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segunda-feira, 8 de setembro de 2025

"Os três obás de Xangô", um filme de Sérgio Marchado

 

"Os três obás de Xangô", Sérgio Machado 

Ontem no fim da tarde de domingo e feriado de setembro de setembro, fui ao CineSesc assistir um documentário delicioso e bem brasileiro. 

No caminho, vem vendo bolsonari*tas de verde amarelo no metrô, deviam estar indo ou vindo de manifestação na Paulista (lugar que, por essas e por outras, evito aos domingos!) , uma tristeza ...

Ainda no caminho comecei a ver belezas: parece que já é primavera em São Paulo e os tapetes de ipê amarelo tomam a cidade, inclusive a rua Augusta 


Fui ficando mais doce, depois do azedume

bolsonari*ta metrô, entrei no Cinesesc borifada de amarelo 💛 

Um dos meus lugares favoritos de São Paulo 

Entrando lá, fui logo tirar selfie  com o filme que fui assistir, que vi o cartaz no cinema em Niterói e agora tinha a chance de assistir em São Paulo por 10 reais!



O filme é uma ode a amizade entre Jorge Amado,Dorival Caymmi e Carybé , que receberam o cargo de Obá de Xangô (defensores do Candomblé e  intermediadores entre terreiro e sociedade) e assim foram troçando  um desenho do que seria a baianidade.

Com fotos e vídeos de época riquíssimos, leitura de alguns trechos de cartas entre os três,o documentário enchendo olhos de beleza na telona, faz a gente sonhar como deve ter sido bom ter vivido e convivido com essa tríade à época da formação daquilo que até hoje reconhecemos como um ser baiano.

Assistir a um filme no cinema, ainda mais um tão especial como o Cinesesc,tem todo um significado especial, que é sentir a reação do público. No caso foi muito calorosa a recepção, o filme foi aplaudindo e alguém até gritou no final VIVA O POVO DE TERREIRO ❤️😍

VIVAS! 

Mais uns vez o Cinesesc fazendo a diferença 😍

Comentário posterior 

AMIZADES : Disse Sérgio Machado que seu filme"3 OBÁS DE XANGÔ" emociona não porque é triste, mas talvez porque nos relembra uma época em que os relacionamentos eram mais sólidos e era possível e até inevitável que figuras como Jorge Amado, Carybé e Dorival Caymmi firmassem  amizade tão frutífera !

🤔


sábado, 30 de dezembro de 2023

Minhas leituras de 2023 e uma recomendação para 2024: crianças, mulheres, samba e Jorge Amado!

 

Faltam alguns que devolvi na biblioteca 

Sim, esse conteúdo eu já tinha escrito no post de Melhores do ano 2023, mas resolvi copiar e colar aqui, como mais uma face da retrospectiva 2023. 

Esse foi um ano de de muito cansaço, pouco tempo e dinheiro para livros, o que foi parcialmente resolvido com  a presença da Biblioteca do Sesc Pompéia, que usei muito nesse ano!

Minha meta de ler um livro por mês foi cumprida com sucesso: 

Janeiro: África Brasil , Kamille Viola

Livro emocionante sobre Jorge Ben

 Fevereiro: O que é religião afro-brasileira,Mario A. Silva Filho

Comprei no carnaval!


Comecei fazendo ligações

Março: Modernismo - o lado oposto e os outros lados, E.T. Saliba (org.)

Livro com meu capítulo sobre Lima Barreto

Abril : Contos de Axé, Marcelo Mourinh, o livro do ano! Um livro da vida!

            Indicação de Socorro Acioly no Instagram, depois num sonho com Oxóssi. 
Comecei a ler exemplar da Biblioteca do Sesc Pompeia
Depois comprei meu exemplar na feira do livro virtual UNESP

 Maio : Contos da nova cartilha, Tolstói

Indicação do seminário de literatura infantil russa
que assisti em dez, 2022

Junho: Os da minha rua, Ondjaki

Meu primeiro Ondjaki: poesia e crianças 

 Julho : Avodezanove, Ondjaki

Aventura:  Estória contra História 


 Agosto:  Luanda, Lisboa, Paraíso , Djaimilia Pereira de Almeida 

Grande romance da diáspora africana, 
 vencedor do Oceanos - Prémio de Literatura em Língua Portuguesa
 A imigrante Djaimilia nasceu em Angola, mas cresceu, estudou e  escreve como uma portuguesa


Setembro:  O céu não sabe dançar sozinho, Ondjaki

Um Ondjaki para adultos!

