sábado, 30 de janeiro de 2021

"Mil Nações moldaram minha cara" : Resultado do meu teste de ancestralidade


 Quem me conhece um pouco mais sabe que a questão da minha origem é meio que um assunto tabu para mim, sobre ele não falo, não procuro, muito ao contrário, por muito tempo até cheguei a fugir dele, quando ele se apresentava em minha frente.

Daí que sempre achei que essa fosse a grande busca de minha vida, minha missão e eu a rejeitava rejeitei toda a vida.

 

É um caso muito delicado, é mexer naquele primeiro abandono, que é uma ferida que nunca cicatriza, nem casca protetora cresce nela, está sempre à flor da pele. Pouca gente entende quando eu digo, por isso eu parei de me justificar, porque eu sei que é um assunto que eu tenho que resolver comigo mesma. Por isso :

“Não escrevo, não falo! – para assim não ser: não foi,não é, não fica sendo!" Guimarães Rosa,  GS:V

 

Mas a verdade tem sua própria força e, eventualmente, alguns fragmentos chegaram até mim, fiquei sempre muito assustada, em pânico mesmo. Mas um dia a gente tem que dar um passo em direção a essa origem. Não estava nos meus planos, claro, mas ganhei um dinheiro de presente de Natal, nada demais, mas com um pouquinho mais que eu tinha  guardado pois  quase não gasto nada na quarentena, então  dava para eu comprar um teste de DNA Global no Genera.


Na virada do ano essa ideia me passou pela cabeça e eu senti que era a grande oportunidade. Será que eu teria outra chance depois? Pensei muito nisso e, num rompante, como se estivesse fazendo a maior coisa da vida, fui lá e comprei já nos primeiros dias de 2021. No caderno da minha história e da minha ancestralidade, essa página em branco ia receber seus primeiros traços. Minha ideia era não falar disso nunca com ninguém, se não narro, não é.

 

Achei que ia ser fácil, que ia passar logo e que não ia ficar ansiosa. Mas não foi.Perdi o sono várias  vezes, me senti culpada por estar indo atrás dessa informação, como se fosse uma traição à minha família adotiva, chorei.

 

Não tinha muita ideia do que ia sair, mas apostava que era muita mistura e desejei muito, muito (mas jurava que era impossível) que saísse Etiópia. Imagina se não saísse a África? Como minha intuição, meu sentimento de pertencimento, meu espiritual iria ficar? Quase enlouqueci!

 

Assisti a vários vídeos no Youtube de pessoas que tinham feito em laboratórios no Brasil e no exterior, cada um tinha um motivo: conseguir visto europeu ; curiosidade, no caso dos asiáticos ; no caso dos negros aproveitar a oportunidade para saber um pouco mais da história dos antepassados, coisa que  a maioria não teve, não tem. Para esses últimos o caso parecia mais sério, todos relataram estresse e uma vontade de relatar aos outros a sensação de ter, enfim, parte de de seu passado desvendado e com isso me identifiquei demais: Na hora da coleta da saliva, achava que eu tinha feito errado que não iam conseguir fazer  o exame. Como demorou exatas três semanas (tinha visto gente relatar que saiu bem antes), tinha certeza que tinha dado erro. Mas não deu erro. 

Enfim recebi o resultado em 29 de janeiro de 2021.

Antes de falar do resultado, devo alertar para uma questão que eu vi desenvolvida no Youtube em vídeos como esse e esse  e  fiquei pensando que o laboratório faz o exame e comparam com os dados que eles têm, certamente deve haver lugares que eles podem não ter os dados. Por esse tipo de detalhe que digo que os resultados são inquestionáveis, mas a interpretação eu, como historiadora, posso fazer outra, como vou fazer aqui.  

Eu sou mestiça, sei disso, e já imaginava que a maior parte do meu DNA fosse proveniente da Europa (tinha visto muitos casos assim no Youtube, com pessoas com traços negros mais evidentes do que eu,mas com ancestralidade européia, como esse,) minha curiosidade e tensão era sobre a África mesmo.

O Lab Genera responde resumidamente  que 53% da minha ancestralidade  é proveniente da Europa e 33% da África, num total de 86% dessas regiões. Para eles essa informação está ok. Para mim não.

