quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Tereza Batista : a defendida dos orixás

Vários Orixás ajudaram  Tereza Batista nas guerras
E também quiseram seu tanto da cabeça da valente mulher


 Estou no maravilhoso capítulo final deste livro incrível, em breve escrevo um comentário sobre ele todo, mas acabe de ler um dos trechos mais lindos e emocionantes de todo o Jorge Amado que conheço, é sobre a disputa dos orixás pela guarda de Tereza Batista, a grande heroína de cordel. Vejamos:

”... Deseja saber a verdade sobre o santo de Tereza Batista, quem lhe determina a vida e a protege contra o mal, o anjo-da-guarda, o dono da cabeça? (...) 

Em se tratando de Tereza deixe que lhe diga haver motivo de sobra para confusão ; até quem muito sabe, nesse caso se atrapalha na leitura dos búzios sobre a mesa. Muita gente andou vendo por aí e não houve acordo. Os mais antigos falaram Yansã, os mais recentes Yemanjá. A si disseram Oxalá, Xangô. Oxóssi, não é verdade? Euá e Oxumaré, ainda mais? Não se esqueça de Ogum e de Nanã, tampouco de Omolu.

Também eu fiz o jogo e olhei no fundo. Vou lhe contar: nunca vi uma coisa assim e há mais de cinquenta anos sou feita neste peji e há mais de vinte anos zelo por Xangô.

Quem se apresentou na frente com o alfanje rutilante foi Yansã, dizendo: ela é valente e boa de peleja, a mim pertence, sou a dona da cabeça e ai de quem lhe faça mal! Logo atrás compareceram Oxóssi e Yemanjá. Com Oxóssi Tereza veio da mata espessa, do agreste ralo, da caatinga seca, do sertão ardido e desolado. Sob o manto de Yemanjá cruzou o golfo para acender a aurora no Recôncavo, depois de guerrear por ceca e meca. Vida de combate de começo ao fim, para ajudá-la na briga feia e crua, além de Yansã, a primeira e principal, vieram Xangô e Oxumaré, Euá e Nanã, Ossain trazendo as folhas. Com o paxorô da sabedoria, Oxalufã, Oxalá velho, meu pai, lhe abriu o caminho certo onde passar.

Não estava Omolu montado no lombo de Tereza na cidade de Buquim durante a epidemia de bexiga negra? Não foi ele quem mastigou a peste com o dente de ouro e a pôs em fuga? Não a designou Tereza de Omolu na festa dos macumbeiros de Maricapeba? E então? Omolu veio brabo, aberto em chagas, reclamar o seu cavalo.

Veja que grande confusão se armou. Não tive outra saída senão chamar Oxum, minha mãe, para ela apaziguar os senhores encantados. Chegou nos dengues e nos panos amarelos, luzindo ouro nas pulseiras, nos colares, a própria faceirice. Logo se acomodaram os orixás, todos a seus pés enamorados, machos e fêmeas, a começar por Oxóssi e por Xangô, seus dois maridos. Aos pés igualmente de Tereza, em torno da formosura, pois Tereza tem de Oxum o requebro e o mel, o gosto de viver e a cor de cobre. O fulgor dos olhos negros, porém , é de Yansã, ninguém lhe tira.

Vendo Tereza Batista por todos os lados cercada e defendida, os orixás em seu redor, eu lhe disse, resumindo o jogo: mesmo no pior aperto, no maior cansaço, não desista, não se entregue, confie na vida e e siga avante.

Contudo, existe sempre um instante de desânimo, quando até o mais valente se dá por acabado, resolve largar as armas e abandonar a luta. Também com ela sucedeu, pergunte por aí e saberá. Mais não posso lhe dizer por não ter tirado a limpo. Para mim, todavia, quem guiou os passos do afogado nos becos da cidade até o esconderijo de Tereza foi Exu. Para armar baderna, Está sozinho. Quem melhor conhece travessas e atalhos, quem mais gosta de acabar com festas?(...) Sobre esse assinto, lhe disse tudo o quanto sei.” (Jorge Amado. Tereza Batista cansada de guerra, p. 346-7)


Não é lindo? Me parece tanto como eu vejo a guarda dos orixás nas nossas vidas, sendo nossos pais/mães de cabeça ou não, são a eles todos que nós chamamos para nos guardarem em cada momento da vida.

Jorge Amado me representa tanto, suas mulheres então, nem comento!

