segunda-feira, 13 de julho de 2020

"Félicité" , Senegal, 2017, direção Alain Gomis


cartaz do filme 

            O filme escolhido pelo Senegal a concorrer ao Oscar, conta a história da bela Félicité, uma mulher que ganha a vida como cantora em um bar de Kinshasa, Congo para criar seu filho Samu, de dezesseis anos, que logo no início da trama sofre um acidente e ele precisa recorrer à saídas possíveis e impossíveis para conseguir dinheiro para pagar seu tratamento. Nesta busca, nos leva a passear por locais miseráveis e também de alta classe, nos apresentando um retrato cru da preferiria congolesa, mas sempre através do filtro do seu forte olhar.

Véro Tshanda Mputu interpreta Felicité cantando


A protagonista do longa de mais de duas horas é Felicité, interpretada pela atriz congolesa Véro Tshanda Mputu, que consegue dar vida a personagem inabalável, que luta pelo que deseja, sem ceder a dramas, mas sempre alcançando uma libertação através de seu canto capaz de enfeitiçar. As cenas em que aparece cantando, além do poder libertador da música, primam pelo zoom em seu rosto negro e sincero, como em alguma espécie de transe. Outra coisa interessante é que de madrugada,  em segredo, ela costuma ir a floresta se banhar, em cenas pretas, com desenhos de penumbra.  
 

Samu e Felicité



Fica claro que Félicité vive e sente-se sozinha com seu filho Samu (Gaetan Claudia), sem qualquer ajuda para enfrentar os problemas, sejam eles mais simples como a quebra do refrigerador, ou mais complicados, como pagar a operação do filho. Ela não abaixa a cabeça nunca, mas tem dignidade o suficiente pra pedir ajuda a quem supõe poder ajudar – como o pai do seu filho, ou então um homem rico que mal conhece -, mas nem sempre conseguindo retorno. Na busca pelo financiamento do tratamento do filho, assistimos reiteradamente o registro da sua força: ela briga pelos seus direitos, com quem quer seja, mesmo sendo rechaçada, humilhada em palavras ou fisicamente por homens ou mulheres, segue em frente. Em uma das visitas que faz temos uma citação ao ideário tradicional congolês quando ela  ouve sem sobressaltos, de uma senhora que a conhece desde o nascimento, que a descreve como “dura demais, para seu próprio bem” a história secreta de sua primeira morte: em criança, com um ou dois anos, ficou muito doente e morreu, foi posta em um caixão e ia ser enterrada, quando acordou, por isso foi rebatizada, passando de Kapinga, para Félicité “a nossa alegria”, mas esta história nunca lhe haviam contado para que ela não voltasse a morrer.

Felicité se desfaz das tranças


Em outro momento, uma passagem muito significativa do filme, depois que seu filho, enfim,  retorna ao lar e as mulheres do entorno lhe fazem uma visita de cortesia, se compadecendo de seu drama, Felicité que até então usava longas tranças, corta ela mesma os cabelos, como uma guerreira, pronta para uma próxima fase na vida.

Periferia de Kinshasa

            Mas embora o filme se centre na história de Felicité, cabe dizer que para contá-la, o filme mostra cruamente uma realidade muito feia e dura da periferia de Kinshasa,muita miséria, justiça com as próprias mãos, golpes... até uma menina pequena e escolhida aleatoriamente na rua, é oferecida para que Félicité a venda  e pague a cirurgia do filho! Para contrastar com realidades tão duras,  Alain Gomis insere algumas longas cenas líricas, com uma orquestra cantando e e tocando música clássica, . O resultado é intrigante!

    Ao final, de alguma forma, ela e Tabu,que são uma mulher e um homem belíssimos,   acabam de entendendo, na suas necessidades e limites. A cena mais linda, de um amor puro mesmo, invejável, é quando eles, dormindo na mesma cama, um sobre o outro,  apenas se olham, tudo está posto ali, não há necessidade de mais nada. 

