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sábado, 17 de dezembro de 2022

Seminário "Livros e histórias infantis II: Rússia e outras paragens

 


Foram deliciosas manhãs para eu voltar a USP e desenferrujar de eventos presenciais.

                                 (De cima pra baixo, da esquerda pra direita palestrantes do dia: Aurora Bernardini,  Karin Mellone, Raquel Toledo e  Ricardo Ramos Filho)

No primeiro dia, além da emoção de voltar à USP desde o fim do meu pós doutorado em 2017, o primeiro dia do encontro foi uma delicia completa. Rever presencialmente a professora Aurora Bernardini, que não ia se lembrar, mas eu jamais esquecerei que me ajudou tanto em 2005, quando eu precisei e ela me acolheu tão bem, sem nunca ter me visto pessoalmente, sem eu ser das letras. Que mulher maravilhosa! Fique muito feliz de reencontrá-la tão bem! Ela apresentou o evento, mas me deu uma dica de leitura e estudo preciosa sobre um livro que ela prefaciou, o "Contos da nova Cartilha", uma oficina literária com crianças, experienciada pelo escritor Liev Tolstói e os alunos de uma escolinha rural que ele criou na segunda metade do XIX e que, em certa parte, pode se parecer  com a oficina que ministrei sobre Guimarães Rosa e as crianças. No mesmo dia comprei um dos 4 livros escritos sobre a atividade e hoje ele  me chegou, estou louca pra ler, estudar
Contos da nova cartilha, Tolstói

Em seguida ouvimos a emocionante fala de Karin Mellone sobre a autora de livros infantis Tatiana Belinky. Karin é da área do teatro e conheceu Tatiana, trouxe livrinhos, leu trechos, mostrou vídeos de peças infantis, foi a fala mais emocionante para mim. Porque ela leu um trecho delicioso de "A menina transplantada", livro meio autobiográfico de Tatiana, eu também comprei e recebi ontem

Quando chegou eu tinha acabado
de sair do banho e fui logo fotografar

Fiz um vídeo lendo esse texto
mas não consigo mais postar vídeos aqui, então...

Depois ouvimos Raquel Toledo, uma jovem pesquisadora de literatura russa que falou sobre escritoras russas que eu desconhecia.
Enfim falou Ricardo Ramos Filho, neto do Graciliano Ramos, que falou sobre uma reconstrução do Brasil pós governo Bolsonaro e sobre Monteiro Lobato...
No dia seguinte eu já estava mais ambientada 

No segundo dia fui vestida de estudante
da infância, toda garotinha 👧

Tivemos as seguintes palestrantes

(De cima pra baixo, da esquerda pra direita, palestrantes do dia:
Isabel Lopes Coelho , Flávia Moino, Lúcia Hiratsuka e a dupla Daniela Montian e Erika Aoki) 

Isabel Lopes Colho falou sobre a experiência de ter editado os contos populares dos irmãos  Grimm pela Coscac Naify, que é uma das obras que eu tenho mais afeição de tão linda. Porém o melhor foi que ela nos mostrou um livro que nunca chegou a ser publicado, mesmo que a obra estivesse pronta, porque a editora fechou, que é uma antologia de textos de Alexander Afanasyev, o desconhecido "irmãos Grimm russo", que também montou uma coletânea de contos populares , que foi a maior influência para obras de conhecidas de autores referenciais como "Morfologia do conto maravilhoso",  escrita por Vladimir Propp. No fim desejamos que, um dia, essa ora chegue a ser publicada.

Depois continuamos a falar de Afanasyev, com Flávia Moino, que o pesquisou e nos introduziu a essa obra interessantíssima. 

Representações de Baba-Yaga
Personagem da cultura popular russa

Depois ouvimos a ilustradora  Lúcia Hiratsuka, que trouxe um pouco das belas ilustrações que fez para livros infantis
Algumas ilustrações de de Lucia

Por fim, a dupla Daniela Montian e Erika Aoki trouxeram um livro infantil dos anos 1920, não para ser lido, mas para ser construído pelos leitores 



Enfim, foi uma bela jornada pelo mundo dos livros infantis! Ame!



segunda-feira, 25 de setembro de 2017

Exposição História da Leitura infantil

Organizada pelas pesquisadoras de História da Leitura Patricia Rafaini e Gabriela Pelegrino. Super recomendo aos interessados pelo tema.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Sobre literatura infantil sec XIX e XX

Ao final da reportagem o trabalho de pós doc da minha grande amiga Patricia Raffaini é citado, muito sucesso! <3 span="">