Ainda no geral, o resultado final foi assim(gosto de ver a marca colorida da minha linhagem no mapa mundi):


E agora com mais detalhes :


É muito lugar, né? Para o recorte do Genera, as pelo menos 5 gerações analisadas teriam passado por dezesseis regiões! Isso é que é GLOBAL! Confesso que fiquei feliz ter aparecido tanta África, quase tudo do centro para o norte, inclusive o Chifre da África, região da minha amada Etiópia! Sim, eu tenho a Etiópia do meu DNA, 3% do total, mas tenho: AMEI!

Mas gostaria de separar um pouco mais, vejamos os lugares que “pontuaram” melhor:

25% Ibéria (Portugal Espanha)

13% Europa Ocidental (França,Áustria,Inglaterra, Alemanha, Suíça, Bélgica)

12% Oeste da África (Angola, Camarões, Gabão, Congo, Guiné Equatorial)

11% Costa da Mina (Nigéria, Gana, Togo e Benin : forte de São Jorge)

8% Itália

7% Leste da África (Tanzânia, Quenia, Malawi, Moçambique, Zimbabue, Zâmbia,parte da África do Sul)

4% Amazônia (Equador, Peru, Bolívia, Colômbia, Venezuela e norte do Brasil)

3% Basco(extremo da Espanha); Volga-Ural (Rússia);

     Leste Europeu(Estônia, Lituania, Polônia, Eslovaquia, Hungria, Ucrânia);

    Chifre da África (Eriteia, Etiópia, Somália)

    América Andina (Cordielheira dos Andes)

    Ásia (Japão/Coreia)

    Megrabe (Argélia, Libia, Marrocos, Tunísia, Mauritania)

2% Patagônia (extremo sul da América Latina)

Europa 5 regiões

África  5 regiões

Agora a gente volta a dividir o geral: Meu DNA é dividido a entre Europa e África, mais especificamente entre a Ibéria e Oeste da África (de onde vieram pessoas para serem escravizadas). Sim, meu DNA é um retrato da colonização no Brasil, eu vi esses dados e pensei nos tantos estupros, explorações, roubos e toda arbitrariedade que os colonizadores promoveram por aqui e que esses também fazem parte da minha ancestralidade e talvez esse passado de abuso e violência explique tanta fragmentação! Não sei!

Eu posso entrar em contato com pessoas que compartilham meu DNA, que lindo, mas no meu caso os possíveis “parentes” mais próximos seriam no máximo primos de terceiro grau. Será porque sou muito “dividida”? Será porque a maioria dos descendentes de africanos não teve ainda acesso a esse tipo de teste e, como sabemos, tiveram sua história apagada. Acho que  as duas coisas.  

O mais bacana de tudo é que agora é certeza: TENHO SANGUE AFRICANO, SIM , e não é pouco! Eu não sou paquistanesa,nem indiana, nem afegã, meu Dna é mestiço europeu/africano e essa revelação  foi um grande presente que meus orixás me deram.

Agora já sei que não vim do nada, que tenho mesmo ANCESTRALIDADE, como eu sentia desde sempre! Isso é lindo, vocês não acham?

Para concluir: carecia de ter coragem e eu tive, passei pela travessia da busca da verdade, não foi fácil, mas me deu força suficiente para narrar aqui no blog (imagina a ousadia) sobre um tema tabu! Agora superei!

Me sinto uma nova mulher, mais

CAMILA (nome que evoca a história do meu nascimento) ZAHABE (nome que eu escolhi para mim e agora foi legitimado, pois tenho um pouco de  DNA etíope sim, e por fim RODRIGUES  (herança ibérica que ganhei da minha família adotiva!)
Termino citando a dedicatória de um livro infantil sobre qual comento aqui depois e é tudo o que eu queria falar aos meus antepassados agora:

“Aos meus  ancestrais que me convocaram a

esta viagem incrível à Grande Mãe Terra,

com o propósito de divulgar seus maravilhosos feitos” (Kiussam de Oliveira)

 

 

 

 




sexta-feira, 29 de janeiro de 2021

Ler os clássicos: companheiros na vida e as palvras- cantiga de Rosa

 


COM LICENÇA ÍTALO CALVINO - O seu "Porque ler os clássicos" é mesmo estupendo, mas eu apostaria numa definição mais enxuta: Ler um clássico é ter com quem contar na vida. Na hora que vida se apresenta inteira pra gente, que exige que a gente se mostre como a gente é , que a gente fica "bêbado de eu" etemos que nos posicionar e nunca estamos prontos... é dele que a gente lembra, que nos ajuda. É na hora que o demo (nos crespos do Homem) não queria existir, não vem, mas a gente sente que ele nos ouviu, a hora que a gente vai passar de um rio calmo para o São Francismo e não sabe nadar, mas carece de ter coragem... é assim!

Obrigada pela vida toda Guimarães Rosa



"PALAVRAS-CANTIGAS"- Em geral, minha leitura de Guimarães Rosa (seja das obras, seja dos manuscritos), tudo está centrado no lúdico , no ouvir e no cantar, ou como diz um personagem de "Cara de Bronze"(novela toda rendada de  cantigas sertanejas), a viagem da obra rosiana é para "buscar palavras-cantigas" . Desde sempre Rosa foi para mim como uma cantiga de ninar, até mais que o escritor eruditismo por quem me apaixonei depois, ainda muito nova ele já  era Joãozito, que "cantava" comigo. Pesquiso, independentemente, a escrita de Rosa desde 2001, quando assisti meu primeiro curso sobre na USP, por isso ainda antes de entrar no mestrado em 2005, eu já tinha ministrado uma oficina sobre ele para crianças na Escola Lumiar, na qual a ideia era justamente a de "brincar" com Rosa. Ideia que aquelas crianças (iletradas ou em fase de alfabetização) aceitaram de cara. Quando eu mostrei o Léxico de Guimarães Rosa uma delas perguntou : "Como ele pôde criar tantas  palavras? Deixaram ele fazer isso?"  rs
Eu espero mesmo que, depois, quando Rosa aparecer como obrigação em suas vidas escolares, elas pelo menos se lembrem que brincávamos com ele nas tardes de quarta feira entre 2004 e 2005.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

O livro certo: Expectativas pré leitura

 Tinha comprado dois livros na Estante Virtual, ambos chegaram entre ontem e hoje. Um deles veio errado 😔

Esperava uma capa com as princesas Iabás, que viraram divindades
 e recebi essa aldeia de filme de Sembéne. Nada é por acaso!

Comprei o infantil  "Omo-oba:histórias de princesas" de Kiussam Oliveira, mas recebi "Igbo e as princesas" de Marcos Caje! Achei que tinha comprado errado, mas foi o vendedor se enganou. Disse a ele que  gostei de "Igbo" também, mas queria mesmo o "Omo-oba", que comprei.  Aí ele disse que enviará um motorista com o meu livro e que levará o que veio errado. A ver. Antes dele vir vou ler esse livrinho Igbo e se achar interessante, em tempo, comento ele aqui. 😉


Mas ontem recebi outro livro, esse o romance da vez: A linda edição de "Hibisco Roxo", da nigeriana  Chimamanda Ngizi Afichie. Escolhi ler esse livro mas sem muita expectativa. Queria ler algo diferente, pensei num autor coreano, japonês... Fiz até pesquisa e tudo (adoro os canais literários no YouTube), mas me dei conta que, apesar do mergulho nos cinemas, ainda não leio literatura africana, por enquanto. Outro ponto que me levou a essa escolha foi o básico: nem tanto por querer, mas quase nunca animo de ler autoras. Tenho  que mudar isso. Então quis ler não apenas um autor africano. Eu poderia ter escolhido um romance de Sembéne, ou o próprio José Luandino Vieira -queria ler o romance que inspirou o filme Sambizanga, que tanto amo - , mas ai seriam vozes masculinas, só que africanas. E as mulheres?

Chimamanda Ngozi Adichie  

Então, para começar, escolhi ler a bela Chimamanda, nessa edição lindíssima, que conheci pelos discursos "O perigo de uma história única", que assisti no curso sobre cinemas africanos ano passado ou mesmo o "Nós deveríamos ser todos feministas", que é muito comentado e até inspirou a canção Flawless, da cantora Beyoncé (que não me atrai musicalmente, enfim). Eu conheço, inclusive, a crítica de alguns africanos sobre tantas colocações dos afro americanos, não é qualquer coisa que passa na minha garganta, mas Chimamada é africana, não afro americana, e isso deve fazer muita diferença (espero). Então até sei quem é a autora, sei que ela é engajada e tal, mas antes de começar a ler o livro, destaco que minha expectativa é literária, então eu ESPERO QUE ELA ME CONTE UMA HISTÓRIA, que seu livro não seja mais uma Palestrinha. A ver...

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Marcas de "Relato de um certo oriente"

 

Tenho um grande amor pelo primeiro romance publicado por Milton Hatoum, talvez o mais poético deles, e fico muito emocionada quando, nos contos ou crônicas, percebo alguma marca que me remetem a "Relato de um certo oriente", seja uma personagem, seja uma história paralela, seja o que for.

O segundo livro que leio em 2021 está sendo o seu enorme volume  de crônicas "Um solitário à espreita" e estou gostando, como sempre é uma leitura muito apetitosa, mas como gostaria que me contassem uma história, estou intercalando, demoradamente,  com outras narrativas.

Como suspeitei que viria, ontem li uma crônica que  com uma referência direta à escritura de "Relato..."

"Que distração: em abril de 1989 publiquei meu primeiro romance, cujo esboço inicial foi feito em dezembro de 1980 e nos primeiros meses de 1981. O relato seria um conto, mas foi crescendo com o calor da viagem sinuosa e atropelada da escrita.

Às vezes, quando essa viagem é interrompida, você diz a si mesmo que é uma pausa provisória, mas há textos que ficam no meio do caminho e são abandonados ou esquecidos: assuntos morrem nas primeiras páginas. Na verdade não é o tema que morre, e sim a forma, a arquitetura, o projeto que não vinga. Mas aquele conto expandiu-se, uma voz  puxava a outra, vozes tão intrometidas que nem sei de onde vinham. Quando me dei conta, já tinha escrito mais de cem páginas ..." Milton Hatoum. Tantos anos depois, Paris parece tão distante.... In "Um solitário a espreita", p. 33 

Trocando ideias sobre a escrita de Hatoum no Instagram encontrei um leitor que, como eu, estava se deliciando com o "Relato...", eu disse que talvez a base da obra de Hatoum já estivesse esboçado ali, de uma forma fantástica, muito bonito de ver. Sabem que ele foi escrito há cerca de 40 anos (tem mais ou menos a minha idade), em um quartinho alugado em Paris, me deixa alegre de alguma forma: talvez eu também possa ser mais do que um projeto menor (no caso um conto) que não foi abortado e virou algo muito importante para outras pessoas.

Enfim... relatos de leitora"

 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

NÃO À NORMALIZAÇÃO DO RACISMO , por Paulo Scott

 


NÃO À NORMALIZAÇÃO DO RACISMO - "... ao longo de mais de 30 anos eu tinha sido um inferno que tornava todos os outros infernos eventuais do cotidiano meras fagulhinhas na normalidade geral, que o meu olhar, MEU MODO DE LER A VIDA, RECUSAVA A NORMALIDADE ENGESSADA PELO DISTÚRBIO QUE AS PESSOAS CHAMAVAM DE RACISMO, pela devastação psíquica por ele causada, não importa o que os outros dissessem para tentar me convencer de que não estava tão ruim assim de que o ódio contra os pretos e o nojo em relação aos pretos estavam menores, de que no passado a coisa tinha sido muito pior... " "Marrom e Amarelo", Paulo Scott, p. 60

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Jorge Ben : 50 anos de "Negro é lindo" (1971), por Mauro Ferreira




