pedro Bloch e os escritos que contam uma História da Criança

Minha pequena biblioteca de
de Robert Darnton


Solicitaram-me um texto sobre "Escritos e impressos: Literatura e historicidade" para ser entregue daqui poucas semanas, como está tudo fechado na quarentena, inclusive as bibliotecas, tive que me voltar ao material que tenho: As edições de Pedro Bloch e o universo da minha pesquisa de pós-doutorado. Para mim ficou claro e espero ter conseguido demonstrar, que no campo da “história intelectual”, a atuação bloquiana com a meninada (de ouvir as crianças, transcrever seus ditos, publicar em livros e revistas, divulgar e incentivar que outros artistas, escritores,jornalistas, etc., também o fizessem no século XX) estava diretamente ligada ao moderno ideário iluminista, pois nosso autor seria propriamente o que o historiador do século XVIII francês Robert Darnton chamou de “homem de letras”, os debatedores e divulgadores de ideias. Embora Darnton tivesse sido sempre uma referência para meus estudos em História Cultural, lia muito os exemplares da biblioteca, então minha biblioteca pessoal desse autor não é muito grande, pois só fui conviver mais com suas ideias sobre história editorial mais diretamente no pós doc, para entender a que tradição  qual poderia estar  ligada a prática de Pedro Bloch, e isso foi ótimo.

No relatório final da minha pesquisa de pós-doc concluí que esse tipo de atuação nos abria caminho para um trabalho histórico diferente do que vinha sendo executado pelos historiadores da infância (que se dedicam a estudar história da relação da sociedade e da cultura com as crianças), já que  a partir deste material temos o contrário, pois ainda que de forma humorística, as publicações bloquianas nos mostram flashs reveladores da percepção de como os próprios pequenos percebem o mundo que os cerca (eu escrevi sobre isso na página 8 do artigo sobre os dicionários infantis de Pedro Bloch, disponível neste link ).
Retomando essas ideias, só posso aplaudir os livros de Pedro Bloch como minhas fontes de pesquisa, porque elas me permitiram e ainda me permitem, fazer pura História do jeito que eu mais gosto!  

sábado, 18 de abril de 2020

Pagode na livraria

Mas a literatura universal até que tentou mostrar essas verdades

A Livraria Leonardo da Vinci  no Rio de Janeiro costuma deixar post its com recados divertidos nas capas dos livros em exposição na loja. Agora, na época do fique em casa, divulgaram essa série divertidíssima, colando trechos do pagode "Cigana", de Gabu (João Carlos da Silva),  nas redes sociais. Simplesmente morri de rir porque cada trechinho "conversa" bem com o conteúdo do livro, é legal tentar fazer a relação e dar muitas risadas! Muito divertido!




sexta-feira, 17 de abril de 2020

"A rejeição mais coletiva da morte já registrada na história" - Julián Fuks


Colo aqui um dos textos mais bonitos que li sobre a epidemia.


