domingo, 10 de janeiro de 2021

Torto Arado: Servidão - Ancestralidade - Mulher

 

À esquerda, a capa de Torto Arado, por Linoca Souza
À direita, a foto de Giovanni Marrozzini em Nouvelle (2010)

Venho dizendo que é muito difícil falar desse livro, mas é impossível não falar. Como sei que nunca vou conseguir escrever sobre como ele merece, então vou tentar  pontuar algumas questões que julgo importantes e , evitando dar spoiler, pelo menos não muito, mas é que tem coisas que acho que preciso comentar. Quis muito que esse livro fosse bom, fosse mágico, fosse arrebatador, mas como quase nunca meu desejo é realizado, comecei a ler sem expectativas. Planejava ler até a virada do ano e se fosse preciso, no começo de janeiro, mas comprei na primeira semana, dia 8 de dezembro, mas só recebi dez dias depois, comecei a ler dia 18  e terminei dia 26: o Livro de dezembro! Presente de Natal!

Durante a leitura já fui sentindo essa dificuldade de falar sobre ele, é tão mágico, não dá para comentar muito, mas é urgente recomendá-lo. Na hora que terminei, no final de um ano apocalíptico como foi 2020, não sabendo o que dizer, disse apenas: Que tiro foi esse?

Como demorou um pouco para chegar (os pedidos ultrapassaram o previsto em dezembro e foram precisas novas edições), eu assisti as resenhas no Youtube, todas eram unânimes : se trata de um livro que nasceu clássico.   Um dos Youtubers disse que tem tantas coisas nesse livro que é impossível comentar. Não foi só eu. Estou tentando escrever sobre faz tempo, mas é tão enorme, que eu acho um pecado profanar. Vou tentar ler a partir de três tópicos que mais me chamaram a atenção  porque se ampliam  e podem meio que sintetizar o romance. Avisando que avisando  estes não são os únicos que julgo  importantes do livro, nem os  únicos que eu gostei, mas são os que mais me tocaram e sobre eles me sinto ligeiramente confortável para comentar: 1 Terra – Escravidão- Servidão;  2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria  - Ancestralidade ;3-  Mulheres fortes e unidas;

1 Terra – Escravidão- Servidão
O livro é sobre  uma comunidade rural, a partir da história da família do curador Zeca Chapéu Grande, sua esposa a parteira Salu e seus quatro filhos, que passaram a viver de “morada” na fazenda Água Negra com o fim da escravidão, no interior da Bahia, e foram trabalhar em regime de servidão. Quem narra são as duas irmãs mais velhas, Bibiana e Belonisia (cada uma narra um capítulo). Em tempo, fala-se de pessoas que saíram da escravidão e passaram à servidão, até o surgimento de novos tempos com lutas sociais.

A epígrafe do romance é só TODO o capítulo 28 de Lavoura Arcaica de Raduam Nassar (livro que reli imediatamente  após terminar Torto, ainda em 2020)  

capítulo 28 de Lavoura Arcaica, de Raduam Nassar

Nesta entrevista Itamar conta que o arado torto que aparece no romance é um instrumento de trabalho arcaico, que veio dos antepassados de Belonísia e que "se deformou com o tempo, mas ainda continua rasgando a terra para semear a vida”. Itamar diz  também que a ideia do título foi retirado de um trecho de Marília de Dirceu, de Thomás Antonio Gonzaga, e todo o imaginário do trabalho com a terra na literatura brasileira é pontuado no romance. Foi fácil encontrar na internet:

“A devorante mão da negra Morte

Acaba de roubar o bem que temos;

Até na triste campa não podemos

Zombar do braço da inconstante sorte:

Qual fica no sepulcro,

Que seus avós ergueram, descansado;

Qual no campo, e lhe arranca os frios ossos

Ferro do torto arado.”  (Marília de Dirceu)

 

Percebe-se de  cara que é uma história de gente que tem a terra como parte de si, do seu corpo , e seu habitat, afinal  como os donos da fazenda não os permitia ter nenhum bem durável,  não tinham casas de alvenaria,e até  vivem em casas feitas de barro (terra). Segundo conta a filha de Zeca Chapéu Grande,  Belonísia, a mais ligada ao pai:

Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer,onde avançar, onde recuar.

