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terça-feira, 19 de novembro de 2024

Novembro: canela quebrada e novos óculos

 

Novembro de Camila em imagens

Novembro de 2024 é o mês de muita tempestade na cidade de São Paulo. Bem cansadinha com o fim do ano, fiquei mais em casa, ouvindo CORRENTEZA   


"E choveu uma semana e eu não vi o meu amor

O barro ficou marcado ainda a boiada passou ..."


Fiquei muito em casa também porque logo no dia 1 tropecei na academia e feri a canela direita, o que me obrigou a treinar todo dia de calças compridas, apesar do calor de novembro! Pra mim foi meio que um toque pra me preservar um pouquinho. Só depois da metade do mês, quando tinha cicatrizado, tive coragem de sai com curativo.




Ainda não primeira semana chegaram os meus óculos novos, deixei aqueles roxo de armadura de gatinho e apostei num mais sóbrio, em tons caramelo. Achei que combinou muito com meus cabelos curtos. Tanto que muitas vezes, num acesso de preguiça ,deixei de usar lentes e sai de óculos mesmo 🤓



Só na preguiça 🤓


Esses dois eventos cotidianos desenharam meu mês. Que sirvam de porta de entrada pra uma nova fase de maturidade!🙏🏾

 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Matita Perê: obra prima de Tom Jobim



 Só porque descobri o Canal do Hamilton de Holanda no YouTube,onde ele faz interpretações de canções populares brasileiras,  assisti a esse video 



Então fui me lembrar de quando ouvi esse álbum na vida.

Lançado em 1973, Matita Perê  é  considerado por alguns o álbum mais sofisticado de Tom Jobim, o auge da sua versão "ecologista", o disco dedicado a Guimarães Rosa (que parece na ambientação de faixas como "Águas de março" e é citado nominalmente em "Matita Pere", um 'chamado João') , ouvi muito, muito,muito durante minha pesquisa de cerca de uma década sobre as estórias rosianas. Gosto muito. 😍

Quando eu falo de ambientação ao modo Guimarães Rosa quero dizer uma observação mais apurada do que se ouve e do que se vê, em Rosa de "ouve" os sons dos pássaros, Tom Jobim se "vê"  flashs da natureza tipo "é um resto de mato, é um pouco sozinho...) Amo muito 💕

Viva o Brasil, viva a música brasileira ❤️

quarta-feira, 28 de junho de 2023

Fabio Caramuru no Instrumental SESC Brasil

Novamente show do Instrumental 

Outra terça de terapia, Sesc e Instrumental.  A terapia não foi tão pesada, a palavra chave foi a Esperança, a única coisa que eu tenho na vida! Eu me sentia péssima e não conseguia não aparentar na imagem, com olheiras e espinhas, embora a camiseta com Manoel de Barros seja linda

À esquerda com camiseta do espetáculo Crianceiras,
que assisti no Teatro Ancheita há anos:
"Tudo o que não invento é falso" Manuel de Barros.
 À direita, a foto em casa antes das 22 horas .

No sesc uma exposição em montagem, coberta por uma cortina

GIL GIL GIL : No Sesc Consolação a  exposição sobre Gilberto Mendes está em montagem, protegida por uma cortina. Mas o entorno já está tudo preparado, paredes cobertas de  GILberto...tomando minha sopinha, ouvi mais de uma vez : "Gilberto Gil?" 🤪 Dessa vez não, é outro Gilberto, que o Sesc Consolação vai nos apresentar... Estou no aguardo!