Félicité e Tabu:Não precisam de mais nada

Mas ele faz ainda mais: quando ela adormece, ele se levanta, cobre seu corpo, e fica cuidando, como fez o tempo todo, do seu jeito meio torto. Até me emocionei nesse trecho 

Félicité e Tabu: se acolhem

A LIVE COM MARIA ZENUM

As duas na live

   

A estudiosa passou um panorama rico dos fluxos dos festivais de cinema em África, especialmente do FESPACO,  que embora tenha problemas faz concessões para sobreviver. Sobre o filme Felicité, seria dividido em quatro partes: 1 - a primeira cena no bar, Felicité cantando muito, depois muito ativa em casa, expressando seus desejos por palavras, e a primeira cena mostra todo mundo e ninguém, num ambiente escuro, quer que a gente se sinta naquele bar, ouça aquela música, veja outras coisas; 2 - a parte do hospital e de toda a busca de  Félicité pelo filho, na qual ela se rasga, mas no fim não consegue;3 -A tristeza e culpa de Felicité por não ter conseguido ajudar o filho, ela para de cantar, conta as tranças, vai parando de falar e vai ficando cada vez mais apática e a gente não aguenta sua tristeza e acha que o filme poderia ser mais curto; 4- O afeto de família entre ela Tabu e Samu, que de alguma forma se entendem, se acolhem e é muito bonito . A cena em que ela, Mama, enfim baixa a guarda e deita a cabeça no ombro de Tabu, Papa, como se o aceitando como ele é, é maravilhosa!

Eu, na ocasião 







domingo, 5 de julho de 2020

Pelas pontas dos dedos : Lendo "A via crucis do corpo", de Clarice Lispector



Clarice Lispector. "A via Crucis do corpo" 1a. ed..
 Rio de Janeiro:Artenova Capa Salvio Negreiros, 1974

Naquela grande faxina do começo da quarentena, em março, achei livros que havia esquecido que eu tinha e não achei um (Do Desejo, Hilda Hilst) que tinha certeza que tinha, mas não tenho. Os da Clarice Lispector  que tenho, e amo, estão todos aqui. Apenas seleção de favoritos. Mas ter encontrado esse me surpreendeu. Não lembro de ter lido. Ele tem uns sublinhados, mas  não fui eu, de olhar eu não reconheço esse texto, ele foi comprado em um sebo e custou R$5.Uma primeira edição de Lispector, com uma capa muito estilo "perto do coração selvagem" da vida , por esse preço?! 

Quando achei, tirei o pó e guardei de novo na estante e esqueci. Agora, meses depois, pensei em me aproximar deste estranho e ler, por isso o resgatei, agora,  depois da juventude, ler (não reler) Clarice, como será?
 Na nota introdutória achei a velha Clarice: genial, pena que se leve tão a sério. Mas isso tinha uma justificativa que é claramente  reiterada ao  longo do livro: A obra nasceu da necessidade financeira da autora e foi feita a toque de caixa e para atender uma encomenda: Um livro de textos eróticos. Em 1974 Clarice tinha seus pudores, o maior deles era o medo de que, um dia, seus filhos viessem a ler a obra! Mas a necessidade, muito mais do que a ocasião,  faz o ladrão!

O fato é que   o livro, bem curtinho, falha à proposta encomendada de ser literatura erótica,palmas à ele, não  não por não ter muito  muito erotismo (talvez fosse bem vindo),mas por se recusar a ser "de encomenda". Eu sei que falha  porque sou uma leitora de Hilda Hilst - a diva da literatura erótica nacional - desde menina, sei o que é literatura erótica e sei que os textos de Clarice, nesse livro, passam perto, mas não saem das margens. Interessante é que Hilst também fica à espreita dessa leitura, tanto que comecei o post citando um livro dela, ausente em minha biblioteca. Mas voltando à Clarice, eu me compadeço dela, compreendo seu pudor, e concluo que do jeito que está, muito ao modo Lispector, o livro ficou bom, Nem precisava ser mais erótico, pois todo texto de Clarice, aquela ficção  desvela as cascas e armaduras. Porém, em meio aos textos de ficção, insólitos, quase obscenos, dramáticos e até engraçados, ela insere alguns depoimentos muito doídos (para ela e para nós), que em sua maioria, tratam da dor de escrever  aquele livro:

