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segunda-feira, 5 de janeiro de 2026

Prêmio :Melhores do ano 2025 blog Pequenidades

Demorou muito e foi muito corrido, como tudo esses ano, nem vou comentar muito tópico por tópico, mas aqui vai a lista dos melhores de 2025:

 

1 Rolê: Festival Cacique de Ramos no meu aniversário 


Foi um ano onde quase não fui a rolês, mesmo sambas pouco frequentei, em comparação a outros anos. O melhor foi o festival do Cacique de Ramos no dia do meu aniversário, um grande presente!

Eu toda de vermelho e negro 
Toda gatinha de samba 




Ganhei muito carinho 

                      

700 ml de Suco de LIMÃO 
Muito calor!


2 Música : "Corpo fechado" , Academicos do Salgueiro 


Algumas músicas foram muito importantes pra  trilha sonora da história mais intensa do ano todo, registrada aqui, tivemos pelo menos dois temas musicais. No fim do ano fiz um resumo e achei que entrei nela como "Pescador de ilusões", de O Rappa. Essa música representou minha coragem de mergulhar de cabeça num mar escuro, apesar do medo, afinal via os corais mais coloridos ❤️
Pedi a IA uma imagem sobre a música 

Pescador de ilusões 

Ainda nesse clima, o músico do ano foi Djavan, que reencontrei e sua música Samurai, que eu sempre  amei, foi o grande tema dessa história. Resgatar Djavan fez parte  das quebras de couraças que aconteceram em 2025, ano em que eu vesti a camisa do Djavan, que eu dei de presente e roubei sem dó para tirar a foto mais curtida no Facebook
Djavanear o q há de bom

A música que mais ouvi o ano todo foi o samba de enredo do Salgueiro, Corpo Fechado. E não é porque sou salgueirense, mas essa música é uma reza, me protegeu em vários momentos, especialmente quando fiquei presa na enchente durante a tempestade em fevereiro! Além do que só de poder gritar essa letra não tem preço

"Macumbeiro, mandingueiro, batizado no gongá
quem tem medo de quiumba não nasceu pra demandar 
meu terreiro é a casa da mandinga
quem se mete com Salgueiro acerta as contas na curimba!"

3 Livro e autor (a) do ano:  "Após o anoitecer", Haruki Murakami


Em 2025, li muita coisa, como sempre. Algumas leituras foram melhores do que outras, mas, desta vez, não consegui escolher um livro que, por si só, fosse o melhor do ano. Este foi o livro do ano  porque pontuou vários momentos importantes e é uma leitura da qual sempre vou me lembrar ao pensar em 2025.


O dia frio que chegou

Este também foi o ano em que mais li Haruki Murakami, o que o torna, naturalmente, o autor do ano. Entre seus livros, “Após o Anoitecer”, que li em julho, se destacou por trazer muitas questões atuais. São questionamentos que venho observando com frequência em produções audiovisuais no streaming, especialmente aqueles ligados a outras dimensões e a diferentes registros do audiovisual.

Assistimos Alphaville 


Emprestei o livro ao Geraldo, que adorou, e ainda tivemos a oportunidade de assistir ao filme Alphaville, citado no romance japonês, em uma sessão no CineSesc. Seguimos com planos de continuar reverberando essa leitura. Livro bom é aquele que se expande, e esse é exatamente o caso deste.


4 Filme ou peça teatral: "Senhora dos afogados"


Bom, nesse ano de áudio visual, não sei como escolher um filme ou série, afinal vi incontáveis e todos maravilhosos: Drive my car, Them, Amores expressos, Ritas, Homem com H, Contos do Loop, Anne with an E, Black Mirror, She, Alphaville, Retrato Fantasma, O filho de mim homens ... não saberia escolher. Então o prêmio vai para a sensacional Senhora dos afogados, minha primeira peça de Nelson Rodrigues, minha primeira peça do Teatro Oficina : histórico, surreal! E eu estava muito gata, cabelinho Mara



5 Fotos do ano : Todas da Baia de Guanabara a partir da Ponte Rio Niterói (que não tem fim) e nunca me canso de ver

Uma das minhas maiores paixões em 2025. A ponte Rio Niterói, que não tem fim, que não tem tempo. É só deslumbramento 



6 Bebida ou comida do ano: Carnes e sobremesas feitas COM AMOR só para mim 😍

Esse ano fui muito mimada, bem tratada, curtida: cozinharam para mim carnes e sobremesas : muito amor ! 