 Outubro Logunedé, santo menino que velho respeita, Nei Lopes     

Livro que se quis lido por mim, li ao som de Menino Deus


 Invenção e memória, Lygia Fagundes Telles 

Acabando o ano com as sugestões dos contos de Lygia

Canção para ninar menino grande, Conceição Evaristo

Lendo Lygia, pensava que precisava ler Conceição, assim foi 

Para terminar eu deixo uma dica de leitura para 2024:  Estão dizendo que em 2024 teremos muita influência do orixá Omulu, por isso é possível esperar eventos relacionados à saúde, doenças e curas. Atotô!


Nesse contexto eu indico o SIMPLESMENTE INCRÍVEL romance "Tereza Batista, cansada de guerra",do Jorge Amado, que comentei longamente em posts como ESTE , onde Tereza, a defendida dos orixás ,uma heroína de cordel, vence a epidemia de bexiga com vacina e com "Omulu montado em seu lombo ", orixá que a designou "Tereza de Omulu na festa dos macumbeiros de Muticapeba"(p. 346)
Como sempre na vida, nós vamos precisar muito da coragem doce de Tereza Batista!

sábado, 16 de abril de 2022

Inesgotável Gabriela, cravo e canela (1958), de Jorge Amado

Quando chegou, eu toda feliz


Vamos falar um pouco sobre Gabriela!

Não vou colar aqui todos os comentários  que fiz durante a longa leitura, mas terminei de ler há quase uma semana


 Demorou tanto para terminar a leitura de Gabriela, Cravo e canela, que nem queria pensar mais no livro, como comentei esta manhã de 16 de abril! 


Quando comecei a ler, em 01 de março, tinha as seguintes expectativas

Doze dias depois eu estranhava a leitura demorada 

Sobre as ilustrações do Di Cavalcanti, não vou postar aqui, vou postar algumas aqui
DI CAVALCANTI





Queria pensar as representações da personagem , desde o começo

No dia 28 de março eu escrevi bastante sobre Gabriela:
REPRESENTAÇÕES DE GABRIELA I- É verdade que este é o romance de JA que menos gostei até agora, mas não posso nunca dizer que, por isso, ele é ruim. Loge disso, ele está me pirando o cabeção, por vários motivos. Por exemplo, as representações de Gabriela. A alegre menina cobiçada pelos homens de Ilhéus, até agora, me parece uma personagem simples, a complexidade e a malícia está nos olhos de quem a via e vê até hoje, escondida debaixo das tantas representações que adquiriu. Certa vez li e queria reler, um depoimento, provavelmente de Walter Avancini, diretor da primeira novela Gabriela em 1975, onde ele explica que, se o romance de JA a questão central é a luta política no sul da Bahia nos anos 1920, auge da extração do cacau, novela destacaria a sensualidade de Gabriela. Assim foi feito, e como de costume nas adaptações de JA para o áudio visual, as complexas discussões sobre a política ou a crítica social são achatadas ou descartadas. Nesse caso, em especial, deu muito certo, até hoje quando se fala em Gabriela, é dificil não se pensar numa mulher parecida com a Sonia Braga. Tenho tentado pensar em outras imagens para ela, porque ela já existia antes disso, inclusive.

GABRIELA E SUAS REPRESENTAÇÕES II - Procurando o texto de Avancini, cai numa dissertação de mestrado de 2005 sobre a recepção crítica de "Gabriela" . Muito boa, aliás, comentando vários pontos e autores. Dela eu destaco esse trecho:
"o crítico Silvio Castro, em seu ensaio 'Jorge Amado e a recepção crítica'(1992), aborda, justamente, o ponto crucial que rodeia a produção literária amadiana: o constante conflito no exercício da crítica. E vários são os motivos dissonantes : o uso do calão, as constantes repetições, uma linguagem próxima da oralidade, povoamento de suas obras com personagens alcoólatras, prostitutas e homossexuais, além de personagens negras, turcas e árabes. Todos esses elementos fazem parte das contendas da crítica literária que envolve a produção do autor.
Castro evidencia a divergência entre as análises que tomam por base a inserção da produção literária de JA na 'tradição literária brasileira' e a convivência da crítica com esta obra."
"Revisitações a Gabriela: Uma experiência de leitura da recepção crítica do romance", Renata Maria Souza do Nascimento. Dissertação de mestrado em Letras UFBA,2005,p. 63

Em um determinado momento Renata diz que um novo frescor tomou conta dos estudos críticos da obra amadiana, com a entrada de analistas vindos da antropologia ou sociologia, uma vez que a crítica literária tradicional não saia dos seus moldes de avaliação clássico. Já em Jorge Amado era preciso ampliar as perspectiva, imaginem em Torto Arado, por exemplo! 