Os precursores de Lobato
Livros para crianças escritos por autores nacionais já circulavam no final do século XIX
CARLOS FIORAVANTI | ED. 253 | MARÇO 2017
Capa de Versos para os pequeninos
No final de fevereiro, os Versos para os pequeninos foram finalmente publicados, depois de permanecerem inéditos por pelo menos 120 anos. Com 24 poemas infantis escritos entre 1886 e 1897 pelo bacharel em direito e educador fluminense João Köpke (1852-1926) e resgatados por pesquisadores da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), os Versos somam-se a descobertas de especialistas de outras universidades do país que revelam os autores nacionais e os mecanismos de funcionamento do mercado editorial de livros para crianças no final do século XIX e início do XX. A articulação entre editores, escritores, divulgadores e leitores começou a se formar décadas antes da publicação, em 1920, de A menina do narizinho arrebitado, o primeiro livro do escritor paulista José Bento Renato Monteiro Lobato (1882-1948), autor de uma obra ampla e reconhecida (ver Pesquisa FAPESP no 157 e Especial 50 Anos). Estudos recentes reiteram a conclusão de que Lobato modernizou a literatura infantil brasileira, mas não a criou, diferentemente do que diziam pesquisadores e escritores do passado. Um de seus primeiros biógrafos, o escritor paulista Edgard Cavalheiro (1911-1958), em um comentário bastante citado em estudos nessa área, afastou os precursores ao afirmar que antes de Lobato “a literatura infantil praticamente não existia entre nós” e “havia tão somente o conto com fundo folclórico”.
“Em carta de 1919 para um amigo, Lobato comentou que não havia nada para ler para os filhos dele a não ser o livro de fábulas de João Köpke. Ele se referia à qualidade das obras disponíveis, adaptações de obras europeias e mesmo livros de autores nacionais, mas não é a verdade absoluta”, diz Marisa Lajolo, professora da Unicamp e da Universidade Mackenzie, que retoma esse assunto no livro Literatura infantil brasileira: Uma nova/outra nova história (FTD-PUC Press, 2017), a ser lançado em abril, em coautoria com Regina Zimmermann. “Em 1920, Lobato recebe da gráfica que estava imprimindo a primeira edição de Narizinho arrebitado a informação de que o Primeiro livro de leitura, de Köpke, serviria de modelo para a impressão da história do sítio.” Segundo ela, Lobato fez mudanças radicais na literatura infantil, “como os modernistas de 1922 fizeram na literatura adulta”, e a partir da década de 1930 teve muito mais visibilidade que qualquer outro autor antes dele.O filho mais velho de Köpke, Winckelmann Köpke (1886-1951), foi quem inicialmente guardou o original de 54 páginas de Versos para os pequeninos, já com os poemas manuscritos organizados em sequência e as respectivas ilustrações de página inteira, recortadas de outros livros, para servir como referência a quem as refizesse. Provavelmente Winckelmann o entregou a seu filho José, que o deixou com sua filha mais velha, Maria Izabel Köpke Ramos, bisneta de João Köpke. Uma das irmãs de Maria Izabel, Maria Lygia Köpke Santos, mencionou o livro em sua tese de doutorado, apresentada em 2013 na Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas (FE-Unicamp). Depois ela entregou os originais a sua orientadora, Norma Ferreira, professora da FE-Unicamp. Norma analisou os Versos em sua tese de livre-docência, apresentada em 2014 e agora publicada na forma de livro, com os poemas.
Depois de construir uma carreira respeitada de educador em escolas das cidades de São Paulo e Campinas, Köpke se mudou em 1886 para o Rio de Janeiro e criou o Instituto Henrique Köpke, assim chamado em homenagem a seu pai. O instituto era uma escola particular, que funcionou até 1897 e servia para ele lançar seus próprios livros de alfabetização e de leituras para crianças. Foi como diretor do instituto que Köpke se apresentou na abertura dos Versos, em grandes letras manuscritas. De acordo com Norma, seu propósito com o livro era oferecer uma leitura agradável para as crianças e aplicar o método analítico de alfabetização, que ele tinha desenvolvido em outros livros, o primeiro deles publicado em 1884 pela Francisco Alves.
Leia mais:
Os poemas consistem em histórias alegres e rimas simples, tratando da Lua, de avós, brincadeiras, brinquedos, animais e canções das crianças (leia trechos do poema O balanço). “Versos para os pequeninos, de forma mais contundente do que em suas obras editadas, oferecem outra faceta de João Köpke: a de um escritor que quer conquistar a criança-leitora com uma representação do universo infantil que questiona o conhecimento, a verdade e a realidade”, escreveu Norma em sua tese de livre-docência.
