BALANÇO DA FLIN 2026: Como sabem, acompanhei a Feira Literária Internacional de Niterói, a FLIN. Eu estava em Niterói, mas apenas para isso, então não deu para acompanhar o evento o tempo todo. Mesmo assim, fiz questão de ir um pouco todos os dias.
Logo descobri que não conseguiria escolher as falas. Tudo muito concorrido, ingressos esgotados, especialmente os mais disputados, como Jefferson Tenório. Mas eu ainda tentei. Consegui assistir a Ana Maria Machado e Luiz Antonio Simas, e não me arrependi. Não consegui ver Ondjaki. Mas acompanhei mesas muito interessantes sobre arquivos de escritores, com o Fabrício Carpinejar, histórias para crianças e Guimarães Rosa, meu amor!
De tudo, destaco o autógrafo da Machado, que a menina leitora Camila esperou tantos anos e mereceu!
Viva Camila!
Assisti Fabrício Carpinejar numa fala mais motivacional e menos poética do que eu gostaria, mas fez sucesso.
Depois, a fala emocionante de Luiz Antonio Simas. Bateu uma saudade da História, de gostar de História, da cultura popular, do Brasil! Chorei mesmo!
No último dia, Dunker e os questionamentos sobre sermos humanos: problemas do nosso século. De todos os séculos.
E, no final, a leitura de trechos de Grande Sertão: Veredas, incluindo a morte de Diadorim: "não escrevo, não falo, para assim não ser". E tocou "Na Primeira Manhã", do Alceu Valença. Chorei mesmo!
Que maravilha de festa, FLIN! Já me inspirou a comprar dois livros no sebo: A Audácia Dessa Mulher, da Ana Maria Machado (só 10 reais!), e A Reinvenção da Intimidade, do Dunker, para aprofundar questionamentos sobre nossa humanidade nestes tempos que vivemos.
Mandei o PDF da minha tese/livro sobre as estórias de Guimarães Rosa , defendida na área de História em 2014. Vejamos os comentários....
CHAT GPT:
Entre História e Literatura, esta pesquisa parte de uma aposta: não olhar apenas para o texto final, mas para os processos de escrita.
Em Escrevendo a lápis de cor, leio a partir de um conjunto heterogêneo de fontes: as estórias publicadas nos anos 1960, seus cadernos manuscritos preservados em arquivos públicos e uma correspondência singular — cartões-postais desenhados trocados com sua neta ainda em fase inicial da linguagem.
É nesse trânsito entre materiais que a tese se constrói. Ao invés de separar obra, rascunho e vida, o trabalho os coloca em relação, revelando uma escritura em movimento — fragmentária, experimental, muitas vezes próxima da lógica infantil de lidar com a linguagem.
A partir dessas fontes, a tese tensiona uma questão clássica: se a História tende a organizar o tempo em narrativas lineares, as “estórias” rosianas operam como interrupção — deslocando sentido, desmontando cronologias, abrindo espaço para o imprevisto.
A infância, nesse contexto, não aparece como tema, mas como chave de leitura: uma forma de relação com a linguagem marcada pela invenção, pela instabilidade e pela recusa de significados fixos.
O risco — e também a potência — está aí: ao privilegiar o processo, o fragmento e o inacabado, a análise exige do leitor uma postura menos passiva, mais próxima de quem também experimenta a linguagem.
No limite, a tese sugere que compreender não é apenas interpretar suas obras, mas acompanhar os gestos de sua escrita — onde História e Literatura deixam de ser campos opostos e passam a se constituir mutuamente.
Gemini (gostei mais)
Esta tese de doutorado, intitulada "Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na escritura de Guimarães Rosa", defendida por Camila Rodrigues em 2014 na USP, apresenta uma contribuição original ao campo da História Social ao investigar a produção rosiana da década de 1960 — as chamadas "estórias" — sob a ótica da infância e da ficcionalidade.