Primeiro pensei que fosse medo da morte, e sim, ainda penso, é claro que era medo da morte. Um medo que surgiu num ponto ignorado de Wuhan e logo tomou conta de toda a cidade, afugentando seus habitantes e com eles se alastrando mundo afora. Não era um medo qualquer, me pareceu, tinha a sua peculiaridade. Era mais que medo: em sua expressão mais aguda veio a tornar-se uma inconformidade, uma inaceitação da finitude da vida, própria ou alheia, a rejeição mais coletiva e sumária da morte de que já se teve notícia. 
Nada poderia ser mais compreensível do que isso, pude ponderar. As circunstâncias eram mesmo dramáticas, e são cada vez mais. Havia algo de indecoroso na morte a um só tempo massiva e solitária, e sempre haverá. Não faltam os que definem a humanidade justamente por essa indignação, pela repulsa que nos provoca qualquer prenúncio do fim, que dirá de um fim trágico. E, no entanto, não, nem toda a história está atravessada por essa rejeição absoluta do desconhecido, do imensurável. Foi nos últimos séculos, nas últimas décadas, nos últimos anos, que acabamos nos tornando mais hostis à certeza da finitude, que decidimos prolongar ao máximo cada vida e lamentar cada perda como inaceitável.
A literatura, mesmo em sobrevoo, talvez possa dar pistas dessa progressiva mudança de perspectiva. Por milênios os escritores mataram os seus personagens livremente, nos beligerantes épicos gregos, nas tragédias, nos romances de cavalaria. Em algumas peças de Shakespeare, chegado o desfecho, ficamos nos perguntando se terá sobrado algum personagem vivo.
E então veio o romance realista, veio Flaubert com seu rigor científico, matando sua maior protagonista em páginas numerosas e lentas. Veio Tolstói e escreveu "A morte de Ivan Ilitch", uma das mais precisas tentativas de apreender o inapreensível, de entender a morte em sua concretude, em sua vertigem. Em suas páginas intuímos que não há morte dos outros, que toda morte é sempre, em alguma medida, do outro e de si. Se sofremos ao ler Tolstói, é pela percepção perturbadora de que naquela morte se inscreve a nossa, de que na morte de Ivan Ilitch morremos todos.
Em nosso tempo a morte se fez tabu, já não conseguimos sequer falar a palavra sem que a nossa boca se consuma em morbidade. Talvez não seja disparatado propor um estudo sobre a dificuldade que hoje acomete escritores de matar os seus personagens, de condená-los ao insólito fim. Não ouço falar dessa dificuldade, apenas desconfio que exista, e a sinto em minha própria escrita. Tão grandiosa se fez entre nós a ideia da morte que as páginas dos livros já não a comportam, não conseguem acomodá-la sem convocar um princípio de revolta, e a presumível acusação de extravagância, de arbitrariedade. Já não somos capazes de contemplar em imagens ou palavras o mais comum dos acontecimentos, , humanos ou não, o mais fatal.
Primeiro pensei que fosse medo da morte, eu disse. Agora penso que não, que é medo da morte e algo mais. Se entre tantos, tão coletivamente decidimos que estas específicas mortes são inaceitáveis, e decidimos que todo empenho é válido para impedi-las, para reduzir sua ocorrência ao mínimo que toleramos, talvez não seja só por esse medo da morte que há algum tempo nos tomou de assalto. O medo é quase sempre uma experiência solitária - algum grau de solidão talvez seja sua condição primordial. Suspeito que apenas o medo não seria capaz de gerar uma reação tão comunitária.
Nesta disposição nova que temos testemunhado, nesta grande pandemia do não, pode haver exatamente o contrário do medo, tenha isso o nome que tiver. Foi pelo medo e por um equivocado instinto de defesa que se alçou ao poder, em tantos lugares, a política da brutalidade, da indiferença, da perversidade - necropolítica é o nome que alguns têm lhe dado. Se é contra essa política que tantos agora se levantam, ou melhor, que tantos agora se recostam e permanecem em casa, fazendo-se ruidosos quando a noite cai, não será por medo da morte. Será, sim, por respeito à vida, por apreço a toda esta incerteza vital em que estamos imersos, feita de som e de fúria mas também de beleza, antes que se consume a certeza do fim. 



quinta-feira, 16 de abril de 2020

Leandro Karnal: a Pandemia é o momento ideal para se apostar na esperança

Aproveitando as páscoas judaica e cristã e com a erudição de sempre o historiador Leandro Karnal aponta que momentos como esta pandemia pela qual passamos, sempre foi  o ideal para apostar na ESPERANÇA.


quarta-feira, 15 de abril de 2020

Morreu Rubem Fonseca, autor da minha juventude

 Foto: Divulgação in O Globo

Na tarde  15 de abril de 2020 morreu por um infarto aos 94 anos o escritor Rubem Fonseca.
Fonseca foi o grande autor da minha adolescência, li muito Fonseca, ainda muito jovem, depois não li mais, embora continue achando que ele foi um dos grandes autores brasileiros, o nosso maior contista. Por conta disso reservo em minha estante minha pequena coleção de seus livros, que nunca mais reli, mas guardo como tesouro:
Meus velhos livros de Rubem Fonseca
Na minha coleção temos da esquerda para a direita, os seguintes livro "Vastas emoções e pensamentos imperfeitos"; Contos reunidos"; "Agosto"; "Bufo e Spallanzani"; Caso Morel", "Lúcia McCartney", "O Buraco na parede", "E do meio do mundo prostituto só amores guardei ao meu charuto"; "História de Amor"; "O Selvagem da ópera"; "A Grande arte". Ou seja, são onze volumes, destacando que no conteúdo de "Contos reunidos" temos outros seis livros de contos  mais famosos de Fonseca ("Os Prisioneiros"; A Coleira do cão"; "Lúcia McCartney"; "Feliz Ano Novo"; "O Cobrador" e "Romance Negro", além de dois contos inéditos "O anão" e "Placebo".
Como podem ver,  li muito Fonseca muito jovem... Amava! Meus favoritos são os contos de O Cobrador, Feliz Ano novo, "Lúcia McCartney"(enquanto conto experimental, tem um sabor especial). Nunca esqueci e mesmo não tendo relido, sempre lembrava quando assistia a algum filme do Tarantino, por exemplo.  Mas as  obras mais recentes não conheço.
Bravo meu contista favorito! Obrigada por tudo! 👏🏾👏🏾