A seu ver, a liberdade e a informalidade dos poemas não se encaixavam nas propostas pedagógicas predominantes no início do século XX, que valorizavam poemas edificantes e crianças bem-comportadas, como as do Livros das crianças, da educadora paulista Zalina Rolim (1867-1961), de 1897. “Köpke era bastante crítico das propostas educacionais daquele período, como o plano pedagógico, adotado para a criação do Jardim da Infância, que, segundo ele, apresentava salas superlotadas e fechadas, intervalos curtos entre as aulas e professores inexperientes”, diz Norma. “A irreverência nos poemas se tornou uma marca do estilo de Lobato, décadas depois.”
© REPRODUÇÕES EDUARDO CESAR
João Felpudo na capa da revista O Tico-Tico de 1925
João Felpudo no BrasilPor sua vez, já no final de sua pesquisa de pós-doutorado na Universidade de São Paulo (USP), a historiadora Patrícia Raffaini investigava jornais antigos no site da Biblioteca Nacional no início de 2016 quando encontrou o anúncio “João Felpudo – Histórias alegres para crianças travessas com vinte e quatro pinturas esquisitas” na edição de 4 de dezembro de 1860 do Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro. O anúncio era um registro da primeira edição de um livro de muito sucesso lançado na Alemanha em 1844. Escrito pelo médico Heinrich Hoffmann para seu filho de 3 anos, trazia ilustrações generosas e histórias breves de crianças que recebem castigos severos por não gostar de banho ou de sopa. Patrícia encontrava o tradutor original, o desembargador Henrique Velloso de Oliveira (1804-1861), possivelmente um dos responsáveis pela adaptação do título original, Der Struwwelpeter, cuja tradução literal resultaria em Pedro descabelado.
Patrícia encontrou depois outros anúncios de João Felpudo no Jornal do Commercio, indicando uma das formas pelas quais a Editora Laemmert promovia a venda dos livros. Em 1894, como ela já tinha verificado, o editor fluminense Pedro Quaresma (1863-1921), dono da Livraria do Povo, investiu em anúncios de meia página para promover o relançamento de uma produção nacional, Contos da carochinha, já que os 5 mil exemplares da primeira edição teriam se esgotado em menos de um mês. Contos da carochinha inaugurava uma série de livros organizados pelo jornalista carioca Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914) com o propósito de apresentar em uma linguagem coloquial as fábulas de autores europeus, com animais falantes, lobisomens, santos e fadas. Com esses livros, Quaresma pretendia criar uma literatura infantil mais popular, com edições mais simples e de menor custo que as traduções refinadas das editoras Laemmert, de proprietários alemães, Garnier, de origem francesa, e da Francisco Alves, portuguesa.
© REPRODUÇÕES EDUARDO CESAR
Anúncio da edição brasileira de 1860 (acima) e o desenho original, de 1844
“O mercado de livros para crianças e jovens prosperava no final do século XIX, um período no qual se acreditava que pouco ou quase nada estava à disposição dos jovens leitores”, diz Patrícia. “Os editores investiam nesse segmento e muitas obras, como João Felpudo, já haviam sido traduzidas. A produção de obras com autores nacionais estava começando.” Ela iniciou sua pesquisa com uma lista de 20 títulos de livros infantis publicados entre 1860 e 1920 identificados na Biblioteca Nacional e no Real Gabinete Português de Leitura, ambos no Rio. Três anos depois, após garimpar por sebos de todo o país, tinha reunido 70 títulos diferentes.
“Umas das precursoras da literatura infantil brasileira foi a romancista Júlia Lopes de Almeida (1862-1934)”, atestou Nelly Novaes Coelho, professora aposentada da USP e uma das maiores especialistas no assunto, no livro Panorama histórico da literatura infantil/juvenil (Amarilys, 2010). Em 1886, Júlia Lopes publicou Contos infantis, com 60 narrativas em verso e prosa escritas em colaboração com sua irmã Adelina Lopes Vieira, depois Histórias da nossa terra, de 1907, e Era uma vez, de 1917, todos com reedições. “Simultaneamente ao aumento de traduções e adaptações de livros literários para o público infantojuvenil”, Nelly Coelho escreveu em seu livro, “começa a se firmar, no Brasil, a consciência de que uma literatura própria, que valorizasse o nacional, fazia-se urgente para a criança e para a juventude brasileiras”. Ela também reconhece Pimentel como “o primeiro intelectual a popularizar o livro, através de edições mais acessíveis de autores clássicos”.
© REPRODUÇÕES EDUARDO CESAR
Livros de autores nacionais: Álbum das crianças, de Figueiredo Pimentel, de 1897
Além da crítica literária
Os escritores anteriores a Lobato já eram citados em vários livros e sites, como o Memória de Leitura, da Unicamp, que reúne 19 autores de 1880 a 1910 e suas obras mais importantes. Uma investigação mais profunda levará a uma representante de uma época ainda mais remota, Nísia Floresta (1809-1885), educadora potiguar que criou um colégio para meninas no Rio de Janeiro e escreveu poemas, romances e novelas – Conselhos à minha filha é de 1842 e as novelas Fany ou o modelo das donzelas e Daciz ou a jovem completa, de 1847.
