terça-feira, 31 de agosto de 2021

“Mar morto” (1936), de Jorge Amado: Um dos livros mais bonitos que já li na vida

Agosto, eu de #leianordeste:
 um clássico e um contemporâneo 

Naquela vibe de #leianordeste, em agosto escolhi o Stênio Gardel e um do Jorge Amado que não tinha lido, achei que ia terminar rapidinho o contemporâneo, que é bem curtinho, mas como é muito denso, carregado de poesia, levei mais tempo para terminar e escrever sobre aqui, e o do Jorge Amado ficaria para setembro. Uma pena, afinal setembro é o mês de aniversário de Amado, mas não é que deu para ler toda essa poesia em um só mês? Pois então!

Mar Morto JA
Vocês sabem que "Mar morto" e um clássico, a sinopse é bem conhecida, fala das histórias que o povo do cais da Bahia, especialmente os "marítimos"   contam, centrado na de Guma e Lívia e a relação forte deles com o mar, a morte e Iemanjá. 

Já vou adiantando que se trata de um dos livros mais bonitos que já li em toda a minha vida, é lírico, mítico, cheio de amor, cheio de dignidade e de orixás. Imagino como o Brasil dos anos 1930 recebeu essa obra. Soube que antes desse lançamento, Jorge Amado tinha estado preso por ser comunista, mas o resultado foi um dos seus livros mais poéticos e menos políticos de todos os  que li dele, embora tenhamos denuncias sociais, claro, mas o foco é outro e é lindo

Queria transcrever muitos trechos maravilhosos, mas tenho pena de vocês e   RECOMENDO VIVAMENTE QUE LEIA! Mas aqui trago alguns trechos e registros que fui fazendo durante minha rápida leitura! 

Quando comecei, estranhei a capa  dura, mas me apaixonei de imediato:


Foi muito gostoso ler o maravilhoso texto de Amado e ir ouvindo as belíssimas canções praieiras (1954), em especial esta canção, que foi inspirada no livro :



As histórias praianas são sempre trágicas, assim como são as cantigas :

"as canções dos marítimos, por mais diversas que sejam a sua língua e a sua música, falam sempre em amor e em morte no mar. Por isso todos os marítimos as compreendem, mesmo quando são cantadas por um árabe das montanhas que as ouviu num pôrto sujo da Ásia."(p.219)

A história de amor do livro, a de Guma, o pescador, e Lívia, a mulher que Janaína lhe deu de presente e, como bem da terra, como diz a canção do Caymmi, ficava na "beira da praia quando a gente sai aquela que chora, mas faz que não chora quando a gente sai" 

Logo percebi a importância da dinâmica da mitologia marítima, a devoção a dos cinco nomes Inaê, Dona Maria, Janaína e Iemanjá, a dona do mar , que 

"veio da África para a Bahia ver as águas do rio Paraguaçu. E ficou morando no cais, perto do Duque, numa linda pedra que é sagrada. Lá ela penteia os cabelos (vêm mucamas lindas com pentes de prata e marfim). ela ouve as preces das mulheres marítimas, desencadeia as tempestades, escolhe os homens que há de levar para o passeio infindável do fundo do mar" (p.81)  

  Ilustração Oswaldo Goeldi

 
Esse belo  trecho resume a problemática do romance :


Foi uma leitura fulminante, como sempre me empolguei, como registrei no livro : me apaixonei muito por todo aquele lirismo:


 E quando vi, estava chegando ao final : 


Que livro! 









sexta-feira, 27 de agosto de 2021

"A palavra que resta" (2021), de Stênio Gardel e a "carta que guardava uma vida inteira"

 

O romance de estreia de Stênio Gardel, “A palavra que resta” (2021) me surpreendeu muito para o bem.

