terça-feira, 2 de março de 2021

REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DOS NEGROS

 

Essa peguei no perfil do Scott no Instagram

Era da minha vontade inserir no pequeno texto que escrevi sobre a representação afrodescendentes em "Clara dos Anjos" de Lima Barreto (que está para completar 100 anos em 2022) , algumas representações de Clara nas capas dos livros (cada uma de uma cor! )
Algumas representações de Clara dos Anjos em capas do romance

Especialmente inserir o trecho de "Marrom e Amarelo" de Paulo Scott (2019) (livro em que tantos nomes são citados e eu senti a falta de Lima) em que Lourenço (o irmão marrom), avisa o irmão Federico (o irmão amarelo), que ele não deveria desligar o flash porque
"tem que usar flash comigo, senão quando tá assim escuro eu não apareço direito"(65).
Essa questão da representação do negro, especialmente a gráfica, em todas as suas cores, como os descreve Lima, nunca foi simples: de cem anos para cá, alegou-se ausência de tintas que dessem conta de tantos matizes, a falta de modelos, ou mesmo a carência de equipamento fotográfico sensíveis a ponto de captar tantas nuances, que na verdade, lembra Schwarcz em seu instigante artigo "Clara dos Anjos e as cores de Lima", denunciam a falta de vontade de representar graficamente negros e pobres.
Mas nada disso "coube" nas 30000 caracteres, mas porque eu gosto tanto do tema, escrevo compartilho aqui com vocês!

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2021

A melancólica Live de Milton Hatoum no portal da Biblioteca Câmara dos Deputados



Soube da Live e, claro, fui assistir, mas me surpreendi um pouco pelo tom melancólico de Hatoum. 


Ele falou do Embaixador Faisão, a minha personagem favorita de "A noite da Espera", a que cutuca o limite entre ficção e realidade mesmo, como eu sugeri no texto linkado acima, e disse ainda mais: o Embaixador  é real, sim,pelo menos ele espera que seja, mas o seu mote sobre a "cabeça do padeiro", se relacionava a um Brasil que existe infelizmente,  de uma uma gente sem formação histórica, sem leitura que, junta, só traz transtorno e violência. E ficou triste.
Ai mudaram o livro, e voltaram a falar da trilogia  Um Lugar mais sombrio , agora seguiu falando da confrontação entre alguns trechos de Pontos de Fuga e a confrontação de alguns trechos com a realidade do Brasil fez nosso querido autor dizer que não poderia imaginar que viveríamos tudo isso, aquele clima de opressão,de novo tão cedo.E ficou triste.
Tentaram falar da sua cidade natal, Manaus, ele disse que todos os acontecimentos ali na cidade de sua infância durante a pandemia, só seria material para um livro daqui a muitos anos, quando fosse possível recordar e refletir sobre. Ai ficou triste mesmo. 
Foi uma live muito melancólica. Até me manifestei nos status
 


Dureza.



 

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

MINAS GERAIS E SEUS MISTÉRIOS

 

(Imagem é da Gruta Rei do Mato em Sete Lagoas, por Marcelo Sander... Olha de novo : Não parece uma imagem da Oxum? Então : tudo está guardado debaixo do chão de Minas...)

Que eu sou louca por MG todo mundo já sabe. Me perguntam se é por causa do Rosa, ou se eu gosto de Rosa porque eu amo Minas, mas essa é a pergunta quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha?

Na verdade o que me atrai tanto em Rosa quando em MG é o que está escondido, o mistério. Na paisagem de Minas temos belezas naturais e arquitetônicas, mas em todos os lugares tem sempre um esconderijo, uma gruta, uma mina de pedras ou ouro ( se você olhar por baixo, bem embaixo, é bem capaz de ainda encontrar ouro e diamante!), uma palavra mágica, ora esquecida mas já nascida. Na obra de Rosa, se reparar bem, também é sempre assim: tem sempre algo ou alguém escondido, na vida ou na memória, tem sempre uma palavra "nova" no começo do surgir que guarda em sim mistérios atemporais (e Rosa explora isso ao infinito).
No norte de Minas, sertão, ainda se acham conchinhas, porque hoje Minas não tem mar, mas já teve. Antes da recente história do passado colonia, Minas tem um passado pré-hisstórico de eras e tudo isso está lá, escondido.
Eu sinto muita atração por tudo isso. Mas na mesma medida eu sinto medo e pavor.
Tenho uma impressão forte de que tudo o que eu preciso saber nesta vida não está aqui fora, mas escondido lá dentro de mim, em algum salão ainda não explorado da minha gruta interior. A travessia pelo que está soterrado dentro é a da própria vida e não raro, debaixo daquele chão seco que é vigília racional , emerge do inconsciente alguma conchinha para lembrar que a história é mais antiga do que parecer. Como no conto "Nenhum, nenhuma": do nada estamos naquela "casa de fazenda, achada, ao acaso de outras várias e recomeçadas distâncias, passaram-se e passam-se, na retentiva da gente, irreversos grandes fatos- reflexos... "
Na hora que a vida se revela, num relâmpago fugaz, é impossível dever e tenho certeza que em Minas posso ver mais e melhor...




segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Itamar Vieira Junior no centro do Roda Viva


 No dia 15 de fevereiro de 2021 o programa Roda Viva recebeu o autor de Torto Arado Itamar Vieira Junior para falar do grande sucesso que seu primeiro romance está fazendo no mundo todo. Eu li e adorei, escrevi sobre aqui 
Itamar no Roda Viva: "Gosto de pensar no Brasil profundo porque pensamos em nossas raízes"


Eu assisti, estava toda preparada na logística para acompanhar : pipoca, lenços de papel lápis e
bloco de anotações e na hora achei que ele foi certeiro e galante, um príncipe, a gente pega um amor na Bebiana e Belonísia e, do nada, esse livro fica sendo tão importante! 