O que pesquisadores de São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso, Ceará e outros estados têm feito é ampliar o olhar para além das narrativas dos livros. “Saímos do viés da crítica literária – que destaca apenas o que era bom – para a história cultural, que considera o que era lido, independentemente da qualidade, quem produzia, de que modo, em que lugar e quem consumia”, explica a historiadora Gabriela Pellegrino Soares, professora da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e autora do livro Semear horizontes (Editora da UFMG, 2007), sobre a formação do mercado editorial de livros para crianças na Argentina e no Brasil. “Examinar as engrenagens da produção e circulação dos livros é um caminho muito fértil para conhecer as ideias e as representações do mundo em uma época”, ela acrescenta.
© REPRODUÇÕES EDUARDO CESAR
…e Cantigas das crianças e do povo, de Alexina Magalhães Pinto, de 1911
Livros para adultos e crianças circulavam principalmente nas capitais do Brasil, ao longo do século XIX, apesar do alto analfabetismo, que chegava a 80% da população de quase 10 milhões de pessoas em 1872, quando foi feito o primeiro censo demográfico nacional. Estima-se que o analfabetismo fosse menor, talvez de 50%, no Rio de Janeiro, a então capital do país. “Há uma intensa importação de livros para o Brasil, entre os quais infantis, desde o século XVIII”, diz Márcia Abreu, professora do Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp, coordenadora de um projeto de pesquisa sobre a circulação transatlântica de impressos (ver Pesquisa FAPESP no 240) e autora de Os caminhos dos livros (Mercado de Letras, 2003). “A leitura era uma das maiores fontes de entretenimento nessa época e os homens livres compravam vários livros por ano. Isso gerava uma forte movimentação editorial e comercial, com importação frequente de livros e, após 1808, também com muita impressão brasileira.”
Havia um mercado consumidor em formação, composto por um contingente cada vez maior de imigrantes, homens livres e profissionais liberais ou assalariados. Estima-se que 17 livrarias e 30 tipografias funcionavam na cidade do Rio de Janeiro em 1860. Hoje, mesmo com o fechamento contínuo de livrarias, a literatura infantil constitui um mercado pujante. Em 2014 foram publicados 37 milhões de exemplares de 7.802 títulos de livros para crianças, segundo a Câmara Brasileira do Livro.
© PATRÍCIA HANSEN / HEMEROTECA BIBLIOTECA NACIONAL
Anúncio destacando a obra de Lobato
Depois de Lobato
“Monteiro Lobato foi tão importante que apagou os escritores anteriores. Ninguém mais fala de Olavo Bilac e Tales de Andrade”, diz a jornalista Laura Sandroni, autora do livro De Lobato a Bojunga – As reinações renovadas (Agir, 1987), além de criadora e diretora por quase 20 anos da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil (FNLIJ). Lobato se impôs com uma obra formada por 22 livros escritos em linguagem coloquial, irreverente e vibrante, tratando de problemas da época e não de um distante país do futuro, como nos livros escolares anteriores. Apoiados por uma propaganda intensa – o próprio Lobato separou 500 exemplares de Narizinho para enviar para escolas e acelerar sua aceitação –, seus livros ultrapassaram a tiragem de 1 milhão em 1943.
“Lobato era um gênio, como escritor e editor, e ele próprio construiu a ideia de que teria sido um pioneiro”, diz a historiadora Patrícia Hansen, atualmente vivendo em Lisboa. No acervo digital de jornais antigos da Biblioteca Nacional, ela encontrou um anúncio da edição de 15 de novembro de 1933 na revista O Tico-Tico, depois reproduzido em outras publicações, apresentando o História do mundo para crianças, o lançamento mais recente da Companhia Editora Nacional, e o escritor paulista como “o criador da literatura infantil no Brasil”. “Foi um marketing que deu certo”, concluiu Patrícia. “Não questionaram a fonte.”
Projeto
Leitura ficcional na infância, 1880-1920 (nº 13/00454-1); Modalidade Bolsa de Pós-doutorado; Pesquisador responsável Elias Thome Saliba (USP); Beneficiária Patrícia Tavares Raffaini; Investimento R$ 240.377,83.
Artigo científico
HANSEN, P. S. A biblioteca dos jovens brasileiros: Do caráter didático da literatura infantil aos usos dos livros pelas crianças no início do século XX. Escritos. v. 5, n. 5, p. 79-96, 2011.
Livros
SOARES, G. P. Semear horizontes: Uma história da formação de leitores na Argentina e no Brasil, 1915-1954. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2007.
ABREU, M. Os caminhos dos livros. Campinas: Mercado de Letras/ALB/FAPESP, 2003, 382 p.
COELHO, N. N. Panorama histórico da literatura infantil/juvenil. São Paulo: Amarylis, 2010, 320 p.
SANDRONI, L. De Lobato a Bojunga – As reinações renovadas. Rio de Janeiro: Agir, 1987, 181 p.
FERREIRA, N. S. de A. Um estudo sobre os versos para os pequeninos, de João Köpke. Campinas: FAPESP/Mercado de Letras, 2017, 276 p.

