segunda-feira, 15 de março de 2021

“Vivências do novo e perspectivas do agora” curadoria de Ema Ribeiro, Jamile Cazumbá e Álex Antônio

 


1 – Encrenqueiro Nigéria, 2019, dir.  ​Olive Nwosu  

            O filme conta a história intensa envolvendo os garotos Obi e do seu amigo Emeka, seu amadurecimento sobre masculinidade, violência e os efeitos da guerra em comunidades ao longo de gerações.

O filme começa com o  provérbio Igbo “a cabeça que perturba a vespa, é a cabeça que vai ser picada” e o filme trata exatamente disso : Em uma aldeia nigeriana, Obi é um menino alegre e cheio de vida, sempre quer brincar com tudo, tem dificuldade de entender porque seu avô, traumatizado de guerra, fica imóvel no quintal sem nenhuma reação e nem porque seu amigo Emeka, muitas vezes, prefere estudar a jogar bola. Nas brincadeiras de Obi, todos os temas, inclusive a trágica guerra de Biafra, que traumatizou tanto o avô. Filme muito interessante fabula todo esse crescimento dos meninos. As imagens

o avô

avô e neto

Obi 



Emeka e Obi

Emeka estudando

brincam de guerra de Biafra


2 –Perdendo minha fé Nigéria, 2018, dir. Damilola Orimogunje

            Esse  filme pesado conta  a história de um menino sendo forçado a se converter a uma religião e sofrendo as consequências disso. Esse filme eu já tinha visto e comentado neste link.

 

3 – Tab África do Sul, 2019, dir Hlumela Matika

            Filme muito bonito, elegante e gravado em P&B, trás o conflito entre as irmãs Khanya e Sands e seu pai viciado em corridas de cavalos.

Como epígrafe do filme temos : “uma memória, uma história visual escrita e reimaginada a partir de experiência pessoal”.

            O filme começa com o pai dirigindo e as meninas amuadas, cansadas, no banco de trás, usando uniforme de colégio, elas sabem que o pai vai aposta nos cavalos e deixá-las esperando no carro, o que realmente acontece. Khanya, mais irritada,  ainda pergunta “quanto tempo vai demorar desta vez?” Ela parece mais ansiosa, magoada, chega a dizer, em relação ao pai, “odeio esse idiota”. O fato é que elas saem do carro, Sands vai jogar amarelinha, a irmão começa a assistindo, depois também joga. Ela também conta que, na escola, teve que falar sobre o que fizeram nas férias de verão, ela inventou que o pai as tinham levado para ver os cavalos do Texas, brincaram nas árvores e aprenderam a flutuar nas águas, mas uma colega de turma descobriu a mentira, pois o Texas era um deserto. Houve um momento em que Khanya menstruou e Sands pensou em chamar o papai pois a irmã estava sangrando, mas ela reagiu com irritação, dizendo que era uma coisa que as mulheres tinham que passar e ele não faria nada mesmo. Certo momento um homem de carro tenta assediá-las e Khanya consegue defendê-las. Em outro momento  Sands some em um momento e a garota se viu entre os jogadores, perguntando pela irmã em desespero. A cena corta e volta a mostrar os três no carro como começou, mas o pai dando bronca por elas não terem ficado no carro e Khanya com olhar de mais raiva pela “ausência” do pai, que parecia não entender os desejos e necessidades das filhas, pensando só nas suas de viciado. As imagens

Vai demorar desta vez?

Amarelinha

Cavalo no Texas

o pai na aposta

Perdidas?

Xixi


 


4 – Cabelo com balanço África do Sul, 2014, dir.  Yolanda Mogatusi

            Filme bem divertido, mas que emocionou muito. Conta a história da encantadora menina Buhle, que canta muito bem e adora assistir cantoras famosas na TV. Ela gostaria de se inscrever num concurso de canto, mas a mãe diz que não tem tempo de levá-la, mas o avô diz que vai levar. Mas ela queria mais, queria que seu cabelo afro e curto balançasse como o da sua diva POP favorita e a da menina da escola, que encanta seu coleguinha Davi. Meu cabelo sempre balançou, mas eu sei o que é ter uma mãe que nunca entendeu minhas vaidades e o que é um olhar masculino (no filme o avô, e no meu caso, meu pai) que compreendeu melhor. No fim ela vai se apresentar de peruca, está linda, mas a peruca cai no meio da apresentação fazendo todo mundo rir, mas ela canta tão lindamente que ninguém mais ligou para o cabelo dela. Buhle: encantadora. As imagens

Peruca que balança
A diva POP na TV
Sem peruca, mas cantando muito
Buhle e Davi

Encantada com diva Pop 


Cabelo que balança


5- Boa noite Gana, 2019, dir. Anthony Nti 

            Filme bem bonitinho e apresentando uma denuncia legal ao contar a história ​de um estrangeiro que se aproxima de duas crianças e as leva em uma viagem inesperada. Os três se dão tão bem que “Bogah”, o estrangeiro, começa a questionar sua intenção inicial.