Como um médico à procura do coração." p.100

Além de Belonísia, que não se via separada da terra, para todos eles a terra  também era tudo, mas embora nela labutassem dia a dia para dar a terça parte da produção ao seu dono (tipo na idade média mesmo) e ainda agradecendo-lhes pela chance de poder trabalhar naquele chão, a vida que levavam ao cultivar para alimentação própria, sem dinheiro, quase sem autonomia não era justa, como conta Bebiana:

“se algo acontecesse a eles, não teríamos direito à casa, nem mesmo à terra onde plantavam sua roça. Não teríamos direito a nada, sairíamos da fazenda carregando nossos próprios pertences. Se não pudéssemos trabalhar, seríamos convidados a deixar Água Negra, terra onde toda uma geração de filhos de trabalhadores haviam nascido. Aquele sistema de exploração já estava claro para mim.”p.83

Isso tudo me lembrava o tempo todo a canção Estrela Maga dos ciganos, do Elomar Figueira Melo:

"É tanta coisa pur dever tanto pagar

Sem receber tanto que dar

Chega! Já num guento mais não

 (...)

E inquanto na face da terra havê tiranos,

Vassalos e susseranos

Sinhorio e servidão

Fico lá incima hospedado com os Reis Mago

Nos camim de São Tiago

Num boto os pé nesse chã"


Nada é exposto diretamente pelas narradoras, nenhuma das três, mas a narrativa vai nos fazendo ver, cada vez mais claramente, a realidade daquele povo, juntamente com o momento em que eles mesmos vão se enxergando como são : escravos não são mais, não recebem mais açoite (embora a mãe de Zeca narre lembranças dessa época sofrida na tal fazenda Caxangá ), mas às vezes se dizem índios porque sabem que há lei para protegê-los; sabem que são trabalhadores, mas a qualquer hora os donos podem chegar e tomar-lhes o plantio, sem dó. É uma vida muito “análoga à da escravidão”. Demora um pouco, no tempo e na narrativa, para que os irmão mais jovens das protagonistas e netos de Zeca Chapéu Grande  passem a falar em termos  como “quilombolas”, que poderia inseri-los  sob a proteção legal:

“Não podemos mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas” p.187

Nada acontece por acaso, mas não posso deixar de tomar como curioso que, ao mesmo tempo em que lia,  fico sabendo da história do resgate de Madalena Gordiano (46 anos), essa mulher tão bonita, que viveu 38 em regime análogo à escravidão na casa de uma família, em Patos de Minas (MG). Escrava em pleno século XXI? Pois é. Como no romance, a historia não  para nela , mas  possivelmente se estende a sua família ,sua  irmã . É muito ter a "nossa saga" brasileira jogada na cara. Como prosseguir?

Do outro lado dessa vida de trabalho braçal  sem fim na roça, temos um dos trechos mais bonitos do livro em minha opinião, quando Bibiana conta  

“Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar as digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguia com mais afinco. Quem acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência.Mas pessoas como nós, quando viam o orgulho qe sentia dos filhos aprendendo a ler e o valor que davam ao ensino, saberiam que era o bem que mais queria poder nos legar.”P. 66

Emocionou-me muito essa parte porque ele me remeteu, de alguma forma,  ao meu pai, que não era analfabeto, mas estudou menos do que gostaria, só que  gostava dos livros e do saber e, segundo minha mãe conta, quando casou levou duas malas, uma de roupas e outra de livros para nova vida. Já idoso e começando a ter esquecimentos, lia todo dia, o dia todo, uma cópia impressa com erros da minha dissertação  que ficava no quartinho dele. Certamente tinha orgulho de mim, e eu dele tenho muito.

2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria  - Ancestralidade

Outra das maiores belezas de Torto Arado é todo seu caráter mágico. Muitas vezes, lendo sobre a infância de Bebiana e Belonísia, pensei que estivesse lendo estórias mágicas das crianças de Guimarães Rosa (minha especialidade), ou mesmo em outras descrições do decorrer do livo, parecia que  estava lendo algum texto de realismo fantástico. Isso porque, junto às personagens, estão sempre seus ancestrais, encantados, santos,espíritos e outras manifestações mágicas, o que é muito bonito e importante.
Zeca Chapéu Grande é um curador de Jaré, pai espiritual de toda a comunidade, que o procurava para curar males do corpo (já que medicina estava distante), mas especialmente da alma. Quando apareciam doentes assim, ficavam alguns dias em sua casa, conta Bebiana

“Não eram hóspedes, visitas ou convidados. Eram pessoas desconectadas de seu eu, desconectadas de parentes e de si. Eram pessoas com encosto ruim, conhecidos e também desconhecidos de todos. (...) O que mais chegava à nossa porta eram as moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias, apartadas  do seu próprio eu” P. 33 e 39  

Religião daquele povo, as “brincadeiras de jarê” tratam-se de

“uma religião de matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, que existe exclusivamente em cidades do Parque Nacional da Chapada Diamantina (...)Uma de suas principais particularidades é o grande sincretismo religioso, com influência do catolicismo, da umbanda e do espiritismo kardecista. Pode ser considerado um amálgama das nações bantu e nagô, as quais se uniram o culto aos caboclos.” (Wikipédia)

