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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Ricardo Aleixo e a ancestralidade

Primeiro chegou a mim a fala de Ricardo Aleixo nesse vídeo:

"... ter convivido com meus pais, que foram as duas pessoas mais admiráveis que eu já tive a chance de conhecer,  significou a a possibilidade de pensar a ideia de ancestralidade não  como é comum a boa parte dos negros no Brasil - pensar em uma África mítica - a minha África é a minha casa. E pensar, também, a partir do momento em que foram nascendo os filhos ... foi o momento em que eu comecei a pensar na ancestralidade não como aquilo que está dado, mas a partir da poética da cosmogonia africana : ancestre é também aquele que ainda não veio e isso é o que determina a circularidade e a sobreposição dos tempos ..." (27' e 29')

Depois tem o poema:

ANCESTRAL
é quem
vive no meio
do tempo
sem tempo:
é quem veio
e já foi
e é também
quem
ainda não
veio

Ricardo Aleixo, poeta das minhas performances! 

sábado, 28 de fevereiro de 2015

MÚSICA MESMO - Ricardo Aleixo

MÚSICA MESMO
música
música mesmo
é milton 
quem faz
só com
o som
que sai
da sua boca
ele toca
o oco
da vida
por dentro
do centro
da terra
até o breu
do céu
sem deus
que pesa
imenso
sobre nós
como se
apenas
"palmilhasse
vagamente"
as estradas
deste mundo
com a voz

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

IGUAL COMO? ´Ricardo Aleixo (via Facebook)

pai.
que foi?
você é tão velho. você foi escravo?
fui não, filho. fui não. nem meu pai foi.
e sua mãe?
também não.
e a mãe dela?
foi não. nem o meu pai.
mas quem foi escravo na nossa família? alguém foi?
não sei direito. pode que o pai do pai do pai do meu pai
tenha sido. ele e a mulher dele.
eles eram meus o quê?
seus nada. pois se você nem era vivo ainda.
você conheceu alguém que já foi escravo?
tinha uns velhos lá em nova lima que andavam sempre em bando. o povo comentava que eles tinham sido escravos.
e tinham?
eles não falavam sobre isso. eles não falavam era sobre quase nada. agora eu posso ler o jornal sossegado?
pode. pai.
posso ou não posso ler meu jornal?
escravo é gente ou é bicho?
é gente. ora essa. gente igual todo mundo.
igual como?
é gente igual todo mundo. só que faz coisas que ninguém mais quer fazer.
então escravo é isso.
é. é não ter vontade própria. fazer só que o dono quer. o que o dono manda. no fundo, meu filho, todo mundo é um pouco escravo.
você também?
eu também.
então por que é que disse que não foi escravo?

sexta-feira, 11 de junho de 2010

A voz do escritor com os poetas Ricardo Aleixo e Waldo Motta

Ontem à noite estive assistindo uma parte do encontro "A voz do escritor" aqui na USP. Recebemos dois poetas, o mineiro Ricardo Aleixo e o Capixaba Waldo Motta. Intressante ouvir esses poetas.

Do Waldo Motta e seu livro "Bundo" eu já tinha ouvido falar aqui nas letras, mas não tinha lido nenhum poema. Ele m
esmo leu para nós e, assim como ele mesmo, os poemas são escatológicos, homo-eróticos,reliosos e filosóficos, o que me levou a me perguntar (eu que eventualmente acompanho os saraus dos poetas na Casa das Rosas): Que poeta atual segue caminhos muito diferentes desses? Ao contrário do que ele gostaria, sua poesia não me chocou, nem interessou ou marcou. Lembro apenas frases divertidas dele, como quando se definiu como "bicho e bicha" que adota uma "perspectiva anal" em seus poemas (rs)Foi legal, mas fiquei pensando no perspectivismo do Viveiros de Castro ... será que ele consiguiria "comer" essa perspectiva tão "corporal" de Waldo Motta e voltar a ser Viveiros de Castro? Nunca saberemos. (rs)

Já com a fala do Ricardo Aleixo eu me identifiquei mais e como não o conhecia, foi uma agradável surpresa. Sua narrativa sobre os primeiros contatos com a poiesia, que teria se dado à partir do futebol-arte de Ademir da Guia, o "filho do Divino Mestre", que encarnava um "histórico" familiar de poetas da bola ao relembrar constantemente seu pai Domingos da Guia, o "Divino Mestre". Interessou ao Aleixo todo o conjunto de linguagens que o futebol que proporcionou desde a infância: a poesia dos toques de bola; a rapidez das "narrações" ouvidas no rádio - ele se espantou chamarmos de "narradores de futebol", porque o que um narrador narra algo que já aconteceu e esses narram o acontecimento enquanto ele ainda está em processo, por isso tanta velocidade - a força de possibilitar uma inclusão social do jogo... esse tipo de percepção é coisa de poeta, não acham? Um olhar para o mundo procurando um "não-lugar" onde a vida nã
o seria, de antemão, nem boa nem ruim, mas diferente: a poesia. O que interessou ao Aleixo não foi a competição, mas o jogo, porque para o futebol-arte o processo de constução da poesia interessa mais que o resultado final(me lembrou muito os times do Santos))! Isso me emocionou muito e eu me lembrei de quando eu li as crônicas de Nelson Rodrigues sobre futebol: Era, como a literatura também é,uma reenunciação da vida e dos seus dramas. Adorei!

Uma coisa se repetiu na fala dos dois poetas sobre a sua vida até então: Sempre há um momento em que as condições pioram e a poesia não se torna a melhor opção possível, mas sim a única possibilidade de permanecer vivendo, ou seja, a poesia não é mais uma forma de ressignificar o mundo, mas é ela mesma o próprio sentido, justificativa e finalidade da existência... Isso é a paixão, que deve envolver todos os homens, de preferência sempre...


Adorei mesmo ter ouvido vozes poéticas, nesse mundo tão raso e seco...