Algumas sobremesas

 Algumas Carnes ❤️

7  Show: Jorge Aragão no Carnaval 

Nesse ano shows não foram destaque. Ainda bem que assisti ao do Jorge Aragão ,em frente a Igreja da Consolação,no pré carnaval     Acadêmicos do Baixo Augusta. Claro até não levei celular, mas consegui umas imagens depois . Logo no começo o ano estava ganho!

8  Roupas ou acessórios: Chapéu de samba

Só tinha um, usava pouco. Esse ano usei mais. Até ganhei um Panamá de presente de natal. Quero mais!

Chapéu Panamá:
Presente de Natal do Geraldo 

Meu chapéu vovó cinza
Um banda no samba 


9 Conquista do ano : Uma possibilidade de amor (e preto)



Começo citando Caio Fernando Abreu:  
"Deus - ou isso que chamamos assim, tão descuidadamente, de Deus -, enviou-me certo presente ambíguo: uma possibilidade de amor. Ou disso que chamamos, também com descuido e alguma pressa, de amor. E você sabe a que me refiro ". (In Pequenas Epifanias) .


Já sabem do que estou falando. Mas eu sei que "presente ambíguo de Deus"  não é propriamente uma conquista! Explico : o que ganhei foi uma oportunidade de amor, mas não veio pronta,  foi preciso trabalhar para transformar num amor possível. Isso foi feito e conquistei! Ficou tão possível que preencheu tanto meu cotidiano , que essa energia salpicou a retrospectiva e também os "melhores do ano", mostrando como se agregou à minha vida. Afinal, como "qualquer maneira de amor vale à pena", a nós, pescadores de ilusões, nos cabe fazer valer à pene . Nós fizemos!

10 Ícone da cultura negrado ano:  Stefano Vop


Infelizmente acompanhei a trajetória de poucos negro e negras. Mas li o livro de contos "Homens pretos (não) choram" , de Stefano Volp , um jovem  autor negro. Depoimentos de negras já temos inúmeras "escrevivências", mas é muito raro ler sobre a subjetividade do homem negro. Divulguei Falei tanto desse livro nas redes sociais, e foi com felicidade que ouvi que alguns tinham lido esse livro lindo! 

11 Menção honrosa: Rodrigo Santoro 

Não tinha quesito pra ele, então como eu sou dona desse prêmio, inventei um só esse ano ! Porque ele  estrelou dois lançamentos lindos e poético ("O último azul" e "O filho de mil homens), marcando seu amadurecimento como ator, um presente! Certamente 2026 pode ser ano que Wagner Moura concorre e possivelmente ganhe o Oscar de melhor ator por "O agente secreto", mas 2025, pra mim, foi o ano de me deleitar ao  rever Santoro nas telonas 😍



Parabéns e obrigada aos vencedores e vencedoras! Ano que vem tem mais!







terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Retrospectiva 2025 : O ano da FELICIDADE CLANDESTINA

 


Passou voando e, como desejei no réveillon, veio com justiça, alívio e REVIRAVOLTAS: estudei, viajei, amei, vi muitos filmes e séries, li e divulguei vários livros ... Fiz coisas impensadas até então (fui a praia, montei árvore de natal, assisti filme de terror). Me senti mais mulher do que menina, no corpo e na mente... E amei ser mais fêmea!

 E passou tão rápido que quase perdi a data de públicar a retrospectiva!

