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| Clarice Lispector. "A via Crucis do corpo" 1a. ed.. Rio de Janeiro:Artenova Capa Salvio Negreiros, 1974 Naquela grande faxina do começo da quarentena, em março, achei livros que havia esquecido que eu tinha e não achei um (Do Desejo, Hilda Hilst) que tinha certeza que tinha, mas não tenho. Os da Clarice Lispector que tenho, e amo, estão todos aqui. Apenas seleção de favoritos. Mas ter encontrado esse me surpreendeu. Não lembro de ter lido. Ele tem uns sublinhados, mas não fui eu, de olhar eu não reconheço esse texto, ele foi comprado em um sebo e custou R$5.Uma primeira edição de Lispector, com uma capa muito estilo "perto do coração selvagem" da vida , por esse preço?! Quando achei, tirei o pó e guardei de novo na estante e esqueci. Agora, meses depois, pensei em me aproximar deste estranho e ler, por isso o resgatei, agora, depois da juventude, ler (não reler) Clarice, como será? Na nota introdutória achei a velha Clarice: genial, pena que se leve tão a sério. Mas isso tinha uma justificativa que é claramente reiterada ao longo do livro: A obra nasceu da necessidade financeira da autora e foi feita a toque de caixa e para atender uma encomenda: Um livro de textos eróticos. Em 1974 Clarice tinha seus pudores, o maior deles era o medo de que, um dia, seus filhos viessem a ler a obra! Mas a necessidade, muito mais do que a ocasião, faz o ladrão! O fato é que o livro, bem curtinho, falha à proposta encomendada de ser literatura erótica,palmas à ele, não não por não ter muito muito erotismo (talvez fosse bem vindo),mas por se recusar a ser "de encomenda". Eu sei que falha porque sou uma leitora de Hilda Hilst - a diva da literatura erótica nacional - desde menina, sei o que é literatura erótica e sei que os textos de Clarice, nesse livro, passam perto, mas não saem das margens. Interessante é que Hilst também fica à espreita dessa leitura, tanto que comecei o post citando um livro dela, ausente em minha biblioteca. Mas voltando à Clarice, eu me compadeço dela, compreendo seu pudor, e concluo que do jeito que está, muito ao modo Lispector, o livro ficou bom, Nem precisava ser mais erótico, pois todo texto de Clarice, aquela ficção desvela as cascas e armaduras. Porém, em meio aos textos de ficção, insólitos, quase obscenos, dramáticos e até engraçados, ela insere alguns depoimentos muito doídos (para ela e para nós), que em sua maioria, tratam da dor de escrever aquele livro:
Em uma dessas crônicas, senti o primeiro arranhão no meu peito com o seguinte trecho sobre um fracassado :
Todo escritor carece de um bom leitor para si, eu sei que não sou sou boa leitora de alguns grandes autores, como Machado de Assis, mas da Clarice eu acho que sou uma leitora bem razoável. Digo isso, evidentemente, porque ela consegue me dar as porradas que deseja. Mesmo com esse livrinho erótico de açúcar, me roubou uma noite de sono, a qual passei amarguradamente ouvindo Danúbio Azul:
Não sei se o período da pandemia, da quarentena, do isolamento social ao qual estamos submetidos agora é o melhor para se ler Clarice, mas eu li, precisei ler, e precisei ler agora, Nada acontece por acaso. Dizia uma a professora de literatura brasileira na USP de quem fui aluna, Yudith Rosembaun, que a gente não sai da leitura de uma obra de Clarice do mesmo jeito que entrou. A professora repete e amplia essa ideia neste vídeo. Enquanto isso, nesse domingo de inverno, vou continuar a ouvir Danúbio Azul. |
domingo, 5 de julho de 2020
Pelas pontas dos dedos : Lendo "A via crucis do corpo", de Clarice Lispector
quinta-feira, 2 de julho de 2020
Eu: leitora de Milton Hatoum
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| 4 livros na estante |
Desde o ano passado eu falo frequentemente deste autor, vocês devem ter
percebido. Foi uma "descoberta" de 2019 e fazia tempo que não me deparava
com um autor desta forma e isso vem modificando minha postura como leitora. Não
foi por querer, mas em um primeiro momento eu encontrei o texto de Hatoum como
uma verdadeira historiadora lê suas fontes : realmente lê, mergulha, aceita ou
rejeita se possível, aprende algo com ela, sem conhecimentos externos, sem
ouvir entrevistas do autor, sem saber quantos livros, quais são os romances, se
há crônicas, se há contos, simplesmente lê.
