quarta-feira, 12 de agosto de 2020

Três canções inesquecíveis da Mostra de Cinemas Africanos 2020 parte I




Depois de comentar filme a filme e fazer até um resumo final, até achei que já tivesse esgotado o assunto da fundamental mostra de cinema que tornou tolerável minha quarentena neste primeiro semestre, porém três canções que ouvi nos filmes não saem mais da minha cabeça.  Gravei as três em MP3 e, de vez em quando, volto a ouvir e me emociono.  Das três, duas são adaptações de poemas e uma foi feita especialmente para o filme. Pena que não sei disponibilizar arquivo MP3 aqui no blog, mas vou comentar pelo menos a letra de cada uma.

Pela ordem em que  apareceram na Mostra, a primeira é “Caminho do Mato”, inspirada no poema de  Agostinho Neto, e apareceu na mostra no filme algolano  Sambizanga (1972), de Sarah Maldoror. 

Segundo a pesquisadora  de cinema angolano Renata Dariva (PUCRS), que participou da mostra, essa música aparece em vários filmes de Angola, como se fosse uma canção nacional. A letra é bem significativa: o caminho do mato é o caminho da nossa vida, da vida do africano, da vida do angolano :

 

Caminho do mato
caminho da gente
gente cansada
Óóó - oh!
Caminho do mato
soba grande
caminho do soba
Óóó - oh!
Caminho do mato
caminho de Lemba
Lemba famosa
Óóó - oh!
Caminho do mato
caminho do amor
do amor de Lemba
Óóó - oh!
Caminho do mato
caminho das flores

flores do amor.

Por nossa sorte, ela é trilha sonora de uma das mais belas cenas do filme está disponível no Youtube e podemos ouvi-la aqui


*

A segunda canção também está em um filme angolano, o “Ar-condicionado” (2020), de Fradique. A canção, originalmente composta para o filme é interpretada por Aline Frazão e se chama Matacedo  , toca na cena em que o personagem Matacedo, um ex soldado lesado de guerra, que entra na máquina de extrair memória em carro , fecha os olhos e vamos vendo o carro passear por uma Luanda bonita, de dia, de noite, na chuva, com prédios novos com a canção, cantada por Aline Frazão, de forma muito sincopada, assim como o filme, a música dá um passo e volta dois, como é o ritmo da memória de Matacedo, mas também uma fala sobre  Angola:


Quando eu fecho os olhos imagino um país novo

quando eu fecho os olhos eu me lembro de novo

para não me dissolver no cassino da lembrança aperto passo na dança, obstinada dos dias

tudo era bem melhor no tempo em que ainda me vias

tempo tempo tempo, tempo, tempo

de  noite adormece o meu corpo antigo

enferrujado e doído, como um sobrado em ruínas

Sonho para não esquecer e esqueço ao amanhecer



Consegui o link para se ouvir a canção, espero que não o tirem do ar, porque não paro de ouvir essa.

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A última canção aparece no filme "Heremakono - À Espera da Felicidade " (2002), de  Abderrahmane Sissako, que é um filme sobre o sentimento de estrangeiridade em sua própria terra de origem . A canção "Amor à terra natal", que é cantada pelo menino Khatra, é também um  poema de Paul Niger de 1962:


Passarinho que canta

seu amor pela terra natal

vou escolher o que  vai comer

e trazer para você 

Interessante é que o menino é proibido de cantar esta canção, mas canta mesmo assim e é tão lindo que,  mesmo sendo em árabe, eu canto junto em português, como se fosse uma canção originária, que dispensa o significado das palavras.


Poemas, canções, e filmes são as vozes da África, para quem deseja ouvi-la.

 


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