Em 2025 eu voltei a sentir o gostinho d FELICIDADE, fazia tanto tempo... Mesmo que tenha sido rápida e clandestina, faz a vida valer a pena! Me senti viva, mais mulher, mais capaz! Gratidão Deus e os Orixás 💚💙🧡💛


Janeiro 

RESUMO 2025 : Janeiro
Começando o ano de Iansã e Xangô, muita tempestade e nãos! Misericórdia!
🙏🏾
Não foi um mês incrível,mas teve bons sambas e leituras:
Exposição Lecy Brandão; Primeiro samba: Partideiros; "Carlabê" de Isabela Noronha; Cacique de Ramos no MZ; Fruta do pé; Misoginia literária; "Se eu fechar os olhos agora" de Edney Silvestre; China já estava aqui;

Fevereiro
RESUMO 2025: FEVEREIRO
Como previsto, um mês quente, cheio de tempestades, poucos sambas e sem carnaval...mas com muita literatura :
-Livro "O Amante" de Marguerite Duras;
- Curso de verão "Lendo a poesia de João Cabral de Melo Neto";
-Exposição Lélia Gonzalez ;
-Primeiro Quintal dos Prettos do ano;
-Livro "História social da beleza negra" de Giovana Xavier;
-Sobrevivi plena à Edgard Faccó alagada;
-Pré carnaval com Baixo Augusta com Jorge Aragão;

Março
RESUMO 2025: Março
-Aniversário mãe (82);
-Carnaval reativa;
-Maria Zélia na Penha : mulheres no samba;
-Medo do fim do Instrumental SESC Brasil;
-Samba d'Coroa: vestida de brinco afro;
-Saudades do amor perdido no carnaval;
-Terreiro de Crioulo: princesa Bela de jaqueta jeans;
- Encontrando o Domingos de Oliveira real;
-Livro "Da morte.Odes mínimas",Hilda Hilst;
-Eliana Pittman canta Jorge Aragão "Nem lágrima, nem dor";
-Casamento da sobrinha;

Abril
RESUMO 2025 ABRIL - sobre a leveza e o peso!
Spok quinteto no instrumental; viagem a Niterói; livro "Verme", Geraldo Pedro; Encontro rodas de samba; Exposição "Lugar público", A. Mederas; Filme "Amores expressos": volta ao cinesesc; Leituras em processo ("Corpo encantado das ruas", L.A.Simas e "Insustentável leveza do ser", "M. Kundera); "Madureira Armorial" no instrumental;

Maio
RESUMO 2024 - MAIO
Foi um mês de testes amargo e doce muito como a vida e sai aprovada . Valeu demais maio, seu lindo:
Teste amargo no feriado; LIVRO A insustentável leveza do ser de Milan Kundera; TEATRO Senhora dos afogados; 13o. Encontro das Rodas de samba; Dia das mães; Clarineta de Laura Santos no instrumental; Cacique de Ramos em SP; teste doce em Niterói; FILME Homem com H; FILME mães paralelas; Harpa de Arícia Fegato no Instrmental; FILME Ritas;

Junho
RESUMO 2025: JUNHO
Parecia que não, mas teve coisas!
Frio!
🥶
Turistando na biblioteca;
LIVRO Uma aprendizagem..., Clarice Lisoector;
EXPOSIÇÃO Monet ecológico;
Meio do ano;
LIVRO "Meu amor", Beatriz Bleach;
LIVRO O sono na arte;
LIVRO "Alice e Ulisses" Ana Maria Machado;
INSTRUMENTAL: Rabeca de Filpo Ribeiro;
LIVRO Cândida Erêndira, Gabo;
TEATRO Fiandeiros do tempo;
LIVRO Homens pretos (não) choram, Stefano Vopi;

Julho
RESUMO 2025 Até julho
Em geral foi um mês gelado. Mas passou.
-Começou com coração partido, está cicatrizando;
-Teve a Tuba de Thiago Bernardes no Instrumental;
-Teve a sanfona tradicional com "Oito baixos" no instrumental;
-Aniversário de 16 anos dos Partideiros do Maria Zélia;
-Terreiro de Crioulo no Maria Zélia;
-LIVRO "O segredo e outras e outras histórias de descobertas ",Lygia Fagundes Telles;
-Lugares insuportáveis de bonitos;
-Comunidade Negra de Niterói;
-LIVRO "Após o anoitecer", de Haruki Murakami;