 Nada mais brasileiro e bonito. Nessas práticas, no romance, quem comanda as festas e as homenagens é o curador Zeca Chapéu Grande, mas ele também recebe a ajuda, incorporado  ou não, de Encantados,que, diferentemente das entidades da umbanda,

não são necessariamente de origem afro-brasileira e não morreram, e sim, se "encantaram", ou seja, desapareceram misteriosamente, tornaram-se invisíveis ou se transformaram em um animal, planta, pedra, ou até mesmo em seres mitológicos e do folclore brasileiro como sereias, botos e curupiras. Na Encantaria, as entidades estão agrupados em famílias e  possuem nome, sobrenome e geralmente sabem contar a sua história de quando viveram na terra antes de se encantarem.” (Wikipédia)

A confiança nessas forças e energias, ao que parece, está sustentada na presença constante dos ancestrais para dar apoio e proteção em todos os momentos da vida. Os encantados e encantadas, que viveram desde antes, sabem de tudo, conheceram os ancestrais mais longínquos, sabiam quais das coisas que acontecem agora são repetições de acontecidos com ancestrais nessa terra. Saber (não apensas acreditar) da sua importância  como guias para  a vida das personagens é o que me parece dar a sentido àquelas vidas tão sofrida que levam.  Eis  o verdadeiro tesouro do povo preto. Muito emocionante.

3-  Mulheres fortes e unidas  

O último tópico, mas não menos importante (muito ao contrário, talvez o mais importante mesmo) seja a união das mulheres nessa saga toda. Além das duas irmãs narradoras, que possuem uma ligação muito íntima, que os acontecimentos da trama só reforçam e que, mesmo quando elas se afastam, nunca morre, também temos as suas  ancestrais e até mesmo as encantadas são a marca feminina desse romance. Na entrevista do autor, citada acima, ele lembra que no cenário rural do sertão da Bahia as mulheres têm protagonismo muito forte na família e na comunidade, porque elas sobrevivem mais tempo, guardam as memórias.

Encerro este texto com outro trecho que muito me tocou:

Amigas, afeto

O afeto que Belonísia ganha, sem querer, de sua amiga Maria Cabocla e nunca vai saber como lhe agradecer. Eu não tenho os cabelos crespos, mas é cacheado e, como cresci numa família branca, de gente de cabelo liso, eu também demorei muito para receber um carinho na cabeça, e foi fora da família, como se aquele meu cabelo diferente não tivesse o direito de receber um carinho, não por maldade, mas porque , inconscientemente, funciona assim. Eu sei como é e só agradeço aos meus orixás e encantados por, ainda que tarde, tenha tido essa oportunidade na vida. E mais de uma vez.

Que livro, gente! Que livro! 

 

 

 


sexta-feira, 8 de janeiro de 2021

O QUE SALTA AOS OLHOS, by Milton Hatoum



ESSE TEXTO É UMA DAS COISAS COISAS MAIS A MINHA CARA QUE EU JÁ LI. Não só porque foi escrito por Milton Hatoum (adoro, vocês sabem); não só porque, ocasionalmente, sublinha perfil de um mau leitor de Guimarães que não consegue identificar Grande Sertão: Veredas como uma obra prima; nem porque cita meu rosiano favorito Willi Bolle, minha banca e interlocutor para assuntos rosianos na vida, mas porque o faz associando todos esses pontos a uma leitura desse inferno negacionista e bolsonarista que estamos vivendo. Vale muito ler

 

(Publicado originalmente neste link no Caderno 2, Estadão, 8/01/2021)

“Durante o clima insuportável que precedeu as eleições de 2018, meu amigo desdenhou da minha apreensão.

Esse amigo era um liberal entusiasmado com o Estado mínimo. Certo, mas a implantação autoritária desse Estado-formiga pode resultar em estado de sítio e guerra fratricida. Ia dizer a ele que o Estado-elefante é nocivo, e que o tamanho do Estado deve adequar-se à construção da plena cidadania numa sociedade verdadeiramente democrática. Mas não falei nada: sabia que a ingenuidade dele ia de par com a aversão a qualquer política pública de inclusão social.