Abaixo, apresento um comentário crítico focado nos pontos solicitados:
1. A Relação entre História e Literatura
A pesquisa rompe com a dicotomia tradicional que separa a História (domínio da verdade factual) da Literatura (domínio da invenção).
Mediação pela Ficcionalidade: A autora utiliza o conceito de "ficcionalidade" como uma instância mediadora. Ela propõe que tanto o discurso literário quanto o historiográfico são construções narrativas, e que a escritura de Rosa, ao questionar o tempo linear, dialoga profundamente com as reflexões da historiografia contemporânea sobre a narrativa.
A "Escritura a Lápis de Cor": O título metáfora faz referência ao uso físico de lápis coloridos por Rosa em seus manuscritos, simbolizando uma função transitória e imaginativa que desafia o "peso da temporalidade" e a rigidez da História tradicional.
2. O Uso de Fontes e Arquivos Públicos
Um dos pilares da tese é o rigoroso trabalho de pesquisa em arquivos, indo muito além dos textos publicados.
Acervos Consultados: A pesquisa baseou-se em materiais do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB/USP) e da Fundação Casa de Rui Barbosa (FCRB).
Os Cadernos Manuscritos: Foram analisados cerca de 30 cadernos, divididos em séries de "Estudos para a obra", "Anotações" e "Anedotas". Nesses espaços escriturais, a autora "flagrou" o processo de criação de Rosa, onde o registro de falas de terceiros e rascunhos de linguagens revelam uma escrita caleidoscópica que se alimenta do cotidiano e do espontâneo.
3. A Correspondência com as Netas (Vera e Beatriz)
O trabalho destaca uma fonte documental inusitada e de grande valor sensível: os cartões-postais trocados entre Rosa (o "Vovô Joãozinho") e suas netas Vera e Beatriz Helena Tess, na década de 1960.
Diálogo com a Infância Real: Essa correspondência (publicada no livro Ooó do vovô) mostra Rosa tentando estabelecer comunicação com crianças de 3 a 4 anos que ainda não dominavam a norma culta da língua.
Laboratório Linguístico e Afetivo: A autora analisa como Rosa atuava quase como um "secretário" da neta, transcrevendo as falas dela e interagindo com seus desenhos. Esse exercício privado de flexibilidade linguística é visto como um reflexo da busca do autor por uma "visada adâmica" — uma relação com a palavra que precede os significados pré-estabelecidos, típica do universo infantil que ele explorou em obras como Primeiras Estórias.
4. Conclusão do Comentário
A tese demonstra que a infância em Guimarães Rosa não é apenas um tema literário, mas uma experiência cultural e de linguagem. Ao utilizar fontes primárias manuscritas e documentos pessoais, a pesquisa prova que o processo criativo de Rosa era um fenômeno histórico em si, onde a "linguagem hermética" do autor se encontrava com a pureza e a ausência de normas da fala infantil.
A conclusão do Gemini é o qyeveu queria destacar: a infância , na escritura (termo de crítica genética) de Guimarães Rosa é um artifício de uso da linguagem, rumo a um resultado mais criativo, de qyem está vendo o mundo pela primeira vez, como uma criança.
DARK — Terminei de assistir a serie alemã e pirou meu cabeção!. Apesar do tema viagem no tempo ser muito batido, definitivamente ela se destaca. Passando-se em uma cidade alemã fictícia, onde está instalada uma usina nuclear, a história começa em 2019, quando o jovem Jonas tenta se recuperar da morte do pai, que se enforcou, enquanto outros garotos desaparecem, o que dá o mote para investigações nesse e em outros tempos.
Primeiro, um comentário técnico: que fotografia perfeita. Acompanhando o clima de tensão da série, é tudo sempre muito escuro: usina nuclear, bunker, floresta, cavernas... e chove tempestades na maior parte do tempo. Para completar a ambientação, uma atenção uma trilha sonora incidental precisa, que imita discretamente uma sirene, nos fazendo lembrar que estamos perto da usina.