Capa do livro didático sobre Jorge

De todas as coisas que me interessam na literatura de Jorge Amado é, inegavelmente, a presença das divindades de origem africanas. Quantas vezes não me peguei desejando ler um do Jorge, para ficar mais perto dos orixás? Tem muitos outros temas importantes, que causam extrema identificação, mas esse é o que aquece meu ❤️. Emocionada com o trecho de Tereza comentado acima, dei uma olhada, bem por cima, em um  livro didático sobre Jorge que comprei e no  começo do texto "Religião e sincretismo em Jorge Amado", do antropólogo de Reginaldo Prandi (que admiro muito) e ele fala exatamente sobre o que me toca na literatura amadiana: a ancestralidade, na construção das tramas, das personagens, do cotidiano, assim como também é na vida (alguns atos cotidianos são feitos, conscientemente, para agradar aos orixás, por exemplo). Diz Prandi:

"A religião na Bahia(acrescento:no Brasil), como em Jorge Amado, não se separa do mundo real, que se mostra cheio de mistério, segredo, esse cotidiano também está sempre permeado de ciladas e enganos  e até de falsidades e mentiras. A vida nunca é exatamente o que parece ser, nem deixa de ser o que de fato é. Ingrediente excepcional para fazer crescer um bom enredo. De um lado, homens e mulheres que se comportam como os deuses se comportariam se vivessem na Terra; do outro, orixás que precisam dos seres humanos para se alimentar no repasto dos  ebós, para dançar na roda das feitas, para rememorar no transe das iaôs suas míticas aventuras. Sem nunca perder-deuses e mortais- a sensualidade, a malícia e a alegria de ser. "(P 49)


Coisa linda, né? Acho linda essa coisa de representar as divindades africanas participando da vida e do cotidiano dos humanos, o pouco que aprendi sobre as religiões afro brasileiras isso foi uma das certezas que levo pra vida. ❤️ 
Na literatura de Jorge, os orixás são tudo, são temíveis, guerreiros, heróis...com isso alimenta nosso imaginário sobre outras narrativas, passados e futuros possíveis.
Teria sido Jorge Amado um dos nossos primeiros "afro futuristas"? Só amo! 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

20 de janeiro de 2021 : Elza Soares é morta

 



A voz de Elza se calou, mas os registros ficam para sempre
Não sei muito o que falar, só OBRIGADA DIVA 





Metas de leitura para 2022

Meu exemplar ainda não chegou, mas a edição é essa


Em geral levo cerca de 15 dias para ler um livro entre 200 e 300 páginas, por isso meus planos é sempre ler no máximo dois por mês, idealmente um "clássico" e um "contemporâneo". Ler bem lido, sem pressa, comentando, refletindo, escrever sobre, como sempre. Ano passado me assustei porque li muito mais livros do que imaginava e gostaria de diminuir o ritmo e aumentar a densidade da leitura. Como eu tinha  previsto, devo terminar esse mês só com o extenso "Tereza Batista cansada de Guerra" (mais de 400 páginas). E o contemporâneo - Nem sinal de asas, da Marcela Dantés -, que chega em alguns dias, começo a ler em fevereiro. Depois, alternando com os "clássicos", já comprei um " Gabriela cravo e canela", da Martins editora (na expectativa de que não venha fedendo mofo), e com isso termino a leitura das quatro protagonistas de Jorge (Gabriela, Dona Flor, Tieta e Tereza Batista). 

Ai posso dar um tempo no Amado, que venho lendo desde o ano passado, e para alternar com um contemporâneo, posso substituir por outro autor brasileiro ícone que ainda não li como deveria (o projeto sempre adiado é ler DIREITO "O tempo e o vento" do Érico Verissimo ainda está nos planos). 

A expectativa desse ano é a de ler uma quantidade menos de livros, mas as leituras serão mais densas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Sobre "Música de Brinquedo" do Pato Fu

 













Esse mês eu quase não publiquei nada aqui, né? É que estive ocupada, só no dia 12 relatei:


Parte da bibliografia que tirei da  estante para estudar

BRINCAR DE MÚSICA -No fim do ano passado eu estava tão exausta que quase esqueci do texto sobre "Música de Brinquedo" pros anais do congresso de estudos sobre infância em novembro. O texto é curto e devo terminar agora até o fim de semana. Não vou mudar muita coisa em relação a apresentação, só gostaria de analisar uma música no disco e no DVD. Mas qual faixa? Vou ouvir de novo, mas acho que já sei qual será...deixo em segredo


Era para ser fácil, porque eu tinha feito a apresentação e o esquema do texto final , mas como parecia  que tinham se passado anos que eu fiz aquilo, tive que "estudar tudo de novo", E foi um prazer.