Mas era ingenuidade ou ideologia extremista? Ele falava em mérito, em esforço individual, e citava cinco ou sete homens e mulheres que, vindos do deserto da vida, tinham construído uma floresta de fortunas. Esses poucos exemplos o confortavam; 80 milhões de pobres e miseráveis não o inquietavam. E ele mesmo não era exemplo de nada. Levava uma vida de Brás Cubas do século 21: um parasita esnobe e herdeiro improdutivo. Usava sua erudição com uma soberba que, talvez à revelia dele, rebaixava os outros. Gostava de recitar “par cœur” e em francês passagens dos “Ensaios” de Montaigne. Admito que nem mesmo sua pronúncia pedante – promessa do mais ridículo – matava a beleza dos “Ensaios”. Mas às vezes ele era possuído por uma ignorância desavergonhada. Certa vez disse, sem hesitar, que não havia personagens complexas no “Grande sertão: veredas”.

Não quis confrontá-lo. Melhor divertir-se com equívocos aberrantes. E, convenhamos, não se rompe uma amizade por causa de um livro, nem mesmo de uma obra-prima.

Usei os verbos no imperfeito porque só agora meu amigo mudou. O péssimo, o desastrado leitor de Guimarães Rosa está angustiado com a perda de um parente, vitimado pela Covid-19. E arrependeu-se de ter votado num sujeito despreparado, mentiroso e manipulador até o vil populismo, atributos comuns de não poucos políticos. Em todo caso, não há lugar no palácio para os escrupulosos demais. Mas só agora ele assentiu que o palácio foi ocupado por um homem de caráter infame, e que durante o trágico 2020, esse presidente, seus filhos – e bajuladores fardados e à paisana – não pararam de bradar “Vida longa à morte!”.

Não sei se o meu amigo é um caso clínico. De algum modo, todos nós somos. Mas dois anos longuíssimos não é muito tempo para perceber que o ex-militar e ex-deputado federal pratica a mesma vilania há três décadas? Quando esse sujeito fala, anuncia uma mentira criminosa; quando fica em silêncio, pressente-se um malefício.

Minha aversão a polêmicas é tão profunda que ignorei as palavras do meu amigo, mescla de confissão e desabafo. Por que um homem de 58 anos, diplomado por uma famosa universidade estrangeira, não adquirira um naco de discernimento político? Às vezes um diploma é apenas o belo papel timbrado da vaidade.

Ouvi por telefone as palavras do enlutado, que só agora despertou para a infâmia. E despertou com uma severa autocrítica, que me surpreendeu: “Eu não era um verdadeiro liberal, e este governo não tem nada de liberal”.

Não usou essas palavras, e sim uma explosão de injúrias, que escutei com deleite. Depois lhe disse que a autocrítica era uma virtude, e até mencionei, com ironia, nosso amado Montaigne: “Também nos corrigimos tolamente com frequência, assim como corrigimos os outros”.

Desliguei o telefone, abri o livro “Romance de formação” e terminei de ler um ótimo ensaio de Willi Bolle sobre “Berlin Alexanderplatz”. O professor Bolle cita trechos do discurso “Sobre a burrice”, proferido em Viena por Robert Musil, em março de 1937. Um desses trechos é:

“O homem público atuante, desde que está com o poder, diz […] que foi escolhido por Deus e destinado a atuar na História. Isso se mostra sobretudo quando certa camada inferior da classe média – em termos intelectuais e morais – se manifesta protegida por um partido, uma nação ou uma seita e se sente autorizada a dizer ‘nós’ em vez de ‘eu’”.

Era uma alusão ao partido de Hitler, que, em março de 1938, anexou a Áustria ao Reich alemão. Claro, não se deve comparar o nazismo com a destruição que está em curso no Brasil. Mas essas e outras frases de Musil, ditas numa época tenebrosa, talvez nos ajudem a refletir sobre o tempo presente:

“A burrice ocasional de um indivíduo pode facilmente se transformar numa burrice constitucional de todos […] Os exemplos para essa situação saltam aos olhos”.

E como saltam, meu amigo!”

* * *

Milton Hatoum é autor dos romances Dois irmãos, Cinzas do Norte e A noite da espera, entre outros.

 

sexta-feira, 1 de janeiro de 2021

METAS 2021

 


 

2020 acabou e  só isso já é motivo para tentar escrever metas para esse período pós 2020. Como já é tradição neste blog, as metas do ano são traçadas nos primeiros dias do ano. Como resumiu Sakamoto no final de dezembro:


 
  Verdade, né? Mas em  um ano regido por  Oxum como 2021, tenho fé que teremos mais gentileza e doçura, por isso isso não vou tomar isso como meta.  Sobre as metas mesmo, vamos considerar apenas 5 desta vez:

 1 - CONTINUAR VIVA: Essa é a meta de todos os anos, mas no meio de um pandemia que está conosco há cerca de um ano,  ela é A GRANDE META DE TODOS. No meu caso, é preciso recuperar dia a dia a  alegria de viver, porque, eventualmente, surge o questionamento, sem resposta, sobre  de qual a importância de continuar viva. Mas depois de sobreviver a 2020, espero que me questione bem menos que isso.