 GABRIELA - Como é difícil de ler, ela está sempre escondida embaixo de outras leituras e imagens que dela fizeram que nunca sei se ela é mesmo só isso. Espero (e desejo) que não seja! Por enquanto só tenho aprendido mais a ver como funciona a cabeça dos homens (até hoje) sobre a "alegre menina" Gabriela, ou melhor, diante todo esse imaginário em torno de Gabriela. Entendendo tudo isso, em nome de Malvina (talvez minha personagem favorita do romance), não tenho mais com apedrejar Gabriela

Mas e sobre Malvina, o que eu comentei durante a leitura?  Quando reparei nessa personagem, senti nela um protagonismo de mulher amariana,  que falta em Gabriela, e depois, em 25 de março  escrevi :

"GABRIELA": SURGIU A PROTAGONISTA?- O romance se Amado tem uma estrutura simples: quatro capítulos de cerca de 100 páginas e está dividido em duas partes. Na primeira parte, senti falta da protagonista Gabriela (que está no título), pois ela aparece só no final do cap.2, mas surge como uma mocinha de romance romântico, não uma mulher de Jorge. Achei que na segunda parte ela poderia protagonizar, mas logo ao começar o cap. 3 ela deu uma sumida de novo e quem brilha é Malvina, uma filha de coronel que se coloca abertamente contra o pai seu coronelismo e defensora das mulheres em plenos anos 1920... Essa, sim, está à altura das grandes personagens femininas de Jorge , que comandam suas vidas! Estou só no começo do capítulo, mas de cara a Malvina me agrada mais que a Gabriela. Vamos ver se a impressão de confirma.

Dentre tantas coisas incríveis que vemos em Malvina, o que mais me chama a atenção é o fato dela ser uma mulher que lia, que brigava pelo direito de ler , o que comentei em 30 de março 

GABRIELA E AS MULHERES QUE LEEM - Acho que essa ilustração de Di Cavalcanti não representa Gabriela,mas minha personagem favorita, a Malvina, a filha de coronel que tem a OUSADIA DE LER. Recusando o pedido do coronel de não vender mais "livros ruins" para ela, o dono da livraria responde:
"- Tenho livros para vender. Se o freguês quer comprar não deixo de vender. Livro ruim, que é que o senhor entende por isso? Sua filha só comprou os livros bons, dos melhores autores. Aproveito para lhe dizer que é môça inteligente, muito capaz. É preciso compreendê-la, não deve tratá-la como uma qualquer."

Mas Gabriela, o romance e a personagem são bem amadianos, produtos de uma bem imbricada trama com a literatura oral, não é à toa que as adaptações receberam as trilhas sonoras mais belas , com canções que definem bem Gabriela, como essa belezinha, que é um poema que aparece no romance e  foi musicado por Dorival Caymmi para a trilha sonora da novela Gabriela de 1975, que também contava com canções representativas do universo de Ilhés de Gabriela , como esse  samba de roda baiano . Mas a mais bela canção composta para Gabriela é mesmo "Tema de amor para Gabriela", de  Tom Jobim, com a citação de várias cantigas tradicionais da zona cacaueira, coisa mais linda! Sempre me emociono!

Para terminar, uso uma citação bela, que eu acho que também define essa personagem, que é a terra da Bahia, com seus cheiros e temperos, que o árabe nacibe tanto amava e é tão   amada pelos  brasileiros e brasileiras:

"Êle (seu Nacib)  a olhou alucinado, viu a terra molhada de chuva, o chão cavado de enxada, de cacau cultivado, chão onde nasciam árvores e medrava o capim. Chão de vales e montes, de gruta profunda, onde êle estava plantado. Ela estendeu  os braços, puxou-a para si. Quando se deitou a seu lado e tocou seu calor, de súbito então tudo sentiu : a humilhação, a raiva, o ódio, a ausência, a dor das noites mortais, o orgulho ferido e a alegria de nela queimar-se. " (448-9)


Viva Gabriela , do cheiro de cravo e da cor de canela!


