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segunda-feira, 20 de março de 2023

Aquecendo o coração: Lembrança das meninas de Rosa

 

Detalhes das imagens da meninas: Acima a da etiqueta no caderno
à esquerda a do meu pingente e à direta a da capa do meu livro.

Na capa de um dos cadernos manuscritos de Guimarães Rosa que analisei na minha tese de doutorado "Escrevendo a lápis de cor: Infância e História na escritura de Guimarães Rosa"  encontrei colada na capa de um deles uma  pequena etiqueta com o desenho de uma menina. Embora o traço lembre bastante o de outros desenhos rosianos, não é possível afirmar que ele foi feito pelo escritor.
 
 Capa do caderno com o desenho da
 menina etiquetado embaixo, à esquerda

Mais importante foi observar que a ideia de "menina" compunha o ambiente de criação das estórias dos anos 1960 e no dia da defesa da tese, em agosto de 2014, eu usava um pingente muito semelhante ao desenho da menina. 
Meu pingente de menina


A respeito desta presença nas estórias, destaquei quatro personagens meninas como protagonistas das estórias, e outras 12 personagens que, sendo crianças, adultas ou idosas,  foram chamadas de menina nos contos das Primeiras Estórias (1962) e Tutaméia (1967). Sobre isso escrevi esse  artigo para a Revista Caderno Espaço Feminino (UFU)  
 
Capa do meu livro, com a menina sendo  redesenhada por
Marcio Reiff entre o centro e o fim da imagem

Para a capa do meu livro (tese) publicado pela Editora Desconcertos, pedi ao ilustrador Marcio Reiff que desenhasse essa menina, e assim ele o fez.

Só quis lembrar dessas coisas lindas e boas para adoçar um pouco a minha vida nesta segunda feira em que começa o outono de 2023.

quarta-feira, 4 de agosto de 2021

A Terceira Margem do rio, por Odilon Esteves













Registro a  interpretação do ator Odilon Esteves, gravada no Grotão, município de Novo Cruzeiro, Minas Gerais, em 17 de junho de 2021, temos um emocionante exemplo do que é tal da palavra-cantiga saída do falar sertanejo.

Infelizmente eu não consegui incorporar aqui na postagem, então segue o link:

A TERCEIRA MARGEM DO RIO - João Guimarães Rosa



quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

"Receita para Nostalgia: Rosa e seus leitores"

Outro texto belo de recepção de Primeiras Estórias (1962), encontrado no  acervo João Guimarães Rosa no IEB e retirado dos anexos da tese de 2014. Este escrito por  Dinah Silveira de Queiroz, que estava em uma viagem a Moscou quando leu o lançamento de Rosa e fez considerações maravilhosas.
Foto do recorte encontrado no Fundo JGR no IEB
MOSCOU – Como começa no escritor essa tal nostalgia? – Perguntaram-me, aqui em Moscou, pois correu um zumbido entre pessoas que ela chegava a dar enjoo de estomago, dor de cabeça, distração no trabalho, mau gênio e às vezes até uma pontinha de febre. Tal pergunta nascia de uma conversa em que se tratava seriamente do fenômeno. Alguns usavam tranquilizantes,outros se encharcavam de música brasileira, ainda outros simplesmente se obstinavam a folhear velhos álbuns com menininhas em jardins  mães serenas. É preciso não caçoar da nostalgia – ela existe. Ouvi que russos ai também a sentem. A mesma insônia, a mesma moleza com o calor, aqui tocada pelo recolhimento do frio. E a gente se envergonhando no Brasil perante os que se ressentem da falta da neve. – ‘Pois olhe, meu amigo, verão maior do que este eu passei na Espanha’! Aqui, cidadãos procurarão convercer-nos de que frio, frio mesmo, é da Áustria. Mas voltando à pergunta:’Como começa essa tal nostalgia?’ Direi que ela chega meio imperceptivelmente, quando principiamos a enfeitar demasiado nossa vida quotidiana no Brasil. A tal ponto, que o insólito ruído da Avenida Copacabana,bem lembrado de longe, vira a mais alegre das sinfonias. Remédio para nostalgia? Sim,conheço paliativos; um deles será, por exemplo, ler o gostosíssimo livro de Guimarães Rosa, Primeiras Estórias , editado pelo nosso caro José Olympio e festejado por Luiz Jardim e sua pena feiticeira.
Convém que se peça a algum amigo de boa voz para ir lendo. Então Guimarães Rosa se faz canto da Pátria. Seus bandidos, suas santinhas, seus personagens cercados de mistérios – e vai ver tudo isto é  encantamento simples – pertencem aos ‘causos’, isto é, às ‘Estórias’ contadas e não lidas. Tudo tem graça, tudo é apetitoso, tudo faz nascer em mim a longíqua menina  que ainda sem saber ler chupava a ficção por um canudo :’Conta mais!’ – e se tornava um monstrinho devorador de histórias. Agora, quieta, os olhos cravados no rodopiar das lentas pétalas brancas que caem manso na paisagem , atravesso  o campo branco de neve, abro os olhos para os façanhudos irmãos Dagobé, penetro na misteriosa casa onde Guimarães Rosa montou sua maquininha de assombro e construiu um italiano misterioso que tinha um cavalo empalhado, o pudor de um irmão doente, e morreu por ter feito de verdade, como se desencantado.
Conheço, pois, algum remédio para nostalgia. E pena que ele aqui se torne  racionado, porque ‘Estórias’ como essas, de Guimarães Rosa, bem nos conduzem ao Brasil melhor que existe. Todo ele feito de graça e de cor, e que a gente ama ainda melhor assim de longe, com a perspectiva infinita da distância e a ressonância tão íntima da nostalgia.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

