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sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

" Canção para ninar menino grande", de Conceição Evaristo: Livro de Dezembro

 

Quando emprestei da Biblioteca do Sesc Pompéia, sem saber como seria

Esse ano eu até tentei escolher os livros que ia ler a cada mês, mas eles mesmos foram aparecendo ou se afastando de mim e eu deixei fluir. Lendo contos de Lygia no mês passado, pensava que precisava ler Conceição e assim fiz acontecer. Fui a biblioteca do Sesc Pompéia e peguei esse romance e a leitura fluiu muito rápido!

Antes um comentário sobre a capa linda, é um recorte desde quadro



Postei alguns trechos lindos 

"CANÇÃO PARA NINAR MENINO GRANDE : "Da mãe, sempre escutara que homem era o bicho mais perigoso, principalmente se fosse muito bonito. E completava a fala dizendo que eles não passavam de meninos grandes, que viviam agarrados às saias das mulheres em busca de proteção ou de brinquedo. Brinquedo esse em que, se a mulher não cuidasse, não desconfiasse ela mesma, o corpo dela poderia se transformar em joguinho nas mãos deles."(p.89-90)

 Ou então 

CANÇÃO PARA NINAR MENINO GRANDE "Enquanto isto, sozinha em seu quarto,sonhando que a sua solidão seria desfeita um dia, Antonieta Véritas da Silva imaginava a chegada de um homem,pelo qual ela se apaixonaria, sem reserva alguma. Tamanha seria a paixão, que ela chegaria ao ponto de querer viver com ele. Um homem que fosse capaz de adivinhar e entender os desejos dela, na hora em que ela entregasse o seu corpo para ele. Um homem que tivesse uma língua leve-leve como uma penugem e brincasse suavemente com seus lábios, até alcançar o céu de sua boca. E depois atingir com cuidado todas as fendas de acolhimento queno corpo dela possuía e que ela gostaria de oferecer à pessoa amada. Esse homem existia?" Canção de ninar menino grande, Conceição Evaristo,p. 55-6 

 A grande viagem por Minas Gerais 

"Quando o trem Vapor Azul parou preguiçoso sobre os trilhos da pequena estação da Vila Azul, todo ao redor gozava da calmaria de sempre. Tudo azul. Tudo blue. O vilarejo era assim conhecido como Vila Azul dada a abundância de agapanthus existentes nos jardins da cidade. A flor azul, também conhecida como lírio africano, que florescia milagrosamente na vila, desde as cercanias das linhas férreas até ao adro da minúscula capela local, assim como em volta das tumbas do cemitério e na estradinha que levava à única escola do povoado. E por essa profusão de azul a inundar a natural ambiência da vila, segundo a visão dos moradores, o trem quando apontava lá longe vinha com um tom azulado e assim chegava também. Era o Vapor Azul irrompendo o anilado espaço do lugarejo blue." "Canção para ninar menino grande", Conceição Evaristo P.43/4
Mais música "Trem Azul" impossível! Como não amar?

 



Tem até um trecho sobre a Cinderela Negra. Uma lembrança dolorida da infância de Fio Jasmim foi quando ele não pôde ser o príncipe na escola, sendo trocado por um garotinho loiro. Isso veio à mente dele quando foi homenageado na cidade da laranja e ficou apaixonado pelos pés de uma moça negra:

"...a moça notou quando o novo maquinista parou seduzido contemplando os pés dela.
'um mimo!' Fio Jasmim nunca havia posto os olhos nos pés de mulher alguma. Em sua afoiteza de homem jovem, a sua sedução era conduzida somente para algumas partes do corpo das mulheres. -'um mimo, um mimo'! Encantado, havia descoberto que as mulheres tinham pés. E se perdeu no contemplar daqueles pés negros. Pés mal cobertos por sandálias de tiras coloridas, que, mesmo parados, pareciam ter desejo e força para ganhar o mundo. Foi tão intenso o olhar eternizado de Fio para os pés da moça Paranhos, que ele esqueceu de dar um passo à frente (para receber o representante da cidade ao visitante) e a moça achou que ele estivesse recusando receber o presente. Um vidro de compota de laranja pesava no ar, quase se estilhaçando diante da distraída recepção de Fio Jasmim. Suas mãos abertas no ar se moviam quase paradas no gesto da recolha da oferta. E tal foi a demora no ato do recebimento que a família ofertante pensou humilhada em recolher o gesto de boas-vindas ao moço. Jasmim, ainda distraído, segurou a oferta como quem nada tivesse entre as mãos, a não ser um vidro vazio, cheio de nada. Tudo nele , ali baque momento presente, era outro instante ganhando diferente sentido. O moço maquinista, recém-chegado à cidade, tentava manusear no tempo uma lembrança distante, provocada pela descoberta dos pés nus da moça.
'os pezinhos pareciam os da Cinderela' -pensou Fio Jasmim- 'de uma Cinderela negra'. E ele, Príncipe Negro, na festa que haveria na casa dela, perto da estação, iria beijá-los e calcá-los...Tal ato significaria um pedido para fazer amor ela; pedido de casamento não, pois já estava comprometido com Pérola Maria. Por um momento, o devaneio se desfez, mas uma recordação da infância insistia entre outros pensamentos." (P.20-2)