 

 



terça-feira, 29 de março de 2022

Jorge Amado e a ausência de posts neste blog

 


Como já expliquei, em 2022 eu estou procurando ler menos livros (em quantidade), me demorando mais nas leituras, sem a menor pressa. Está sendo muito bom, mas o problema é quando eu começo a ler esses livrões do Jorge Amado, que me faria demorar mais de qualquer jeito, mesmo que não estivesse fazendo uma leitura mais atenta.

Depois do fantástico "Tereza Batista, cansada de guerra", livro de janeiro, que comento aqui, março está sendo o mês de "Gabriela, cravo e canela", livro que devo terminar só lá em abril mesmo, sobre o qual já escrevi inúmeros pequenos depoimentos (quase que diários), mas sobre o qual só vou escrever depois que terminar a leitura. Mas  para não deixar passar o mês em branco, posto os dois últimos comentários que escrevi, sobre as representações da personagem Gabriela. Vejamos 


e continuei 

Em breve espero voltar a escrever sobre esse romance, quando tiver concluído a leitura, enfim.
PS. Peço desculpas pelos erros, publiquei sem revisar, desculpem.








segunda-feira, 31 de janeiro de 2022

Tereza Batista : As várias faces da heroína mítica de Jorge Amado

Quando o livro LINDO chegou
                          

Decidi que minha primeira leitura de 2022 seria Tereza Batista cansada de guerra , do Jorge Amado lá em dezembro do ano passado, porque tinha ouvido falar que ele é todo escrito em cordel (amo literatura oral) e sobretudo que Tereza (TB) seria a melhor heroína de Jorge! Quis saber , ainda nos últimos dias do ano passado me chegou essa primorosa edição da Editora Martins (1972). 

Começando pelas epígrafes que nos explicam duas coisas que não podemos esquecer que a vida de TB é uma história de de cordel! Ela, por sua vez, tem a concha muito dura para suportar todas as batalhas, mas sempre preservando  a ternura de seu interior!

Tradução do francês: "que a tua concha é muito dura para te
 permitir estar ali tenro: a ternura é como a água: invencível você gosta de caracóis?"


Sabendo que Tereza é na verdade uma heroína de cordel, o livro é todo construído assim: a cada capítulo um narrador narra uma história  contada em algum cordel  sobre Tereza Batista. O primeiro narrador já começa exaltando a valentia de TB para um interlocutor que dela pergunta, ele diz que ela 

 "carregou fardo penoso, poucos machos aguentariam com o peso; ela aguentou e foi em frente, ninguém a viu se queixando, pedindo piedade" (p. 3-4).  

 Depois fui lendo com prazer, pelo ritmo gostoso da escritura  de Jorge, mas separando a leitura pelos cinco capítulos/ cordéis. Interessante que todos capítulos apresentam uma gravura, como uma xilogravura, desenhada por Calasans Neto, que. bem ao modo da literatura oral, resume o conteúdo do texto. Aqui vou comentar capítulo por capítulo.  

1.

 

 Neste primeiro capítulo encontramos uma Tereza, que é uma sergipana, contratada como cantora de samba num cabaré de Aracaju, mas que demora um pouco a estrear seu show porque, logo ao entrar no cabaré, meteu-se numa briga com um homem que agredia uma mulher, uma coisa que ela não tolera, e tendo perdido um dente da frente, precisou esperar uns dias até que seu "dente de ouro" (representando aquela luta por uma mulher) ficasse pronto. Também conhecemos alguns personagens que voltarão a aparecer no resto do livro, pois interferirão nas guerras de Tereza, que é uma mulher bem porreta.

2.

Neste segundo capítulo, o maior e o mais difícil de ler, especialmente por uma mulher, pois conta a história de TB, tão  conhecida por todos nós, de menina pobre, que perdeu os pais num acidente ainda criança, vai ser criada por um casal de tios, Felipa e Rosalvo, ambos com segundas intenções na criança, Rosildo, caso tivesse coragem, queria  desejava matar a mulher, deflorar Tereza fugir com ela, já a tia queria vendê-la ao capitão Justiniano Duarte da Rosa, conhecido deflorador de meninas, que levava até um colar de argolas de ouro , mais de quinze, uma para cada defloração! E desse capitão, Tereza foi escrava por anos, sem nunca ter conhecido nada de bom na vida. Até que um dia surge Dan, um mocinho inconsequente, de férias da faculdade, que era amigo do capitão, mas que acaba seduzindo a jovem Tereza e a apresenta o prazer de ser mulher na cama com um homem :