Fui ouvir o disco, rever o DVD, passear pela bibliografia, ouvir várias coisas. no último fim de semana, já tinha selecionado meus interlocutores favoritos

Parceiros do fim de semana 15 e 16 jan 

Nesse momento já pude desfazer o mistério :

TRAMPO - Do repertório de "Música de Brinquedo" escolhi para analisar a canção "Rock and Roll Lullaby", o "rock de ninar", porque com ela dá pra abordar as performances musicais no CD e de palco no DVD e isso é um método atualizado de fazer história da música (valeu Priscila Correa) e sobretudo a questão do acalanto como primeiro objeto cultural infantil das culturas na História (obrigada Paul Zumthor ), a um só tempo vínculo com os adultos por uma herança antiga recebida, como também a introdução a literatura oral (valeu Silvia Machado). E juntando e resumindo tudo isso, vou com base em momentos do meu livro. Estrutura tá pronta, vamos ver se sai algo bom!

Foi tão bonito ver meu livro junto a outras referências. Amei de verdade.

Também amei o texto final, do qual publiquei até um trechinho. Sobre o álbum "Música de Brinquedo":


Incrível como minha paixão pelo tema transparece, né?

Em breve devo terminar minha única leitura de dezembro, Tereza Batista Cansada de Guerra, do Jorge Amado, ai comento aqui.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

8 METAS PESSOAIS PARA 2022

 

Metas 

Entrando no terceiro ano da pandemia, a vida se movimentou bastante apesar de tudo e, embora ainda não seja a hora de traçar tantas metas, acho que já dá para traçar algumas a mais do que no ano passado. Vamos arriscar!


1 - CONTINUAR VIVA

A meta de todo ano, o básico do básico. Mas como em 2021 vivi momentos muito ruins, de fraqueza, de autoestima baixa, desespero e tantas vezes senti que ia me esvaindo, acho que sempre vale a pena relembrar que a primeira coisa a preservar sou eu mesma! Só tenho a agradecer por não ter esquecido nunca disso e planejar não esquecer em 2022;

2 - ACHAR UM MOZÃO

Sei que é a meta mais difícil, que não depende só de mim, que eu também nem sempre ajudo, mas talvez seja a mais fundamental. Depois de um 2021 tão solitário, em todos os sentidos, eu tenho que saber e proclamar que eu também mereço não ficar mais tão sozinha. Começando por abrir mais as portas de acesso até mim, o que já é tão difícil, ainda mais na pandemia. Enfim…

3- TRABALHAR MAIS

Não sei como, não sei onde, não sei com o que , mas é fundamental trabalhar, estudar, conversar, fazer a cabeça funcionar e as sementes brotarem. Na pandemia nunca parei de produzir, mas ainda preciso de mais coisas. Como seria eu não sei, mas solto ao universo que eu estou preparada para desafios.

4- TREINAR O MÁXIMO POSSÍVEL

Em 2021 os treinos foram um ponto alto, fui de momentos em que eu não pude fazer sequer uma caminhada, não sabia quando poderia novamente, se poderia e fiquei muito na bad. Mas assim que foi possível, com minha mãe melhor e eu vacinada, peguei a oportunidade de voltar a academia e retomar os treinos com unhas e dentes, como um sopro de vida, uma esperança em temos pandêmicos : de segunda a sábado, acompanhamento nutricional, força, resistência e autoestima. Com tudo que passei, quando retomei os treinos, voltei com mais interesse em entender os exercícios, as dietas, as possibilidades de fazer tantas coisas, mesmo sem academia. Hoje o Youtube ajuda muito e tenho fé que, sem nada, por tanto tempo, não devo ficar! Isso é uma grande esperança.

5- CONTINUAR CUIDANDO DE QUEM AMO (INCLUSIVE EU)

Há anos larguei tudo e venho cuidando muito da minha mãe, agora acho que ela, enfim, já está mais repuperadinha (que maravilha!), então voltei a cuidar mais de mim também. Em 2022 minha meta é continuar com esses cuidados com todos que amo, com o mundo!