sábado, 30 de julho de 2016

PORQUE NÃO QUERO ESTUDAR LITERATURA INFANTIL

CIRANDA DE MENINAS -Ilustração de Augusto Rodrigues 1963
PORQUE NÃO QUERO ESTUDAR LITERATURA INFANTIL - Nada contra, claro,e não é só porque já tem muita gente muito boa estudando isso e não há necessidade da minha contribuição.

É que quando leio histórias de crianças nascidas em uma cultura livreira como a alemã, na qual é comum que as crianças recebam de herança um livro que foi lido por várias gerações anteriores, e pensa na diferença em relação realidade brasileira ... cada vez mais acredito que o interessante, aqui, é estudar o poder das brincadeiras e cantigas populares como uma cultura da criança brasileira ...

sexta-feira, 29 de julho de 2016

Indicação de um livro de ficção infantil de Pedro Bloch


No meu pós doc me debruço sobre os livros de anedotas de criança de Pedro Bloch, não sobre seus livros de ficção infantil, mas ao ler o que Nelly Novaes Coelho escreveu sobre ele no Dicionário Crítico de Literatura Infantil e Juvenil Brasileira: Sec XIX e XX, achei que esse  me interessaria, vejam só :


        Bulunga, o Rei Azul (1983)
Divertida estorieta em diálogo, esta conta a maria do garoto Bulunga pela cor azul e as peripércias vividas por ele e várias outras personagens por causa disso. Na verdade, a mania do garoto é apenas pretexto para a conversa aparentemente maluca entre dois interlocutores (que o leitor fica sem saber quem são). Um 'barato', como diz a meninada ...Capa e ilustrações de Carlos Edgard Herrera, em tons azuis, reiteram o ludismo do texto.(COELHO, Nelly Novaes. Dicionário crítico da literatura infantil e juvenil brasileira:séculos XIX e XX. São Paulo : Edusp, 1995).




quarta-feira, 27 de julho de 2016

"Ruptura e subversão na literatura para crianças", de Maria Lucia Machens


Nesse interessantíssimo livro, Maria Lucia Machens começa nos contando que  :

"Na própria história da humanidade as crianças, por sua curiosidade e insaciável fome de conhecimento do mundo, foram com certeza os indivíduos mais interessados em ouvir as primeiras histórias. Muito antes de existirem leitores é provável que, entre os ouvintes os ouvintes, elas tenham sido os mais ávidos consumidores de literatura quando esta se manifestava apenas pela oralidade. 
Inicialmente, as histórias contadas para crianças surgiram como narrativas orais para o público adulto e eram transmitidas de geração em geração.Eram contos que falavam de mitos, aventuras, fábulas, lendas, sagas, teogonias, histórias milagrosas, temas de tradição popular e esses enredos também fascinavam as crianças. 
Afrânio Coutinho ressalta como a tradição oral é uma fonte importante na divulgação da literatura ao afirmar que 
 
"A preferência pela literatura oral. primeiro leite da cultura humana, existe em todas as bibliografias" (COUTINHO, Afrânio. Introdução à literatura no Brasil. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1964, p. 132)"
Maria Lucia Machens "Ruptura e subversão na literarura para crianças", p. 10



No caso do Guimarães Rosa, a oralidade sempre foi a pedra fundamental da sua literatura, ele que contava que, de menino, ouvia sempre as narrativas dos velhos... e depois escreveu uma literatura toda estruturada nos princípios da oralidade... e não deve ter sido à toa que Rosa e Pedro Bloch ( o médico da fala de crianças) foram amigos íntimos, né?

terça-feira, 5 de abril de 2016

Livro para crianças como fontes e objetos do historiador - FCRB

Divulgando o evento com minha amiga e também historiadora da Cultura da criança Patricia Tavares Raffaini ... que estiver no Rio e se interessar pelo tema  não deve perder .