 Tem um trecho tão forte, da relação de Fio com Juventina, a  Tina, a jovem que o amou desde menina, quando ele já era casado, e que viveu com ele, tendo permanecido virgem o tempo todo não consegui transcrever, mas fotografei as páginas e colo aqui



 Poxa, atire a primeira pedra a mulher que,inocentemente, só quis se dar ao amor,sem exigir nada em troca. É uma fase,ainda bem que passa.

Resumindo, eu fiz a seguinte postagem no GRUPO DE LEITURA - LER É VIVER! , no Facebook:

Esta semana terminei de ler o excelente "Canção para ninar menino grande", da Conceição Evaristo. O livro é um mosaico de escrevivências, muitos " causos", narrados poeticamente pela autora, que nos leva de trem, com seu protagonista, a visitar várias cidades do interior mineiro, ou seja, o livro é também uma viagem a Minas. Em geral, nesse seu livro sobre masculinidade negra, Conceição usa a história do maquinista Fio Jasmim, que é sedutor, o próprio "negão de tirar o chapéu" da música, como pano de fundo para ir contando a história de suas muitas mulheres, e dos seus quase incontáveis filhos, conhecidos e reconhecidos ou não. As histórias são delas, porque ele, mesmo que fosse forjado por feridas e dúvidas, ainda é só aquele menino alienado de seus reais desejos, que reluta em crescer e está sempre agarrado nas saias de mulheres, "em busca de proteção ou brinquedo", expressando uma " virilidade física que, uma vez satisfeita, apontava para o nada." Como leitora e mulher negra digo que é tão difícil reconhecer vários homens que conheci no Fio e a mim mesma nas histórias de tantas dessas mulheres, especialmente quando alguma o acolhe instintivamente em seu peito para acalentar! Recomendo muito essa leitura.


Essa foto feliz foi quando eu terminei: 
Que livraço!

Mas a leitura eu concluí num local público, comentei sobre :

CANÇÃO PARA NINAR MENINO GRANDE: Levei o livro para ler nas horas vagas numa consulta médica. Terminei de ler no ônibus. Quando acabei devo ter dito algo como NOSSA! E aí que me dei conta de que ao meu lado estava sentado um jovem negro, como se fosse um aluninho meu, que reagiu a minha expressão, tipo "ah, sei como é". Aí ele começou a falar comigo, não tinha lido o livro que terminei, mas conhecia a Conceição Evaristo e até me recomendou esse livro de poesia preta, que ele estava lendo no celular

 



Estar ao lado de um mocinho racialmente educado justamente na hora que terminava o romance sobre a dolorida masculinidade negra, me apareceu um presente dos orixás, fiquei esperançosa com essa nova geração!

 


 Fala Conceição Evaristo





quarta-feira, 17 de fevereiro de 2021

MINAS GERAIS E SEUS MISTÉRIOS

 

(Imagem é da Gruta Rei do Mato em Sete Lagoas, por Marcelo Sander... Olha de novo : Não parece uma imagem da Oxum? Então : tudo está guardado debaixo do chão de Minas...)

Que eu sou louca por MG todo mundo já sabe. Me perguntam se é por causa do Rosa, ou se eu gosto de Rosa porque eu amo Minas, mas essa é a pergunta quem nasceu primeiro o ovo ou a galinha?