Agosto
RESUMO 2025 AGOSTO - Frio polar , melancolia, sólidão e História
Frio polar; LIVROS História da Etiópia; Aniversário amiga Cássia, INSTRUMENTAL Eloá Guimarães; FILME Na era da inocência Truffaut; FOTOS da juventude; Ética da literatura de Murakami; SAMBA Terreiro de Crioulo; LIVRO "O incolor Tsukuru Tazaki e seus anos de peregrinação; melancolia e sólidão; INSTRUMENTAL Duo Conversa Brasileira com Manuel Bandeira; Clarice Lispector lê Guimarães Rosa; IA interpretação de estampas africanas; Niterói; Fortaleza de Santa Cruz da Barra; FILME Faça ela votar; FILME Como água para chocolate;

Setembro
RESUMO 2025 SETEMBRO
-INSTRUMENTAL : Choro na flauta de Tiago Tigrão;
-FILME "Os 3 obás de Xangô";
-LIVRO "A mais recôndita memória dos homens", Mohamed Sarro;
-Civeroneando Geraldo nos meus lugares favoritos de São Paulo;
-FILME "Picasso : um rebelde em Paris ";
FILME Alphaville, de Godard no Cinesesc;
-IA : Interpretação do resultado do meu teste DNA Ancestralidade;
-Viagem: muita chuva em Niterói;
-FILME: "O último azul ";
-FILME "O bebê de Rosemary"
-FESTA: Ibejís;
-FILME : "Bicho de sete cabeças"
-INSTRUMENTAL: Samba de escola de samba com o SP RITMOS;

Outubro 
RESUMO 2025
CONTO Drive my car;
FILME Drive my car;
LIVRO A metamorfose, de Kafka;
LIVROS: Murakami;
SAMBA Quintal dos Prettos;
Niterói;
FILME: Malês ;
FILME Her;
FILME Run;
FILME -Ebtre facas e segredos;
ANIVERSÁRIO: Festival Cacique de Ramos;
FILME: Babygirl;

Novembro 
LIVRO "Caçando Carneiros", Murakami e a trilogia do Rato;
SÉRIE "Contos do Loop", Prime vídeo;
CONTO "Crachá nos dentes" Lygia Fagundes Telles ;
SÉRIE "Cangaço Novo ", Prime Vídeo;
"Portal" no Metrô Clínicas;
SÉRIE "Anos Luz", Prime vídeo;
ARCANO DA TORRE seguido pelo ARCANO DA ESTRELA (é a vida!)
Atividades pré -natalinas (quem diria?! Mais uma quebra de "couraça"! );
FILME "Nosso Sonho " , Claudinho e Buchecha e o funk Melody;
SÉRIE "Them" Primeira 👍🏾 e Segunda 👎🏾temporadas;
SÉRIE. "Ane with an E" e o elogio mais fofo do ano ❤️;
SAMBA "Terreiro de Crioulo" no Maria Zélia;
SAMBA  "18 anos Partideiros Maria Zélia ";
SONETO DE CAMÕES : "se tão contrário a si é o mesmo amor"...

Dezembro 

RESUMO 2025 Dezembro  Voou, nem consegui dar conta de tudo!
SÉRIE Them; 
SÉRIE Sozinhos;
LIVRO Dança de enganos;
SAMBA d'Coroa;
FILME O Filho de mil homens;
FILME A ostra e o vento;
FILME Retratos fantasmas;
FILME 3 canções para Benazir;
Natais inesquecíveis 


Conto "Felicidade Clandestina", Clarice Lispector 

FELICIDADE CLANDESTINA: 2025 o ano em que a menina virou mulher a partir da felicidade Clandestina!