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Google homenageia Perrault pelos 388 anos de Literatura Infantil


Quem está usando Google esses dias de janeiro de 2016 tem se defrontado com pelas imagens que homenageiam as histórias de Perrault. Muito lindas.
A que eu mais gosto, todos sabem, é a da Bela Adormecida -representada acima- , mas tem também outros contos homenageados... adorei (especialmente porque foge UM POUCO da estética Disney, enfim)!

Além da Dornröschen, temos também :


sábado, 22 de dezembro de 2012

A Fantástica fábrica de chocolate, Roald Dahk

 
" A cachoeira é a coisa mais importante de tudo! - continuou o senhor Wonka. - Ela mistura chocolate! Ela bate, amassa, mexe e remexe! Faz o chocolate ficar leve, espumoso! Nenhuma outra fábrica no mundo mistura chocolate em cachoeira! Mas é o único jeito certo de fazer isso! O único! E minhas árvores, vocês gostam? - exclamou apontando com a bengala. E meus arbustos? Não são bonitinhos? Digo e repito: detesto feiura! E tem mais, é tudo comestível!Cada coisa é feita de algo diferente, delicioso! E as campinas? Vocês gostam da grama e dos meus copos-de-leite? A grama que vocês estão pisando, meus queridos, é feita de um novo tipo de açúcar mentolado que eu mesmo inventei! Chamo de VERDOCE! Experimentem uma folhinha de grama! Por favor, provem!"

Roald Dahk - A Fantástica fábrica de chocolate,p. 72

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

A Diaba e sua filha, de NDiaye



"Há em Moçambique um provérbio que diz : a vida de cada um é um rio. Assim pensando, o tempo que nos cabe para viver é alimentado por uma fonte eterna : a infância. E assim dita, a infância não é um tempo passado, mas a capacidade infinita de nos renovarmos entre nascentes e estuario.
Este conto de Marie Dianye (A Diaba e sua filha) é uma história extraordinária, repleta de mistério e sedução, que confirma , em mim, a ideia de que aquilo que chamamos de literatura infantil é, muitas vezes, um esteriótipo fundado numa falsa menoridade da criança e na verdadeira  arrogância do adulto. Este conto fala desse rio que apenas existe se nos olharmos como eternos inventores da nossa própria infância. Na margem desse rio, nenhuma história tem idade porque toda a narrativa está fora do tempo.
Nesta história não há lugar, não há nomes, tudo é nocturno, o que sucede está envolto em brumas. Todos nós habitámos essa casa de luz calorosa onde uma diaba se recorda de ter sido feliz. Todos nós fechamos a porta do preconceito, e nada mais queremos saber sobre os que ficam confinados na outra margem. longe da nossa existência.
NDiaye escreve sobre os nossos medos e o modo como eles são colectivamente construídos. Escreve sobre a necessidade de classificarmos os outros e os arrumarmos em bons e mauls, em anjos e monstros. Nestas páginas se inscreve, enfim, a facilidade em culparmos e diabolizamos os que são diferentes e o modo como os sinais de aparêcia ( no caso, os pés de cabra) se erguem como marca de fronteira entre os "nossos" e os"do lado de lá".
Terminou com o recurso a  um outro provérbio africano, que diz : eu sou os outros.  Marie Dianye confirma a verdade desse aforismo numa história em que se desfazem as fronteiras entre homem e animal, entre humanidade e demónios, os do bem e os do mal. Os outros que somos (ou que poderíamos ser) desfilam neste apelo para reencontrarmos, na diversidade das criaturas que somos, a nossa própria humanidade."
Mia Couto. Orelha do livro A Diaba e sua filha, de Marie Dianye

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Tatiana Belinky : para escrever, use seus olhos de ver!



Quando eu tinha meus 12 ou 13 anos era voluntária da Sala de Leitura da Escola municipal onde eu estudava. Lembro de ter falado com a orientadora da sala que umas das autoras mais procuradas pelas crianças era a Tatiana Belinky, que falava de bruxas e escrevia livros muito cheios de movimentos... eu não sei bem o que eu queria dizer com isso, mas me lembro da resposta que obtive: não são só os seus livros que são assim, mas ela, pessoalmente, também é desta mesma forma: para escrever, use seus olhos de ver!
E não é mesmo? Adoro!!!!!