Na verdade o que me atrai tanto em Rosa quando em MG é o que está escondido, o mistério. Na paisagem de Minas temos belezas naturais e arquitetônicas, mas em todos os lugares tem sempre um esconderijo, uma gruta, uma mina de pedras ou ouro ( se você olhar por baixo, bem embaixo, é bem capaz de ainda encontrar ouro e diamante!), uma palavra mágica, ora esquecida mas já nascida. Na obra de Rosa, se reparar bem, também é sempre assim: tem sempre algo ou alguém escondido, na vida ou na memória, tem sempre uma palavra "nova" no começo do surgir que guarda em sim mistérios atemporais (e Rosa explora isso ao infinito).
No norte de Minas, sertão, ainda se acham conchinhas, porque hoje Minas não tem mar, mas já teve. Antes da recente história do passado colonia, Minas tem um passado pré-hisstórico de eras e tudo isso está lá, escondido.
Eu sinto muita atração por tudo isso. Mas na mesma medida eu sinto medo e pavor.
Tenho uma impressão forte de que tudo o que eu preciso saber nesta vida não está aqui fora, mas escondido lá dentro de mim, em algum salão ainda não explorado da minha gruta interior. A travessia pelo que está soterrado dentro é a da própria vida e não raro, debaixo daquele chão seco que é vigília racional , emerge do inconsciente alguma conchinha para lembrar que a história é mais antiga do que parecer. Como no conto "Nenhum, nenhuma": do nada estamos naquela "casa de fazenda, achada, ao acaso de outras várias e recomeçadas distâncias, passaram-se e passam-se, na retentiva da gente, irreversos grandes fatos- reflexos... "
Na hora que a vida se revela, num relâmpago fugaz, é impossível dever e tenho certeza que em Minas posso ver mais e melhor...




segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Palavras Bolha de Sabão de Guimarães Rosa : é como "a gente" fala em Minas


ESTUDAR GUIMARÃES ROSA É UM SENTIDO PARA A VIDA. Depois de cerca de 10 anos estudando Rosa, me surge uma leitura totalmente nova:
"DIADORIM: Não é nem feminino, nem masculino, é neutro, é como mais um palavra bolha de sabão de Guimarães Rosa, que não se concretizam porque o gênero, de fato, da maneira como a gente fala em Minas é o que menos importa, a gente reduz e tira o gênero porque a gente tirou o final q não sabe se é O ou se é A e isso muito curioso porque muitas vezes, nesse contato com essas pessoas, muitas vezes elas tratam esssa questão com uma simplicidade , elas não complexifica até o final para chegar no gênero , elas quebram antes, então às vezes as pessoas quebram o esteriótipo de gênero e vivem a vida delas sem pensar que estão fazendo isso, elas nem sabem o que é esteriótipo nem sabem o que é gênero, nem querem saber, elas estão vivendo, estão sendo ali" ( Fred Botrell)
Acho que ssa leitura é maravilhosa, super valoriza a oralidade, os modos da fala como agentes na realidade em Guimarães Rosa, Me arrepio toda!
(Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=cykjdyHRf6s)

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

10 Metas de Camila para 2018



Sobre metas, é sempre bom traçar alguma, não é? Em 2017 eu aprendi a fazer limonada, mousse e caipirinha dos limões que encontrei, eu tinha apenas  a meta de emagrecer com saúde e hoje posso dizer com alegria que  ela foi cumprida plenamente, o que é uma delícia.

Como  agora estamos prestes a adentrar 2018 e  achei interessante  apostar novamente em metas, mas como não é possível pensar somente em uma grande, como foi em 2017, achei legal traçar pelo menos 10 metas  que vou tentar ao máximo cumprir ao longo do ano. Lembrando sempre que, com o tempo, as metas devem e vão se modificar, mas o jogo agora é ver, em dezembro de 2018, quais dos desejos que eu tenho para mim agora foram cumpridos ou não. 
 Vamos jogar? As metas estão numeradas apenas para organizar melhor, não há hierarquia de importância entre elas, já que a ideia é conseguir alcançar todas em 2018: 


10 Metas para 2018
1 - Arrumar um emprego desafiador na minha área para produzir e arrumar grana para prestar  concursos; 

2 - Encontrar o mozão para construir uma relação feliz;


3  Publicar os artigos que não publiquei em 2017 por conta do fim do pós doc;

4 - Continuar frequentando o "Todo Domingo Musical" na Casa das Caldeiras;

5 -  Voltar a assistir frequentemente o Instrumental SESC Brasil toda semana;

6 - Seguir firme no treino seis vezes na semana, pois cansa,mas me fez muito bem;

7 - Continuar minha imersão no  mundo negro em novas músicas e pessoas pois foi muito rico para mim esse exercício de identificação;

8 -Viajar. Se em 2016 fui a MG  e em 2017 ao RJ, para 2018 minha meta é voltar aos dois Estados, ou então conhecer um novo, quem sabe Salvador, para ajudar a cumprir a meta 7?! ;

9 - Assistir a um show do Tom Zé novamente, já que em 2017, ano que vi muitos e muitos shows, o dele eu não  pude ver depois de tantos anos sendo público fiel do meu ídolo;

10 - Ajudar todo mundo a transformar os obstáculos em conquistas  sempre que puder, essa é a meta para a vida!; 

segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Herança imemorial do Paredão de Januária - MG


Recentemente estudo científicos estão encontrando vestígios do mar no norte das Minas Gerais, como lemos nessa reportagem.