"Dan seduzia Tereza. Sem querer, sem saber por que, à revelia de sua vontade, Tereza responde aos olhares - que olhos mais tristes, mais azuis e funestos, a boca vermelha, os anéis do cabelo, anjo caído do céu. Quando se foram rua afora, conversa de não acabar, Tereza escondeu no peito a flor trazida por ele. Nas costas do capitão, Daniel lhe mostrara a rosa fanada e tendo-a beijado, no balcão a pousou. Para ela a colhera e beijara; no seboso balcão uma rosa vermelha, um beijo de amor" Jorge Amado " (p,157).

  Um dia eles foram pegos em flagrante e Tereza logo percebeu que  Dan era um fraco e ela só podia contar consigo mesma para se livrar da escravidão e do capitão, nasceu a "Tereza medo acabou" (um dos nomes e guerra da TB), que defendeu primeiro a si mesma de seu senhor de escravo .

3.


Ai entramos num dos melhores capítulos do livro, onde TB é mesmo a grande  heroína! Tendo de amigado com um médico enquanto fazia a vida em Aracajú, vai viver com ele numa cidade do interior, pois ele vai assumir um posto de saúde, Mas quando veio a peste de Varíola (das tantas que assolaram o Brasil), que agora já tinha vacina, superfaturada claro, mas o que não tinha era quem tivesse coragem de sair  aplicar e cuidar dos doentes. Todos  morreram de medo de se infectar, inclusive o seu médico, e foi ela, que já tinha se vacinado na capital, a mais valente, que os políticos, os médicos, os enfermeiros, TB, percorreu as ruas miseráveis, entrou no leprosário para vacinar e cuidar. Para isso, chamou suas amigas do bordel e foram elas as heroínas contra a peste: 

Quando veio a peste, TB tinha assumido a chefia das "quengas da rua do Cancro" e a 'bexiga chegou com raiva, tinha gana antiga contra aquela população e o lugar, viera a propósito , determinada a matar, fazendo-o com maestria, frieza e malvadez, morte feia e ruim, bexiga virulenta. (...) Se não fossem a bexiga, o tifo, a malária, o analfabetismo, a lepra, a doença de Chagas, a xistossomose, outras tantas meritórias pragas soltas no campo, como manter e ampliar os limites das fazendas do tamanho de países, como cultivar o medo, impor o respeito e explorar o povo devidamente? Sem a disenteria, o crupe, o tétano, a fome propriamente dita, já se imaginou o mundo de crianças a crescer, a virar adultos, alugados, trabalhadores, meeiros, imensos batalhões de cangaceiros - não esses ralos bandos de jagunços se acabando nas estradas ao som das buzinas dos caminhões - a tomar as terras e a dividi-las? Pestes necessárias e beneméritas, sem elas, como manter a sociedade constituída e conter o povo, de todas as pragas a pior? Imagine, meu velho, essa gente com saúde e sabendo ler, que perigo medonho" (p.199-201)

Esse capítulo é maravilhoso, termina com dois Omolu (um jovem e um velho) louvando a coragem de Tereza. Ao final o capítulo assume contar a história do folheto mais verdadeiro que circula no nordeste sobre TB!  

4. 


Nesse  capítulo sabemos da  história das duas vezes em que Tereza teve a morte nas entranhas. Não foi maior capítulo, mas pelo tema tratado, acho que podia ter sido mais curto. Não me emocionou a história de amor da mocinha Tereza e o usineiro Emiliano, que ao seu modo, foi meio coronel com ela e , pela primeira vez no livro, a força da heroína TB não brilhou,enfim.


5.


Esse último capítulo achei muito bom, logo já consigo ter uma visão geral dessa obra monumental, talvez a maior em tamanho de todas as quatro protagonistas mulheres - e mesmo que a parte inspirada no cordel da "greve do balaio fechado" tenha sido longa, quase interminável, pelo menos nela Tereza aprece brilhando em valentia, ao lado dos encantados e orixás, como eu gosto e comento melhor aqui. Nesse capítulo me reconheci demais, esses orixás, esses encantados eu conheço bem e muitas vezes pensei "por que eu não li isso antes?", sinto que os encantados, os mesmos que me guardam, guardaram esse livro pra que eu lesse na hora certa, sabendo mais coisas sobre mim mesma e também a minha história, e me reconhecesse nas paginas deste romance. Isso é muita coisa. Na verdade, não queria terminar de ler o livro, mergulhei tão fundo na história de mítica Tereza, admirei tanto, gostei dela. Mesmo que Jorge Amado, muito ao modo das narrativas populares (como em Cordéis e até no Grande sertão veredas), antecipe o final em vários momentos da trama e os orixás pedem calma, pois será feliz, o final foi bem surpreendente, com a citação de Caetano, Gil, Caymmi.