Ando "dialongando" muito com os livros da Ruth Rocha. Que encantamento me desperta!
Isso que ela disse nesta estrevista, de que no fundo os desejos reais das crianças continuam os mesmos é muito verdade. Maurício de Souza disse algo neste sentido em uma palestra em 2009.
Porque penso mais ou menos nesta direção que gosto demais da antropologia da criança...

domingo, 15 de janeiro de 2012


"Muitas vezes tenho me perguntado por que os teóricos da literatura ainda não perceberam que tudo o que dizem quando falam de fenomenologia, estruturalismo, desconstrução ou qualquer outra abordagem crítica pode ser mais claro e facilmente demonstrado na literatura infantil. O inverso disso é imaginar por que muitos de nós que nos ocupamos da literatura infantil temos sido tão lentos para reunir as duas."
Aidan Chambers

sábado, 7 de janeiro de 2012

Congresso Internacional

III CONGRESSO INTERNACIONAL DE LEITURA E LITERATURA INFANTIL E JUVENIL II FÓRUM LATINO-AMERICANO DE PESQUISADORES DE LEITURA - PUCRS - de 09 a 11 de maio de 2012
Mais informações aqui.

domingo, 8 de agosto de 2010

1o. ENCONTRO DE DE PRODUÇÕES LITERÁRIAS E CULTURAIS PARA CRIANÇAS E JOVENS- PINÓQUIO E ALICE

Nas tardes entre 03 e 05 de agosto de 2010 eu assisti ao envento promovido por um grupo de estudos sobre Literatura infanto juvenil aqui na USP. Assisti quase tudo ( só não via os filmes), porque queria mesmo era ouvir de que falavam os pesquisadores e me surpreendi para o bem com a densidade das pesquisas sobre os livros clássicos "Alice no país das maravilhas" de Lewis Carroll e "As aventuras de Pinóquio" de Carlo Collodi .

Vou escrever sobre momentos que eu pensei serem os mais reveladores do evento :

No dia 03/08 me encantei com a exposição de edições desses livros, muitas delas, de todos os tamanhos, formas, cores... fotografei tudo o que eu pude! Também Me encantou um livro enorme de pano, em forma de colchoado, onde vimos Alice e Pinóqui juntos! Depois começaram as palestras... a pioneira no tema na USP- Professora Nelly Novaes Coelho - falou um discurso lindo, apaixonado da literatura, como um fazer 'de ser humano' para 'ser humano', que não está submetido a tempos determinados e que isso também pode - e deve- tocar a sensibilidade das crianças. Foi a professora Nelly quem começou introduzindo o significado de abordarmos conjuntamente essas duas obras: ambas falavam eram releituras de um arquétipo literário - a viagm do herói - e por isso sobrevivem e se multiplicam em diversas linguagens. No caso de Alice, estamos diante de um forte questionamento da razão vitoriana, a partir da consideração da perspectiva de crianças, mais tarde um questionamento semelhante - mas para adultos - será apresentado por Kafka. No caso de Pinóquio essa viagem seria "iniciática", pois a personagem se transforma até fisicamente, e sua história foi escrita em um momento alegre da Itália - final das guerras - e a necesidade era produzir histórias didáticas e moralizantes.Neste dia eles exibiram o filme "Pinóquio", de Roberto Benigni -que é considerado como um dos piores filmes italianos. Será mesmo? Não assisti! Mas à tarde tivemos uma mesa redonda interessantíssima entre João Gomes de Sá (um escritor que adaptou Alice para o cordel) e o ilustrador Odilon Moraes.

Sobre João Gomes de Sá eu pensei ser uma das participações menos ricas do evento, porque ele começou sendo bem deselegante - dizendo que não gostava de ilustradores, mas elestava ao lado de um!- e apresentou uma leitura bem rasa de Alie, quando disse, mais de uma vez, que ela nunca sofria pelo indeterminado da história (não acho mesmo que isso seja verdade! Alice sofre, sim, ela chora várias vezes, mas o que ela não faz é drama!). Essa leitura dele é ligada à idéia da "criança sempre alegre", da "criança fofinha", que já sabemos não ser verdadeira (vide Freud) e muito menos a noção da criança como uma página em branco a ser preenchida, que partir de um pré positivação da educação formal, desconsiderando tudo que a criança já é antes disso!