2 - ACHAR UM MOZÃO : Meta que aparece todos os anos, nunca é cumprida, então  estou mesmo quase achando que não é para mim esse presente. Mas exatamente por isso que já penso que estou na vida para procurar isso, mas sinto que estou um tanto longe de alcançar. Como começamos o ano em quarentena, não dá muito para pensar em metas, mas talvez manter as esperanças de que isso melhore, pois é uma das poucas coisas que eu ainda posso fazer e vou. Vai saber se Oxum muda tudo e me manda um mozão , porque eu também mereço, né?

 3- TRABALHAR MAIS: Faz tempo que tem essa meta nos anos, mas em 2020, quando  tantos perderam emprego, empresas faliram e muita coisa, não posso nem falar muito. De qualquer  forma vou falar como estou: desde 2017 terminei o pós-doc  e não achei lugar no mundo profissional, fui cuidar da saúde da minha mãe, ia ser coisa rápida, mas ainda está se estendendo até agora (ela não consegue concluir o tratamento porque não podemos frequentar o hospital por causa da pandemia). Mas o importante é que ela está bem, que bom! Só que depois de tanto tempo me anulando, passei a sentir tão fortemente  que meu tempo profissional estava passando, até passou, foi tenso e então entramos em quarentena,  e tudo estava sendo cancelado, adiado, tudo ia mal. Só que eu fui surpreendida para o bem: fui lembrada como não era fazia tempo e tive oportunidades! Que isso continue acontecendo e melhore. Que 2021 seja um ano de trabalho e o começo da minha tão sonhada autonomia.

4- TREINAR O MÁXIMO POSSÍVEL: Espero que eu consiga me vacinar o quanto antes e volte a poder frequentar a academia, pois depois de um ano  sem, estou fraca e gorda! Eu mantenho as caminhadas e  essa é minha única saída atualmente,  é o melhor momento do dia (o que eu saio de casa e me exponho ao sol), mas  elas já não estão segurando o tranco, não aguentam por tanto tempo. Mas a vacina vai me ajudar a voltar aos poucos como eu estava em 2019. Oxalá, pois continuo querendo cuidar de mim, porque eu mereço, até mesmo para manter a EM bem quietinha na gaveta do criado mudo, como se manteve durante todo  2020.

5- BUSCAR OS SENTIDOS DA VIDA : Essa meta era um plus ano passado, mas em 2020 ela virou uma das coisas que eu mais fiz pois, com a quarentena de 2020,  uma  luz muito  intensa sobre tudo mostrou coisas que eu mantinha ocultas para manter minha sobrevivência emocional, podia achar que essa meta estava concluída para a vida, mas não está.  Meu caminho em direção a ancestralidade continua  aberto e  meta é continuar a trilha-lo em 2021 .  

Venha 2021,  e espero (acredito ) que será melhor que 2020, vamos ver como será!


terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Balanço das metas 2020

 


Eu sei que 2020 não foi um ano completo em muitos aspectos, mas por que não manter a tradição e fazer um balanço das metas propostas em2019? Havia as  metas de sempre e mais uma plus:

1 - CONTINUAR VIVA:  META CUMPRIDA E com muita satisfação, só agradeço a Deus a aos orixás por eu, minha mãe, meus familiares, amigos e conhecidos termos sobrevivido a esse ano em meio a uma PANDEMIA, não é mesmo?

2 - ACHAR UM MOZÃO : META NÃO CUMPRIDA Por motivos óbvios, nem deu para sair de casa, né gente?

3- ENCONTRAR TRAMPO : META CUMPRIDA  No meio da pandemia, não é que eu fui lembrada, escrevi, trabalhei, estudei, publiquei, dei palestras e eventos? Foi mais que um recado de Deus e dos Orixás: Você está viva, o que é seu virá até você. Muita gratidão!

4- ACELERAR O CRESCIMENTO DOS CABELOS : META CUMPRIDA  , depois de tanto sofrimento,  o luto pela minha grande amiga foi cumprido e acho que  os cabelos começaram a voltar ao que eu identifico como meus. Ainda não estão grandes como gosto , mas ultrapassaram os ombros e perderam o corte curto e agora só o tempo vai ajudar.Como tive que parar de ir a academia, dei uma boa engordada na quarentena, mas os cabelos pelo menos voltaram a ficar melhores .