Indicação da querida autora Socorro Acioli, cujo livro havia me interessado muito, pois é bastante divertido como comento aqui.  Ela encontrou Stênio numa oficina literária que ministrou e o ajudou a despontar. Embora eu tenha gostado de ambos autores, que abordam em seu livros a questão do ouvir e escrever, tenho que confessar que do livro de Stênio gostei mais, porque o romance da Socorro parece uma obra infanto juvenil (conclui quando li, só depois soube que ela é autora infantil premiada!) e isso não é nada ruim, já o Stênio é mais poético e em seu breve livro, tive que pregar post its em quase todas as páginas, destacando belos trechos. Vou comentar um pouco aqui, mostrando a premissa e esboçando uma leitura do livro a partir de alguns pontos principais que, encantadoramente, se entrelaçam na trama, mas lembrando que estas são as mais evidentes e que chamaram a minha atenção, pois o livrinho levanta outras discussões. A premissa:


Antes de falar da HOMOFOBIA, preciso falar do amor entre Raimundo e Cícero, que é lindamente retratado no romance em trechos retirados da memória de Raimundo, como este :

“Um em frente ao outro. O rio correndo por eles. O mundo, lá,a rodar em torno deles. Raimundo girou o corpo e se encaixou no peito de Cícero, que o amarrou com os braços de pouca carne. O queixo largo, de barba mal formada, se aninhou nos ombros de Raimundo. Olhares pareados buscavam a nascente. Eles arquearam as costas, dobravam as pernas em direção ao torso e mergulhavam nas águas antigas do mundo, no líquido embrionário do homem."(p.25/6)

Eu vi algumas entrevistas de lançamento do livro e sei que Rosa não faz parte das primeiras referências de Stênio, mas para mim, como leitora, não deu para conhecer esse amor homossexual sertanejo e não me lembrar do Grande Sertão. Não apenas por ter que ser escondido, por aparecer representado no romance via linguagem em trechos assim:

“... E essa mania de desafundar memória velha? e uma vai puxando a outra, só atraso isso, de ficar lembrando, acaba se esquecendo do mundo, olha aí,vou me atrasar, tem jeito não, tem não, que tem lembrança que parece noda de caju, fica na gente nem que você não queira, ENUBLOU minha cabeça..." (p.24)

Stênio que me desculpe, mas é que com esse "enublou" (palavra linda, sonora! Em seu som tem nuvem? tem blues? tem neblina? Só deu pra lembrar de Riobaldo: "Diadorim era a minha neblina”. E outros pontos comuns também: por exemplo, só Riobaldo chamava Reinaldo de Diadorim, como só Cícero chamava Raimundo por seu nome do meio, Gaudêncio, nome “denso de saudade, as cinco vogais e acentuado” (p.11), era o seu nome para o amor perdido. Tem também a história do pacto com o demo, para trocar de corpo, que seu Baraúna contou ao Raimundo e Cícero lá na juventude e era muito “BOM DE OUVIR”(Ele usa essa expressão que eu ADORO!Grifo meu, p. 115), cheia de marcas orais “uma chance dessa na vida, de falar com o demo assim cara a cara, a gente não desperdiça, (sem ela) que história eu ia contar pra vocês?(grifo meu, p. 117) e a dúvida de Cícero era se não podia trocar, não o corpo, mas o que tinha por dentro, marcando o amor que sentiam  como algo da ordem do maligno.

Em uma comunidade rural, tradicional, mais ou menos por volta da década de 1950, um amor assim, mesmo adolescente, teria dificuldade em ser aceito e Raimundo sentiu isso nas costas feridas pela surra do pai, mas o que doía mais era o silêncio da mãe, que transformaram Raimundo em Imundo, pois ele mesmo chegava a achar, às vezes, que o desejo por outro homem o sujava e ele teve que abandonar a casa e viver nas estradas, como chapa de caminhoneiros, fazendo serviço braçal, de macho, sempre escondendo sua sexualidade e usando cines pornôs para se aliviar. Foi no cine que ele conheceu a travesti Suzzaný, que ele ,de início, obedecendo a cultura em que foi educado, também rejeitou , agrediu, chamou de aberração, até que na cena da farmácia (126-8), uma das que mais me emocionou, Raimundo é obrigado a se colocar no lugar dela e perceber o quanto ele próprio tinha sido implacável e preconceituoso.