Foto da tela :"O homem pode, de fato, fazer o quer, mas não pode querer o que quer" Uma epígrafe
Sobre a série em si, não esperem que eu faça nenhum comentário “explicativo”: há gente que está vendo há anos e ainda tenta entender. É que a ideia é muito boa, sustentada por teorias da física e da filosofia (alemães, né?), para colocar o Tempo como o vilão da trama. Claro que me lembrei da minha dissertação de mestrado sobre a negação do tempo e da história em Tutameia, de Guimarães Rosa. Muitos símbolos, muitas ideias.
Ele não é citado na série, mas me lembrei muito da Wakter Benjamin assistindo. Especialmente do conceito de Jetztzeit : o passado irrompe no presente como um relâmpago e ilumina presente passado futuro por alguns segundos.
Mais a cara de Dark que isso não há!
A série é boa de assistir? Depende muito do tipo de espectador que você é. Como é labiríntica, digamos que não é só entretenimento: é preciso prestar muita atenção para tentar entender a trama, a árvore genealógica e, mesmo assim, toda hora nos perguntamos, junto com os personagens, muitas vezes tão perdidos quanto nós: “o que é isso?”, “quem é esse?” e, sobretudo, “quando foi isso?”.
Como história bem contada, tem muitas referências, como o teatro, o mito de Ariadne e cientistas, além de inúmeros detalhes. Soma-se a isso o fato de que todo mundo tem a mesma cara (alemães iguais) e cada personagem tem sua versão jovem, adulta, idosa e até em outra dimensão, e a cada momento estão em um tempo diferente. É muito bom para se confundir!
Como eu maratonei as três temporadas seguidas e, mesmo assim, me confundi, imaginei como foi assistir em tempo real, esperando dias, meses ou até um ano para a continuação. Dureza...
Mas é muito boa. Uma das melhores surpresas que o streaming me ofereceu!
A foto podia mostrar mais detalhes Só pra quem viu ao vivo
Como sabem pesquisei Guimarães Rosa por cerca de uma década, fiz mestrado e doutorado sobre e sei que nem arranhei decifrar aquilo tudo. Quando li o autor japonês Kawabata observei algumas aproximações que devem ser devido ao “espírito do tempo” -escritos dos anos 1940/1950- , pois nunca vi nada sobre o Japão ou japoneses no acervo ou biblioteca de Rosa. Já sobre a China, vi muita coisa, talvez porque a história de Brasil e China não derive da época da imigração no século XX, como acontece com o Brasil e o Japão, mas de muito antes. Segundo Leyla Perrone Moisés, no artigo “Orientalismo e orientação em Guimarães Rosa” (2000), a influência chinesa nas artes coloniais brasileiras já ocorria desde tempos mais remotos, em especial no estado de Minas Gerais (...) , devido à intensa circulação de pessoas e de cultura no interior do vasto Império português, e à concentração de suas riquezas nessa região." Como Macau também foi colônia portuguesa desde 1557, e no século XVIII Minas era a colônia mais rentável, é compreensível que, apesar de tão distantes geograficamente, para a metrópole, elas fossem uma terra só, uma terra deles. Embora eu não conheça muitos escritos sobre a passagem dos chineses no Brasil colônia e isso é mais uma história de apagamento cultural, no caso dos amarelos em beneficio da dos brancos, é sempre bom lembrar que ela existiu, a prova é essa foto (muito mau tirada e escura, mas...) de dentro de uma igreja de Sabará com muita influência oriental. Mas e Rosa, onde entra nessa história? Ele percebia as marcas dessa influência tão longínqua em sua terra. No final da década de 1960 publicou em seu livro “Tutaméia” (1967) uma das suas estórias mais graciosas, chamada "Orientação", a estória do cozinheiro "Yao-Tsing-Lao - Facilitado para Joaquim. Quim" ,figura de "mínimas mímicas", chinês que acreditava que “esperar é um à toa muito ativo”, e assim vive um amor atribulado com a sertaneja Rita Rola,-Lola ou Lita, “feia de se ter pena de se por em espelho”, mas havido o de haver. “Cheiraram-se e gostaram-se”. E “Yao amante, o primeiro efeito foi Rita Rola semelhar mesmo Lola-a´Lita- DESENHADA POR SEUS OLHARES. A gente achava-a de melhor parecer, senão formosura (...) O chino imprimira mágica (...) Casaram-se: “nôivo e nôiva: o par, til no i, pingo no a” (o “chapéu” nos noivos e a troca na acentuação das letras é brincadeira do menino João Rosa, adoro). Não vou dar spoiler do conto, só recomendar a leitura mesmo. Faço isso porque, nesse momento, para além da literatura, a China é a bola da vez. Nessa realidade distópica que se inaugura em 2025, não é que de trás de um biombo, surge a enorme e milenar China para mexer as peças do tabuleiro mundial? A China, que esteve ali há tempos, confiando que, como quis Rosa, “esperar é um à toa muito ativo” !
Ganhei esse livro de natal de uma amiga minha de anos que viu quando eu disse que seria uma leitura que eu queria fazer em 2025. Chegou em casa no dia 29 de dezembro de 2024 e foi uma festa, mas eu só iria começar a ler no ano novo, como de fato aconteceu.
Quanto carinho
Carlabê, segundo romance da Isabela Noronha, é sobre a amizade entre a radialista Saramara, a narradora do livro, e a jovem Carlabê, que dividiam um apartamento no centro de São Paulo, até que Carlabê some, enquanto um corpo jaz em frente ao prédio onde elas moraram. O livro trata de muitas questões inseridas nessa narrativa simples, que vão desde o cunho pessoal, como a problemática feminina, até questões histórico sociais como a gentrificação no centro de São Paulo. Seguindo a Wikipédia, o conceito de gentrificação seria :
Como esse processo afetaria a vida de duas mulheres que vivem sozinhas em um bairro central, mas de constante valorização, como o Santa Cecilia é o tema central do romance.
AS VOZES
Outra questão que eu destaco é a própria escrita de Noronha, expressa em uma narrativa polifônica, mito contemporânea , cuja voz principal é a de Saramara, que relata a um interlocutor desconhecido, tudo o que sabe sobre a amiga Carlabê, que está sumida. A voz do interlocutor, que conhecemos só através das respostas de Saramara, destaca mitas questões que nós leitores vemos nos fazendo a partir da fala ininterrupta de Saramara, ou seja, ele é uma espécie de espelho do leitor. Essa opção pela narração depoimento oral, a um interlocutor mudo, para mim , como leitora, lembra demais a estrutura narrativa do Grande Sertão: Veredas, embora a diferença de linguagem seja evidente. Depois voltarei a falar do romance de Rosa a partir de uma citação que recolhi do Carlabê, mas aí será outra história, por hora cabe destacar que a voz de Saramara, e do seu interlocutor mudo, é a alma desse livro, é tão vivaz e não muito confiável quanto Riobaldo,o que me atraiu muito. Além da propria autora, eu ainda quase não ouvi ninguém sobre o Carlabê, por isso esse texto é bem unilateral. Li apenas ESTA RESENHA, escrita pela baiana Edna Góis, que é muito boa e traz relações literárias mais contemporâneas que eu desconhecia e vão além da referência ao clássico rosiano.
Outra voz do romance é a da própria Carlabê, uma jovem solitária, com pouco estudo, que trabalha subempregos para tentar permanecer morando no centro de São Paulo e tem a história marcada por eventos de toda jovem mulher, é assediada, sofre com gravidez indesejada, etc. Quando o romance começa e ela está sumida "há mais de uma semana", ela já não morava mais com a amiga Saramara, mas ainda trabalhava num açougue na região do largo de Santa Cecília. A voz de Carlabê é ouvida no romance através das cartas a seu irmão Abelardo, que escreve em seu caderno, que está então em posse de Saramara. O conteúdo das cartas de Carlabê é o oposto da narrativa horizontal de Saramara, mas é uma voz audível no romance: o que diria, se pudesse ser ouvida, aquela jovem garota.