Dessa vez teve sopinha, como nas melhores terças:


De tomar rezando,como dizem 

Ainda antes do show, umas imagens poéticas que o Sesc Consolação me proporciona 

Um moço com um girassol 🌻.
Para me lembrar que sou a
 Rainha de paus, a que carreta um girassol

Quando entrei no teatro: apenas um piano, majestoso :

O show foi uma delicinha de ouvir! No site do instrumental ele é apresentado assim: 

  Se quiser ver como foi, assista ao show completo:


Na hora comentei rapidamente sobre quem era Fábio Caramuru, que eu estava conhecendo: 
"Fabio Caramuru: muitos sons de passarinhos. Lembrei muito de Guimarães Rosa, que registrou a sintonia da natureza na sua escrita, assim como Caramuru parte deles para as composições que ele próprio recomenda sejam levadas em consideração no processo de inicialização musical de crianças. Caramuru também comentou muito sobre Tom Jobim e a natureza do Brasil... Sai de lá cantando CORRENTEZA :
" E choveu uma semana e eu não vi o meu amor
O barro ficou marcado aonde a boiada passou ..."
🌻
🥲
Tá floda!

Hoje amanheci refletindo sobre o espetáculo de ontem:

TOM JOBIM ECOLOGISTA: No instrumental ontem, Fábio Caramuru, que compõe pequenas jóias musicais inspiradas em sons da natureza, falou bastante do meu amado Tom Jobim, que é um dos compositores mais lembrados no Instrumental SESC Brasil,, desde 2016, quando comecei frequentar. Mas Fábio falou do meu Tom favorito, aquele que, segundo ele, talvez tenha sido nosso primeiro compositor ecologista, o que podemos ouvir nos álbuns da década de 1970/1980, meus queridinhos "Passarim"(1987), "Urubu"(1976), "Matita Pere" (1973)- este dedicado ao Guimarães Rosa, inclusive, etc. Para mim foi um deleite ouvir. Mas não pude deixar de lembrar da minha decepção ao assistir ,no cinema, a um filme chamado "A música segundo Tom Jobim" (2012) , de Nelson Pereira dos Santos, e só ver como o Tom da Bossa Nova foi aclamado mundialmente na década de 1960. A parte do som refinado ao mais alto requinte, quase uma sinfonia natural, é apenas citada no finalzinho, como se a música segundo Tom Jobim fosse apenas aquela tietagem repetida à exaustão no documentário de 2012... Fabio Caramuru fez mais justiça ao imenso legado de Tom Jobim ontem. Gratidão
🙏🏾

Assistir ao instrumental é sempre um respiro na minha semana! Vamos!

quarta-feira, 9 de novembro de 2022

Dia de grandes perdas : Gal e Rolando Boldrin


 Hoje a morte passou terra e levou duas figuras fundamentais da cultura brasileira.

Gal Costa, uma das maiores cantoras do mundo, importante demais pra História do Brasil. Que foi, certamente, referência de cantora e mulher pra mim e tantas outras. 

Registrei sua morte 



E, com tantas canções maravilhosas, escolhi lembrar dela com essa interpretação belíssima , ao lado de Tom Jobim, cantando Gabriela, de flor no cabelo:


Mas a tristeza ainda ia me dar um outro golpe. Morreu Rolando Boldrin, um pedaço da minha infância, da minha formação, da história da minha relação com meu pai. Aí tive que chorar. Alguns registros  doloridos da sua morte

Como estava mesmo difícil, tive que desabafar de novo. Muito triste.
😭

Devia ter falado mais sobre ele, mas não pude. Hoje ainda não. Escolhi lembrar dele assim:

Descansem em paz e muito, muito obrigada!🙏🏾













sábado, 16 de abril de 2022

Inesgotável Gabriela, cravo e canela (1958), de Jorge Amado

Quando chegou, eu toda feliz


Vamos falar um pouco sobre Gabriela!

Não vou colar aqui todos os comentários  que fiz durante a longa leitura, mas terminei de ler há quase uma semana


 Demorou tanto para terminar a leitura de Gabriela, Cravo e canela, que nem queria pensar mais no livro, como comentei esta manhã de 16 de abril! 