Eu gosto muito da forma como ele
escreve, isso em todas as obras, de algumas gosto mais do que em outras, mas sei que esta
qualidade de bom escritor está sempre garantida, por isso ele me acompanhou em
momentos difíceis de longas espera em hospital em 2019, dessas coisas a gente
não se esquece. Dele eu li somente os romances, e com eles aprendi muito sobre o que seria
escrever um romance no Brasil contemporâneo através dos seus questionamentos.
Por curiosidade, achei esse depoimento de Ricardo
Ballarine sobre a leitura de algumas obras de Hatoum e apesar de eu já ter
escrito um post sobre minhas primeiras impressões a cada romance lido, agora,
decorridos alguns meses, quis sintetizar
um pouco a minha impressão sobre as quatro primeiras obras.
De todos, o meu favorito é o Relato
de um certo oriente (1989) , primeiro que ele publicou e o segundo dele que
li e sobre o qual comentei aqui.
Mas gostar ou não de um livro tem a ver com muitos fatores, nosso repertório literário ou expectativas de
leitores, por exemplo, o Ricardo Ballarine, no texto comentado acima, disse que
tentou ler por duas vezes, na primeira largou e na segunda, “pelo menos”,
conseguiu terminar, o livro que li e reli tantas vezes e aplaudi sempre. Mas não recomendo começar por ele, fundamental
é provar primeiro o gostinho de Hatoum. Desde
o início percebi que o volume é difícil de ler para leitores mais habituados a uma
narrativa mais fluída, mas talvez por isso mesmo seja um livro imprescindível.
E não é apenas pela ourivesaria (na minha primeira impressão de leitura eu já usava essa mesma palavra) com as palavras que o torna peculiar, mas também a estrutura
do texto que me lembra a de alguns reconhecidos autores estrangeiros,
especialmente os que tratam da narrativa de memórias de refugiados europeus que
li , como W. G. Sebald, cujas obras dialogariam
facilmente com o romance ambientado em Manaus no início do século XX. O
interessante dessa obra é que ela mostra coisas novas , sem mostrar
claramente (ele garante o beneficio da dúvida sobre se é aquilo mesmo, o tempo
todo), muitas que não desejamos enxergar o que eu chamaria de boa literatura,
isso pensando mundialmente.
A terceira leitura foi Cinzas do
Norte (2005) ,
que comentei aqui.
Achei muito diferente dos dois primeiros, muito menos poético ou sensorial, foi
a primeira vez que senti aquele vazio de
esperar algo tão grande quanto o que ele já havia me oferecido, mas não ser
atendida. Também por isso o Cinzas
demorou a chegar até mim, mas chegou, muito mais pela razão do que pela emoção,
como havia sido nos dois primeiros. Estava lendo um escritor, um escritor
brasileiro, foi muito bonito constatar isso. Depois que terminei essa leitura,
comecei a ouvir um pouquinho o que ele
fala e me deliciei ao perceber como ele sabe o que é um romance, o que
significa escrever um romance no Brasil e essa contribuição me fez gostar do Cinzas. Até agora é meu terceiro
favorito.
O quarto livro é o Orfãos do
Eldorado (2008) não é um romance e eu só percebi durante a leitura, e isso me
fez estranhar muito o livro de cara, como comentei aqui
, enquanto lia não sabia o que era, até pensei que pudesse ser um poema, mas o
ouvi explicar que se trata de uma novela encomendada. Lamentei um pouco, porque
ele trata de lendas manauaras, é tão bonito, mas falta mais recheio e se fosse
um romance, não faltaria. O choque da comparação entre os dois primeiros e os
dois últimos livros dele que li me fez ficar um pouco decepcionada e eu
resolvi parar de ler um tempo. Podia ler os contos, as crônicas, mas dei um
tempo mesmo.