Sobre o uso das ideias referentes ao universo marítimo em Tutaméia de Guimarães Rosa, tem o excelente texto:
  "Metáforas Náuticas", de Walnice Nogueira Galvão ...
REPEITA JANUÁRIA - Nessa foto de Pedro Strikis para a Revista Pesquisa Fapesp de junho de 2014, vemos o "Paredão em Januária, norte de Minas Gerais: fósseis de diminutos animais marinhos foram achados na Formação Sete Lagoas, que faz parte da unidade geológica chamada Grupo Bambuí"
O que a gente fala sobre as Minas Gerais, gente?

sábado, 20 de junho de 2015

Lavadeiras do Jequitinhonha - Projeto Cantos de Trabalho

Cantos das Lavadeiras do Vale do Jequitinhonha, em Minas.
Sempre cantando ... que beleza!

sábado, 5 de fevereiro de 2011

Projeto "Tambores de Minas": uma declaração de amor de Milton Nascimento às Minas Gerais

Como sabemos, Milton Nascimento não nasceu nas Minas
Gerais, mas isso não o impediu de assumi-la profundamente, fazendo com que sua voz se tornasse a voz de Minas. Ese projeto Tambores de Minas (disco, show, DVD) é uma linda declaração de amor àquelas terras, que pôde ver por imagensou pelo texto que ele lê em off no show

domingo, 13 de setembro de 2009

BRUXAS E O IMAGINÁRIO INFANTIL



Quando eu trabalhava como voluntária na biblioteca de uma escola pública, os livros infantis eram divididos por temas e o que fazia mais "sucesso" eram os das histórias de bruxas e fadas, por aí, para mim, o imaginário das crianças sempre foi povoado por serem fantásticos... um exemplo disse é o sucesso de Harry Potter e etc...
Pesquisando a história da cultura e da produção cultural, "descobri" o óbvio: no Brasil - o lugar que desde sempre era considerado o paraíso - o imaginário é uma das forças motrizes da história e ele tem se manifestado desde sempre, pelos mitos e lendas, pelas feiticeiras coloniais das Minas Gerais, mil outros exemplos interessantíssimos que me levam a não ter nenhuma religião: quero saber e entender de todas, todas, todas...
Uma pena que algumas pessoas (e até crianças) abraçam uma religião e a tomam como uma espécie de monopólio da felicidade... com isso acabam perdendo todo um imaginário riquíssimo que veio crescendo antes dela ... é uma perda cultural sem precedentes!
Sinto muito que isso esteja cada vez mais forte.

terça-feira, 21 de abril de 2009

FERIADO : TIRADENTES?!

Hoje de manhã, no programa da Ana Maria Braga o Pedro Bial prestou o desserviço de dizer que o feriado de hoje é importante para que nós lembrássemos de um homem que acreditou em uma nação livre no Brasil. Mas heim?

Primeiro que todo mundo sabe que Tiradentes é apenas o maior laranja da História do Brasil e nada do que ele defendeu era idéia dele, e mesmo as idéias dos Inconfidentes nunca cogitaram a idéia de Brasil como o conhecemos hoje, apenas queriam criar um país livre da metrópole em Vila Rica, onde eles exerceriam todo o poder. Não deu certo e como alguém teria que ser punido, a corda arrebentou no lado mais fraco: Tiradentes se deu mal e virou herói nacional! (eca)

Mas nem vou ficar querendo desconstruir o mito Tiradentes, só vou mostrar um vídeo lindo sobre Minas Gerias que achei na net. Ê, Minas Gerais:


quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

EIS O PRETO CHIQUE!

Sempre achei Milton Nascimento o PRETO MAIS CHIQUE DO BRASIL! Todo aquele universo sonoro, fincado na musicalidade católica de Minas, nas canções populares, na amizade com os amigos do CLUBE DA ESQUINA e em outras heranças...
Nessa música lindissima, Bituca é acompanhado pelo grupo Uakti, que faz uma pesquisa séria na musicalidade mineira, com base na confecção de instrumentos originais e interessantíssimos! Eu gosto muito disso! Vejamos: