domingo, 14 de junho de 2020
A NOITE DA ESPERA : impressões de leitura
sábado, 13 de junho de 2020
“Inxeba”(Os Iniciados), África do Sul, 2017, direção John Trengove
O filme conta a história de três homens que participam de um ritual tradicional africano nas montanhas de Cabo Oriental, África do Sul, que acontece anualmente. O personagem principal é Xolani, um operário solitário que viaja todo ano para participar do rito de Ulwaluko, que consiste na circuncisão de adolescentes de origem Xhosa para que eles ingressem finalmente na vida adulta. Na época do filme, ele vai com recomendação de um pai do jovem Kwada, percebendo que ele não se enquadrava no projeto de masculinidade aceito, paga Xonali para ser responsável´pelo rapaz da cidade e tentar evitar que ele se torne homossexual. O problema é que esse jovem, que é gay, e é bastante questionador e acaba descobrindo um segredo entre seu instrutor e Xolani, acabando com a paz na local. O trailer
Os três homens em conflito na montanha, local mostrado como uma selva deslumbrante, seguram uma tensão sexual mútua o filme todo e o final, realmente é surpreendente.
As cenas de sexo entre os personagens são quase sempre gravadas no escuro, com os corpos negros camuflados, exceto no final, quando as verdades começam ser reveladas a olhos nus e não é mais preciso esconder nada. Interessante observar que, no começo do filme, as cenas sexuais se confundem as com as cenas da circuncisão – ambiente escuro, corpos negros gemidos de dor ou prazer - , como se fossem metáfora da dor e do prazer do crescer?
É sabido que, ao contrário de muitos países africanos, a África do Sul tem uma boa relação com o tema da homossexualidade, mas no filme a tensão se coloca porque a questão é trazida para um ambiente tradicional, apresentando um enredo original que mescla costumes e modernidades.
Na live de debate sobre o filme com o doutor em letras Lecco Fraça,que estava ótima, falando sobre a delicada questão da sexualidade retratada no cinema africano e fazendo belas leituras do filme, até que foi interrompida por estar violando as regras do Youtube : por que, gente?
No trecho que pudemos companhar da live, o filme começou a ser abordado de diversas formas, como a partir dos seus cartazes no Brasil (Os Iniciados); na África (Indexa- Ferida) e em espalho (La Herida)
cartazes:
Depois foi sugerida uma comparação com o belo filme queniano Rafik
dirigido Wanuri Kahiu, sobre o amor entre duas garotas num lugar onde o
homossexualidade é crime, tanto que o premiado filme não pôde ser exibido em seu
próprio país, mas ai a tranmissão foi cortada.
Realmente foi uma pena termos ficado sem essa contribuição completa, de qualquer modo, recomendo assitir ao filme e pensar sobre masculinidade, masculinidade negra e mais, masculidade negra africana, porque, como apontou Juciele Oliveira, mediadora do debete , o cinema pode constrir contra narrativas de reação à opressão em assunto polêmicos, como a sexualidade e o afeto em África.
Enfim, é um filme sobre Masculinidades. Masculinidades negras. Masculinidades negras em África. Bem tenso.
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| Não nesse dia, mas nessa época |
quinta-feira, 11 de junho de 2020
“Ar-condicionado” , Angola, 2020, direção Fradique
O filme angolano “Ar condicionado” (2020), dirigido por Fradique e produzido pela Geração 80, uma produtora audio visual angolana interessante que, segundo Jorge Cohen, preocupa-se em interagir com imagens e sons de produções do "sul do mundo", que certamente devem diferir do norte do mundo, referências com as quais estamos acostumados. Abaixo um momento da live sobre o filme, acontecida em 10 de junho de 2020, da direita para a esquerda, no alto Ana Camila (mediadora da Mostra), Saymor (jornalista da Mostra), abaixo Fradique e Jorge Cohen (da Geração 80):
O filme conta a história misteriosa de quando muitos
aparelhos de ar condicionado começam a cair dos apartamentos na cidade de Luanda
e Matacedo e Zezinha, empregados dos prédios, recebem do chefe a missão de
recuperarem os aparelhos e com isso chegam até Kota Mino, o proprietário de uma
loja de eletrônicos que está montando, secretamente, uma máquina de recuperar
memórias.