Talvez a voz feminina mais audível ao leitor, é a da cidade em pleno processo de modificação contante, que produz ruídos o tempo todo, falando alto e também calando o que ainda não deve ficar claro. Com esse artificio arriscado , Noronha aposta em uma das mais interessantes representações literárias da cidade de São Paulo que conheço.
Eu escolhi alguns poucos trechos interessantes do livro que gostaria de colar aqui, discutindo essas questões acima levantadas.
A VOZ DA CIDADE
"Essa poeira no ar é a verdadeira notícia, eu acho. Ela embaça a vista, de noite então é um véu mais grosso,um véu sobre o véu da noite. Aqui no centro é ainda pior. É o pior lugar da cidade,o pior. Já mediram,trouxeram o aparelho que mede as partículas do ar. Trouxeram aqui e não deu outra , é o pior lugar para se estar. Respirômetro: se escreve como se fala.(***) Não é à toa (tosse tosse). E agora um corpo. Vem debaixo do nosso nariz e da janela da sala, debaixo também da lona da polícia e logo mais debaixo da terra. Sete palmos. Sete palmos uma ova, que estamos no Brasil. Isso dá o quê? (***) Cento e sessenta centímetros, obrigada. Um metro e sessenta, uma de mim inteira abaixo do chão. Enterrada de pé. Se é essa a medida. Alguém já confirmou com um coveiro? Quanta porcaria repetimos e repetimos. (Buzina, bate-estacas). Esqueça. Isso não muda nada. Está aí o cadáver."(p. 20)
"A cidade, o que ela quer dizer, jovem? Este barulho, o som, não para, ela não permite silêncio. Ou pior: o que ela cala com seus gritos? Hein? Fala por cima da gente." (P. 55)
"Venha, sente-se, sente-se. À vontade, jovem. Descruze essas pernas, relaxe. Ouça a cidade. [bate-estacas, pássaros, choro de criança, vendedor gritando ofertas, martelete].Você ouve? Vida, jovem, vida! E Carlabê lidando com a morte, cheirando a morte, cotando morte, moendo a morte, jovem! Vendendo a morte rodo dia. (74)
CORPO ESTENDIDO NO CHÃO, A MORTE DA CIDADE
"Veja a última vez. O corpo solo, no solo. Ali jaz. E a cidade jaz também ao redor. A cidade jaz há mais tempo. Sem o direito de ser enterrada. Ou talvez seja essa a função de todo esse pó. Colocar sete palmos sobre ela, deixá-la descansar. Mas o corpo agora está tão só, protegido pelo manto (serra policorte,ininteligivel ) em frente à papelaria (***) Não vou o cartaz plotado na porta? Xerocan,imprimem e plastificam. Mas tem que vender brinquedos também. Não prevejo um bom dia de vendas. O que você acha? Ou o corpo vai é chamar mais gente ali, não sei. Vou confessar: tenho vontade de fazer companhia a ele. Por que esses olhos tão grandes,jovem? É só carne." (P. 29)
"Carta
No caminho pra cá cinco quadras quatro
obras
Sem ninguém prédios no
Esqueleto
Vem dessas obras o pó do ar saramara falou
Respirar dói esse vento gelado em nenhum
momento você
Pensou que ia pegar para mim abelardo
roubar o açougue
Roubar o golsalves é me roubar porque eu e
o
Gonsalves
Fico inacredo contigo " (p.54)
"Esse pó,
essa areia (tosse tosse).É assim também no seu
bairro? Sabe, não é só das construções, do chão sendo remexido e
perfurado para subir mais um prédio. É também daqueles que estão virando ruína,
dos micropedacinhos se soltando da velharia sem manutenção que tem aqui."
(P.175)
"...eu só
percebendo a inquietação, a água começando a fazer bolhas dentro dela,pronta
para subir fervura. Carlabê querendo sentir que cabia, que se encaixava em
algum lugar" (p.116)
OUTRAS REFERÊNCIAS
AO GRANDE SERTÃO?