Para terminar, embora eu veja a personagem TB construída com base em grandes mitos femininos, em especial as heroínas guerreiras que brilham na literatura oral, especialmente os cordéis, o próprio Jorge Amado amplia a imagem desta grande personagem:

"...lhe digo, meu senhor, que Tereza Batista se parece com o povo e com mais ninguém. Com o povo brasileiro, tão sofrido, nunca derrotado. Quando o pensam morto, ele levanta do caixão" (p. 455)

Para  Lilia Moritz Schwarcz, no artigo "O artista da mestiçagem", publicado no livro  "O universo de Jorge Amado":

"Jorge Amado nunca pretendeu ser intérprete do  Brasil, mas sempre foi"(p. 35) 

E do brasileiro como ninguém, apresentá-lo assim, declaradamente, como uma personagem feminina, bela e  mítica é muito significativo. Talvez Tereza, ao lado do meu querido Pedro Arcajo, de Tenda dos Milagres, seja uma grande personagem da literatura amadiana.

Que grande livro ... amei

Um último comentário: A obra de Jorge Amado, pelo menos a que eu conheço, é muito musical. Na festa de casamento Tereza Batista, a primeira, temos o seguinte trecho:

"Estando de violão em punho, com certeza Dorival Caymmi cantará para a noiva, não lhe compôs uma modinha? Trouxe com ele dois rapazolas, ainda muito jovens, os dois com pinta de músico, um chamado Caetano, o outro chamado Gil" (p.458).

Sim, nos romances de Jorge sempre temos gente inventada e gente real, mas o que eu lamento é que, embora Tereza Batista possa ser a melhor personagem de Jorge Amado, ninguém liga muito para ela, né? Até sua adaptação na Globo (1992) não é muito comentada! E a trilha sonora achei bonita, cheia dos Caymmis, músicos incríveis, como nós gostamos, porém chega a ser bem fraca se comparada às trilhas das adaptações de suas "parentes" para a TV ou cinema, como Gabriela (até a da novela é maravilhosa! Djavan, Tom Jobim, Fafá de Belém, Elomar, João Bosco etc ) e Dona Flor (Chico Buarque , Bituca). Isso sem falar daquele doce deleite que é a trilha de "Tenda dos Milagres" que nunca paro de ouvir (Nela tem Caetano, a voz da Nana está mais amadeirada do que nunca!)
De qualquer jeito, o que eu mais gosto das adaptações dos livros são quase sempre as trilhas sonoras, dá um som, um novo ritmo para a obra.


quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Tereza Batista : a defendida dos orixás

Vários Orixás ajudaram  Tereza Batista nas guerras
E também quiseram seu tanto da cabeça da valente mulher


 Estou no maravilhoso capítulo final deste livro incrível, em breve escrevo um comentário sobre ele todo, mas acabe de ler um dos trechos mais lindos e emocionantes de todo o Jorge Amado que conheço, é sobre a disputa dos orixás pela guarda de Tereza Batista, a grande heroína de cordel. Vejamos:

”... Deseja saber a verdade sobre o santo de Tereza Batista, quem lhe determina a vida e a protege contra o mal, o anjo-da-guarda, o dono da cabeça? (...) 

Em se tratando de Tereza deixe que lhe diga haver motivo de sobra para confusão ; até quem muito sabe, nesse caso se atrapalha na leitura dos búzios sobre a mesa. Muita gente andou vendo por aí e não houve acordo. Os mais antigos falaram Yansã, os mais recentes Yemanjá. A si disseram Oxalá, Xangô. Oxóssi, não é verdade? Euá e Oxumaré, ainda mais? Não se esqueça de Ogum e de Nanã, tampouco de Omolu.

Também eu fiz o jogo e olhei no fundo. Vou lhe contar: nunca vi uma coisa assim e há mais de cinquenta anos sou feita neste peji e há mais de vinte anos zelo por Xangô.