Quando comecei a ler, em 01 de março, tinha as seguintes expectativas

Doze dias depois eu estranhava a leitura demorada 

Sobre as ilustrações do Di Cavalcanti, não vou postar aqui, vou postar algumas aqui
DI CAVALCANTI





Queria pensar as representações da personagem , desde o começo

No dia 28 de março eu escrevi bastante sobre Gabriela:
REPRESENTAÇÕES DE GABRIELA I- É verdade que este é o romance de JA que menos gostei até agora, mas não posso nunca dizer que, por isso, ele é ruim. Loge disso, ele está me pirando o cabeção, por vários motivos. Por exemplo, as representações de Gabriela. A alegre menina cobiçada pelos homens de Ilhéus, até agora, me parece uma personagem simples, a complexidade e a malícia está nos olhos de quem a via e vê até hoje, escondida debaixo das tantas representações que adquiriu. Certa vez li e queria reler, um depoimento, provavelmente de Walter Avancini, diretor da primeira novela Gabriela em 1975, onde ele explica que, se o romance de JA a questão central é a luta política no sul da Bahia nos anos 1920, auge da extração do cacau, novela destacaria a sensualidade de Gabriela. Assim foi feito, e como de costume nas adaptações de JA para o áudio visual, as complexas discussões sobre a política ou a crítica social são achatadas ou descartadas. Nesse caso, em especial, deu muito certo, até hoje quando se fala em Gabriela, é dificil não se pensar numa mulher parecida com a Sonia Braga. Tenho tentado pensar em outras imagens para ela, porque ela já existia antes disso, inclusive.

GABRIELA E SUAS REPRESENTAÇÕES II - Procurando o texto de Avancini, cai numa dissertação de mestrado de 2005 sobre a recepção crítica de "Gabriela" . Muito boa, aliás, comentando vários pontos e autores. Dela eu destaco esse trecho:
"o crítico Silvio Castro, em seu ensaio 'Jorge Amado e a recepção crítica'(1992), aborda, justamente, o ponto crucial que rodeia a produção literária amadiana: o constante conflito no exercício da crítica. E vários são os motivos dissonantes : o uso do calão, as constantes repetições, uma linguagem próxima da oralidade, povoamento de suas obras com personagens alcoólatras, prostitutas e homossexuais, além de personagens negras, turcas e árabes. Todos esses elementos fazem parte das contendas da crítica literária que envolve a produção do autor.
Castro evidencia a divergência entre as análises que tomam por base a inserção da produção literária de JA na 'tradição literária brasileira' e a convivência da crítica com esta obra."
"Revisitações a Gabriela: Uma experiência de leitura da recepção crítica do romance", Renata Maria Souza do Nascimento. Dissertação de mestrado em Letras UFBA,2005,p. 63

Em um determinado momento Renata diz que um novo frescor tomou conta dos estudos críticos da obra amadiana, com a entrada de analistas vindos da antropologia ou sociologia, uma vez que a crítica literária tradicional não saia dos seus moldes de avaliação clássico. Já em Jorge Amado era preciso ampliar as perspectiva, imaginem em Torto Arado, por exemplo! 

 GABRIELA - Como é difícil de ler, ela está sempre escondida embaixo de outras leituras e imagens que dela fizeram que nunca sei se ela é mesmo só isso. Espero (e desejo) que não seja! Por enquanto só tenho aprendido mais a ver como funciona a cabeça dos homens (até hoje) sobre a "alegre menina" Gabriela, ou melhor, diante todo esse imaginário em torno de Gabriela. Entendendo tudo isso, em nome de Malvina (talvez minha personagem favorita do romance), não tenho mais com apedrejar Gabriela

Mas e sobre Malvina, o que eu comentei durante a leitura?  Quando reparei nessa personagem, senti nela um protagonismo de mulher amariana,  que falta em Gabriela, e depois, em 25 de março  escrevi :

"GABRIELA": SURGIU A PROTAGONISTA?- O romance se Amado tem uma estrutura simples: quatro capítulos de cerca de 100 páginas e está dividido em duas partes. Na primeira parte, senti falta da protagonista Gabriela (que está no título), pois ela aparece só no final do cap.2, mas surge como uma mocinha de romance romântico, não uma mulher de Jorge. Achei que na segunda parte ela poderia protagonizar, mas logo ao começar o cap. 3 ela deu uma sumida de novo e quem brilha é Malvina, uma filha de coronel que se coloca abertamente contra o pai seu coronelismo e defensora das mulheres em plenos anos 1920... Essa, sim, está à altura das grandes personagens femininas de Jorge , que comandam suas vidas! Estou só no começo do capítulo, mas de cara a Malvina me agrada mais que a Gabriela. Vamos ver se a impressão de confirma.

Dentre tantas coisas incríveis que vemos em Malvina, o que mais me chama a atenção é o fato dela ser uma mulher que lia, que brigava pelo direito de ler , o que comentei em 30 de março 

GABRIELA E AS MULHERES QUE LEEM - Acho que essa ilustração de Di Cavalcanti não representa Gabriela,mas minha personagem favorita, a Malvina, a filha de coronel que tem a OUSADIA DE LER. Recusando o pedido do coronel de não vender mais "livros ruins" para ela, o dono da livraria responde:
"- Tenho livros para vender. Se o freguês quer comprar não deixo de vender. Livro ruim, que é que o senhor entende por isso? Sua filha só comprou os livros bons, dos melhores autores. Aproveito para lhe dizer que é môça inteligente, muito capaz. É preciso compreendê-la, não deve tratá-la como uma qualquer."

Mas Gabriela, o romance e a personagem são bem amadianos, produtos de uma bem imbricada trama com a literatura oral, não é à toa que as adaptações receberam as trilhas sonoras mais belas , com canções que definem bem Gabriela, como essa belezinha, que é um poema que aparece no romance e  foi musicado por Dorival Caymmi para a trilha sonora da novela Gabriela de 1975, que também contava com canções representativas do universo de Ilhés de Gabriela , como esse  samba de roda baiano . Mas a mais bela canção composta para Gabriela é mesmo "Tema de amor para Gabriela", de  Tom Jobim, com a citação de várias cantigas tradicionais da zona cacaueira, coisa mais linda! Sempre me emociono!

Para terminar, uso uma citação bela, que eu acho que também define essa personagem, que é a terra da Bahia, com seus cheiros e temperos, que o árabe nacibe tanto amava e é tão   amada pelos  brasileiros e brasileiras:

"Êle (seu Nacib)  a olhou alucinado, viu a terra molhada de chuva, o chão cavado de enxada, de cacau cultivado, chão onde nasciam árvores e medrava o capim. Chão de vales e montes, de gruta profunda, onde êle estava plantado. Ela estendeu  os braços, puxou-a para si. Quando se deitou a seu lado e tocou seu calor, de súbito então tudo sentiu : a humilhação, a raiva, o ódio, a ausência, a dor das noites mortais, o orgulho ferido e a alegria de nela queimar-se. " (448-9)


Viva Gabriela , do cheiro de cravo e da cor de canela!


 

 



segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

A crítica de "A música segundo Tom Jobim "