"Este
bairro me mastigou, me engoliu, me cuspiu outra. Uma autóctone." (Carlabê, P.45)
"“O
sertão me produziu, depois me engoliu, depois me cuspiu do quente da boca.” (Grande Sertão: Veredas)
À BLITZ
"Carlabê,
agora desapareceu, sumiu, escafedeu-se, minha Arlinda Orlanda. Volte! Volta pra
casa."(93).
COISAS DE MULHERES
" Carrego lenços na bolsa, essa é a lição número 3, jovem. Sempre
carregue lenços, eles limpam lágrimas e todo tipo de sujeira. Mantém suas mãos
imaculadas.,(p. 181)
"...eu só percebendo a inquietação, a água começando a fazer bolhas dentro dela,pronta para subir fervura. Carlabê querendo sentir que cabia, que se encaixava em algum lugar" p.116
MARCAS DA LEITURA
A leitura do romance foi rápida, durou entre 3 e 7 de janeiro, marcada por postagens muitas vezes musicais das redes sociais. Nelas eu expresso algumas questões que me ajudam a formar um desenho do romance. Depois, como boa leitura, reverberou no meu pensamento :
3 de janeiro
CARLABÊ:Comecei a ler apenas as primeiras paginas ontem,por enquanto ainda não estamos flanando pela cidade, estamos no apartamento onde Carlabê morou com Saramara. Por hora só ouvimos um áudio de Saramara conversando com um interlocutor que grava a conversa sobre Carlabê. É uma leitura saborosa, escrita instigante, nada linear, requer muita atenção para saber quem está falando, quem está ouvindo ... É cheia de sons (a narrativa é cortada pelo som de ônibus, de carro de polícia, etc), de cheiros. Saramara explica que Carlabê trabalhava em um açougue e tudo que ela não queria era ficar cheirando carne, por isso emanava outros cheiros:
"Sente o cheiro? Baunilha, lavanda, frutinhas. Principalmente baunilha. O cheiro dela. Você sabe, o cheiro são moléculas que se desprendem de algo. Então, nesse sentido, ela segue aqui, sim." (P .11)
4 de janeiro
CARLABÊ: Saramara, uma jornalista sessentenária , e a jovem Carlabê ,que está desaparecida, moraram juntas num apartamento no bairro de Santa Cecília, mas não têm parentesco, são amigas , se ajudam, são companheiras. O que as une de verdade é a situação: duas mulheres sozinhas no centro da "maior cidade da América do Sul"("Sassa" canta Baby trocando "melhor cidade" por "maior cidade"). Elas "usufruem" de alguns "benefícios" como poder ir trabalhar a pé, caminhando pelo chão do centro, onde são vizinhas dos "mendigos, esses que abrem mão de um teto em outra parte 'da maior cidade', mas não abrem mão do chão, deste chão. Deste bairro. Do centro."(P.51)
O livro está se mostrando como uma espécie de raio-x de um viver no centro, como eu esperava encontrar. A narrativa é polifônica e a voz da cidade é a mais constante, pois a escrita de Noronha é bem contemporânea... Estou gostando muito, sentindo cada vez mais forte aquela agonia de ser uma mulher engolida pelo centro da "maior cidade" .
Sobre "Carlabê", Isabela Noronha. São Paulo: Cia das Letras, 2024
5 de janeiro
CARLABÊ: "Carlabê, agora desapareceu, sumiu, escafedeu-se, minha Arlinda Orlanda. Volte! Volta pra casa."(93).
Saramara é uma narradora sensacional, a alma desse livro! Eu sabia que esse "Arlinda Orlanda" era uma referência oculta (o livro tem algumas delas, eu amo), mas demorei tanto pra lembrar de onde veio:"Estou a dois passos do paraíso", da Blitz!