As crianças são Prince e Matilda, que adoram jogar futebol, brincar e se divertir. Certa vez aparece um carro muito bonito e eles aceitam sair com Bogah, vão comer, vão ao mar, conversam e se divertem, o que leva Bogah a não querer levar os meninos para servirem aos poderosos. No fim ele acaba tendo que ir dar satisfação, leva as crianças, mas quando tenta tirá-las de lá, é espancado, levando os meninos a fugirem para casa, depois de um dia de tantas vivências.  

Crianças do bairro

Prince : filmando tudo 

Matilda: Livre!

Linda Matilda!

Encontro com Bogah

Refeição


Despedida

Não gosto do mar porque

O filme termina com esse coral de crianças

domingo, 14 de março de 2021

“Softie”, Quênia, 2020, dir Sam Soko

 


Documentário interessantíssimo sobre a trajetória do ativista Boniface Mwangi, “um rebelde com causa” , que começou como um destemido foto jornalista e foi premiado duas vezes como melhor fotógrafo do ano da CNN por suas coberturas a respeito da violência.

Escalado para cobrir o violento cenário pós eleições 2007. Na sua primeira foto retrata um homem saindo do trabalho, que acabou sendo atacado a faca após assumir pertencer a tribo Luo, ao que respondeu “eu sou queniano”.

Conta que voltava ao centro com fotos muito forte de violência, que nunca eram aceitas para publicação por quem ficava em paz no ar condicionado tomando café.

Essa violência parou em fevereiro de 2008, quanto foi assinado o tratado de não violência. Nesse respiro de paz, Boniface casa-se, tem filhos, e  sua família é a parte mais fofa de um documentário tão pesado, as falas das crianças são as melhores sacada, quando perguntam “onde você está indo, papai” e ele responde “estou indo derrubar o governo”, ou quando a garotinha anuncia “hoje meu vai dançar um livro”, ai pensa um pouquinho e corrige “vai lançar um livro”. No começo do filme nosso personagem  não teme em dizer que a luta por um país melhor  vem primeiro que o amor, Com o tempo, os filhos vão crescendo, e o cenário político vai ficando cada vez mais intratável, Quando  Boniface decide se candidatar, recebendo ameaças  para si e para a família, levando seus filhos e esposa esposa Njeri a passar oito meses no exilo nos EUA.

Consegue passar ileso às eleições, mas perde o páreo e no fim decide que vai permanecer no Quênia, lutando, mas não na linha de frente, pois vai se dedicar mais à família para terminar o documentário.

Mas, tomando a personalidade, interesses e objetivos de Boniface, duvido que ele permaneça longe do “militância acima de tudo” por muito tempo. Mas isso depois saberemos, ou não. Algumas fotos

casamento 

Todos os filhos



não, é lançar um livro!

candidatura

Onde você está indo, papai?

No Quênia, tribo é identidade


Parem de nos matar: campanha eleitoral

Primeira foto: "Eu sou queniano"

No Quênia eleições são guerra!

Eterna luta pela paz

Ativista!

Manifestações violentamente reprimidas

Militar é mais importante que o Amor





“Memória: performatividade entre-tempos” curadoria Ema Ribeiro, Jamile Cazumbá e Álex Antônio



Sou APAIXONADA POR CINEMAS AFRICANOS, por tudo, mas os CURTAS são demais! Poderia assistir várias horas, dias, interruptamente! Tão cheios de conteúdo, de poesia, de sons, luzes e janelas! Me acabo. Um dos 5 eu já tinha assistido e comentado, então vou falar um pouco dos outros 4 filmes com a temática da memória.

Um cemitério de pombos  Nigéria, 2018, dir.Sultan Sangodoyin

Esse eu já tinha visto, a imagem do cartaz é retirada dele, é um filme  extremamente poético, o filme trata das memórias de uma história de amor vivida por um adolescente com uma pessoa mais velha. Neste link eu inseri imagens poéticas e até transcrevi a bela carta de amor que se lê, um dos filmes africanos mais esteticamente bonito que conheço.  