6 -RESTABELECER MINHA LIBERDADE

Nesse momento, em janeiro, estou incomodada porque não consigo nem pensar em circular pela cidade. Tem a Covid, tem o surto de gripe, tem meu medo da vida.  Mesmo estando com a vacinação completa, o que me permite frequentar a academia, ainda não tive ânimo para passear. Espero ter força para retomar isso também, afinal ainda estou viva!

7- PODER VOLTAR A SONHAR, APESAR DE TUDO, POR CAUSA DE TUDO

Já desde antes da pandemia vinha observando em mim uma certa dificuldade em sonhar, sonhar alto, sonhar com tudo. Vinha aceitando o que consegui e agradeço tanto, mas é preciso almejar mais. Vou tentar, um dia de cada vez. Agora meu sonho é sair para passear. Tomara que consiga.

8- ME AMAR MAIS DO QUE NUNCA

É uma meta egoísta? É. Mas sem ela não consigo realizar nenhuma das outras, não? Amor próprio é fundamental, um exercício diário que pretendo fazer em 2022. Vamos ver se consigo.

Espero que eu volte a este post no ano que vem e que o balanço seja positivo! Força pra nós! E que venha 2022!


segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

A minha Elza Soares é a sambista! Sobre a biografia "Elza", de Zeca Camargo

 

Quando comprei a bio, era junho e estava estava frio

Lendo uma ou outra biografia de pessoas famosas negras (em geral não sou fã de biografias), escolhi unicamente a biografia da Elza Soares para ler em dezembro, porque s

ou muito admiradora dessa mulher e achava incrível o pouco que sabia sobre sua história. E dezembro é um mês pesado, cansada do ano todo, queria relaxar com uma leitura fácil (na verdade eu achava que o Zeca Camargo não seria capaz de me apresentar nada muito denso e era isso que eu precisava.

Mas o livro é sobre a vida da Elza Soares, essa grande artista, representa como negra, como cantora, etc, difícil não ser denso de alguma forma. 

outra biografia

Zeca sabe que não é um biógrafo, chega a sugerir que Ruy Castro (um autor que, em meados da década de 1990, teria elevado as biografias a status de grandes obras literárias), escolheu biografar Garrincha em "Estrela Solitária - Um Brasileiro Chamado Garrincha" (1995), e à Elza, essa mulher incrível, só contou com um longo (e bem pago) depoimento, que serviu para esclarecer que foi ela, a atacada e perseguida, quem deu suporte emocional e financeiro para que o alcoólatra Garrincha permanecesse vivo por mais tempo. Mas a sua história, ele não contou. Porém Zeca cita "Elza, cantando para não enlouquecer" (1997) , de José Louzeiro, como uma boa biografia, sugida nessa época. E embora Zeca não diga, sugere que ele mesmo é apenas um redator para o que Elza gostaria de falar sobre sua vida. 

Só que, desde o início, embora a leitura seja agradável, eu não queria ler AQUELA BIOGRAFIA, sonhava com uma biografia musical de Elza (do tipo série "livro do disco"), ou então, para não rejeitar essa trajetória incrível de Elza, queria que a biografia tivesse sido escrita por um biógrafo distante do filtro do olhar da biografada, que pesquisou, refletiu criticamente e transformou em narrativa essa vida.  Mas aceitei a proposta e confesso que, no começo,  até achei interessante essa forma de escrever sobre a vida de um artista. Acreditei mesmo que ele estivesse fazendo o que ele próprio chega a chamar de de uma "história oral" de Elza. 

Essa versão sobre o que é o livro "Elza" (um depoimento) funcionou muito bem por um tempo, pois acreditei  mesmo que era a Elza que estava narrando e o Zeca escrevendo sem outras intenções, sendo que seu trabalho mais intenso foi fazer,  aqui e acolá,  uma mediação sobre as possíveis diferenças entre o posicionamento dela e o pensamento do público atual (a intenção de que Elza não fosse cancelada pelas militâncias, pelo Tribunal das Redes Sociais, etc é clara). 