 Outro ponto de meu total interesse, como leitora e pesquisadora, é a questão da  alfabetização e não alfabetização, que é tão ricamente abordada no romance. A questão do Cícero ter escrito uma carta a Raimundo, que nunca aprendeu a escrever, mas sempre prometia que ia ensiná-lo as letras, o mantinha preso à situação de, em um mundo todo escrito, “não saber (ler) é quase ser cego podendo enxergar” (grifo meu, p. 19), até que, já idoso, decidiu estudar, porque de menino não teve oportunidade, então as

“mãos que talvez merecessem um descanso, é verdade.O tanto que fizeram. Mas por quê? Se tinham força para agarrar mais, viver mais? Então que fosse! E se adaptaram que foi uma beleza à nova tarefa. Era o possível mais certo, o encontro mais interessante, esse, a mão, o lápis e a folha de papel.”(grifo meu p. 30)

E depois, em outro momento poético, decidiu trocar o documento, pois já sabia assinar,

“não tinha motivo para ficar com documento só com a marca do dedo e ainda um carimbo vermelho, analfabeto. Tinha que trocar, que ele era outro. Saber ler e escrever estava fazendo isso mesmo. Raimundo Gaudêncio de Freitas no papel. Alfabetizado. Palavra das grandes, tem “a” e “z”, a primeira e a última. Alfabetizado sabe do “a” ao z”. mas escrever nome é mais que saber as letras. Tinha que juntar uma na outra e se juntar a elas. Só assim faziam do nome completo mais que letras, todo ele, de “a” a “z”. ´(grifo meu, p.27)

Que linda essa parte! Eu, que no curso de licenciatura, fiz um estágio no curso de alfabetização dos funcionários terceirizados da USP (sim, muitos dos trabalhadores da maior universidade da América Latina eram analfabetos e se não fosse uma iniciativa discente, assim continuariam), sei mais ou menos o quando letramento significa, sim, DIGNIDADE!

Mas o caso do Raimundo, que decide estudar para ler, ele mesmo, a carta que, violentamente, Cícero havia escrito para ele, não estava resolvido, pois ele sabia ler, escrever, mas será que o suficiente para ler aquela carta que “se arrasta, está aqui, se duvidar mais inteira do que eu”(p.88), e não se resolve com a alfabetização, porque a carta foi escrita para ser ouvida, mas nunca que Raimundo dividiria essa intimidade com outros, mesmo que tivesse medo de ler e o sentido ficar todo furado.

A Isabela Lubrano, do canal Ler antes de morrer, fez uma resenha bastante azeda desse livro, defendendo que quem se interessa pela premissa nem precisa engrenar na leitura, pois o resultado final deixa a desejar. Eu, como quase sempre,discordo fortemente dela, pois temos gostos literários distintos. Na verdade, na polifonia de vozes da narrativa, a carta e seu significado pleno -que é elemento principal da vida de Raimundo e também do romance- acaba ficando um pouco “enublada” na trama, como se Stênio estivesse guardando esse segredo tão íntimo dos amantes só para eles mesmo. Mas isso não depõe contra o romance, são tantas coisas abordadas nele, como tentei mencionar algumas aqui, que acaba ficando um mero detalhe.

Enfim, que livro, meus amigos, parabéns e obrigada Stênio Gardel!

Um apêndice: Flor símbolo do amor juvenil entre Raimundo e Cícero, a papoula amarela e vermelha virou um signo que resistiu ao tempo e foi capaz de substituir a cruz à margem do rio, colocada há muitos anos devido a uma morte por homofobia. Esse livro tem sua simbologia

"Nas peles nuas, a saliva dos beijos e o suor dos abraços irrigavam, dentro deles,
raízes fortes, de agarrar as tripas e o que mais tivesse dentro. Até a alma. E as raízes
faziam das veias seiva e cresciam pelos poros como galhos trepadeiros em direção ao sol.
Quando se tocavam, se engarranchavam e viravam uma planta só, com flor que se abria
sobre o peito. Papoula amarela de cálice cor de sangue."(p.21)


PLUS: EM 28 DE AGOSTO: 

Stênio Gardel leu este post e comentou no Instagram. Eu respondi que é porque o texto dele me permite ler assim. Acho que eu achei 1.autor que é do meu tipo e ele achou uma leitora como gosta. FORMOU !