Quem se apresentou na frente com o alfanje rutilante foi Yansã, dizendo: ela é valente e boa de peleja, a mim pertence, sou a dona da cabeça e ai de quem lhe faça mal! Logo atrás compareceram Oxóssi e Yemanjá. Com Oxóssi Tereza veio da mata espessa, do agreste ralo, da caatinga seca, do sertão ardido e desolado. Sob o manto de Yemanjá cruzou o golfo para acender a aurora no Recôncavo, depois de guerrear por ceca e meca. Vida de combate de começo ao fim, para ajudá-la na briga feia e crua, além de Yansã, a primeira e principal, vieram Xangô e Oxumaré, Euá e Nanã, Ossain trazendo as folhas. Com o paxorô da sabedoria, Oxalufã, Oxalá velho, meu pai, lhe abriu o caminho certo onde passar.

Não estava Omolu montado no lombo de Tereza na cidade de Buquim durante a epidemia de bexiga negra? Não foi ele quem mastigou a peste com o dente de ouro e a pôs em fuga? Não a designou Tereza de Omolu na festa dos macumbeiros de Maricapeba? E então? Omolu veio brabo, aberto em chagas, reclamar o seu cavalo.

Veja que grande confusão se armou. Não tive outra saída senão chamar Oxum, minha mãe, para ela apaziguar os senhores encantados. Chegou nos dengues e nos panos amarelos, luzindo ouro nas pulseiras, nos colares, a própria faceirice. Logo se acomodaram os orixás, todos a seus pés enamorados, machos e fêmeas, a começar por Oxóssi e por Xangô, seus dois maridos. Aos pés igualmente de Tereza, em torno da formosura, pois Tereza tem de Oxum o requebro e o mel, o gosto de viver e a cor de cobre. O fulgor dos olhos negros, porém , é de Yansã, ninguém lhe tira.

Vendo Tereza Batista por todos os lados cercada e defendida, os orixás em seu redor, eu lhe disse, resumindo o jogo: mesmo no pior aperto, no maior cansaço, não desista, não se entregue, confie na vida e e siga avante.

Contudo, existe sempre um instante de desânimo, quando até o mais valente se dá por acabado, resolve largar as armas e abandonar a luta. Também com ela sucedeu, pergunte por aí e saberá. Mais não posso lhe dizer por não ter tirado a limpo. Para mim, todavia, quem guiou os passos do afogado nos becos da cidade até o esconderijo de Tereza foi Exu. Para armar baderna, Está sozinho. Quem melhor conhece travessas e atalhos, quem mais gosta de acabar com festas?(...) Sobre esse assinto, lhe disse tudo o quanto sei.” (Jorge Amado. Tereza Batista cansada de guerra, p. 346-7)


Não é lindo? Me parece tanto como eu vejo a guarda dos orixás nas nossas vidas, sendo nossos pais/mães de cabeça ou não, são a eles todos que nós chamamos para nos guardarem em cada momento da vida.

Jorge Amado me representa tanto, suas mulheres então, nem comento!

Capa do livro didático sobre Jorge

De todas as coisas que me interessam na literatura de Jorge Amado é, inegavelmente, a presença das divindades de origem africanas. Quantas vezes não me peguei desejando ler um do Jorge, para ficar mais perto dos orixás? Tem muitos outros temas importantes, que causam extrema identificação, mas esse é o que aquece meu ❤️. Emocionada com o trecho de Tereza comentado acima, dei uma olhada, bem por cima, em um  livro didático sobre Jorge que comprei e no  começo do texto "Religião e sincretismo em Jorge Amado", do antropólogo de Reginaldo Prandi (que admiro muito) e ele fala exatamente sobre o que me toca na literatura amadiana: a ancestralidade, na construção das tramas, das personagens, do cotidiano, assim como também é na vida (alguns atos cotidianos são feitos, conscientemente, para agradar aos orixás, por exemplo). Diz Prandi:

"A religião na Bahia(acrescento:no Brasil), como em Jorge Amado, não se separa do mundo real, que se mostra cheio de mistério, segredo, esse cotidiano também está sempre permeado de ciladas e enganos  e até de falsidades e mentiras. A vida nunca é exatamente o que parece ser, nem deixa de ser o que de fato é. Ingrediente excepcional para fazer crescer um bom enredo. De um lado, homens e mulheres que se comportam como os deuses se comportariam se vivessem na Terra; do outro, orixás que precisam dos seres humanos para se alimentar no repasto dos  ebós, para dançar na roda das feitas, para rememorar no transe das iaôs suas míticas aventuras. Sem nunca perder-deuses e mortais- a sensualidade, a malícia e a alegria de ser. "(P 49)