"Meus dedos doem de tanto bater à maquina. Com as pontas dos dedos não se brinca. É pela ponta dos dedos que se recebem fluídos" 

Clarice Lispector. "por enquanto",(p.60)

 Em uma dessas crônicas, senti o primeiro arranhão no meu peito com o seguinte trecho sobre um fracassado :

"Ele chorou um pouco. Era um belo homem, com barba por fazer e abitadíssimo. Via-se que havia fracassado. Como todos nós. (...) Oh Cláudio -tinha vontade de gritar - nós todos somos fracassados, nós todos vamos morrer um dia! Quem? Mas quem pode dizer com sinceridade que se realizou na vida? O sucesso é uma mentira." Clarice Lispector. "O homem que apareceu",(p. 49)

 

Todo escritor carece de um bom leitor para si, eu sei que não sou sou boa leitora de alguns grandes autores, como Machado de Assis, mas da Clarice eu acho que sou uma leitora bem razoável. Digo isso, evidentemente, porque ela consegue me dar as porradas que deseja. Mesmo com esse  livrinho erótico de açúcar, me roubou uma noite de sono, a qual passei amarguradamente ouvindo Danúbio Azul:

"Eu não disse que hoje é dia de Danúbio azul? Estou feliz,apesar da morte do homem bom, apesar de Cláudio Brito,apesar do telefonema sobre minha desgraçada obra literária.Vou tomar café de novo. (...) E preciso de dinheiro. Mas Danúbio Azul é lindo, é mesmo." Clarice Lispector "dia após dia",p.68


Não sei se o período da pandemia, da quarentena, do isolamento social ao qual estamos submetidos agora é o melhor para se ler Clarice, mas eu li, precisei ler, e precisei ler agora, Nada acontece por acaso. 
Dizia uma a professora de literatura brasileira na USP de quem fui aluna,   Yudith Rosembaun, que a gente não sai da leitura de uma obra de Clarice do mesmo jeito que entrou. A professora repete e amplia essa ideia neste vídeo. Enquanto isso, nesse domingo de inverno, vou continuar a ouvir Danúbio Azul.
 
 
 

quinta-feira, 2 de julho de 2020

Eu: leitora de Milton Hatoum


4 livros na estante

Desde o ano passado eu falo frequentemente deste autor, vocês devem ter percebido. Foi uma "descoberta" de 2019 e fazia tempo que não me deparava com um autor desta forma e isso vem modificando minha postura como leitora. Não foi por querer, mas em um primeiro momento eu encontrei o texto de Hatoum como uma verdadeira historiadora lê suas fontes : realmente lê, mergulha, aceita ou rejeita se possível, aprende algo com ela, sem conhecimentos externos, sem ouvir entrevistas do autor, sem saber quantos livros, quais são os romances, se há crônicas, se há contos, simplesmente lê.

 Eu gosto muito da forma como ele escreve, isso em todas as obras, de algumas  gosto mais do que em outras, mas sei que esta qualidade de bom escritor está sempre garantida, por isso ele me acompanhou em momentos difíceis de longas espera em hospital em 2019, dessas coisas a gente não se esquece. Dele eu li somente os romances,  e com eles aprendi muito sobre o que seria escrever um romance no Brasil contemporâneo através dos seus questionamentos. Por curiosidade, achei esse depoimento de Ricardo Ballarine sobre a leitura de algumas obras de Hatoum e apesar de eu já ter escrito um post sobre minhas primeiras impressões a cada romance lido, agora, decorridos alguns meses,  quis sintetizar um pouco a minha impressão sobre as quatro primeiras obras.