NOVO ARTIGO MEU: : As novas realidades das “fictâncias” de Guimarães Rosa, na revista Topói



OS MENINOS DE ROSA - Quatro anos depois da minha defesa, foi publicado na conceituada revista Topói mais um artigo sobre a representação da infância nas estórias de Guimarães Rosa, nele eu trato de um tema que não apareceu na tese, é sobre os MENINOS, esse tipo de personagem que é o mais fofo que meu autor criou! Gosto muito deste artigo porque ele apresenta a minha metodologia de interpretação de Rosa usada no doc, falo sobre ficção , manuscritos e História! Aos interessados na abordagem histórica da literatura que experimentei com a obra rosiana, desfrutem neste link!

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Da Primavera - Carlos Drummond de Andrade

Capas da 1a. ed  "Primeiras Estórias" de João Guimarães Rosa, 1962, desenhada por Luiz Jardim 

Com a entrada da primavera fui reler  uma crônica de Drummond escrita em 1962 para o Correio da Manhã, na qual ele cita o lançamento do livro "Primeiras Estórias" e que foi muito citada em outros textos da recepção crítica guardada por Rosa. Um trechinho dela:

"...Mas comparece outro sinal de primavera. Da mesma cor do ipê amarelo é a capa, desenhada por Luís Jardim, do livro de João Guimarães Rosa, com que a Editora José Olympio celebra a nova estação: “Primeiras Estórias”. E o próprio livro é primaveril, como tudo que sai da  cabeça mágica do Rosa : a língua se enfestoa de formas e arranjos novos, alguns  tão cheirando a terra que é como se brotassem do chão. O sentimento sutil que ele capta no coração da gente chamada simples lembra as flores e folhas passadas a limpo pela natureza, tão complexas em sua exatidão. Tudo é novo de novo, e tocado de um alegre mistério, sem embargo do trágico de certas situações. E mais uma vez, não facilitem com o Rosa: ele diz sempre ‘outra coisa’ além do que está dizendo; sua arte não fica nas palavras, vai à captação do sentido metafísico do universo." Carlos Drummond de Andrade. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1962

Um último comentário: Eu mesma (e só eu própria) me surpreendo com o trabalho que eu fiz nesse doutorado. Todos os textos de recepção das estórias guardados por Rosa (cerca de 300) estão transcritos e organizados em  planilhas comentadas, por isso é bem fácil encontrar o que se quer nesse material...
Será que um dia eu serei tão feliz com um trabalho como fui nesse, que nem sentia como um trabalho, mas um enorme deleite?

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

A Estória contra a história?

Guimarães Rosa começa seu Tutaméia (1967) assim: “a estória não quer ser história.A estória, em rigor, deve ser contra a História” (Rosa, 1967. P.3).

Esta colocação rosiana foi lida por intérpretes como uma simples negação da história expressa claramente (Rodrigues,2009.Pp.16-7) e que colocaria Guimarães Rosa no grupo dos alienados ou conservadores definitivamente. Em outubro de 1967, no dia seguinte a uma acalorada discussão com Franklin de Oliveira sobre uma possível alienação em suas duas últimas obras, Rosa teria enviado a Oliveira um bilhete "poético" comentando sua colocação :

“E, pois, mudando de prosa
o A estória contra a História
você,perjuro de Glória,
acho que não entendeu.
A História, ali, é o fato passado
em reles concatenação;
não se refere ao avanço da dialética, em futuro,
na vastidão da amplidão.
Traço e abraço. João”.



Considerando esta “explicação” rosiana, percebemos a colocação de Rosa de forma mais complexa, não como uma negação completa da história, mas como se a estória fosse o reflexo da história no espelho da construção ficcional ...

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

GUIMARÃES ROSA POR GUIMARÃES ROSA

Tive acesso a uma carta de Guimarães Rosaa seu tradutor para o francês, disponível no Arquivo do IEB USP, fundo Guimarães Rosa...
Trancrevo aqui um trecho que achei interessantíssimo :

"Quase todas as expressões empregadas no Primeiras Estórias não são tiradas da linguagem comum, mas sim criadas por mim, de toutes pièces -de modo que,também para oleitor brasileiro elas soam novas,estranhas, completamente inéditas. Por isso mesmo, e se tratando de estórias muito curtas, essas tournures nãopoderiam ser omitidas (nem vertidas para fórmulas usuais do outro idioma) sem prejuízo,tudopodendo resultar em mole, frouxo, incolor, sem valer a pena. (...) "

"Parabéns pela 9a netinha: que todas as gentis Fadas rodeiemo berço da pequena Sophie! A vida tem horas bonitas,e cheias de compensações."
Rio de Janeiro, 1964