5- TREINAR BASTANTE : META PARCIALMENTE CUMPRIDA Não foi cumprida plenamente,mas a culpa não foi minha, é que eu tive que parar de treinar em março por causa da pandemia e ainda não obtive autorização dos médicos para voltar a treinar em ambiente fechado. Mas considero parcialmente cumprida porque, desde julho, tenho feito caminhadas diárias no entorno do parque aqui perto, para tomar sol, ver gente e me sentir viva!

6- BUSCAR OS SENTIDOS DA VIDA : META PARCIALMENTE CUMPRIDA Sendo forçada a permanecer em casa com minha mãe por dez longos meses, deu para ter todo tipo de reflexão e questionamento. Mas a minha ligação com a ancestralidade  se manteve viva e forte sempre. Nunca senti tanta fé. Obrigada, obrigada, obrigada.

Como sempre o balanço das metas mostram que a vida até que foi boa!Que em 2021 eu possa repetir essa fala com tanta ou mais fé!

 

 Venha 2021, espero estar preparada para enfrentar os cactos da vida que podem ser espinhosos, mas sobretudo são belos!

domingo, 27 de dezembro de 2020

Retrospectiva do blog 2020: O ano dos Cinemas africanos


Não é porque em 2020 tivemos o ano mais atípico dos últimos tempos que as coisas deixaram de acontecer. Não do jeito que estávamos acostumados, mas aconteceram e a  tradicional retrospectiva do blog Pequenidades  vai nos fazer relembrar disso . Vamos lá:

JANEIRO - Comecei vendo uma reportagem sobre sítio arqueológico na Serra da Canastra, no Piauí, me apaixonei pela pintura rupreste de cerca de 12 mil anos chamada “cena do beijo”.

Cena do Beijo na Serra da Canastra, PI

Mal sabia eu o quanto sentiria falta de beijos neste ano. Me indignei com a censura ao especial de fim de ano Porta dos Fundos. Me emocionei  ao observar a citação do livro Clara dos Anjos, de Lima Barreto, na novela das Globo. Curti o samba no Maria Zélia e na Casa das Caldeiras, ainda bem que consegui aproveitar bem no comecinho. Mas o mais significativo do mês foi mesmo ter visto o emocionante filme A Vida Invisível no cinema, sobre o qual comento aqui.

FEVEREIRO – Mês do carnaval, claro. Estava tudo tranquilo demais esse ano, sabia que podia ir todos os dias que eu quisesse, e fui. Foi maravilhoso curtir o pré carnaval do Bloco Lua Vai na Casa das Caldeiras, melhor rolê do ano pela terceira vez seguida.  Depois fui no pré carnaval mesmo, com o maior bloco de rua de São Paulo, o Acadêmicos do Baixo Augusta, curti a Elza Soares #Elza90, a diva do ano com seu painel na Consolação,  e dessa vez fui até o final, com Nação Zumbi e tudo mais.

Painel #Elza90

 Depois era o carnaval mesmo, nos quais investi nas makes neon e no glitter acumulado e brilhei muito nos meus blocos habituais do carnaval de rua de São Paulo - Tarado Ni Você e Explode Coração , que curti com o Vitor; e Lua Vai e Pagu, que curti com a Patricia – que garantiram a diversão do ano. Até no Jornal Nacional eu apareci por alguns minutos, afinal sou mesmo a musa do carnaval. Ainda bem que curti como se não houvesse amanhã. Na verdade não houve.

 MARÇO – A partir desse mês entrei em quarentena e as postagens foram diminuindo, mas no primeira semana ainda consegui ir ao pós-carnaval e foi com muito especial acompanhar o desfile do bloco O famoso Abacaxi de Irará, passando em frente da casa do Tom Zé. Quanto amor!

Pronta pro bloco do Tom Zé

Depois, no dia 8, ainda curti o Samba do Sol dia da Mulher no Mural Casa de Cultura e foi a última vez que eu sai no ano. Começava o período de cárcere e muito medo.Que lástima. 

ABRIL- Clima continuava muito ruim, só ouviamos falar de morte e de doença. Orações a todos os santos, especialmente Omulu. Eu tinha muito medo de adoecer e de deprimir. Tinha muita saudade de um samba e minha mãe criticava mas eu respondi que eu podia ter sim, porque quem é do samba sabe que muito além da alegria,que “a tristeza é senhora, desde que o samba é samba é assim”. Tivemos duas mortes de famosos que senti muito, a do músico Moraes Moreira (aquela cuja carne era carnaval e o coração era igual) e o meu autor da adolescência, Rubem Fonseca. Escrevi um capítulo de livro sobre as anedotas de Pedro Bloch e ele deve ser publicado em 2021. Pensei sobre a arquitetura do sorriso com as máscaras e muito sobre a empatia, tão necessária em nosso tempo. Fui estudar um pouco sobre a pandemia, as pesquisas, fiquei fã da BBC, ouvi muitas vozes de especialistas, especialmente a do Átila Iamarino, que me pareceu sempre muito tenebrosa, ainda gosto de ouvi-lo, mas com moderação. 
Adeus a Rubem Fonseca

Comprei um livro sobre o  filósofo Peter Sloterdijk,  que trata nas dinâmicas da história natural, achei fascinante, mas também muito cascudo para ler sozinha em quarentena. Ai eu comecei a reler Dona Flor e seus dois maridos, Jorge Amado é sempre uma delicia.