Claro que eu fui assistir ao documentário " A Música segundo Tom Jobim" logo no dia seguinte à estréia afinal eu, como a maioria dos meus contatos, adoro Tom Jobim! Claro que o filme é lindo; que coloca uma proposta de inovação no gênero documentário e isso tem sido percebido pelo público (às vezes com decepção, às vezes com revolta); claro que a ausência do João Gilberto foi doidamente sentida por mim (mas sei que ele mesmo foi quem não concedeu as imagens, uma pena), claro que o filme me entediou um pouco no começo pelo excesso de Bossa Nova (mil vezes as mesmas canções , em mil gravações mundo afora, em mil línguas), mas que isso foi resolvido logo, quando se passou a mostrar um pouco (bem pouco se comparado ao número de interpretações de Garota de Ipanema) do Tom Jobim pós Bossa Nova que eu adoro, destacando o magnífico disco Matita Perê. Podiam ter aprofundado um pouco nisso, mas de qualquer forma valeram demais os 90 minutos de exibição.
Só que eu queria neste texto falar da crítica ao filme pois, mesmo que "a linguagem musical baste", sempre é preciso selecionar, inclusive as músicas. Trata-se, sim, de um belo e imperdível filme, mas nada é perfeito, seus senãos, que deveriam aparecer nos textos críticos sobre o documentário, mas não aparecem. Os poucos que li não brincam de exercer a crítica, não. É tudo divino e maravilhoso maravilhoso no filme, "uma exaltação da cultura do país", essas coisas! No filme não temos, propositalmente, um acumulado de informações extra musicais, é uma overdse de Jobim que, confesso, beira o delicioso em alguns momentos... mas as músicas, só elas, da maneira conforme foram selecionadas, também acabam passando de algum jeito as informações , tão desejadas pelos admirdores de documentários. Aos meus olhos de expectadora (não de crítica de cinema), ai está um de seus problemas: para levantar a bandeira de um Tom que beire a perfeição, era preciso mostrar uma imagem de aplausos no festival da canção em 1968, no qual a canção Sabiá de Tom e Chico Buarque, na verdade, foi vaiada(todo mundo que sabe um pouco de história da música conhece esse episódio)? Não é possível registar nenhum possível tropeço na homenagem? Então o "documentário pós moderno", que não se presta a ser didático, também se permite passar informações possivelmente erradas?
Claro que estou colocando isso de "entrona", afinal não existe propriamente o certou ou o errado, mas alguma coloção mais crítica que apronte momentos como este deveria aparecer nos comentários críticos que, até onde vi, de crítica muito pouco tem e parecem engrossar o coro dos exaltadores da cultura nacional.
Se mesmo os "críticos" não exercitam a visão crítica, onde iremos chegar?

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Série Encontros : Entrevista com Eduardo Viveiros de Castro



Renato Sztutman : Você acredita que sua obra possa contribuir para uma antropologia da sociedade brasileira?

Eduardo Viveiros de Castro : Não estou excessivamente familiarizado com a antropologia da sociedade brasileira. Fui fazer etnologia para fugir da sociedade brasileira, esse objeto pretensamente compulsório de todo cientista social do Brasil. Como cidadão, sou brasileiro e não tenho objeção a sê-lo. Ou melhor, para dizer a verdade, frequentemente me vejo sentindo grande vergonha de sê-lo; não faltam motivos, passados como resentes, históricos como cotidianos, para isso. Mas sempre lembro que se fosse natural de qualquer outro país, teria motivos tão bons ou melhores para sentir vergonha, e é isso que me faz não ter realmente objeções ao fato de ser brasileiro. Porque, em última análise, tanto faz. Ser humano, perante os demais viventes, já é complicado o bastante. O que não quer dizer que a consciência de ser brasileiro não me mobilize eticamente, não me interpele politicamente, nem me faça experimentar a mistura ambivalente de sentimentos e de disposições associadas a qualquer pertença objetiva.
Fico aliás pensando que talvez seja nisso que consiste realmente o sentimento de pertencer a uma nação: ter motivos todos próprios para se envergonhar, tão próprios quanto (senão mais que) os sempre lembrados motivos de se orgulhar. Isso quando os ditos ‘motivos’ não são, como suspeito que quase sempre são, os mesmos motivos. Todo orgulho confessa uma vergonha. E toda vergonha clama por (a) pagamento.
Enfim, sou brasileiro e coisa e tal. Raras são as vezes em que penso nisso; e quando o faço, em algumas delas acho até bom. Como disse bem Tom Jobim,ao retornar ao Rio de Janeiro depois de anos morando nos Estados Unidos: ‘lá fora é legal,mas é uma merda; aqui é uma merda, mas é legal...’Grande verdade. De qualquer modo, como pesquisador não acho que seja obrigado a ter como objeto a chamada ‘realidade brasileira’, essa curiosa e intraduzível noção. Não se exige isso dos matemáticos ou dos físicos. Os físicos brasileiros não estão estudando a ‘realidade brasileira’. Estão estudando, salvo engano (meu ou deles), apenas a realidade. Por que um cientista social brasileiro não pode fazer a mesma coisa? O Brasil é uma circustância para mim, não é objeto; entendo, sobretudo, que o Brasil é uma circunstânci para os povos que eu estudo, e não sua condição fundante.” P. 48)