6 de janeiro
CARLABÊ: Faltam pouquíssimas páginas para o fim, não estou sabendo lidar com o fato de que logo vou me despedir da narrativa de Saramara, ou que até essa altura nada, ou quase nada, está claro para mim nessa história. Talvez termine assim, em aberto. Tomara que não, é um livro sensacional, merece um final! Vamos ver ...
7 de janeiro
CARLABÊ: Como havia adiantado, realmente terminei de ler meu primeiro livro do ano ontem. Em geral, pela sua escrita performática, posso dizer que é um livro literalmente sensacional, que causa sensações, porque não está totalmente pronto e coloca o leitor pra "trabalhar" a cada linha , para "completar", para ler cartas, ouvir os incômodos ruídos da cidade, a tosse, os silêncios cortando o texto o tempo todo! No fim me diverti, me emocionei e já estou com uma baita saudade! Saudade de cantar com Saramara, saudade do "pé do todi" (essa só entende quem leu), saudade do chão de Santa Cecília ,saudade de perfume de baunilha de Carlabê, saudade do seu "fodace"! Esse é só um texto curto de primeiras impressões,mas selecionei alguns trechos ótimos sobre a cidade,sobre o centro, sobre a vida e devo usar como norte do texto maior sobre ele que escreverei no Pequenidades. Dessa vez não vou deixar passar meses,juro!
9 de janeiro
"OUVINDO" AUTORES NO INSTAGRAM: Como sempre digo, uma das coisas que mantém ativa minha conta no Instagram é a possibilidade de, eventualmente,me comunicar com autores que estou lendo. Não que seja essencial, afinal sempre prefiro ler a obra antes de ouvir o autor, mas é um deleite: acabo sempre conferindo se tem perfil do auto(a), quando tem, observar como se comporta com os leitores, etc. Embora eu comente em postagens as leituras em seu solitário decorrer, nunca marco o autor(a). E quando o livro é muito impactante eu mesma nem desejo falar nada,mas sempre acabo aprendendo alguma coisa acompanhando perfis de autores.
No caso de Isabela Noronha, autora de "Carlabê", eu soube do livro ouvindo ela falar dele, sobre "gentrificação no Santa Cecília" (atentei de cara para esse masculino) numa entrevista. Primeiro ouvi a autora. Agora, depois de meses desejando ler, ganhei de natal, li e fui assistir novamente aquela entrevista: Foi muito bom conseguir visualizar melhor, tanto o projeto literário de Isabela, quanto o próprio romance Carlabê. Nesse caso, ainda não sei se já quero comentar minha leitura com ela, tenho vergonha, embora ache que ela, uma autora de oficinas literárias, do tipo que gosta de ouvir leitores, adoraria saber que também achei seu livro "estranho"(ela adorou quando disseram isso). Eu é que ainda preciso digerir melhor.Fica o registro...
Aí fiquei namorando meu exemplar tão bonito
Que leitura, meu amigos. Agora que escrevi esse post enorme sobre o maravilhoso primeiro livro do ano, já posso embarcar no segundo. Veremos ...
Só porque descobri o Canal do Hamilton de Holanda no YouTube,onde ele faz interpretações de canções populares brasileiras, assisti a esse video
Então fui me lembrar de quando ouvi esse álbum na vida.
Lançado em 1973, Matita Perê é considerado por alguns o álbum mais sofisticado de Tom Jobim, o auge da sua versão "ecologista", o disco dedicado a Guimarães Rosa (que parece na ambientação de faixas como "Águas de março" e é citado nominalmente em "Matita Pere", um 'chamado João') , ouvi muito, muito,muito durante minha pesquisa de cerca de uma década sobre as estórias rosianas. Gosto muito. 😍
Quando eu falo de ambientação ao modo Guimarães Rosa quero dizer uma observação mais apurada do que se ouve e do que se vê, em Rosa de "ouve" os sons dos pássaros, Tom Jobim se "vê" flashs da natureza tipo "é um resto de mato, é um pouco sozinho...) Amo muito 💕
SEM TEMPO, IRMÃOS: Lendo o livro de contos de Lygia Fagundes Telles (minha contista brasileira favorita) penso como cada pedacinho daqueles é,pode ser, um mundo que exige tudo de mim, percebo que não tenho tempo para informações que só me desconcentram. Guimarães Rosa estava certo, o tempo literário não é o cronológico, informativo. Literatura é muito maior e é dela que preciso.