O primeiro Hatom que eu li foi
Dois Irmãos (2000), que inspirou uma minissérie da Globo, muito emocionante, muito bem produzida  dirigida por Luiz Fernando Carvalho, que eu assisti a maior parte, sobre a qual comentei aqui. Mas, evidentemente, o livro é outro mundo, muito mais intrigante, que também comentei aqui,  em cuja leitura, eu já me interessava mais pelos meus trajetos de leitora daquela escrita, percebia que Hatoum despertava em mim uma leitora diferente e ainda que ele abordasse nesse livro vários assuntos dos quais, naturalmente, eu fugiria , o texto é tão bem escrito que fui me deliciando com todas aquelas sensações. Reparei de cara que a chave dos romances hatunianos é o narrador. Em Dois Irmãos , mais do que a mãe, mais do que os gêmeos, mais do que qualquer outro personagem, o livro é o seu narrador misterioso. Que ao final achei que fosse muito eu. Como dói.

De todos, o meu favorito é o Relato de um certo oriente (1989) , primeiro que ele publicou e o segundo dele que li e sobre o qual comentei aqui. Mas gostar ou não de um livro tem a ver com muitos fatores,  nosso repertório literário ou expectativas de leitores, por exemplo, o Ricardo Ballarine, no texto comentado acima, disse que tentou ler por duas vezes, na primeira largou e na segunda, “pelo menos”, conseguiu terminar, o livro que li e reli tantas vezes e aplaudi sempre.  Mas não recomendo começar por ele, fundamental é provar  primeiro o gostinho de Hatoum. Desde o início percebi que o volume é difícil de ler para leitores mais habituados a uma narrativa mais fluída, mas talvez por isso mesmo seja um livro imprescindível. E não é apenas pela ourivesaria (na minha primeira impressão de leitura  eu já usava  essa mesma palavra) com as palavras que o torna peculiar, mas também a estrutura do texto que me lembra a de alguns reconhecidos autores estrangeiros, especialmente os que tratam da narrativa de memórias de refugiados europeus que li , como W. G. Sebald, cujas obras dialogariam facilmente com o romance ambientado em Manaus no início do século XX. O interessante dessa obra é que ela mostra coisas novas , sem mostrar claramente (ele garante o beneficio da dúvida sobre se é aquilo mesmo, o tempo todo), muitas que não desejamos enxergar o que eu chamaria de boa literatura, isso pensando mundialmente.


A terceira leitura foi Cinzas do Norte (2005) , que comentei aqui. Achei muito diferente dos dois primeiros, muito menos poético ou sensorial, foi a primeira vez que senti  aquele vazio de esperar algo tão grande quanto o que ele já havia me oferecido, mas não ser atendida. Também por isso o Cinzas demorou a chegar até mim, mas chegou, muito mais pela razão do que pela emoção, como havia sido nos dois primeiros. Estava lendo um escritor, um escritor brasileiro, foi muito bonito constatar isso. Depois que terminei essa leitura, comecei a ouvir um pouquinho  o que ele fala e me deliciei ao perceber como ele sabe o que é um romance, o que significa escrever um romance no Brasil e essa contribuição me fez gostar do Cinzas. Até agora é meu terceiro favorito.


O quarto livro é o Orfãos do Eldorado (2008) não é um romance e eu só percebi durante a leitura, e isso me fez estranhar muito o livro de cara, como comentei aqui , enquanto lia não sabia o que era, até pensei que pudesse ser um poema, mas o ouvi explicar que se trata de uma novela encomendada. Lamentei um pouco, porque ele trata de lendas manauaras, é tão bonito, mas falta mais recheio e se fosse um romance, não faltaria. O choque da comparação entre os dois primeiros e os dois últimos livros dele que li me fez ficar um pouco decepcionada e eu resolvi parar de ler um tempo. Podia ler os contos, as crônicas, mas dei um tempo mesmo.