No início lemos a seguinte explicação sobre que ar e que condicionamento iremos tratar
Alguns pontos me chamaram a
atenção no filme, como a figura autoritária do chefe, que ao mesmo tempo em que
diz ser o presidente do prédio e é a ele que os empregados devem respeito, obedece à
ordem de uma mulher que o acompanha,
deixando claro que seu domínio vale para alguns.
Sobre Matacedo, que o diretor comentou que é um nome fictício, inventado por causa do seu passado de soldado de guerra, como todos os seguranças dos prédios de Luanda, e refere-se aos que acordavam cedo para comer o “mata bicho” (café da manhã) nos batalhões, já grisalho e muito magro, e depois ficamos sabendo mais sobre ele quando ele registra suas memórias, mas no começo só sabemos que ele tem problema de audição, certamente consequências da guerra, tem momentos em que não ouve (e nós também não ouvimos, embora a legenda embutida em inglês nos conte o que estão falando para ele). Ele fica muito ligado nas informações da televisão, que leva para comentar com Zezinha. Dela sabemos alguns fragmentos de história, que veio com a família de perto do mar. Fala muito do pai, da importância do vento que aprendeu com ele, o vento natural, não esse do AC.
Em cenas gravadas na parte
superior do prédio, o segurança Matacedo observa algumas manifestações de
rappers pensando criticamente sobre heranças e perdas, como se fosse um
meta-comentário do próprio filme. Outro comentário pertinente e poético é feito
pelo Kota Mino ao comentar a queda dos ACs
lembrar que eles caem, assim como nas árvores, frutos maduros soltam-se dos
galhos. Isso é interessante vindo deste personagem, que arma toda uma ligação
entre os ACs e os registros de memórias, lembrando inclusive que “sem som não
há memórias”.
Além das cenas do prédio,
que os realizadores contaram que existe de verdade e fica perto da Geração 80, é enorme
e velho e, segundo os realizadores, existem aos montes em Luanda, são prédios
invisíveis, não saem nas fotos dos postais de Luanda, assim como seus
moradores funcionários, então o filme
escolheu registrá-los.
Por muito tempo no filme, a
câmera vai andando atrás das personagens, daí vermos claramente suas costas em
contraste com o entorno de uma Luanda
feia, em ruínas mesmo, com aparelhos enferrujados nas ruas, como em um futuro
diatópico? O que os realizadores negaram, afirmando que aquela é mesmo a Luanda de 2020. Na
oficina do Kota Mino, quando este fala da possibilidade de sua máquina reter as
memórias através dos ACs, Zezinha duvida, pois no bairro onde mora ninguém tem
AC, como retriam as memórias deles? Então Mino explica que as deles “caíram com
as árvores”, agora só restaram as dos ACs. Daí ele
explica que sua máquina de memória é construída com AC, mas é fundamental que ela esteja
preservada e “funcione” em meio às plantas. E aquelas eram as últimas da
cidade. Realmente o filme não mostra nenhum verde, só ruínas, fragmentos de
vida na metrópole e referências às mídias como televisão e rádio, onde as
personagens se “informam” sobre a tragédia que está ocorrendo. Isso me remeteu aos curtas de afro futurismo
que assisti no ano passado.
No mais belo momento do
filme, Zezinha e Kota Mino deixam Matacedo sozinho na máquina da memória, que
funciona com um AC ligado a um carro, muito ao modo de De volta para o futuro, flerte confirmado pelo diretor
Fradique, e Matacedo fecha os olhos e
vamos vendo o carro passear por uma Luanda bonita, de dia, de noite, na chuva,
com prédios novos com a seguinte canção, cantada por Aline Frazão, de forma
muito sincopada, assim como o filme, a música dá um passo e volta dois, como é
o ritmo da memória de Matacedo, mas também uma fala da própria Angola:
quando eu fecho os olhos imagino um país novo
quando eu fecho os olhos eu me lembro de novo
para não me dissolver no cassino da lembrança aperto passo na dança,
obstinada dos dias
tudo era bem melhor no tempo em que ainda me vias
tempo tempo tempo, tempo, tempo
de noite adormece o meu corpo
antigo
enferrujado e doído, como um sobrado em ruínas
Sonho para não esquecer e esqueço ao amanhecer
Segundo Fradique, o filme apresenta três lados principais : Matacedo e seu passado de guerra/ Zezinha e sua praticidade em resolver as coisas apontando para um futuro/ Kota Mino e sua peocupação em salvar o que resta das memórias. Essas três personagens seriam testemunhas daquilo que, nesse momento, se está a perder em Luanda e está sintetizado na imagem dos aparelhos de ar condicionado que absorveriam as memórias e ficam cheios e pesados, por isso caem. E é importante resgatar as memórias , não deixar que elas se percam. Filme maravilhoso, confiram o trailer:
quarta-feira, 10 de junho de 2020
Lendo "A noite da espera" de Milton Hatoum
sábado, 6 de junho de 2020
"Kmêdeus", Cabo Verde, 2020, direção Nuno Miranda
No dia 06 de junho de 2020 foi realizada uma live com os produtores do documentário cabo-verdiano Kmêdeus, 2020. Foi uma experiência ímpar ouvir ao vivo realizadores do cinema africano atual.
O documentário é sobre um sem-teto lendário da ilha de São Vicente, em Cabo Verde chamado Kmêdeus ("Comer Deus"). Como lembrou Morgana Gama, uma das organizadoras da mostra, a figura de Kmêdeus fazia lembrar a do brasileiro Arthur Bispo do Rosário. O documentário centra-se nesta figura que é um mistério para as pessoas daquele lugar, entre um lunático e um artista. Além de entrevistas com cabo verdianos, o filme aborda seu personagem principal a partir da interpretação dele desenvolvida pelo dançarino de Cabo Verde António Tavares. Com esta perspectiva, viajamos por sua cidade natal, Mindelo, as músicas e filmes da ilha e a celebração de seu carnaval anual, traçando um retrato cultural de São Vicente.
É preciso reforçar que o filme é belíssimo, mostra imagens deslumbrantes, especialmente as da Ilha de São Vicente. O diretor comentou que seu desafio é sempre o de tentar descobrir como filmar Cabo Verde? Existiria um jeito certo? Isso ele está tentando sempre descobrir, mas nesse filme, ele conseguiu uma bela forma, o que me fez lamentar ter assistido na tela do celular por causa da quarentena, porque ele foi feio para a tela grande do cinema. Inclusive, sobre o cinema de Cabo Verde, nos lembrou o Pedro Soulé que ele é muito incipiente, quando começaram a filmar, ele praticamente não existia, só se lembravam de realizadores de fora, mas de lá mesmo, não havia nada, o que é lamentável, porque o país possui uma grande beleza e diversidade física e humana que o cinema deveria poder contar e agora estavam contando.
As belas performances de Tavares são lindamente filmadas e a gente se sente parte do filme . Em outro momento Nuno elencou alguns filmes nos quais ele teria se inspirado de alguma forma, entre eles um dos meus favoritos, o belíssimo documentário Pina, de Win Wenders, que também é sobre uma dançarina que, inclusive, já dançou com Tavares.
Na discussão, mediada pelo jornalista
Saymon Nascimento, tivemos a
participação do personagem/ tema António Tavares, do diretor Nuno
Miranda e do produtor Pedro Soulé e foi muito rica, pois Tavares começou
reforçando que Cabo Verde estaria na origem da mestiçagem, local do sincretismo,
na roda dos tempos, seria um polo mediador entre África/Europa/Américas desde
há muito. Já o diretor Nuno explicou que o filme se sustentava entre três eixos
principais que cercavam a figura de Kmêdeus em Cabo Verde: a
música, o carnaval e o cinema. Ou seja, como lembrou Syamon, Kmêdeus apareceria no filme
como um símbolo que transformaria os traumas históricos em arte.