Porém, chegando aos capítulos finais no último fim de semana, a máscara caiu e eu passei a suspeitar de alguma coisa a mais na  ideia desse livro, quando percebi uma mudança no tom da escrita de Zeca, até então tão descritivo, que passou a defender com paixão o militante e propagandística o  disco  "Mulher do fim do mundo"(2016), a dizer que este seria um dos melhores de Elza e da história da música brasileira e em seguida, "Deus é Mulher" (2018),no qual Elza só quis gravar faixas mais "dançantes" e "ritmadas" (ou seja, mais musicais). Algo não estava me cheirando bem , continua não cheirando, e eu ainda não sei com certeza o que é.

Cheguei a comentar no Facebook, no dia 2 de janeiro, na hora em que li essa parte, ela me pareceu destoar da narrativa até então, quis mostrar minha posição


Ai voltamos ao fato de que  ninguém teria se indignado com Elza e sua história (que não é de uma santinha, nem precisava ser, e tem muitos momentos que serviriam para os tribunais a cancelassem, sem dó) , mas ninguém falou nada.  Ninguém exceto Régis Tadeu, que publicou hoje, 3 de janeiro de 2021, um vídeo muito interessante fazendo ESTA crítica musical interessante sobre as produções recentes de Elza, apontando inclusive, que deve ter muita gente (como Zeca Camargo e a biografia Elza?) interessada financeiramente em promover essa postura tão "moderna" de Elza e ele nem sabe até que ponto uma mulher com mais de 90 anos poderia concordar ou defender algumas coisas, como nos é mostrado.

Eu não sei realmente qual é a do Regis Tadeu, mas ele defende bem suas ideias polêmicas, só nem sempre preciso concordar com ele. No caso deste vídeo, em geral gostei da crítica, mas saliento que, acima de tudo,  acho complicado ir pelo caminho de dizer que tem alguém abusando de Elza e ela não sabe disso, pois, não tenho conhecimento sobre o que ela pensa ou sente nessa fase da vida, mas também não vou dizer que Elza tenha deixado de comandar sua vida a esse ponto, porque está idosa. Sobre suas "deficiências" como cantora idosa, ainda que eu fosse capaz de identificá-las com a propriedade que Régis faz, para mim, como admiradora, vale ouvir sua voz sempre, é sua vida que se expressa, apesar de tudo, como foi para mim ouvi-la no carnaval, sem vê-la pois estava reservada, e achado que era o CD de "Mulher do fim do mundo trocando", até ela começar a interagir e mostrar que estava ali. Isso me emocionou demais e nunca vou esquecer que eu ouvi a voz de Elza ao vivo. Não aquela voz maravilhosa dos discos dos anos 60 e 70, mas a voz da Elza, nossa querida Elza. 

Mas musicalmente falando, eu não tenho o conhecimento musical de Regis Tadeu para concordar ou discordar do conteúdo técnico do vídeo, só sei que ele entende de música, eu sou só uma ouvinte comum (e legítima), mas colocada  essa diferença, eu ele concordamos sobre o fato de que o melhor do trabalho musical de Elza não ser nenhum desses discos militantes que ela gravou no século XXI. Embora eu esteja ainda ouvindo "Do Cóccix Até O Pescoço" (2002) sem parar, que não é um disco de samba, mas reconheço nele um trabalho na escolha de músicas bem escritas, representativas e poéticas de grande compositores. E também o primoroso "Elza e João de Aquino", que Zeca conta ter sido gravado no começo da década de 1990 e só agora lançado, onde contamos com a mesma sofisticação. E tudo isso é  diferente do trio militante de discos, em maior ou menor grau, dos  "Mulher do fim do mundo"(2016) [não gosto]; "Deus é Mulher" (2018) [gosto de poucas músicas] e " Planeta fome" [ouvi pouco e nem comento] (2019).

Vestindo a camisa de Elza sambista


Eu amo Elza Soares como cantora e  MINHA ELZA É A SAMBISTA! Tanto que eu tenho uma camiseta dela, mas não a de "Deus é mulher", mas sim a "Elza: Samba, Amor e Revolução". Embora em seu depoimento para a biografia ela sempre diga que não aguenta mais ser taxada apenas de sambista, e eu não ache  que ela seja "apenas" isso, é fato que é  essa a sua face que me mais me encanta. Sorry.

Quanto a biografia ELZA (2018), até gostaria de defendê-la (ela apresenta motivos para isso), mas a simples suspeita de que ela seja apenas mais um tijolinho na construção de uma narrativa lucrativa sobre Elza , que a explora ao limite das suas já escassas forças, da qual não se sabe até que ponto ela está realmente concordando (eu acho, sim, que em alguma medida ela aprova tudo isso, mas em que medida?); Então eu volto a defender que ela merece, sim, ter sua vida contada por um biógrafo mais imparcial (imparcialidade  é impossível, eu sei, mas talvez menos comprometido com outras coisas que desconhecemos). 

