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segunda-feira, 21 de março de 2016

Cortesia literária


Em 08 de março de 2016 eu recebi um e-mail da editora Tordesilhas me oferecendo como cortesia  o  romance "O arco de virar réu", recém lançado e em fase de divulgação,  e isso porque eu havia comentado nesse post aqui um livro de Marcelino Freire, autor que também comentou positivamente o lançamento. Aceitei, claro , e no sábado dia 19 de março recebi o exemplar pelo correio. 

Diz a capa que o romance conta a história de um historiador social, interessado em sociedades indígenas, e seus encontros com a loucura, e eu não sabia o que esperar. Ai ontem fui  começar a ler e, que delícia; estava diante de um texto literário! Logo nas duas primeiras páginas  Antonio Cestaro me jogou no olho do furação, comentando literariamente algumas  metodologias  do historiador da cultura. Como é belo, como é importante para o historiador, copio logo o  longo trecho inicial do romance, que ainda estou ruminando internamente, os destaques são meus:

“...Eu dizia a ele que a dobradiça havia cedido ao peso do tempo e ao inabalável apetite de cupins de incontáveis gerações. Que o vão da veneziana caída e entreaberta projetava um facho de luz poeirento no quarto emudecido por tempo de difícil constatação. Que quem ali passava vislumbrava uma janela velha numa casa em ruínas, recuada e parcialmente recoberta pela vegetação outrora tratada como jardim. Mas também queria fazê-lo entender que, para mim, mais que isso, a ruína consistia na fagulha que acende o fogo, na água que desloca o monjolo, na queda, no choro, na semente e no troco apodrecido. A parte e o todo num único fragmento ou no transcurso de uma existência.  (p.9)
Dou expediente na observação  da relevância dos pequenos sinais e na observação da relevância dos pequenos sinais e na perseguição de histórias sem valor histórico, da memória de logradouros que não dizem muito a ninguém, e chego amiúde a raízes originais impregnadas de cultura tupi, o fim da linha  para quem foi ou apenas o começo para quem volta. Trabalho o efeito do tempo na matéria, o que torna as velharias o meu ponto de partida constante. Perpasso, através da biografia dos objetos, ocorrências regulares e tragédias, aletra para identificar o momento exato em que o sopro cruel que a todos assombra apaga impiedosamente a chama que mantém a vida. (p.10)” 

... com certeza meus olhos estão brilhando muito nesse momento. :)
Muito obrigada pela cortesia editora Tordesilhas, muito obrigada Antonio Cestaro, estou feliz de novo!

Em tempo:Uma coisa que quero  deixar de deixar bem claro é que, já que esse livro chego até mim porque comentei o ótimo romance do Marcelino Freire, devo dizer que para mim o Antonio Cestaro faz um uso muito mais elaborado da linguagem literária do que o próprio Freire (pelo menos no romance "Esses Ossos"). Me lembro de quando comecei a ler o "Ver:Amor" do David Grossman com certa má vontade, achando que leria mais um depoimento sobre a crueldade do holocausto, mas me deparei com outra coisa: um texto literário, e dos melhores!

domingo, 16 de fevereiro de 2014

Nossos Ossos, Marcelino Freire



Um aperitivo do texto de Marcelino Freire, um profundo estranhamento, menos de linguagem do que de circunstância... é um texto duro, duríssimo, mas necessário:

"Fazíamos teatro com as vértebras, com os trapézios, lisos e carecas, a gente limpava o que tivesse ficado de pelo e pele, dos restos alheios eram construídos brinquedos, bolotas de fibras fósseis, nossas rodas, moeda de troca, às vezes eu saía por detrás da cacimba vestido igual a um cangaceiro.
Capa de couro bovino, espada de fêmur, saiote de cóccix e uma máscara natural, a minha cara borrada de carvão, gesticulava feito um demônio, assustava a todos com a minha voz de trovão saída do estômago, EM PÉ, EU, SOBRE UMA PEDRA, NO DESERTO QUE FOI A MINHA INFÂNCIA.
Minha dramaturgia veio daí, hoje eu entendo, desses falescimentos construí meus personagens errantes, desgraçados mas confiantes, touros brabos, povo que se põe ereto e ressuscitado, uma galeria teimosa de almas que moram entre a graça e a desgraça."
Marcelino Freire. "NOSSOS OSSOS", p. 26-7

 É a mesma coisa, só que diferente, talvez, mas não pude deixar de lembrar da famosa foto de Sebastião Salgado, mostrando crianças brincando com ossos de animais mortos durante uma seca no nordeste na década de 1980:


... referências e mais referências...