" Criava as mais falsas dificuldades para aquela COISA CLANDESTINA QUE ERA A FELICIDADE. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei!Eu vivia no ar...Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.
Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo , em êxtase puríssimo.
Não era mais uma MENINA COM O SEU LIVRO: era  UMA MULHER COM SEU AMANTE."

" "Felicidade Clandestina", Clarice Lispector.

Tchau 2025



Valeu 2025! Que venha o próximo!


sábado, 16 de abril de 2022

Inesgotável Gabriela, cravo e canela (1958), de Jorge Amado

Quando chegou, eu toda feliz


Vamos falar um pouco sobre Gabriela!

Não vou colar aqui todos os comentários  que fiz durante a longa leitura, mas terminei de ler há quase uma semana


 Demorou tanto para terminar a leitura de Gabriela, Cravo e canela, que nem queria pensar mais no livro, como comentei esta manhã de 16 de abril! 


Quando comecei a ler, em 01 de março, tinha as seguintes expectativas

Doze dias depois eu estranhava a leitura demorada 

Sobre as ilustrações do Di Cavalcanti, não vou postar aqui, vou postar algumas aqui
DI CAVALCANTI





Queria pensar as representações da personagem , desde o começo

No dia 28 de março eu escrevi bastante sobre Gabriela:
REPRESENTAÇÕES DE GABRIELA I- É verdade que este é o romance de JA que menos gostei até agora, mas não posso nunca dizer que, por isso, ele é ruim. Loge disso, ele está me pirando o cabeção, por vários motivos. Por exemplo, as representações de Gabriela. A alegre menina cobiçada pelos homens de Ilhéus, até agora, me parece uma personagem simples, a complexidade e a malícia está nos olhos de quem a via e vê até hoje, escondida debaixo das tantas representações que adquiriu. Certa vez li e queria reler, um depoimento, provavelmente de Walter Avancini, diretor da primeira novela Gabriela em 1975, onde ele explica que, se o romance de JA a questão central é a luta política no sul da Bahia nos anos 1920, auge da extração do cacau, novela destacaria a sensualidade de Gabriela. Assim foi feito, e como de costume nas adaptações de JA para o áudio visual, as complexas discussões sobre a política ou a crítica social são achatadas ou descartadas. Nesse caso, em especial, deu muito certo, até hoje quando se fala em Gabriela, é dificil não se pensar numa mulher parecida com a Sonia Braga. Tenho tentado pensar em outras imagens para ela, porque ela já existia antes disso, inclusive.

GABRIELA E SUAS REPRESENTAÇÕES II - Procurando o texto de Avancini, cai numa dissertação de mestrado de 2005 sobre a recepção crítica de "Gabriela" . Muito boa, aliás, comentando vários pontos e autores. Dela eu destaco esse trecho:
"o crítico Silvio Castro, em seu ensaio 'Jorge Amado e a recepção crítica'(1992), aborda, justamente, o ponto crucial que rodeia a produção literária amadiana: o constante conflito no exercício da crítica. E vários são os motivos dissonantes : o uso do calão, as constantes repetições, uma linguagem próxima da oralidade, povoamento de suas obras com personagens alcoólatras, prostitutas e homossexuais, além de personagens negras, turcas e árabes. Todos esses elementos fazem parte das contendas da crítica literária que envolve a produção do autor.
Castro evidencia a divergência entre as análises que tomam por base a inserção da produção literária de JA na 'tradição literária brasileira' e a convivência da crítica com esta obra."
"Revisitações a Gabriela: Uma experiência de leitura da recepção crítica do romance", Renata Maria Souza do Nascimento. Dissertação de mestrado em Letras UFBA,2005,p. 63

Em um determinado momento Renata diz que um novo frescor tomou conta dos estudos críticos da obra amadiana, com a entrada de analistas vindos da antropologia ou sociologia, uma vez que a crítica literária tradicional não saia dos seus moldes de avaliação clássico. Já em Jorge Amado era preciso ampliar as perspectiva, imaginem em Torto Arado, por exemplo! 