 Ainda sobre a entrevista eu  fiz dois comentários importante nas redes:

Esse perguntador, o Marwio Câmara do Jornal Rascunho,foi bem desagradável. Quem gosta de literatura jamais se referiria a ela como um "MERO exercício de fabulação", como se toda aquela aurivessaria fosse uma bobagem (foi assim que eu ouvi essa pergunta), daí peguei nojo, nem quis destacar o nome da figura que falou isso. Para mim que estudei Rosa e seu "reino das palavras" só metade da vida, esse tipo de colocação é quase uma ofensa. Eu li Torto Arado e gostei "sobremaneira" (Itamar sempre usa essa palavra em suas falas,acho de uma elegância ímpar, ou como poderia dizer Rosa, acho "galante"), mas acho muito diferente do trabalho que Rosa fez, embora quase sempre entrevistadores o coloquem como referência pro Itamar, mesmo que o próprio tenha cansado de falar (e quem conhece percebeu) que as referências são outras, estão na literatura sobre o campo dos anos 30, as ditas "regionais" e Rosa publicou só depois, com aquele compromissos acentuado com a "prosapoética"(vejo Grande Sertão como um poema épico, tipo Os Lusíadas, por exemplo)... mas tudo é literatura e trabalho com as palavras e isso não pode ser desmerecido. Afora a cronologia é evidentemente que se trata de projetos literários diferentes, muito diferentes (vejo mais influência rosiana na fala e na obra de Hatoum do que em Torto Arado). Mas são impressões minhas e quero dizer que bom que temos esses tesouros.  
Eu assistindo a entrevista pra qual me preparei dias , toda uma  logística pro evento e tal,  PRECISEI PARAR DE VER E VIR AQUI FAZER UMA POSTAGEM INDIGNADA! Quem é esse cara pra falar isso? Peguei ranço (não gosto dessa palavra, mas ele merece). Ainda bem que Itamar, um verdadeiro príncipe, respondeu galantemente... Fosse eu, tinha chutado o pau da barraca : vade retrô kkk

Minha paixão literária dividida com Itamar Vieira Junior.

domingo, 14 de fevereiro de 2021

O riso que ressoava na casa da Tia Ifeoma : Impressões sobre "Hibrisco roxo", de Chimamanda Ngozi Adichie

 

Terminados os romances maravilhosos que li na virada de 2020 para 2021, tinha que decidir o que ler antes do trabalho e engolir minhas leituras de prazer? Tenho sempre as crônicas de Hatoum para emergências, mas eu queria escolher um romance. Mas sem muita expectativa. Queria ler algo diferente, e comentei bastante minha escolha aqui . Sim escolhi  a lindíssima Chimamanda Ngozi Adichie porque ela é mulher e africana, e eu estava me devendo a leitura de uma autora assim .

 



Ai escolhi o Hibisco Roxo, nessa edição linda, porque julguei ser o que fosse me contar uma história (nada de palestrinhas) e quando percebi que tinha acertado, até comentei animada

“Sim, Chimamanda conta uma história nigeriana, cheia de palavras Igbo e comidinhas tradicionais (achei a receita de várias no Google, o ruim é encontrar os ingredientes). Ainda nem cheguei na metade e por enquanto posso afirmar que é uma história tensa, porque ficamos todo tempo em posição de defesa, como a narradora Kambili, pois nunca se sabe o que Papa vai fazer!

O livro conta a história da família da narradora Kambili, uma adolescente de quinze anos de família rica e muito católica, formada por seus pais Eugene e Beatrice e o irmão mais novo Jaja. Vivendo uma vida de luxo, são muito controlados por Eugene, o Papa, um fundamentalista religioso que rejeita tudo que não é como ele entende as leis sagradas da Igreja. A sorte de Kambili e Jaja, que são proibidos de tudo por Papa,  é que eles tem a tia Ifeoma, que é uma professora universitária viúva, critã mas não ortodoxa como o irmão, e uma personagem iluminada, em cuja casa o “riso sempre ressoava, não importa de que cômodo vinha” (p.151) e o melhor período do romance é quando Ifeoma  leva os sobrinhos para passar uma temporada em sua casa, muito mais humilde, mas onde pode conviver com os primos Amaka, Obiora Chima, e a conviver com seus vizinhos e até mesmo com a igreja que a família frequenta, dirigida pelo curioso padre Amadi, que aos olhos da narradora, é tão sedutor quando Christopher Plummer em “Pássaros Feridos”. É claro que ela se apaixona por ele e o primeiro amor é descrito em momentos lindos como esse:

"Eu sorri. Ele sorriu e indicou que eu deveria me levantar para receber um abraço. O corpo dele tocando o meu foi tenso e delicioso. Eu me afastei. (...) Quis estar sozinha com ele. Quis contar a ele o calor que sentia por ele estar ali, dizer que minha cor preferida era o tom de argila da pele dele." (p. 233)

 Com os primos a relação é mais complexa, especialmente com Amadi, que tem mais ou menos a mesma idade que ela e muito mais experiência de vida porque não sofreu censura da família e pôde sorrir, falar , pensar e ser quem quiser toda a vida;ouve Fela e “outros músicos culturalmente conscientes”(P. 162).

A história paralela de como Kambili vai tentar fazer Amadi descobrir que ela não é apenas uma riquinha mimada, mas sim alguém muito pressionada a se conter,  me pareceu um ser um ponto algo do romance, até porque por causa dele, a trilha sonora da leitura foi Fela, claro

Outra história paralela que faz a leitura valer a pena  diz respeito ao Papa Egene, que é a personagem mais complexa do romance, ao mesmo tempo em que é capaz de extremas bondades com a família, a igreja e a comunidade, é também uma figura muito intransigente, se contrariado, especialmente em se tratando de questões religiosas, não pensa duas vezes em lançar mão da violência física, seja contra a esposa, seja contra os filhos, que vivem numa tensão quase insuportável e isso é passado ao leitor, palmas à excelente escritora Chimamanda Ngozi por conseguir nos colocar nesse ambiente terrível. O tempo todo a gente deseja que Kambili, Beatrice ou Jaja reajam, mas na maior parte do livro  eles parecem permanecer no estado de eterna adoração a Papa, não importa o que ele venha fazer. Se isso muda ou não eu não conto, só aproveito para destacar a história de Papa e seu próprio pai, o encantador Papa-Nnukwn, que não pode entrar em sua casa e que, vez ou outra, Kambili e Jaja podem visitar por quinze minutos, pois o avô segue regras da tradição tribal, o que leva Papa a considerá-lo um pagão, um ímpio que não deve conviver com seus filhos. Mas na casa da  tia Ifeoma ele pode entrar e conviver intimamente com os os filhos de Ifeoma, especialmente com Amaka, de quem é mais próximo, e quando possível, até conviver com os netos que teriam sido afastado dele por causa do "feitiço" que Eugene teria sofrido dos missionários há muitos anos. É um trecho maravilhoso da obra, dá pra pensar muito na questão da manutenção da cultura em contexto colonialista.

Kambili é uma personagem bem simples, não apenas por ser adolescente, porque Jaja e Amaka também o são, mas possuem mais camadas, ela é bem rasa,mas eu não fiquei impaciente com ela, não sei se porque tive empatia, ou se porque eu ,leitora, também sofri na pele a tensão da vida que ela leva: a qualquer momento Papa poderia voltar a agredir alguém e a única coisa que podiam dizer é “Deus seja louvado” , para tentar evitar algo pior. Muito tenso.

Enfim, gostei bastante de ler esse livro, porque  Chimamanda escreve bem e também porque é uma mulher que escreve bem (fala bem das coisas femininas). Mas me arrisco a dizer que escreve como uma "mulher africana", tem sensibilidade, mas muita objetividade nas descrições, em trechos como esse:

"Quando acordei havia uma mancha vermelha em minha cama, larga como um caderno aberto. (...) Jajá e Mama já estavam prontos , esperando na sala de estar do segundo andar, quando saí do quarto. As cólicas dilaceravam minha barriga. Imaginei uma pessoa dentuça mordendo as paredes do meu estômago e depois soltando,num movimento ritmado."(P. 109-10)

Claro que o desconforto menstrual de Kambili só pode ser compreendido por Mama e como ele acabou fazendo com que ela não obedecesse estritamente as ordens de Papa, ela acabou sendo duramente punida com castigos físicos. Essas sutilezas, em várias formas, são as maneiras que narrativa de Chimamanda tratem de questões femininas e feministas em África, de forma fabular, como eu gosto.

Valeu muito ler esta nigeriana! Recomendo.


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

AINDA É URGENTE CONHECER LIMA BARRETO, BRASILEIROS

 


"Tendo experienciado uma vida de constante desprestígio, crítica e preconceito, o escritor enfrentou crises de depressão, entregando-se ao álcool e sendo internado por duas vezes no Hospício Nacional. Faleceu aos quarenta e um anos, vítima de um colapso cardíaco, já caído no esquecimento e na miséria, em 1922. " (site do TAG)

Como vamos falar do que hoje se pode chamar de "colorismo" sem passar DEMORADAMENTE pela trajetória de Lima Barreto? Mesmo com o aumento de sua visibilidade em 2017 (biografia, tema da Flip, etc e todo um entusiasmo editorial), poucos anos depois, quem ainda fala de Lima? Eu falo e continuarei repetindo: É URGENTE CONHECER MAIS LIMA BARRETO, BRASILEIROS.