Outra terça de terapia, Sesc e Instrumental. A terapia não foi tão pesada, a palavra chave foi a Esperança, a única coisa que eu tenho na vida! Eu me sentia péssima e não conseguia não aparentar na imagem, com olheiras e espinhas, embora a camiseta com Manoel de Barros seja linda
À esquerda com camiseta do espetáculo Crianceiras, que assisti no Teatro Ancheita há anos: "Tudo o que não invento é falso" Manuel de Barros. À direita, a foto em casa antes das 22 horas .
No sesc uma exposição em montagem, coberta por uma cortina
GIL GIL GIL : No Sesc Consolação a exposição sobre Gilberto Mendes está em montagem, protegida por uma cortina. Mas o entorno já está tudo preparado, paredes cobertas de GILberto...tomando minha sopinha, ouvi mais de uma vez : "Gilberto Gil?" 🤪 Dessa vez não, é outro Gilberto, que o Sesc Consolação vai nos apresentar... Estou no aguardo!
Dessa vez teve sopinha, como nas melhores terças:
De tomar rezando,como dizem
Ainda antes do show, umas imagens poéticas que o Sesc Consolação me proporciona
Um moço com um girassol 🌻. Para me lembrar que sou a Rainha de paus, a que carreta um girassol
Quando entrei no teatro: apenas um piano, majestoso :
O show foi uma delicinha de ouvir! No site do instrumental ele é apresentado assim:
Se quiser ver como foi, assista ao show completo:
Na hora comentei rapidamente sobre quem era Fábio Caramuru, que eu estava conhecendo:
"Fabio Caramuru: muitos sons de passarinhos. Lembrei muito de Guimarães Rosa, que registrou a sintonia da natureza na sua escrita, assim como Caramuru parte deles para as composições que ele próprio recomenda sejam levadas em consideração no processo de inicialização musical de crianças. Caramuru também comentou muito sobre Tom Jobim e a natureza do Brasil... Sai de lá cantando CORRENTEZA :
" E choveu uma semana e eu não vi o meu amor
O barro ficou marcado aonde a boiada passou ..."
Tá floda!
Hoje amanheci refletindo sobre o espetáculo de ontem:
TOM JOBIM ECOLOGISTA: No instrumental ontem, Fábio Caramuru, que compõe pequenas jóias musicais inspiradas em sons da natureza, falou bastante do meu amado Tom Jobim, que é um dos compositores mais lembrados no Instrumental SESC Brasil,, desde 2016, quando comecei frequentar. Mas Fábio falou do meu Tom favorito, aquele que, segundo ele, talvez tenha sido nosso primeiro compositor ecologista, o que podemos ouvir nos álbuns da década de 1970/1980, meus queridinhos "Passarim"(1987), "Urubu"(1976), "Matita Pere" (1973)- este dedicado ao Guimarães Rosa, inclusive, etc. Para mim foi um deleite ouvir. Mas não pude deixar de lembrar da minha decepção ao assistir ,no cinema, a um filme chamado "A música segundo Tom Jobim" (2012) , de Nelson Pereira dos Santos, e só ver como o Tom da Bossa Nova foi aclamado mundialmente na década de 1960. A parte do som refinado ao mais alto requinte, quase uma sinfonia natural, é apenas citada no finalzinho, como se a música segundo Tom Jobim fosse apenas aquela tietagem repetida à exaustão no documentário de 2012... Fabio Caramuru fez mais justiça ao imenso legado de Tom Jobim ontem. Gratidão
Assistir ao instrumental é sempre um respiro na minha semana! Vamos!