MAIO- Estava ficando sem ar, sem sair de casa, querendo arrancar os cabelos. Foi o mês que menos escrevi no blog, nos primeiros quinze dias minhas forças estavam se esvaindo, via toda a vida que conhecia se acabar, tudo adiado ou cancelado. 

Cinemas africanos EM CASA

Ai eu descobri, atrasada, que o Cine África estava disponibilizando de graça no Youtube uma seleção de filmes africanos, cada um com uma live com especialistas e realizadores, foi um grande presente que encheu muito minha vida. Mas foi o mês que eu postei menos coisas. O mais pesado do ano? Só comentei a mostra em junho.

JUNHO-

Belo filme malinês

Nesse mês os filmes africanos começaram a pipocar no blog, primeiro o angolano  Sambizanga (1976), de Sarah Maldodor; depois o senegalês Mossane (1996) da Safi Faye; o primeiro de Ousmane Sembene que assisti Mooladé (2004) e os dois  lançamentos de 2020, de Cabo Verde o Kmedêus, de Nuno Miranda e o angolano Ar Condiconado, de Fradique. Para seguirmos a programação normal da mostra com o sul africano Inxeba (2017), de John Tregove e um dos meus meus filmes africanos favoritos, o espetacular Yellen (1987). Mas falei muito de literarura  também pois comecei e terminei a leitura do primeiro volume da trilogia O Lugar mais sombrio de Milton Hatoum com o volume A noite da espera, com o qual briguei muito e talvez por ter mexido nas minhas estruturas de leitora, chegou a ganhar o prêmio de livro do ano 2020 (depois teve que dividir com Torto Arado, que foi o que eu realmente mais gostei no ano) , não porque tenha sido o que eu mais gostei, mas foi o que mais mexeu comigo.  

JULHO – Seguimos com posts sobre os filmes africanos com o senegalês Félicité (2017) de Alain Gomis, outro de Sembene, o Ceddo (1977) e o mauritano Heremakono (2002). 

Livro onde publiquei capítulo

Afora isso, foi publicado um livro no qual eu escrevi um capítulo sobre o romance Memorial do Convento , de José Saramago e que depois publiquei na íntegra aqui. E no final publiquei aqui um belo resumo, em imagens, dessa primeira temporada da mostra de Cinemas africanos 2020, que salvou tanto minha vida nessa quarentena.

AGOSTO – Não tinha mais mostra de cinemas africanos, mas relembrei três canções inesquecíveis da primeira temporada aqui. Depois ainda tive a chance de assistir ao belo filme Wax Print: um tecido, 4 continentes e 200 anos de História para refletir sobre como o estudo da história material (a de um tecido, a de estampas) pode nos ajudar a refletir sobre mitos de origem que sustentam a identidade africana da comunidade em diáspora e que, muitas vezes, retratam muito mais o próprio processo histórico da colonização africana do que, propriamente,  uma prática tradicional de lá.  Outros assuntos me interessaram,  eu achei uma modelo muito parecida comigo no clipe do Toninho Geraes, foi difertido.  

Eu como a modelo


 
Continuei lendo Hatoum, desta vez o Pontos de fuga e até tive uma conversa boa com ele pelas redes sociais. Me interessei por alguns temas como o da menina estuprada que foi impedida de abordar em seu Estado, um absurdo que comentei aqui e estudei muito, ampliando minha biblioteca de  Korczak, um autor de meu total interesse. 

SETEMBRO  Comecei um curso sobre cinemas africanos que foi maravilhoso e tivemos a segunda temporada da mostra, agora pelo Cinecesc com os filmes de Burkina Faso Fronteiras (2017) de Apolline  Traoré; o camaronês  O enredo de Aristóteles (1996) de Jean-Pierre Bekolo e a deliciosa comédia sudanesa Akasha (2018).

Na Primeira Live

Fui convidada para uma entrevista numa live com o músico e amigo Fernando Costa no Instagram. Meu artigo foi citado e eu tentei um resgate da minha dissertação de mestrado, o que foi ótimo. 