 GABRIELA - Como é difícil de ler, ela está sempre escondida embaixo de outras leituras e imagens que dela fizeram que nunca sei se ela é mesmo só isso. Espero (e desejo) que não seja! Por enquanto só tenho aprendido mais a ver como funciona a cabeça dos homens (até hoje) sobre a "alegre menina" Gabriela, ou melhor, diante todo esse imaginário em torno de Gabriela. Entendendo tudo isso, em nome de Malvina (talvez minha personagem favorita do romance), não tenho mais com apedrejar Gabriela

Mas e sobre Malvina, o que eu comentei durante a leitura?  Quando reparei nessa personagem, senti nela um protagonismo de mulher amariana,  que falta em Gabriela, e depois, em 25 de março  escrevi :

"GABRIELA": SURGIU A PROTAGONISTA?- O romance se Amado tem uma estrutura simples: quatro capítulos de cerca de 100 páginas e está dividido em duas partes. Na primeira parte, senti falta da protagonista Gabriela (que está no título), pois ela aparece só no final do cap.2, mas surge como uma mocinha de romance romântico, não uma mulher de Jorge. Achei que na segunda parte ela poderia protagonizar, mas logo ao começar o cap. 3 ela deu uma sumida de novo e quem brilha é Malvina, uma filha de coronel que se coloca abertamente contra o pai seu coronelismo e defensora das mulheres em plenos anos 1920... Essa, sim, está à altura das grandes personagens femininas de Jorge , que comandam suas vidas! Estou só no começo do capítulo, mas de cara a Malvina me agrada mais que a Gabriela. Vamos ver se a impressão de confirma.

Dentre tantas coisas incríveis que vemos em Malvina, o que mais me chama a atenção é o fato dela ser uma mulher que lia, que brigava pelo direito de ler , o que comentei em 30 de março 

GABRIELA E AS MULHERES QUE LEEM - Acho que essa ilustração de Di Cavalcanti não representa Gabriela,mas minha personagem favorita, a Malvina, a filha de coronel que tem a OUSADIA DE LER. Recusando o pedido do coronel de não vender mais "livros ruins" para ela, o dono da livraria responde:
"- Tenho livros para vender. Se o freguês quer comprar não deixo de vender. Livro ruim, que é que o senhor entende por isso? Sua filha só comprou os livros bons, dos melhores autores. Aproveito para lhe dizer que é môça inteligente, muito capaz. É preciso compreendê-la, não deve tratá-la como uma qualquer."

Mas Gabriela, o romance e a personagem são bem amadianos, produtos de uma bem imbricada trama com a literatura oral, não é à toa que as adaptações receberam as trilhas sonoras mais belas , com canções que definem bem Gabriela, como essa belezinha, que é um poema que aparece no romance e  foi musicado por Dorival Caymmi para a trilha sonora da novela Gabriela de 1975, que também contava com canções representativas do universo de Ilhés de Gabriela , como esse  samba de roda baiano . Mas a mais bela canção composta para Gabriela é mesmo "Tema de amor para Gabriela", de  Tom Jobim, com a citação de várias cantigas tradicionais da zona cacaueira, coisa mais linda! Sempre me emociono!

Para terminar, uso uma citação bela, que eu acho que também define essa personagem, que é a terra da Bahia, com seus cheiros e temperos, que o árabe nacibe tanto amava e é tão   amada pelos  brasileiros e brasileiras:

"Êle (seu Nacib)  a olhou alucinado, viu a terra molhada de chuva, o chão cavado de enxada, de cacau cultivado, chão onde nasciam árvores e medrava o capim. Chão de vales e montes, de gruta profunda, onde êle estava plantado. Ela estendeu  os braços, puxou-a para si. Quando se deitou a seu lado e tocou seu calor, de súbito então tudo sentiu : a humilhação, a raiva, o ódio, a ausência, a dor das noites mortais, o orgulho ferido e a alegria de nela queimar-se. " (448-9)


Viva Gabriela , do cheiro de cravo e da cor de canela!