Embora eu saiba que Hatoum não
precisa corresponder às minhas expectativas,
não posso calar meu desejo, muito menos o fato de que ele não foi
atendido. A psicanálise já explicou como é difícil, ou até impossível, ao ser humano superar uma frustração. Até
mesmo se ela for de leitor(a) e é preciso falar dela, por isso precisei voltar
ao tema dos primeiros romances de Hatoum, apesar de já ter começado a ler a
trilogia O lugar mais sombrio , acho melhor falar deles só depois de ler os
três, por enquanto ainda preciso tocar nessa ferida, “a perda do meu autor
querido”, e o questionamento sobre a possibilidade ou impossibilidade de gostar
dele, da forma como ele vier.
sábado, 27 de junho de 2020
“Yeelen” ( A Luz), Mali, 1987, direção Souleymane Cissé
Sobre a experiência ímpar de
acompanhar uma mostra de filmes africanos e ter acesso a uma visada totalmente
nova das coisas, da vida, dos lugares e das pessoas, eu sempre falei bastante.
Mas quando li aqui as
palavras de Janína Oliveira (pesquisadora do Instituto Federal do Rio de
Janeiro IFRJ) sobre o que, na verdade, seria
o Cinema Africano, tudo de encaixou: “um
cinema feito por africanos, com temas
africanos, para um público africano”, diferenciando-se de cinemas
apenas rodados em África, ou mesmo uma versão tortamente exterior de africanos
ou mesmo daquele continente. Segundo Oliveira, alguns cineastas se enquadraram
nesse objetivo inicial da cinematografia africana e até conseguiram
assinar uma escola própria de cinema em África, que retratava e propunha
questões políticas do continente no cinema, como é o caso do senegalês Ousmane
Sembène , do
mauritano Med Hondo e até das primeiras obras do maliano Souleymane
Cissé. Como outros cienastas africanos, Cissé também foi estudar cinema fora da
África, na antiga União Soviética, como mandava o contexto da Guerra Fria e
toda a discussão anti colonial
Na
cinematografia de Souleymane Cissé , “Yeelen” marca um momento de
virada de chave, quando ele deixa um pouco de lado as questões político-
sociais e volta-se à temática mais local, filmando a adaptação de uma antiga
lenda oral do século XIII. O filme conta a história do jovem Niankoro,
interpretado pelo belo bailarino Issiaka Kane:
Sua missão é escapar da maldição
lançada pelo seu próprio pai Soma em uma disputa ferrenha, baseada na
cosmologia e nas crenças Bambarra. Na história, Niankoro
também tem poderes visionários e na sua busca pelo enfrentamento o pai,
consegue salvar uma aldeia, na qual ganha do rei uma esposa, Attou, mas
não pode se esconder do enfrentamento final com Soma, o qual resulta um
encerramento, mas também em uma semente de futuro. Na imagem vemos a então
rainha mais jovem Attou sendo tratada pelo Niankoro
por causa de sua infertilidade:
O filme não é tão solar como as aldeias do Senegal de Sembène, até porque ele retrata vários povos e locais, desde regiões mais escuras, como o lugar onde Niankoro vive com a mãe no começo do filme, lugar menos seco, onde sua mãe se banha no leite, conversando em oração com a “grande mãe” em um ritual belíssimo, onde podemos ver algo que acontece em todo o filme: os corpos negros nus, mas sem erotização, em num contextos ritualísticos ou não, aqueles corpos não são objetificados, apenas são eles mesmos apensa sendo:
Além disso, os lugares do filme apresentam pedreiras
douradas, até lugares mais íngremes, como os chãos secos pelos quais viaja até
chegar ao reino. Em uma das mais belas cenas do filme, Em belas cenas de luta é de se observar as
pinturas na pele do rosto em laranja, branco e azul,
tornando a cena mais bonita:
No curto período em que Niankoro viveu no reino que ajudou a salvar, reparei que o rei e a sua esposa mais jovem se vestem de panos laranja, como se essa fosse a vestimenta real. Muito bonito. Esta é Attou, uma bela africana:
Na live com Janaína Oliveira, em 27 de junho, foram
abordadas algumas questões relevantes, como o fato de, até pelo fato de que
Cisé desejava, a partir desta obra, não ser mais visto como cineasta político e
não mais apresentar claramente questões graves como o histórico colonizador, mas
flertar com a possibilidade de contar outras histórias, tentar outras formas de resistência, como apresentar
mais o “o de dentro” , voltar-se para a cultura Bambará e, com isso, tentar descolonizar nossa
percepção. Isso seria uma outra forma de abordar tema político, mas que para os
olhos ocidentais, não trariam questões tão relevantes, afinal ficaria tudo
inserido na categoria exótica: África ancestral e bonita,na qual o ocidental
não vê maiores significados. No entanto o filme é repleto de símbolos e
significados opacos aos olhos de quem não conhece a tradição malinesa, que
nunca é explicada no filme, é apenas sutilmente apresentada, compondo uma história
que rompe com as conexões necessárias na forma de narrar ocidentais. Não deve
ter sido à toa que, desde que comecei a ver o filme, lembrei de Guimarães Rosa:
não importa se não entendeu alguma passagem, porque não vou entender muita
coisa mesmo, o importante é continuar a
assistir, uma hora alguma coisa ou tudo faz sentido.
Com essa montagem que recusa a se explicar, que renega a
transparência ocidental, o filme aborda uma questão de fundamental importância
local : quando o pai não quer abrir mão do seu poder para deixar ao filho
estamos tratando da luta pelo poder entre gerações que, na verdade, significa
uma luta para não extinguir as tradições, mas um esforço pela continuidade daquela
cultura antiquíssima.
Nesse belo e poético filme vemos ser questionado, o tempo todo, nosso olhar estanque sobre a África tradicional e a ancestralidade, pois ele mostra que existem outras formas de se contar histórias, formas que não precisam, necessariamente, passar pelo filtro colonizador.
quinta-feira, 25 de junho de 2020
"A Noite da espera" e minha espera por um romance desafiador de Milton Hatoum
Terminei
de ler o primeiro volume da trilogia “O Lugar mais sombrio”, o chamado “A noite
da espera”. Como fui infectada pelo mosquito do Hatoum, estou lendo tudo o que
ele escreve e me ficou disponível, mas é
claro para mim que a cada leitura iniciada eu ainda procuro aquela sensação que
tive ao entrar em contato com os dois primeiros romances (“Dois irmãos” e
principalmente “Relato de um certo oriente”), que pensei: putz, que livro! Mas
nunca mais cheguei ao resultado almejado.
No entanto a busca continua e a longa noite da espera por um romance
desafiador não tem fim.
Isso tem a ver comigo como leitora, as coisas
que eu procuro em um livro: Sou mais analítica, me interessa o como está
escrito, o grau de poeticidade, as questões propostas pelo enredo. Não sou
crítica literária, só gosto de literatura, inclusive a brasileira, e o Hatoum
chama muito a minha atenção desde sempre, especialmente porque mesmo que nem
todos os livros sejam maravilhosos, ele tem um ou dois que devem ficar na
história da literatura nacional.
Em
um dos seus depoimentos esclarecedores no Youtube, Hatoum disse que o “romance
nasce com fome de forma” e é interessante observar como ele passeia nisso. Falando no “A noite da espera”, propriamente
dito, desde o início ele foi o que eu menos gostei de Hatoum. Não queria ler
sobre o tema do livro, que é o golpe civil militar de 1964 sentido em Brasília
por uma turma de estudantes. Não agora. Não nunca mais? Não sei. O que sei é que não desse jeito que está ali:
em forma de um diário em datas diversas, que reavivam memórias de 1968 até
1972, escrito por um personagem só, o Martim, que é um estudante tão
normalzinho, parece muito um dos meus ex, mais do que eu suportaria, e ler
sobre sua vida universitária me incomoda
muito. Literatura também serve para perturbar.
Sobre essa questão da identificação Hatoum escreve :
“quando alguém se identifica com
uma personagem, parece que não consegue se livrar dela. É como se você quisesse
se livrar de uma mentira em que você acredita.” p. 218
Mas o fato é que o Hatoum está escrevendo a história da sua geração, ou melhor, um romance de formação na sua geração. Eu, como representante de uma futura, não me agrado tanto por ela, é muito longe para eu me identificar, e muito perto para eu me achar algo tão diferente nela. Sou uma péssima leitora desse livro.
Posto isso, é fato que Martim é um jovem homem que sofre pela ausência de mulheres em alguns momentos. Não uma ausência total (isso me incomodou, porque eu sei o que é ausência total e absoluta , eu e a maior parte da população brasileira, que sempre foi separada, dividida, fragmentada: para mim é difícil ser empática com Martim, que sofre como um jovem francês que lê Proust). Mas Hatoum sabe que está escrevendo no Brasil, sobre o Brasil e por isso eu ainda confio nele e sigo lendo a trilogia.
Martim é um personagem em formação naquele período, se forma no teatro, nos livros , trabalha numa livraria, assiste filmes clandestinos, que publica num jornal também clandestino, traduz poesia e tem um mestre - o embaixador Faisão, pai de um de seus amigos, que é aposentado da cerreira diplomática e amargurado, porque sua geração de sonhadores, “progressistas”, foi afastada, agora sente que não serve mais - , então ele “adota” Martim, que lê e traduz os livros indicados, mais do que seu próprio filho, que só lê os livros de direito e é incapaz de entender que a saída, se houver, está nas artes, nesses oxigênios que a gente respira.
A
história de Martim e o embaixador Faisão foi a minha parte favorita do romance.
No apartamento de Faisão, que é mineiro e vive mineiramente em Brasília, come comida mineira, oferece queijo minas com goiabada aos hóspedes e na primeira vez que Martim lá
esteve, em 20 de março de 1970, ele viu alguns quadros na parede: Um Di
Cavalcanti e um busto de uma moça de um pintor que ele desconhecia, mas que tinha (me deixe lamber as palavras saborosas de Hatoum):
“pinceladas leves, com tinta
diluída, davam uma textura meio difusa ao rosto, que parecia animado pelo
desejo. Os lábios ensaiavam um sorriso. O decote sem contornos claros revelava
o volume dos seios, e o pescoço alongado tinha a mesma altivez da cabeça, do
busto e das mãos.O olhar era de festa: talvez uma noite junina, pois no fundo
da pintura um balãozinho subia no escuro, como se fosse escapar da tela sem moldura. Notei
alguns traços desse rosto jovem nas feições da embaixatriz, sentada diante de mim.
Quem seria o pintor?” P. 87
Pois
bem, algumas coisas vão acontecer no romance e a formação do “herói” Martim vai
se moldando, sempre sob a tutela de Faisão e o retrato em seu apartamento vai
saindo da condição de questionamento sobre quem seria o pintor, ou mesmo quem
seria a modelo, para ao final de 1972 , quando ele comenta:
“O olhar do retrato feminino me
atraiu: olhar atento e ambíguo, para dentro e pra fora. E um sorriso quase
imperceptível. Guignard pintara com tons um pouco escuros o rosto da futura
embaixatriz, o branco dos olhos vibrava na tela, e no canto direito superior a
figura de um balãozinho ocre subia na noite junina” p. 220
Ouvindo Hatoum em gravações do Youtube, me lembro que ele disse que o mais importante no romance não é propriamente se a história aconteceu, mas qual a possibilidade dela ter acontecido. Por isso o livro começa com uma foto de uma rodoviária, de um ônibus Brasília – São Paulo, mostrando que essas viagens eram e ainda são possíveis. Por que não aquela?
Também a figura de Faisão é , e foi, possível de ter existido. Fui atrás de um retrato feminino feito por Guignard e encontrei um de uma embaixatriz na década de 1960
Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é um pintor mineiro, e ele também pintou
a embaixatriz mineira Lucia Flecha de Lima em sua juventude na década de 1960,
quadro leiloado em 2019 com lance inicial de R$ 119 mil. É claro que o quadro não é o mesmo descrito
ficcionalmente no romance, que o
embaixador Faisão não é o embaixador mineiro Paulo Tarso Flecha de Lima, esposo da embaixatriz Lucia, apesar do pintor retratista ser igual. Mas tudo isso dá
uma sensação forte de que a história de Martim e Faisão poderia, mesmo, ter
acontecido.
Isso é uma das graças da literatura de Hatoum. A outra são as incontáveis perguntas sem resposta, que dá mais a sensação de que podia ser vida real, não é mesmo?
domingo, 14 de junho de 2020
A NOITE DA ESPERA : impressões de leitura
sábado, 13 de junho de 2020
“Inxeba”(Os Iniciados), África do Sul, 2017, direção John Trengove
O filme conta a história de três homens que participam de um ritual tradicional africano nas montanhas de Cabo Oriental, África do Sul, que acontece anualmente. O personagem principal é Xolani, um operário solitário que viaja todo ano para participar do rito de Ulwaluko, que consiste na circuncisão de adolescentes de origem Xhosa para que eles ingressem finalmente na vida adulta. Na época do filme, ele vai com recomendação de um pai do jovem Kwada, percebendo que ele não se enquadrava no projeto de masculinidade aceito, paga Xonali para ser responsável´pelo rapaz da cidade e tentar evitar que ele se torne homossexual. O problema é que esse jovem, que é gay, e é bastante questionador e acaba descobrindo um segredo entre seu instrutor e Xolani, acabando com a paz na local. O trailer
Os três homens em conflito na montanha, local mostrado como uma selva deslumbrante, seguram uma tensão sexual mútua o filme todo e o final, realmente é surpreendente.
As cenas de sexo entre os personagens são quase sempre gravadas no escuro, com os corpos negros camuflados, exceto no final, quando as verdades começam ser reveladas a olhos nus e não é mais preciso esconder nada. Interessante observar que, no começo do filme, as cenas sexuais se confundem as com as cenas da circuncisão – ambiente escuro, corpos negros gemidos de dor ou prazer - , como se fossem metáfora da dor e do prazer do crescer?
É sabido que, ao contrário de muitos países africanos, a África do Sul tem uma boa relação com o tema da homossexualidade, mas no filme a tensão se coloca porque a questão é trazida para um ambiente tradicional, apresentando um enredo original que mescla costumes e modernidades.
Na live de debate sobre o filme com o doutor em letras Lecco Fraça,que estava ótima, falando sobre a delicada questão da sexualidade retratada no cinema africano e fazendo belas leituras do filme, até que foi interrompida por estar violando as regras do Youtube : por que, gente?
No trecho que pudemos companhar da live, o filme começou a ser abordado de diversas formas, como a partir dos seus cartazes no Brasil (Os Iniciados); na África (Indexa- Ferida) e em espalho (La Herida)
cartazes:
Depois foi sugerida uma comparação com o belo filme queniano Rafik
dirigido Wanuri Kahiu, sobre o amor entre duas garotas num lugar onde o
homossexualidade é crime, tanto que o premiado filme não pôde ser exibido em seu
próprio país, mas ai a tranmissão foi cortada.
Realmente foi uma pena termos ficado sem essa contribuição completa, de qualquer modo, recomendo assitir ao filme e pensar sobre masculinidade, masculinidade negra e mais, masculidade negra africana, porque, como apontou Juciele Oliveira, mediadora do debete , o cinema pode constrir contra narrativas de reação à opressão em assunto polêmicos, como a sexualidade e o afeto em África.
Enfim, é um filme sobre Masculinidades. Masculinidades negras. Masculinidades negras em África. Bem tenso.
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| Não nesse dia, mas nessa época |
quinta-feira, 11 de junho de 2020
“Ar-condicionado” , Angola, 2020, direção Fradique
O filme angolano “Ar condicionado” (2020), dirigido por Fradique e produzido pela Geração 80, uma produtora audio visual angolana interessante que, segundo Jorge Cohen, preocupa-se em interagir com imagens e sons de produções do "sul do mundo", que certamente devem diferir do norte do mundo, referências com as quais estamos acostumados. Abaixo um momento da live sobre o filme, acontecida em 10 de junho de 2020, da direita para a esquerda, no alto Ana Camila (mediadora da Mostra), Saymor (jornalista da Mostra), abaixo Fradique e Jorge Cohen (da Geração 80):
O filme conta a história misteriosa de quando muitos
aparelhos de ar condicionado começam a cair dos apartamentos na cidade de Luanda
e Matacedo e Zezinha, empregados dos prédios, recebem do chefe a missão de
recuperarem os aparelhos e com isso chegam até Kota Mino, o proprietário de uma
loja de eletrônicos que está montando, secretamente, uma máquina de recuperar
memórias.
No início lemos a seguinte explicação sobre que ar e que condicionamento iremos tratar
Alguns pontos me chamaram a
atenção no filme, como a figura autoritária do chefe, que ao mesmo tempo em que
diz ser o presidente do prédio e é a ele que os empregados devem respeito, obedece à
ordem de uma mulher que o acompanha,
deixando claro que seu domínio vale para alguns.