OUTUBRO – Na mostra de cinemas africanos assisti ao queniano Lua nova (2018); ao maravilhoso sulafricano O fantasma e a casa da verdade (2019), dirigido pelo nigeriano Akin Omotoso (o vencedor do preto de ano de 2020); o denso filme egípcio Rosas venenosas (2018), dirigido por Ahmed Fawzi Saleh  e o senegalês  Madame Brouette, de Moussa Sene Absa; Afora a mostra, assistia ao senegalês  E não havia mais neve, de Ababacar Samb-Makharram  e o brasileiro  Café com canela (2018) dirigido por Glenda Nicácio e  Ary Rosa que estão disponíveis no Youtube.


Ana Camila Esteves entrevista o diretor Akin Omotoso, meu crush de 2020


  Voltei a ler Hatoum, os contos de A cidade ilhada, só não sabia que só ia terminar mais de um mês depois, pois estava ocupada preparando as aulas do minicurso Estória contra a História, que ministrei online na Semana de História da Unesp de Assis.

NOVEMBRO – Pela Mostra de cinemas africanos assisti a uma seleção de curtas nigeriamos chamada Beyond Nollywood (2020), com curadoria da inglesa  Nádia Denton ; o suiço Nada de errado (2019), direção Aladin Dampha, Ebuka Anokwa, Lionel Rupp; os curta metragens  Nora Azul Branco e vermelho do meu cabelo; o etíope Preço do amor(2015), direção da bela  Hermon Hailay ; e a seleção Quartiers Lointains 6 – Afrofuturismo (2020) curadoria Claire Diao.

Na live da Consciência Negra

Fui convidada para um sarau literário, no qual li um parágrafo de Clara dos Anjos, de Lima Barreto e também para uma live entrevista no dia da Consciência Negra, com Fernando Costa.

DEZEMBRO – Terminando a mostra de cinemas africanos, assisti ao queniano  Supa Modo (2018), direção Likarion Wainaina  ; ao  sul africano Vaya e ao nigeriano Kasala (2018), direção Ema Edosio. Ministrei a palestra Mergulhando nos cinemas africanos na quarentena num evento da Revista Círculo de giz.

Capa da Revista Faces da História

Foi ao ar o Dossiê História Cultural do Humor na Revista Faces da História, organizado por mim e pelo João Paulo Capeletti e foi muito bom comemorar  o fim dos trabalhos. Nos últimos dias do ano eu terminei de ler o excepcional romance Torto Arado, de Itamar Vieira Junior, mas ainda não tive tempo de escrever sobre ele, quando fizer isso insiro o link aqui. 

Como vimos, engana-se quem acha que em 2020 não aconteceu nada, não é?  Gratíssima por tudo!

Eu no Natal 2020

 

sábado, 26 de dezembro de 2020

Relendo Lavoura Arcaica 22 anos depois

 

Tinha lido para o vestibular em 1998, achei bonito, mas difícil, não me apaixonei. 
Quando terminei Torto Arado (que tiro foi esse?), fiz algo que costumo fazer e não né arrependi: vou ler o livro citado na epigrafe

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No caso não sei se é o Lavoura, mas esse  é o único do Raduan que tenho aqui, fui reler. Estou na metade e escrevi sobre a releitura:
LAVOURA ARCAICA - É um livro bem curto, mas substancioso. Raduan é verboragico, perfeito pra escrever romance que flerta com o fluxo de consciência, tem aquele gosto pelas palavras e parece se angustiar quando vai percebendo  que elas não dão conta de expressar a experiência, não importa quantas forem . Acho que consigo  entender parte do encantamento causado pela obra na década de 70, mesmo que outros já tivessem pelejado pra tentar se expressar antes. Não achavam as palavras certas (Clarice e Guimarães por exemplo), mas buscavam... Raduan parece diferente, apostou que talvez se utilizando todas as palavras possíveis, condensadas num texto curto, conseguisse algum bom resultado. Acho louvável a tentativa. Não é um livro que pegaria para reler (nunca peguei), mas Itamar atiçou minha curiosidade.
Um adendo, na iniciativa de reler o romance de Nassar, agora em busca de referências ao texto de Itamar, fui me desesperando porque  lia o texto em detalhes, mas não achava o pequeno trecho da epigrafe. Qual não foi minha surpresa quando descobri, já ao final da leitura, que ela é exatamente um capítulo do romance : 


Não posso esquecer que nesse livro ele também está tratando de uma lavoura (arcaica) de palavras, tem toda uma reação com o tempo que tanto aparece em "Torto Arado", acho lindo.
Isso, a meu ver, é realmente inovador e foi por isso que quis reler a obra. Estou na metade e em breve termino o passeio por essa obra que sinto ser  masculina demais pra nossa sensibilidade do século XXI.