Embora eu saiba que Hatoum não precisa corresponder às minhas expectativas,  não posso calar meu desejo, muito menos o fato de que ele não foi atendido. A psicanálise já explicou como é difícil, ou até impossível,  ao ser humano superar uma frustração. Até mesmo se ela for de leitor(a) e é preciso falar dela, por isso precisei voltar ao tema dos primeiros romances de Hatoum, apesar de já ter começado a ler a trilogia  O lugar mais sombrio , acho melhor falar deles só depois de ler os três, por enquanto ainda preciso tocar nessa ferida, “a perda do meu autor querido”, e o questionamento sobre a possibilidade ou impossibilidade de gostar dele, da forma como ele vier.



sábado, 27 de junho de 2020

“Yeelen” ( A Luz), Mali, 1987, direção Souleymane Cissé




Sobre a experiência ímpar de acompanhar uma mostra de filmes africanos e ter acesso a uma visada totalmente nova das coisas, da vida, dos lugares e das pessoas, eu sempre falei bastante. Mas quando li aqui as palavras de Janína Oliveira (pesquisadora do Instituto Federal do Rio de Janeiro IFRJ) sobre o que, na verdade,  seria o Cinema Africano, tudo de encaixou: “um cinema feito por africanos, com temas africanos, para um público africano”, diferenciando-se de cinemas apenas rodados em África, ou mesmo uma versão tortamente exterior de africanos ou mesmo daquele continente. Segundo Oliveira, alguns cineastas se enquadraram nesse objetivo inicial da cinematografia africana e até conseguiram assinar uma escola própria de cinema em África, que retratava e propunha questões políticas do continente no cinema, como é o caso do senegalês Ousmane Sembène   do mauritano Med Hondo e até das primeiras obras do maliano Souleymane Cissé. Como outros cienastas africanos, Cissé também foi estudar cinema fora da África, na antiga União Soviética, como mandava o contexto da Guerra Fria e toda a discussão anti colonial

Na cinematografia de Souleymane Cissé , “Yeelen” marca um momento de virada de chave, quando ele deixa um pouco de lado as questões político- sociais e volta-se à temática mais local, filmando a adaptação de uma antiga lenda oral do século XIII. O filme conta a história do jovem Niankoro, interpretado pelo belo bailarino Issiaka Kane:


Sua missão é escapar da maldição lançada pelo seu próprio pai Soma em uma disputa ferrenha, baseada na cosmologia e nas crenças Bambarra. Na história,  Niankoro também tem poderes visionários e na sua busca pelo enfrentamento o pai, consegue salvar uma aldeia, na qual ganha do rei uma esposa, Attou, mas não pode se esconder do enfrentamento final com Soma, o qual resulta um encerramento, mas também em uma semente de futuro. Na imagem vemos a então rainha mais jovem Attou sendo tratada pelo Niankoro por causa de sua infertilidade:

O filme não é tão solar como as aldeias do Senegal de Sembène, até porque ele retrata vários povos e locais, desde regiões mais escuras, como o lugar onde  Niankoro vive com a mãe no começo do filme, lugar menos seco, onde sua mãe se banha no leite, conversando em oração com a “grande mãe” em um ritual belíssimo, onde podemos ver algo que acontece em todo o filme: os corpos negros nus, mas sem erotização, em num contextos ritualísticos ou não, aqueles corpos não são objetificados, apenas são eles mesmos apensa sendo:


 

 Além disso, os lugares do filme apresentam pedreiras douradas, até lugares mais íngremes, como os chãos secos pelos quais viaja até chegar ao reino. Em uma das mais belas cenas do filme,  Em belas cenas de luta é de se observar as pinturas na pele do rosto em laranja, branco e  azul, tornando a cena mais bonita:


No curto período em que Niankoro viveu no reino que ajudou a salvar, reparei que o rei e a sua esposa mais jovem se vestem de panos laranja, como se essa fosse a vestimenta real. Muito bonito. Esta é Attou, uma bela africana:


Na live com Janaína Oliveira, em 27 de junho, foram abordadas algumas questões relevantes, como o fato de, até pelo fato de que Cisé desejava, a partir desta obra, não ser mais visto como cineasta político e não mais apresentar claramente questões graves como o histórico colonizador, mas flertar com a possibilidade de contar outras histórias,  tentar outras formas de resistência, como apresentar mais o “o de dentro” , voltar-se para a cultura Bambará  e, com isso, tentar descolonizar nossa percepção. Isso seria uma outra forma de abordar tema político, mas que para os olhos ocidentais, não trariam questões tão relevantes, afinal ficaria tudo inserido na categoria exótica: África ancestral e bonita,na qual o ocidental não vê maiores significados. No entanto o filme é repleto de símbolos e significados opacos aos olhos de quem não conhece a tradição malinesa, que nunca é explicada no filme, é apenas sutilmente apresentada, compondo uma história que rompe com as conexões necessárias na forma de narrar ocidentais. Não deve ter sido à toa que, desde que comecei a ver o filme, lembrei de Guimarães Rosa: não importa se não entendeu alguma passagem, porque não vou entender muita coisa mesmo,  o importante é continuar a assistir, uma hora alguma coisa ou tudo faz sentido.

 

Com essa montagem que recusa a se explicar, que renega a transparência ocidental, o filme aborda uma questão de fundamental importância local : quando o pai não quer abrir mão do seu poder para deixar ao filho estamos tratando da luta pelo poder entre gerações que, na verdade, significa uma luta para não extinguir as tradições, mas um esforço pela continuidade daquela cultura antiquíssima.

Nesse belo e poético filme vemos ser questionado, o tempo todo, nosso olhar estanque sobre a África tradicional e a ancestralidade, pois ele mostra que existem outras formas de se contar histórias, formas que não precisam, necessariamente, passar pelo filtro colonizador.

 

Eu, pandêmica, na ocasião 


quinta-feira, 25 de junho de 2020

"A Noite da espera" e minha espera por um romance desafiador de Milton Hatoum



Terminei de ler o primeiro volume da trilogia “O Lugar mais sombrio”, o chamado “A noite da espera”. Como fui infectada pelo mosquito do Hatoum, estou lendo tudo o que ele escreve e me  ficou disponível, mas é claro para mim que a cada leitura iniciada eu ainda procuro aquela sensação que tive ao entrar em contato com os dois primeiros romances (“Dois irmãos” e principalmente “Relato de um certo oriente”), que pensei: putz, que livro! Mas nunca mais cheguei ao resultado almejado.  No entanto a busca continua e a longa noite da espera por um romance desafiador não tem fim.

 

 Isso tem a ver comigo como leitora, as coisas que eu procuro em um livro: Sou mais analítica, me interessa o como está escrito, o grau de poeticidade, as questões propostas pelo enredo. Não sou crítica literária, só gosto de literatura, inclusive a brasileira, e o Hatoum chama muito a minha atenção desde sempre, especialmente porque mesmo que nem todos os livros sejam maravilhosos, ele tem um ou dois que devem ficar na história da literatura nacional.


Em um dos seus depoimentos esclarecedores no Youtube, Hatoum disse que o “romance nasce com fome de forma” e é interessante observar como ele passeia nisso.  Falando no “A noite da espera”, propriamente dito, desde o início ele foi o que eu menos gostei de Hatoum. Não queria ler sobre o tema do livro, que é o golpe civil militar de 1964 sentido em Brasília por uma turma de estudantes. Não agora. Não nunca mais? Não sei.  O que sei é que não desse jeito que está ali: em forma de um diário em datas diversas, que reavivam memórias de 1968 até 1972, escrito por um personagem só, o Martim, que é um estudante tão normalzinho, parece muito um dos meus ex, mais do que eu suportaria, e ler sobre  sua vida universitária me incomoda muito. Literatura também serve para perturbar.  Sobre essa questão da identificação Hatoum escreve :

“quando alguém se identifica com uma personagem, parece que não consegue se livrar dela. É como se você quisesse se livrar de uma mentira em que você acredita.” p. 218

 Mas o fato é que o  Hatoum está escrevendo a história da sua geração, ou melhor, um romance de formação na sua geração. Eu, como representante de uma futura, não me agrado tanto por ela, é muito longe para eu me identificar, e muito perto para eu me achar algo tão diferente nela. Sou uma péssima leitora desse livro.