Sobre Matacedo, que o diretor comentou que é um nome fictício, inventado por causa do seu passado de soldado de guerra, como todos os seguranças dos prédios de Luanda, e refere-se aos que acordavam cedo para comer o “mata bicho” (café da manhã) nos batalhões, já grisalho e muito magro, e depois ficamos sabendo mais sobre ele quando ele registra suas memórias, mas no começo só sabemos que ele tem problema de audição, certamente consequências da guerra, tem momentos em que não ouve (e nós também não ouvimos, embora a legenda embutida em inglês nos conte o que estão falando para ele). Ele fica muito ligado nas informações da televisão, que leva para comentar com Zezinha. Dela sabemos alguns fragmentos de história, que veio com a família de perto do mar. Fala muito do pai, da importância do vento que aprendeu com ele, o vento natural, não esse do AC.
Em cenas gravadas na parte
superior do prédio, o segurança Matacedo observa algumas manifestações de
rappers pensando criticamente sobre heranças e perdas, como se fosse um
meta-comentário do próprio filme. Outro comentário pertinente e poético é feito
pelo Kota Mino ao comentar a queda dos ACs
lembrar que eles caem, assim como nas árvores, frutos maduros soltam-se dos
galhos. Isso é interessante vindo deste personagem, que arma toda uma ligação
entre os ACs e os registros de memórias, lembrando inclusive que “sem som não
há memórias”.
Além das cenas do prédio,
que os realizadores contaram que existe de verdade e fica perto da Geração 80, é enorme
e velho e, segundo os realizadores, existem aos montes em Luanda, são prédios
invisíveis, não saem nas fotos dos postais de Luanda, assim como seus
moradores funcionários, então o filme
escolheu registrá-los.
Por muito tempo no filme, a
câmera vai andando atrás das personagens, daí vermos claramente suas costas em
contraste com o entorno de uma Luanda
feia, em ruínas mesmo, com aparelhos enferrujados nas ruas, como em um futuro
diatópico? O que os realizadores negaram, afirmando que aquela é mesmo a Luanda de 2020. Na
oficina do Kota Mino, quando este fala da possibilidade de sua máquina reter as
memórias através dos ACs, Zezinha duvida, pois no bairro onde mora ninguém tem
AC, como retriam as memórias deles? Então Mino explica que as deles “caíram com
as árvores”, agora só restaram as dos ACs. Daí ele
explica que sua máquina de memória é construída com AC, mas é fundamental que ela esteja
preservada e “funcione” em meio às plantas. E aquelas eram as últimas da
cidade. Realmente o filme não mostra nenhum verde, só ruínas, fragmentos de
vida na metrópole e referências às mídias como televisão e rádio, onde as
personagens se “informam” sobre a tragédia que está ocorrendo. Isso me remeteu aos curtas de afro futurismo
que assisti no ano passado.
No mais belo momento do
filme, Zezinha e Kota Mino deixam Matacedo sozinho na máquina da memória, que
funciona com um AC ligado a um carro, muito ao modo de De volta para o futuro, flerte confirmado pelo diretor
Fradique, e Matacedo fecha os olhos e
vamos vendo o carro passear por uma Luanda bonita, de dia, de noite, na chuva,
com prédios novos com a seguinte canção, cantada por Aline Frazão, de forma
muito sincopada, assim como o filme, a música dá um passo e volta dois, como é
o ritmo da memória de Matacedo, mas também uma fala da própria Angola:
quando eu fecho os olhos imagino um país novo
quando eu fecho os olhos eu me lembro de novo
para não me dissolver no cassino da lembrança aperto passo na dança,
obstinada dos dias
tudo era bem melhor no tempo em que ainda me vias
tempo tempo tempo, tempo, tempo
de noite adormece o meu corpo
antigo
enferrujado e doído, como um sobrado em ruínas
Sonho para não esquecer e esqueço ao amanhecer
Segundo Fradique, o filme apresenta três lados principais : Matacedo e seu passado de guerra/ Zezinha e sua praticidade em resolver as coisas apontando para um futuro/ Kota Mino e sua peocupação em salvar o que resta das memórias. Essas três personagens seriam testemunhas daquilo que, nesse momento, se está a perder em Luanda e está sintetizado na imagem dos aparelhos de ar condicionado que absorveriam as memórias e ficam cheios e pesados, por isso caem. E é importante resgatar as memórias , não deixar que elas se percam. Filme maravilhoso, confiram o trailer:
