Agora , terminada a leitura e escrito o comentário sobre a biografia, volto a ouvir os discos de samba de Elza, esses valem muito à pena!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Retrospectiva: 2021 o ano da literatura!

 


Este ano eu "inovei", fazendo um resumo de uma linha do conteúdo do blog (e também fora dele), mês à mês, então a retrospectiva ficou mais fácil. Vou trazer a frase de cada mês e comentá-la!

JANEIRO - Teste de Ancestralidade;
Elza embalava minha vida logo no começo do ano

Acho que tive a ideia de resumir o mais importante do mês por causa de janeiro, quando não teve nada mais importante do que o meu teste de ancestralidade. Para mim, para tantos negros do Brasil, saber qualquer coisa sobre nosso passado, propositalmente apagado, é tão grande, envolve tantas coisas, toda a nossa vida, nossos medos, escolhas. É um olhar para nós mesmos. No caso do meu resultado, fiquei surpresa pelo meu DNA não ter nada de indígenas brasileiros, e eu que achava que era cafuza (mistura de negro com indígena), mas na verdade sou mistura de negro com branco. Mas quais ? Brancos, predominam os ibéricos, portugueses e espanhóis, embora tenha alguns pontos de outros lugares na Europa. E negros, tem de muitos lugares da África, não apenas daqueles que sabemos que vieram pessoas para seres escravizadas ( especialmente Angola, Congo, Moçambique, Nigéria, etc), mas também de vários lugares do norte do continente, a África oriental, árabe, inclusive a minha querida Etiópia! Me senti muito melhor com essas informações, pesquisar ancestralidade era uma das metas para 2021 e eu "entendi" mais tantas coisas e pareceu que um dos sentidos da minha vida tinha sido encontrado. Foi, e isso não é pouca coisa, mas ainda existem mistérios!

FEVEREIRO -Mergulho em Lima Barreto;
Fevereiro : o mês de "Lima Barreto que nos olha"

Foi sem querer, mas acabei tendo que escrever um texto urgente e mergulhei na vida de Lima Barreto e Clara dos Anjos, isso me fez pensar que estava continuando o tema de janeiro, pois estava estudando o maior escritor negro brasileiro (que se reconheceu assim e sofreu as consequências, inclusive de sempre acabar sendo "esquecido". O que ele escreveu, há cem anos, continua sendo atual e incômodo. Escolhi escrever sobre o livro Clara dos Anjos, porque eu li quando era menina, mas demorei muito para entender que a Clara era eu, era todas as mulheres negras periféricas, em 1922. em 2021! Fevereiro foi mês do Lima, a quem agradeço imensamente! Que orgulho ter um escritor desses no meu país!
No final do mês, depois que terminei o trabalho, fui ler outras coisas, ainda sobre negros, li um livro infantil sobre as princesas africanas e um romance ótimo de Chimamanda Ngozi Adichie . uma autora nigeriana, país que agora sei que faz parte da minha ancestralidade.

MARÇO - Mostra de Cinemas Africanos , Congresso de Crítica Genética e
Guimarães Rosa;
Já estava acompanhando congresso pelo celular
 na sala de espera do hospital pros exames pré cirúrgicos da minha mãe,
mas foi uma delicia debater sobre critica genética 

Esse mês já tive mais assuntos para falar, congresso, Mostra de documentários africanos, inclusive um etíope muito bom e expectativa sobre a cirurgia da minha mãe, até que consegui me sair bem em tudo, com uma energia muito 2020, cheia de banho de sol. Acho que a coisa ficou mais difícil mesmo a partir do mês seguinte.