Invisíveis Namíbia, 2019, dir. Joel Haikali

O filme mostra o encontro de um homem e de uma mulher, visivelmente sofrendo por traumas e perdas, que tentam se ajudar na caminhada da vida. Interessante é que eles estão juntos, mas ao mesmo tempo sempre sós. Ela com as cicatrizes do auto açoite que cometeu, ele com as cinzas de alguém que morreu. Cheio de imagens poéticas e fortes, começa com gemidos de prazer e às vezes chegam a ser de dor, e imagens de escuridão da mulher, que se chicoteia lembrando de um Jesus negro crucificado. Algumas imagens:

Lembrança e culpa

Imagem ao som de  gemidos femininos 



Caminham juntos, mas separados

Possivelmente culpada, ela se sente afogando

Auto açoite

Bela imagem: Sob o mesmo Sol, mas cada um em seu Baobá seco

Ele, enfim, joga as cinzas no solo do deserto



Que cena! Juntos, mas cada um na sua dor

Tentam se acolher, mas sem contato


A lutadora de boxe , Senegal, 2016, dir  Iman Dijonne

Um filme bem impactante, conta a história da cabeleireira Adama, de mãos ágeis para trançar, cortar e pentear os cabelos. Um dia ele é atropelada por uma moto e o motociclista deixa cair uma mochila onde de encontra um par de luvas de box. Seu amigo sugere que ela venda pois tem os braços muito finos para lutar, mas ela deseja ficar com as luvas, veste-as e a partir dai não tem mais controle de nada, as luvas pesam, ela tem a necessidade de reagir agressivamente (ela chega a quebrar um espelho na  rua), de correr, de fugir. Sai vagando pela cidade e,num misto de sonho e realidade, tenta sem sucesso retirar as luvas, em brigas com ela mesma e vai encontrando pessoas: um ex lutador que afirma ter lutado com essas luvas toda a vida e aposta com ela a posse do par, mas ao final era só um sonho; um vendedor de óculos que a pede em casamento, mas antes que ela aceite ela vai ter que tirar as luvas para não acharem que ele é abusador; uma mulher que estava de passagem  no zoológico e que consegue tirar as luvas das mãos dela; mas ela não quer, não pode mais se livrar das luvas. A cena final é a da grande luta da sua vida, com ela mesma. As imagens:

Mãos ágeis no trançar

Fico com elas

Acha  o par de luvas


"Lutei com ela toda minha vida"

Quebra o espelho




Jogam pelas luvas

"Seja  minha esposa , somos perfeitos juntos"

Vida segue, com luvas
Vai embora, com os óculos

Com o macaco





Na escola de Box

Luta consigo mesma

Treino periférico Portugal/Guiné Bissau, 2020, dir. Welket Bungué

Um filme sobre a comunidade diaspórica, dois negros que vivem em Portugal treinam , conversam e dançam. O filme traz algumas das tendências do cinema africano contemporâneo como a presença da dança contemporânea. Talvez por não se passar em África, ou pelo forte sotaque lusitano, eu fiquei um pouco entediada com ele. As imagens:

Epígrafe

O tempo

Protagonistas lindos

"Às  vezes eu tenho vontade de sair por ai e dançar"

"sair por ai "

E dançar

Fim

Bablinga , Burkina Faso, 2019 dir Fabien Dao


Na história ficamos sabendo da história de Moktar, um belo imigrante  burquinês  na França, certa idade,  que teria um bar, ou trabalharia nele, e sonha com o dia voltar à sua terra natal. Ele sofre com as dores dos imigrantes: tem saudades, mas tem culpa, de ter saído, de não ter escrito tanto aos seus, em um momento chega a se desculpar "Desculpe meu silêncio, mas na França não é como em casa, o tempo passa mais rápido" . Muito interessante que as figuras nos muros do bar são animadas, se misturam com pessoas reais e lembranças,  falam com ele, ouve-se música. É u  filme muito bonito, musical  e colorido, mas traz no sei centro uma das grande questões do cinema do africano que imigra, desde o Sembéne: Vivo na França, não sei me desligar daqui porque tenho muita culpa, mas minha casa sempre será Burkina Faso. O que fazer? As imagens:
"Na França o tempo passa mais rápido" 

Melancólico no bar vazio
O bar existe, mas é dele?


As paredes animadas do bar



As mulheres da parede:  na vida e na lembrança

o músico toca na parede
Lindas africanas


Despedida?

Solidão de Moktar




A imagem do imigrante!