Eu fiz uma pergunta e Antonio Tavares :
E ele respondeu : o carnaval para ele, desde criança, era sempre o laboratório criativo, o lugar de encontrar coisas que o provocam, mesmo que e le não entrasse no carnaval, só assistia aquela louca vontade de ingerir o corpo, de “comer deus”.
Nos créditos finais do filme nós ouvimos uma deliciosa coladeira. Sobre isso eu conhecia, pois fui banca de um trabalho sobre danças tradicionais de Cabo Verde e essa é uma das que se realiza em pares: “vem, vem dançar, nova coladeira...”
quinta-feira, 4 de junho de 2020
"Moolaadé", Senegal,2004, direção Ousmane Sembène
No dia 23 de maio de 2020 foi apresentado e discutido o segundo filme da Mostra de Cinemas Africanos 2020, que esse ano está acontecendo online. Tratou-se do "Moolaadé" (2004), o último filme do famoso diretor senegalês Ousmane Sembène (1923-2007).
Assim como no último filme discutido, este também se passa numa aldeia do Senegal e conta a história de Colle, uma mulher que não permitiu que sua filha sofresse a mutilação genital –como de costume na aldeia de tradição islâmica – e no momento do filme se apegar a ela é a única saída para as seis meninas , com idades entre 4 e 9 anos, que devem passar pelo ritual num determinado dia e não querem ser “cortadas". Colle, então, lança mão do “mooladé” (proteção sagrada dos ancestrais) para tentar evitar que as jovens sejam tocadas no período indicado.
Como se mostra pela sinopse, o filme se estrutura sobre a questão das tradições, uma vez que mostra que uma prática antiga, que na verdade já começa a ser vista como mais uma violenta tentativa de dominação mulher, só pode ser combatida com outra tradição sagrada.
Diferentemente do que acontece no filme da Safi Faye , a vida aldeã retratada por Sembène me pareceu muito peculiar, porque nem no cotidiano, nem na ritualística, se enquadra a nada parecido com o que eu reconheceria como algo africano herdado por nós no Brasil. Apenas nas atrizes eu vi muito das negras brasileiras, não jovens mocinhas, mas senhoras casadas e felizes com seus corpos. Acho que isso se deve ao fato de que na aldeia de Moolaadé se aborda diretamente a questão da África islâmica, com famílias poligâmicas e tradições muito específicas.
Para comentar o filme, a Mostra convidou o historiador e professor Márcio Paim que nos esclareceu que a tradição de onde nasceu Sembène é muito mais antiga do que aquela centrada nas lutas anti coloniais da década de 1970, pois ele descende de uma etnia muito mas antiga, referente ao Império do Mali, aproximadamente no século VIII! Em sua rica participação Paim abordou muitas questões extra filme e pontuou três temas principais comumente abordados criticamente na escola de cinema africano liderada por Ousmane Sembène, e nesse filme inclusive: a religião/a questão de gênero/a colonização. Sobre a questão da mutilação , para Paim, esse é um processo de hierarquização que remonta a períodos antigos e aborda o tema da preservação de tradição entre os grupos, mas atualmente sua manutenção tem vendo questionada por trazer dor e sofrimento à mulher.
As mulheres no filme se revoltam contra essa tradiação, não todas, mas muitas seguem a líder Colle, porque já tinham sido “informadas” pelo rádio (elemento de modernização da aldeia) e pelos programas ocidentais franceses, de que esse tipo de tradição violenta não seria mais necessária. Para Sembène, a crítica à postura submissa das mulheres, trazidas pela colonização islâmica, negava a possibilidade de resgate de uma cultura de matriliearidade, presente em diversas tradições africanas mas que, com a entrada do islã, acabaram submetendo certos poderes femininos, como a de indicar sucessão de líderes por exemplo, à uma figura masculina, quase sempre o filho mais velho.
A luta dessas mulheres contra a castração feminina, além de um retorno à crença na ancestralidade africana em oposição à imposição da religião islâmica trazida com a colonização, seria também um aceno para que a mulher volte a ocupar um papel importante na sociedade, mas assim era antes da instauração o Islã.
Esse filme tem muitas questões, não posso desenvolver todas agora, em breve assinto de novo e penso melhor sobre tudo.

