ABRIL- Cirurgia de mamãe e anais do Congresso APCG;
Na Páscoa com minha mão ainda não sabíamos quando ia ser a cirurgia

Em abril começamos bem, eu escrevi o texto para os anais do congresso de março e eu e minha mãe passamos uma páscoa feliz aqui em casa, tiramos fotos felizes, mas dias depois, naquela mesma semana, ela foi chamada para retirar a colostomia, que achávamos que seria mais simples. Como era contexto de pandemia, não pudemos acompanhar, só por telefone. A tensão era enorme, passei os dias aqui em casa, esperando uma ligação do médico, deu tudo certo e ela voltou para casa, muito debilitada. Ela precisava de cuidados todo o tempo, dei uma pausa nas caminhadas pois ela precisava de cuidados dia e noite, alimentação, precisava trocas as fraldas, ela sentia dores, estava ferida, incomodada, irritada, Muito tenso. Ninguém vinha me ajudar porque só ela, que é idosa, tinha se vacinado, então tive que me virar sozinha e acho que consegui me sair até bem, pelo que me lembro, não perdi a doçura e o bom humor ao lidar com ela, mesmo que ela, com toda razão, estivesse sempre uma pilha de nervos. Mas eu cansei muito esse mês. As máscaras caíram.

MAIO - Vacina Pfizer parte 1; Gabo, Acioli, Juan Rulfo e racismo e Jeferson Tenório;
Dei uma passada no posto e tomei a vacina
Estava gorda e descabelada, bem diferente da Camila soar de março.
Eu tinha pressa,  não podia deixar minha mãe sozinha!

Em maio a situação melhorou um pouco, ela deixou as fraldas, podia comer melhor, mas ainda estava fraquinha e continuava precisando de mim todo o tempo, não podia sair por muito tempo, então aproveitei para ler mais, reler realismo fantástico, Gabo e li o maravilhoso Pedro Páramo . No meio daquela situação tão tensa que passava em casa, continuando o tema da ancestralidade que abriu o ano, li o melhor livro contemporâneo de 2021, O avesso da Pele, de Jéferson Tenório que, assim que terminei de ler, soube que era diferente! Mas teve uma coisa ótima esse mês, eu tomei a vacina! Que emoção, quanta esperança!

JUNHO - Boa e má literatura latino americana; Bernardo Brayner; biografias com livros e Prince;
Lendo Bicho Geográfico, do meu amigo Bernardo Brayner

Junho foi parecido com maio, muito ocupada com mamãe, só dava tempo para ler antes de dormir, quis ler outros autores latino americanos, além do Gabo, li um contemporâneo que não gostei. Li um livro lindo , do meu amigo Bernardo Brayner, e fiquei nostálgica sobre como começou nossa amizade há décadas. Comprei a bio da Elza, que só fui ler em dezembro, e me apaixonei pelo Prince!

JULHO - Prince, morte e amor com Gabo; Trianon, capítulo de livro e Nicolai Gogol;
Estava frio, eu queria me esconder atrás dos livros

Nesse mês um capítulo de livro que escrevi no ano passado foi publicado, fiquei contente. Sai pra passear pela primeira vez na Pandemia, fui ao parque Trianon com meu amigo Rafael.
Só em julho as coisas começaram a melhorar em casa, minha mãe mais fortinha, o que me deixou enxergar o quanto eu estava acabada, gorda, sem vaidade, sem alegria, sem conversa, sem contato. Esse período foi de cárcere mesmo, só falava ao vivo com minha mãe e com a terapeuta a cada quinze dias. Um dia fui a farmácia para minha mãe, me pesei e vi que estava muito gorda, tinha descuidado muito de mim, não podia ter feito isso, ainda mais sabendo que nem podia sair para caminhar, chorei muito aquele dia e a sensação de que tinha ficado velha e feia em poucos meses não me abandonou o resto do ano, mesmo assim comecei uma dieta por conta própria. Minha alegria era ouvir Prince, tantos sons e musicalidades!

AGOSTO -Prince; Vacina Pfizer parte 2; voz literária de Odilon Esteves ;Paulo Scott incômodo; Jorge Amado; Stênio Gardel e aulas de Guilherme Arantes;
A palavra que resta de Stênio Gardel e Mar Morto de Jorge Amado
Leituras poéticas e lindas

Agosto ia ser o mês de tomar a segunda dose da vacina, estava com muita expectativa de poder me libertar mais um pouquinho. Foi um mês que eu tive que sair mais, tinha meus exames anuais para fazer e levava sempre um livro para me acompanhar. Podia ser um livro lindo e poético como o Mar Morto, do Jorge Amado ou A Palavra que resta, de Stênio Gardel, ou incômodo como O ano em que vivi de literatura , de Paulo Scott. Me vacinei no dia 20 e só em setembro poderia voltar a academia, tudo o que eu mais queria. Aprendi música com Guilherme Arantes no Facebook.