🤩 📚






 

 




sábado, 21 de agosto de 2021

A presença da ausente Flávia: uma outra perspectiva para "O ano em que vivi de literatura", de Paulo Scott?

 


Eu sei que lá joguei a pá de cal na narrativa do Graciliano, protagonista de "O  ano em que vivi de literatura", de Paulo Scott, e foi um alivio já que o personagem é um bem desagradável. 

Mas um tema ficou em aberto, nem no post final eu sequer fiz algum comentário sobre.

É que, além de inúmeros "defeitos" o detestável Graciliano tinha uma grande ferida incurável, o abandono de Flávia, sua irmã adotiva que, sem maiores explicações aos leitores, teria abandonado a família em Porto Alegre. 

As saudades de Flávia era, durante o incômodo livro todo, os momentos mais verdadeiros. Ele, a família, todos, não aprenderam a lidar com a ausência daquela parte que lhes fora arrancada. A "vida" de Graciliano após prêmio era cheia de futilidades terríveis, mas Flávia nunca esteve ausente. Ele já não escrevia nada, mas a ela ele continuava escrevendo... criou até um perfil fake dela e ela no Facebook, então  de algum modo ele a evocava  e ela, devia estar recebendo as mensagens. 

Ou seja, Flávia estava ausente, porém era a presença mais constante na vida de Graciliano e da família.

Todos sofriam, mas ninguém mais que Graciliano , que lembrava das brigas dela e do pai e de como era difícil para todos lidar com a tal rebeldia de Flávia (segundo o que o livro nos conta, sem maiores detalhes).

Certa vez, quando Graciliano conta que fez contato com uma mulher que morou com Flávia na Europa, o pai diz  a ele uma das tantas coisas desse livro que doeram fundo em mim :

"Não adianta, Tu sempre fizeste uma leitura muito errada das coisas, E ainda hoje tu entendes as coisas de forma muito diferente da minha, Teu olhar sempre foi muito diferente, Não sei, É uma dificuldade tua de encarar a realidade, Nunca admitiu ou nunca percebeu que tua irmã é uma pessoa má, Má e egoísta, exatamente como os pais biológicos dela eram, Eu e tua mãe tentamos te proteger quando tu era um guri, mas agora tu és um homem e precisa encarar a realidade, Chega de fantasia Graciliano, Pelo amor de Deus, Cresça"(p.220)

Pouco ou nada sobre Flávia, expresso por ela mesma, ficamos sabendo no livro. Mas essa fala do pai de um filho detestável, identificando uma maldade genética na filha adotiva que, visivelmente ele nunca compreendeu, é um fantasma para todos os filhos de criação. Nesses casos a genética é como a "raça": é legitima às vezes, mas não sempre... 

Sei que não faz parte do projeto literário de Scott, por isso nunca vai acontecer, mas confesso  que adoraria ler uma continuação do romance, só que desta vez a partir do ponto de vista misterioso de Flávia, a estranha, a diferente, a amaldiçoada pela herança genética e, sobretudo, nada parecida com eles. 

É foda!


   

sexta-feira, 20 de agosto de 2021

Jogando no grupo "Clássicos da Literatura"


Será que alguém adivinhou o livro? Eu não disse propriamente nenhum dos nomes do título, mas dei referências claras: travessia, ser tão intensamente, etc 


Imunização contra Covid completa: Viva o SUS !

 



Completamente imunizada. Agora só esperar 15 dias! Viva o SUS!

terça-feira, 17 de agosto de 2021

"Aulas" de música com Guilherme Arantes

 

Capa do disco Ronda Noturna 1971 

Não sei exatamente quando foi, nem de quem foi a sugestão (sim, alguém sugeriu), mas nesse semestre comecei a acompanhar o perfil do Guilherme Arantes no Facebook e foi um grande presente. Além de manjar muito, ele é generoso, compartilha suas referências fazendo sugestões ótimas, às quais muito dificilmente eu teria acesso. É sempre uma aula.

Amém de gostar dos trabalhos musicais dele, de ser uma referência à minha primeira infância no início dos anos 80, tem a visível influência de Clube da Esquina no instrumental de suas obras dos anos 70. Uma música como AMANHÃ, por exemplo, me lembra tanto "Som Imaginário", coisa muito fina.

Quarentena é horrível, mas também tem seus presentes. Amo passado foi a Mostra de Cinemas Africanos, esse veio com esse cursinho de música pelo Guilherme Arantes. Gratidão.



sábado, 14 de agosto de 2021

PÁ DE CAL: "O ano em que vivi de literatura" é um livro de muitos incômodos

 

Quando chegou eu feliz sem
saber a viagem ao inferno que seria

Foi o meu segundo livro de Paulo Scott, impossível não ter muitas expectativas depois de Marrom e Amarelo, livro muito sério, preciso e necessário, que me arrebatou e do qual tanto gostei, como comento aqui . Sobre as expectativas, comentei em 1 de agosto, que eram altas:

Eu sei que o tema do romance é o burburinho da cena literária, prêmios, grana, tudo que sobrevive um tanto além da própria Literatura. Espero um texto contemporâneo, com os típicos problemas existenciais e econômicos de escritores. Algo ágil, nada tão profundo, talvez. Mas logo no começo, um agradecimento/epígrafe destacou a palavra chave do livro SOLIDÃO.

Bom, de solidão e suas representações eu muito entendo, achei que ia tirar de letra. Ledo engano.

Contando o que aconteceu ao protagonista Graciliano, um ex professor universitário de História de Porto Alegre,  que tinha alargado tudo para ser escritor e que, no momento da trama, tinha ganho o maior (em dinheiro) prêmio literário do país, é mordido pelo mosquito da fama, se muda para o Rio de Janeiro e passa a sobreviver de sexo casual, festas, bebidas e já não escreve mais. Sim, o enredo do livro contradiz diretamente seu título, ali não há nem vida para que alguém pudesse viver, nem tampouco literatura.

Antes da metade do livro eu não sabia ao certo se estava ou não gostando, mas o desgosto veio num crescendo até o fim: Tinha muito desconforto, em sua maioria vindo do protagonista Graciliano, que é uma figura detestável. Mas como eu tenho uma necessidade irritante de sempre querer gostar dos livros que leio, preciso ao menos tentar, e nem sempre é fácil. Na verdade é um pouco irritante, pois estabeleço uma briga natural com minha formação crítica. Geralmente eu preciso de mais argumentos para não gostar do que para gostar das leituras. Quando não dá certo, como aconteceu com esse livro, que a cada página me colocava mais contrariada com a história e especialmente o protagonista, fiquei um tanto desestabilizada. Era essa a intenção, suponho. Se for mesmo, foi cumprida com sucesso, mas para quê? O que será que eu não entendi? Ou entendi tudo e é essa lástima mesmo? (tô mais achando que é isso )”, me perguntei no Facebook, como faria o faceboquiano Graciliano, de quem eu tanto desgostei.

Em nenhum momento supus que fosse um mau livro, ou não tão bem escrito. Isso nunca. Tanto que realmente mexeu comigo, que tive que escrever sobre ele sem parar (e sem publicar), durante a leitura. Será mesmo insuportável se ver um pouco no mais detestável dos personagens?

O que me incomodava? O egoísmo e machismo dele que despertou algo sombrio em mim: ódio por homens. E mais: ódio pelas mulheres que se envolvem com esse tipo de homem e são tão machistas quanto. E foi piorando porque realizava que, infelizmente, grande parte deles e delas é mesmo assim. Estamos falando do contemporâneo, né? O reflexo desse espelho foi bem feio de eu observar.

Um exemplo é de quando Graciliano vai a um evento literário em um apartamento e narra uma das cenas mais incômodas do livro (tem muitas outras, mas dessa até tive que fazer uns cortes...):

“Entrei no prédio sem querer pedir informação ao zelador da portaria, porque num momento de extrema paranoia achei que não ia ser uma boa ele gravar meu rosto, e, pouco antes disso, ter submetido uma gorduchinha muito bonita a uma situação que podia ser classificada como início de estupro. Justo ela, a gorduchinha muito bonita, a única pessoa pessoa que foi legal comigo naquela festa (...)a que , entusiasmada, me falou que valia muito a pena conhecer a biblioteca dos donos da casa e me chamou para ir com ela descobrir se na biblioteca tinha algum livro meu, e eu já não olhava pro seu rosto, só olhava pros seus peitos balançando no sutiã que o decote em v da camiseta mal escondia (...)tranquei a porta, fui na sua direção, ela ficou paralisada, peguei na sua mão fiz com que segurasse meu pau , ela segurou e em seguida largou, beijei sua boca, ela não reagiu, fiz ela virar de costas, tirei a saia e a calcinha, foi quando ela disse para eu parar, ela se voltou de frente para mim e me empurrou, mas eu segurei seus braços. Então ela perguntou Você vai me estuprar GracilianoAssim que ela disse aquilo, soltei seus braços e, sem pedir desculpas, vesti as calças e sai sem olhar para trás. (...)levando o peso do remorso, um que até aquele momento da minha vida eu nunca tinha experimentado." (p. 58-60)

Essa não foi a única iludida pela ideia de que estar em contato com um escritor sempre seria tudo de bom, poderiam falar de livros e poesia, mas descobriu que, pelo menos aquele escritor, realmente só estava pensando em exagero de sexo e álcool. Mas me identifiquei com ela, a gorduchinha, que quase pagou pelo pecado de ser simpática.

De resto o livro é meio que isso mesmo, descrições de trepadas, como se o narrador estivesse se dirigindo aos amigos de farra: essa é assim, aquela é assado, a outra faz daquele jeito. Isso foi me incomodando tanto, que na metade eu achei que já estava satisfeita. Foi dureza terminar.

Depois fui ver vídeos sobre o livro, como esse ,com o  meu caro Lucas Lazzaretti  , que é bastante elogioso e faz colocações interessantes se pensarmos em projeto literário de Scott no meio literário contemporâneo. Mas é um homem falando... ai então tive acesso a essa matéria, escrita por Mariana Filgueiras e nada mudou muito. Nela Scott fala um pouco das intenções com o livro, era para causar incômodo mesmo. E causou. Espero sobreviver a eles e, sobretudo, manter relação com escritores só a partir dos livros, é bem melhor assim.

Há ainda um ponto a ser abordado nesse livro, a presente ausência de Flavia, que comento aqui


sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Sexta Feira 13, pacto faustico e a proteção dos símbolos místicos



Ontem, sexta feira 13 de agosto de 2021, eu iria participar de mais uma edição virtual do Sarau dos 13 Contos Malditos. Ia falar do pacto faustico na literatura e preparei até um vídeo com a leitura de trecho do Grande Sertão: Veredas.



Estava tudo bem, era apenas uma citação, convocando as pessoas para ler a obra toda, ia dizer mais ou menos o seguinte, entes de mostrar o vídeo :

Nesta sexta 13 trago a este sarau o mito de Fausto, que é uma lenda alemã medieval, tratando da história de um homem que  tenta firmar um pacto com o diabo para se tornar mais forte, poderoso ou corajoso. 

Esta história foi retomada por muitas obras posteriores, tornando-se um mito literário. Duas das mais importantes obras da literatura mundial que retomam esse mito são o Fausto, peça teatral de Goethe, do fim do século XVIII e depois o romance Doutor Faustus, de Thomans Mann, de 1947.

Em 1956, Guimarães Rosa publicou sua obra prima Grande Sertão: veredas e ele, grande admirador da cultura germâninica, faz ressurgir o pacto faustico em seu sertão mítico, quando o protagonista, o jagunço Riobaldo, tenta firmar um pacto com o demo nas veredas(fios de água) mortas, que é uma grande encruzilhada de  veredas, porém,  na cena do pacto Ele, "o dado, o danado" não aparece materialmente, deixando a dúvida sobre se o pacto foi ou não firmado. Mas  Riobaldo sente que foi ouvido, e no romance, ele passa a se tornar cada vez mais poderoso e corajoso.

Trago este trecho para convidar a todos que leiam o original de Rosa, que é uma das obras mais importantes da literatura brasileira e universal.    

Ainda que literariamente, eu is falar do demo, que é energia que não se deve evocar, ainda mais numa sexta 13, então no  dia, achei por bem me proteger bastante com símbolos positivos, a leminiscata (infinito) e os pentagramas (estrelas de 5 pontas),  os mesmos que Rosa utilizava em seus cadernos para proteger seus escritos. 



E não é que deu certo? Quando chegou quase na hora de eu falar do tal mito literário, a conexão caiu e o Sarau acabou. 

 "coisas assim a gente não pega nem abarca. Cabem é no brilho da noite. Aragem do sagrado. Absolutas estrelas." Guimarães Rosa. GS:V


segunda-feira, 9 de agosto de 2021

SOBRE LITERATURA BRASILEIRA CONTEMPORÂNEA E SUA CRÍTICA

 

Stand do Brasil em uma feira de livros no séc. XXI

SOBRE LITERATURA BRASIDEIRA CONTEMPORÂNEA E SUA CRÍTICA -Na Pandemia adquiri o hábito de assistir vídeos aleatoriamente, conforme o YouTube vai me oferecendo. Como tenho me interessado por literatura contemporânea, ele me oferece alguns com esse tema, assisti uma aula do professor Marcos Ferrari sobre quais seriam as linhas mestras que podemos perceber nas obras lançadas há 20/25 anos e tratam do tempo do Agora . Para mim, que sou historiadora e leitora dessas produções, me interessou a colocação de que é muito difícil criticar essas obras, pois elas ainda estão em processo, são inacabadas. É como a história do tempo presente que, para interpretá-la, ainda é preciso criar metodologias. por enquanto Ferrari destacou 3 tendências principais : crise da linguagem e da representação , crise de identidade e recusa de sentido geral. Ouvindo-o falar, pensei que essas tendências são mais fáceis da gente visualizar porque muito desses temas já estavam nas obras de autores de meados do século XX (falo de Clarice e Guimarães), então já começaram a ser pensados há tempos e agora reaparecem pintados com novas cores. Mas existem outros fatores mais difíceis de criticar (assim como as obras, a crítica também está em processo de composição), fatores que estão lá, a gente pode ver, mas não percebe direito, porque também estamos no olho do furacão, precisamos de tempo e alguma distância para enxergar.
Com tudo isso, lembro da minha crise crítica com meu autor queridinho dessa leva, o Milton Hatoum: o meu processo de entender que ele não vai e não precisa escrever para me agradar como leitora, até porque eu também ainda o enxergo com olhos críticos antigos e o projeto literário dele reage a estímulos que ainda desconheço. Que interessante...

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A Terceira Margem do rio, por Odilon Esteves













Registro a  interpretação do ator Odilon Esteves, gravada no Grotão, município de Novo Cruzeiro, Minas Gerais, em 17 de junho de 2021, temos um emocionante exemplo do que é tal da palavra-cantiga saída do falar sertanejo.

Infelizmente eu não consegui incorporar aqui na postagem, então segue o link:

A TERCEIRA MARGEM DO RIO - João Guimarães Rosa



domingo, 1 de agosto de 2021

O sol também se levanta. Levanta mesmo?

 


O SOL TAMBÉM SE LEVANTA - Para escrever sobre "O Nariz" de Gogol no Pequenidades(em breve), fui procurar bibliografias complementares, mas não achei meu exemplar de "A menina do narizinho arrebitado", do Monteiro Lobato. Será que o tenho, ou usava só exemplares das bibliotecas? Não sei. Só sei que encontrei esse livro de Hemingway que certamente nunca li e nem sabia que tinha! Mas ficou na minha cabeça, fui até procurar resenhas no YouTube, na maioria das vezes não muito positivas, mas o tema (o desalento de uma geração que tinha saído da Primeira Guerra e procurava algum sentido pra vida na bebida e boemia numa Europa machucada pela guerra) me chamou a atenção. Estamos avançando na vacinação na cidade de São Paulo, o fim dessa fase macabra da  pandemia já é possível projetar para daqui mais ou menos um ano. E daí? Sei que do jeito que era antes não volta a ser. Tantos não sobreviveram. Os que sobreviverão terão marcas, como se tivéssemos passado por uma guerra. Me deu vontade de ler e também medo. Ter achado esse livro não deve ter sido à toa, não acham?