 "MEMÓRIA – Oitavo álbum de estúdio de Jorge Ben Jor, lançado em novembro de 1971 pela gravadora Philips, Negro é lindo é fruto dos movimentos sociais que institucionalizaram o black power nos Estados Unidos ao longo dos anos 1960 e, por isso mesmo, o disco completa 50 anos em 2021 conectado e afinado com o grito pela reafirmação da importância de vidas negras que ecoa forte no mundo em tempos atuais. Nos Estados Unidos, os movimentos sociais dos anos 1960 tiveram como trilha sonora sobretudo o soul e o funk que reverberaram no Brasil a partir do fim dos anos 1960, projetando artistas como Tim Maia (1942 – 1998) e Tony Tornado no início da década seguinte. Ben, que já vinha pavimentando obra autoral desde 1962 com orgulho negro e boa dose de soul no toque do violão (mas sem se prender ao gênero norte-americano), explicitou o brado do movimento racial, em bom português, no titulo desde disco lançado no mesmo ano em que Elis Regina (1945 – 1982) popularizou o soul Black is beautiful (1971), marco da adesão dos irmãos compositores Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle ao movimento pela valorização do povo negro. “Negro é lindo / Negro é amor / Negro é amigo”, reforçou Ben Jor em versos da letra da pacifista música-título Negro é lindo (Jorge Ben Jor, 1971), formatada no estúdio com cordas orquestradas pelo maestro Arthur Verocai – cordas também proeminentes também na faixa Porque é proibido pisar na grama (Jorge Ben Jor, 1971) e na regravação de Que maravilha (1969), parceria de Jorge Ben com Toquinho apresentada há então dois anos e revivida por Jorge no disco de 1971 em registro também pontuado pela leveza do toque de um piano. Em que pesem as cordas, o motor do álbum Negro é lindo é o violão de Ben Jor. Com toque alquimista que sintetiza ritmos negros do Brasil e dos Estados Unidos, criados a partir de matrizes africanas, o violão do músico carioca é a veloz máquina de ritmo que eletriza Cassius Marcelo Clay (1971). Outra parceria de Jorge com Toquinho, Cassius Marcelo Clay é tributo dos compositores ao engajado pugilista norte-americano Cassius Marcellus Clay Jr. (1942 – 2016), rebatizado como Muhammad Ali desde que se converteu ao islamismo com o incentivo de Malcom X (1925 – 1965), líder norte-americano do movimento negro nacionalista que mobilizou os Estados Unidos nos anos 1960. A homenagem de Ben Jor a Cassius Clay mostra como o álbum Negro é lindo está impregnado do poder negro importado dos EUA, mas adaptado, inclusive musicalmente, à realidade brasileira. Tanto que o disco é o terceiro de trilogia fonográfica em que Ben Jor é acompanhado pelo balanço singular e brasileiríssimo do Trio Mocotó, grupo de samba-rock formado em 1968 por Fritz Escovão (cuíca), João Parahyba (bateria) e Nereu Gargalo (pandeiro). É no balanço do Trio Mocotó que Ben Jor cai no suingue de Rita Jeep (Jorge Ben Jor, 1971), samba-rock que abre o disco com homenagem a Rita Lee (“Sujeita, você é um barato / Terrivelmente feminina / Com você, eu faço um trato / Um trato de comunhão de bem”), com quem Ben convivia nos estúdios paulistanos em que gravou o álbum, muitas vezes voltando para casa de carona no carro da cantora. Com capa que expõe Jorge Ben em foto de Wilney, enquadrada na arte de Aldo Luiz, o álbum Negro é lindo foi produzido em estúdio sob direção do compositor e violonista Paulinho Tapajós (1945 – 2013), hábil ao organizar e harmonizar os elementos de disco composto e gravado com fidelidade ao universo de Jorge Ben. Como o título já explicita, Negro é lindo é disco político, mas Jorge faz política com a sintaxe peculiar de cancioneiro pautado mais pelo ritmo do que pela letras, escritas a serviço desse ritmo. Celebrar o baterista do Trio Mocotó João Parahyba em Comanche (Jorge Ben Jor, 1971) e exaltar a beleza negra em Zula (Jorge Ben Jor, 1971) são armas usadas por Ben para entrar na luta e ostentar orgulho negro sem fazer letras explicitamente engajadas. Coerente com a própria ideologia, o compositor celebra musas em Maria Domingas (Jorge Ben Jor, 1971) e Cigana (Jorge Ben Jor, 1971) – outra faixa em que foram destacadas as cordas orquestradas por Arthur Verocai. No fecho do disco, Palomaris (Jorge Ben Jor, 1971) esboça certa sofrência indicada pelo tom melancólico dos versos, mas logo diluída pelo ritmo, motor da obra do artista. Negro é lindo está longe de ser o álbum comercialmente mais bem-sucedido de Jorge Ben Jor. O disco tampouco rendeu um grande sucesso para o repertório do cantor e compositor. Contudo, Negro é lindo conserva frescor musical e, por estar embebido em orgulho negro, faz 50 anos em 2021 com forte conexão com o atual e oportuno movimento que propaga a importância das vidas negras."

 por Mauro Ferreira

#OMelhorDoBrasilÉJorgeBen  

domingo, 17 de janeiro de 2021

Vacina contra Covid 19 chegou ao Brasil

Viva a ciência no Brasil! No dia 17 de janeiro de 2021 a profissional de saúde a enfermeira Monica Calazans , do instituto de infectologia Emílio Ribas, foi a primeira pessoa a ser vacinada contra a Covid 19 no Brasil. Viva a ciência! Há luz no fim do túnel!