Posto isso, é fato que Martim é um jovem homem que sofre pela ausência de mulheres em alguns momentos. Não uma ausência total (isso me incomodou, porque eu sei o que é ausência total e absoluta , eu e a maior parte da população brasileira, que sempre foi separada, dividida, fragmentada: para mim  é difícil ser empática com Martim, que sofre como um jovem francês que lê Proust). Mas Hatoum sabe que está escrevendo no Brasil, sobre o Brasil e por isso eu ainda confio nele e sigo lendo a trilogia.

Martim é um personagem em formação naquele período, se forma no teatro, nos livros , trabalha numa livraria, assiste filmes clandestinos, que publica num jornal também clandestino, traduz poesia e tem um mestre - o embaixador Faisão, pai de um de seus amigos, que é aposentado da cerreira diplomática e amargurado, porque sua geração de sonhadores, “progressistas”, foi afastada,  agora sente que não serve mais - , então ele “adota” Martim, que lê e traduz os livros indicados, mais do que seu próprio filho, que só lê os livros de direito e é incapaz de entender que a saída, se houver, está nas artes, nesses oxigênios que a  gente respira.

A história de Martim e o embaixador Faisão foi a minha parte favorita do romance. No apartamento de Faisão, que é mineiro e vive mineiramente em  Brasília, come comida mineira, oferece queijo minas com goiabada aos hóspedes e na primeira vez que Martim lá esteve, em 20 de março de 1970, ele viu alguns quadros na parede: Um Di Cavalcanti e um busto de uma moça de um pintor que ele desconhecia, mas que tinha (me deixe lamber as palavras saborosas de Hatoum):

pinceladas leves, com tinta diluída, davam uma textura meio difusa ao rosto, que parecia animado pelo desejo. Os lábios ensaiavam um sorriso. O decote sem contornos claros revelava o volume dos seios, e o pescoço alongado tinha a mesma altivez da cabeça, do busto e das mãos.O olhar era de festa: talvez uma noite junina, pois no fundo da pintura um balãozinho subia no escuro, como se  fosse escapar da tela sem moldura. Notei alguns traços desse rosto jovem nas feições da embaixatriz, sentada diante de mim. Quem seria o pintor?” P. 87    

Pois bem, algumas coisas vão acontecer no romance e a formação do “herói” Martim vai se moldando, sempre sob a tutela de Faisão e o retrato em seu apartamento vai saindo da condição de questionamento sobre quem seria o pintor, ou mesmo quem seria a modelo, para ao final  de 1972 , quando ele comenta:

“O olhar do retrato feminino me atraiu: olhar atento e ambíguo, para dentro e pra fora. E um sorriso quase imperceptível. Guignard pintara com tons um pouco escuros o rosto da futura embaixatriz, o branco dos olhos vibrava na tela, e no canto direito superior a figura de um balãozinho ocre subia na noite junina” p. 220

Ouvindo Hatoum em gravações do Youtube, me lembro que ele disse que o mais importante no romance não é propriamente se a história aconteceu, mas qual a possibilidade dela ter acontecido. Por isso o livro começa com uma foto de uma rodoviária, de um ônibus Brasília – São Paulo, mostrando que essas viagens eram e ainda são possíveis. Por que não aquela? 

Também a figura de Faisão é , e foi, possível de ter existido. Fui atrás de um retrato feminino feito por Guignard e encontrei um de uma embaixatriz na década de 1960

  Alberto da Veiga Guignard (1896-1962) é um pintor mineiro, e ele também pintou a embaixatriz mineira Lucia Flecha de Lima em sua juventude na década de 1960, quadro leiloado em 2019 com lance inicial de R$ 119 mil. É claro que o  quadro não é o mesmo descrito ficcionalmente  no romance, que o embaixador Faisão não é o embaixador mineiro Paulo Tarso Flecha de Lima, esposo da embaixatriz Lucia, apesar do pintor retratista ser igual. Mas tudo isso dá uma sensação forte de que a história de Martim e Faisão poderia, mesmo, ter acontecido.