Coisa linda, né? Acho linda essa coisa de representar as divindades africanas participando da vida e do cotidiano dos humanos, o pouco que aprendi sobre as religiões afro brasileiras isso foi uma das certezas que levo pra vida. ❤️ 
Na literatura de Jorge, os orixás são tudo, são temíveis, guerreiros, heróis...com isso alimenta nosso imaginário sobre outras narrativas, passados e futuros possíveis.
Teria sido Jorge Amado um dos nossos primeiros "afro futuristas"? Só amo! 


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

Metas de leitura para 2022

Meu exemplar ainda não chegou, mas a edição é essa


Em geral levo cerca de 15 dias para ler um livro entre 200 e 300 páginas, por isso meus planos é sempre ler no máximo dois por mês, idealmente um "clássico" e um "contemporâneo". Ler bem lido, sem pressa, comentando, refletindo, escrever sobre, como sempre. Ano passado me assustei porque li muito mais livros do que imaginava e gostaria de diminuir o ritmo e aumentar a densidade da leitura. Como eu tinha  previsto, devo terminar esse mês só com o extenso "Tereza Batista cansada de Guerra" (mais de 400 páginas). E o contemporâneo - Nem sinal de asas, da Marcela Dantés -, que chega em alguns dias, começo a ler em fevereiro. Depois, alternando com os "clássicos", já comprei um " Gabriela cravo e canela", da Martins editora (na expectativa de que não venha fedendo mofo), e com isso termino a leitura das quatro protagonistas de Jorge (Gabriela, Dona Flor, Tieta e Tereza Batista). 

Ai posso dar um tempo no Amado, que venho lendo desde o ano passado, e para alternar com um contemporâneo, posso substituir por outro autor brasileiro ícone que ainda não li como deveria (o projeto sempre adiado é ler DIREITO "O tempo e o vento" do Érico Verissimo ainda está nos planos). 

A expectativa desse ano é a de ler uma quantidade menos de livros, mas as leituras serão mais densas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

Sobre "Música de Brinquedo" do Pato Fu

 













Esse mês eu quase não publiquei nada aqui, né? É que estive ocupada, só no dia 12 relatei:


Parte da bibliografia que tirei da  estante para estudar

BRINCAR DE MÚSICA -No fim do ano passado eu estava tão exausta que quase esqueci do texto sobre "Música de Brinquedo" pros anais do congresso de estudos sobre infância em novembro. O texto é curto e devo terminar agora até o fim de semana. Não vou mudar muita coisa em relação a apresentação, só gostaria de analisar uma música no disco e no DVD. Mas qual faixa? Vou ouvir de novo, mas acho que já sei qual será...deixo em segredo


Era para ser fácil, porque eu tinha feito a apresentação e o esquema do texto final , mas como parecia  que tinham se passado anos que eu fiz aquilo, tive que "estudar tudo de novo", E foi um prazer.

Fui ouvir o disco, rever o DVD, passear pela bibliografia, ouvir várias coisas. no último fim de semana, já tinha selecionado meus interlocutores favoritos

Parceiros do fim de semana 15 e 16 jan 

Nesse momento já pude desfazer o mistério :

TRAMPO - Do repertório de "Música de Brinquedo" escolhi para analisar a canção "Rock and Roll Lullaby", o "rock de ninar", porque com ela dá pra abordar as performances musicais no CD e de palco no DVD e isso é um método atualizado de fazer história da música (valeu Priscila Correa) e sobretudo a questão do acalanto como primeiro objeto cultural infantil das culturas na História (obrigada Paul Zumthor ), a um só tempo vínculo com os adultos por uma herança antiga recebida, como também a introdução a literatura oral (valeu Silvia Machado). E juntando e resumindo tudo isso, vou com base em momentos do meu livro. Estrutura tá pronta, vamos ver se sai algo bom!

Foi tão bonito ver meu livro junto a outras referências. Amei de verdade.

Também amei o texto final, do qual publiquei até um trechinho. Sobre o álbum "Música de Brinquedo":


Incrível como minha paixão pelo tema transparece, né?

Em breve devo terminar minha única leitura de dezembro, Tereza Batista Cansada de Guerra, do Jorge Amado, ai comento aqui.