Já Odilon Moraes apresentou leituras bem mais interessantes das obras! Para ele, talvez, a tradução do nome Wonderland como "país das maravilhas" é uma das possibilidades, mas significa iluminar apenas um lado da infância e escurecer outro sentido da palavra "wonder", que é inquietação (até o fim do evento vamos ver outras traduções para wonder, diferentes de maravilha). Pensar na criança como o ser que vive no mundo das inquietações é muito interessante para mim! Mas ele lembrou que não só as crianças são inquietas, todos os que tocam o espaço de potência poética da estranheza são banhados de inquitação.Eis uma belíssima conceituação de infância. Mas o mais interessante da fala dele para mim foi a leitura que ele apresentou de Pinóquio, como a alegoria da "morte da infância", isso porque todo o conteúdo moralizante da obra (o processo de aquisição da "roupagem ocidental") apresenta como iminente a morte do que é "criança". O interessante é que ele falou de uma leitura imagética onde o boneco -que está na vivência errática da criança- não se transforma em menino e deixa de ser boneco, ele aparece e o boneco fica de lado, esquecido. Acho isso lindo e verdadeiro. Se considerarmos isso, sempre é possível resgatar o boneco esquecido. Lindo!


No dia 04/08 tivemos uma palestra de Mauricio de Sousa sobre adaptação de clássicos. Na

verdade ele falou bem pouco de adaptação, falou muito mais da história de sua produção. Em um momento alguém pergunto sobre a opinião de uma mãe- que dizia que essa infância da qual ele tratava já não existe mais- ele disse que existem, sim, crianças, mesmo essas que estão usando as "cascas" urbanas e os seus questinamentos permanecem, pois são humanos.

Uma questão que reapareceu várias vezes neste dia foi sobre o que significa "ser boneco", porque pensamos na Emília, que por ser boneca, podia falar o que queria falar e a criança é um ser em processo de modelagem social, que está "aprendendo" os valores morais. Será que os reais 'bonecos' não somos nós, os que nunca tem sua voz ouvidas?

No dia 05/08 O mais legal que eu vi neste dia foi a palestra de Andréa Simão sobre adaptação de literatura para o cinema, ela explicou que para o cinema o que importa é a dinâmica 'ação/consequência" e que uma história como "Alice no país das maravilhas" tem o seu melhor justamente na ideterminação dessa dinâmica, então seria um tanto quanto violento adaptá-la, como fez Tim Burton. Ela falou, também, que essa racionalidade cinematogáfica de "causa e consequência" eliminava a reflexão e etava cada vez mais produzindo gente estranha.Uma pena é eu não estar na sala dela (estava assistindo por vídeo conferência), se não eu teria perguntado o que ela pensava da adaptação do livro Lavoura Arcaica de Raduan Nassar, que é muito criticada, mas que eu adoro, porque é levantar a bandeira do leitor do livro escrito.Ainda sobr cinema, ouvimos uma moça falar da relação entre o Pinóquio e o robô do filme A.I.,um filme idealizado por Stanley Kubrick e dirigido por Steven Spielberg, que é completamente inspirado na história de Pinóquio. O interessante foi que todo mundo teve que admitir ter CHORADO MUITO NO FILME DO ROBÔ PROGRAMADO PARA AMAR, MAS QUE NÃO CONTOU O AMOR DE NINGUÉM! (RS)

Mais adiante tivemos algumas das falas mais interessantes do evento: Alice apareceu não mais no "pais das maravilhas", mas sim no "pais do querer saber" (isso não é muito infância?) e por isso põe à revelia a lógica tradicional.

Outras pesquisadoras trataram da escritura de Alice - a linguagem labiríntica- onde atuam o Nonsense (que é trazido pela potencialização do ritmo, do som, que acabam por instituir novos sentidos através de uma outra ordem, a da brincadeira, do lúdico que produz estranhamento) - e do paradoxo que aposta na existência de dois sentidos ao mesmo tempo (o que é uma leitura da vivência infantil, que é grande para algumas coisas e ao mesmo tempo pequenas para outras, e o campo da brincadeira está exposto nos jogos sintáticos de Carroll, onde expressões aparentemente opostas podem ter o mesmo significado. Ainda sobre o texto de Carroll foram apresentados os chamados "Pequenos labirintos" 1o. CAMINHOS DIFERENTES E MESMA SAÍDA; 2o. CAMINHOS DIFERENTES E SAÍDAS DIFERENTES e 3o. PERDER-SE NA TRAJETÓRIA. No fim do dia, que também era o fim do evento todo, eu fui sorteada e ganhei o livro "As caçadas de Pedrinho", de Monteiro Lobato e eu fiquei querendo MUITO MAIS!

Parabéns aos organizadores do evento e a todos os participantes!