Isso é uma das graças da literatura de Hatoum. A outra são as incontáveis perguntas sem resposta, que dá mais a sensação de que podia ser vida real, não é mesmo?  

domingo, 14 de junho de 2020

A NOITE DA ESPERA : impressões de leitura



A capa do meu é aquela amarela, linda, mas acho que essa outra azul e preta está mais parecida com o que estou encontrando no livro. Ontem continuei a leitura, agora um pouco menos seduzida pela escrita deliciosa da qual já estava com saudades, mas já fiquei um tanto entediada com a forma de diário. Sorte que ele vai jogando as informações e personagens e se a gente não presta a atenção e jogar junto , se perde, isso é mais divertido. Mas não é um livro para ser devorado, como os primeiros dele que eu li. Sei lá o que não está me agradando tanto, talvez o tema ditadura, Brasilia, adolescentes (esses são o ó)... mas tenho que lembrar que esse é só o primeiro volume de uma trilogia, tem muita narrativa pela frente. Espero que ainda nesse livro as memórias de adolescentes acabem ...Confio em Hatoum, vamos seguir lendo.

sábado, 13 de junho de 2020

“Inxeba”(Os Iniciados), África do Sul, 2017, direção John Trengove


O filme conta a história de três homens que participam de um ritual tradicional africano  nas montanhas  de  Cabo Oriental, África do Sul, que acontece anualmente.  O personagem principal é Xolani, um operário solitário que viaja todo ano para participar do rito  de Ulwaluko, que consiste na circuncisão de adolescentes de origem Xhosa para que eles ingressem finalmente na vida adulta.  Na época do filme, ele vai com recomendação  de um pai do jovem Kwada, percebendo que ele não se enquadrava no projeto de masculinidade aceito, paga Xonali para ser responsável´pelo rapaz da cidade  e tentar evitar que ele se torne homossexual. O problema é que esse jovem, que é gay,  e é bastante questionador e acaba descobrindo um segredo entre seu instrutor e Xolani, acabando com a paz na local. O trailer

Os  três homens em conflito  na montanha, local mostrado como uma selva deslumbrante, seguram uma tensão sexual mútua o filme todo e o final, realmente é surpreendente.

As cenas de sexo entre os personagens são quase  sempre gravadas no escuro, com os corpos negros camuflados, exceto no final, quando as verdades começam ser reveladas a olhos nus e não é mais preciso esconder nada.  Interessante observar que, no começo do filme, as cenas sexuais se confundem as com as cenas da circuncisão – ambiente escuro, corpos negros  gemidos de dor ou prazer - , como se fossem metáfora da dor e do prazer do crescer?

É sabido que, ao contrário de muitos países africanos, a África do Sul tem uma boa relação com o tema da homossexualidade, mas no filme a tensão se coloca porque a questão é trazida para um ambiente tradicional, apresentando um enredo original que mescla costumes e modernidades.


Na live de debate sobre o filme com o doutor em letras Lecco Fraça,que estava ótima, falando sobre a delicada questão da sexualidade retratada no cinema africano e fazendo belas leituras do filme, até que foi interrompida por estar violando as regras do Youtube : por que, gente? 


No trecho que  pudemos companhar da live, o filme começou a ser abordado de diversas formas, como a partir dos seus cartazes no Brasil (Os Iniciados); na África (Indexa- Ferida) e em espalho (La Herida)
cartazes:


 Depois foi sugerida uma comparação com o  belo  filme queniano Rafik dirigido Wanuri Kahiu, sobre o amor entre duas garotas num lugar onde o homossexualidade é crime, tanto que o premiado filme não pôde ser exibido em seu próprio país, mas ai a tranmissão foi cortada. 
Realmente foi uma pena termos ficado sem essa contribuição completa, de qualquer modo, recomendo assitir ao filme e pensar sobre masculinidade, masculinidade negra e mais, masculidade negra africana, porque, como apontou Juciele Oliveira,  mediadora do debete , o cinema pode constrir contra narrativas de reação à opressão em assunto polêmicos, como a sexualidade e o afeto em África.

Enfim, é um filme sobre Masculinidades. Masculinidades negras. Masculinidades negras em África. Bem tenso.


Não nesse dia, mas nessa época