SETEMBRO -Fabiane Guimarães e os rich people problems; Live Pedro Bloch e humor infantil; academia; Tenda dos Milagres e Prince;
Minha felicidade em voltar a treinar é inenarrável

Muitos assuntos em setembro, o mais importante foi voltar a academia, isso significou que eu estava imunizada e que minha mãe estava melhor, mais independente e eu podendo cuidar um pouco de mim. Voltar a academia significou pegar sol, ver e interagir com pessoas, foi como nascer de novo. Mas também esse recomeço me mostro o quanto esses quase dois anos sem treinar me enfraqueceu! Eu não conseguia fazer muita coisa, pedia ajuda de Deus e dos Orixás pra não desistir, porque eu acreditava que como era antes nunca mais ia ser ser. Mas não desisti. Fiz live para falar da minha pesquisa de pós doc e li o pior livro do ano, Apague a luz se for chorar, da Fabiane Guimarães e também Tenda dos Milagres, outro maravilhoso do Jorge Amado. Nesse ínterim, aprendia cada vez mais sobre música com o Guilherme Arantes pelo Facebook e foi maravlihoso quando ele falo do Prince.
OUTUBRO - Adaptações de Tenda dos Milagres; Mostra de Cinemas Africanos; Artigo sobre Cinemas Africanos, Lygia Fagundes Telles; Encontro Critica Genética; Abraço no Prince;
Abraçando Prince


Teve Mostra de Cinemas Africanos, pena eu estar tão cansada, mas consegui assistir tudo: AMO!
Fui ver adaptações do romance Tenda dos Milagres como minissérie da Globo em 1985 e como filme de Nelson Pereira dos Santos em 1977, gostei muito da trilha sonora e de Nelson Xavier como Ojuobá Pedro Arcanjo na TV , embora a série tenha mudado tudo de lugar, ficou bonita, já o filme é mais fiel ao romance, mas destaco a cena em que Pedro Arcanjo explica porque, sendo um materialista, continuava frequentando o candomblé, é que ai vemos como esse personagem é uma espécie de alter ego do Jorge Amado e como eu, tantas vezes, me identifico com ele. Li o fantástico Antes do baile verde , da Lygia Fagundes Telles, participei de outro congresso de critica genética, mas como estava muito mais exausta do que em março, foi bem light. Foi meu aniversário e eu dei um jeito de, enfim, dar um abraço no Prince, meu crush!

NOVEMBRO -Nutricionista; Hilda Hist e Rosa; Jorge Amado e Saramago; Lima Barreto na Consciência negra; Congresso de Estudos sobre infância;J . Tenório vence Prêmio Jabuti; Marçal Aquino é bom, mas não tudo aquilo, Prince;
No dia da consciência negra, recomendei
a leitura de Lima Barreto

Continuava exausta no treino, procurei uma nutricionista para me ajudar a ter mais disposição, foi a melhor coisa que eu fiz, com orientação profissional, passei a me sentir bem melhor. Li o divertido A Descoberta da América pelos turcos, do Jorge Amado, com prefácio do Saramago. Recomendei que lessem "Clara dos Anjos" ou "Recordações do escrivão Isaías Caminha", de Lima Barreto se quisessem saber o que era "consciência negra". Participei de um congresso sobre estudos de infância na UERJ, falei do Pato Fu, mas senti que podia ter me saído melhor. Como suspeitei, O Avesso da pele começou a ser reconhecido, ganhou prêmio Jabuti de melhor romance literário de 2021 e eu vibrei! Li o recomendadíssimo "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", do Marçal Aquino e não achei nada de tudo aquilo que me falaram. Acontece! Continuei com Prince na cabeça e no coração.

DEZEMBRO - Publicação do meu livro, Vacina gripe, Dose de reforço contra covid, biografia da Elza Soares
Na live de lançamento do meu livro 

Em dezembro tomei muitas vacinas, contra gripe e a de reforço da covid, teve o lançamento do meu livro Escrevendo a lápis de cor: Infância e História na escritura de Guimarães Rosa, foi uma grande emoção.


O livro mesmo me chegou na véspera de natal, com um presente e foi lindo só li a biografia da Elza e ouvi muita coisa dela, em várias fases, depois escrevo melhor sobre.

Assim foi meu ano, que se encerra em poucas horas.
Que 2022 seja mais leve e mais alegre!