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segunda-feira, 21 de março de 2022

Os encantados



"As pessoas não morrem, ficam encantadas". João Guimarães Rosa.
Naquela conversa sobre Torto Arado entre Itamar Vieira Junior e o Silvio de Almeida no YouTube que comentei, uma outra fala de Itamar me volta sempre à cabeça: para ler Torto Arado é preciso se desvencilhar um pouco da perspectiva única de uma literatura mais clássica européia. Isso é bem difícil (por exemplo, eu sofri ao ver filmes africanos tentando de desvencilhar primeiro do colonial, depois até do decolonial, e ver uma matéria mais original). Em Torto Arado, uma das narradoras é a encantada Santa Rita Pescadeira, que sabe e conta sobre passados que não queremos lembrar...mas que só sua manifestação , a que não morreu só se encantou, veio reavivar. Essa encantada é como a própria narrativa, a História? Me arrepia pensar isso!



terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Walmir Ayala fala sobre infância nas estórias de Rosa

Walmir Ayala, década de 1960


Na íntegra um dos textos mais belos que encontrei no acervo de Rosa, sobre a temática "infância", nas Primeiras Estórias...

Código Arq. IEB JGR R7,100                                                                            

Título  Primeiras Estórias
Autor Walmir Ayala
Data  02 de outubro de 1962
Periódico Jornal do Comércio RJ
Guimarães Rosa volta à praça surpreendentemente. E nos dando a lição de que, com fidelidade à sua linguagem, logo seremos dono dela.  E se é difícil? Difícil é. Pois  não regate-a  o novo em instante nenhum, e cria um “falar” que nos comunica a entonação certa da região onde é falado; restitui-nos aquele viço popular da formação de palavras a partir de outras, fundindo duas numa só, e o faz de forma a passar logo para os dicionários, isto é, certo, científico, inegável. Palavras como: ‘diligentil’, ‘brumava’, se multiplicam, mas todas perdidas (ou achadas) num discurso de alta poesia em rigorosa prosa, num constante depoimento humano que nos conduz ao inevitável  suspiro de concordância e pena:Mas, a mãe, sendo só a alegria de momentos. Soubesse que um dia a mãe tinha de adoecer, então teria ficado sempre junto dela, espiando para ela, com força, sabendo muito que estava e que espiava com tanta força, ah.”  Depois de tanto atravessar suas selvas, seguimos enfim, quase em totalidade, apreciar o frescor das águas que nos derrama. E é assim, como um verídico hausto de amor que nos chega. Saber contar uma história é assunto superado em Guimarães Rosa .  Isto ainda advogar mais a seu favor, no terreno de lhe acusarem de complicado, porque a ‘estória’ sobrenada à experiência, ao laboratório, e nos fica o seu forte incenso humano, seu sangue e sua doçura de flor silvestre, impregnando nosso atribulado instante:“De repente, a velha se desapareceu do braço de Soroco, foi se sentar no degrau da escadinha do carro. -"Ela não faz nada, seo Agente... – a voz do Sorôco estava muito branda: - Ela não acode quando a gente chama...” A moça, aí, tornou a cantar, virada para, o povo, o ao ar, a cara. dela era um repouso estatelado, não  queria dar-se em espetáculo, mas representava de outroras grandezas, impossíveis. Mas a gente viu a velha olhar para ela, com um encanto de pressentimento muito  antigo - um amor extremoso. E, principiando baixinho, mas depois puxando pela voz, ela pegou a cantar, também, tomando o exemplo, a cantiga mesma da outra, que ninguém  não entendia. Agora elas cantavam junto, não paravam de cantar.”Seus personagens são sempre simples, os que nada leram, nada mais ouviram falar do que de sucedimento espontâneo e  mágico da vida.Geralmente em sertões que são dissimuladas Bagdás. Delicia-se no entrosamento das onomatopeias para discriminar o instante ou o animal. Tem a permanente visão da paisagem, dando-lhe alma, comprometendo a gente com a  verdura e o panorama. Descreve com uma riqueza em que a imaginação vem servida de um caprichoso vocabulário, trançando verdadeiras filigramas plásticas.
“Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão brusco, rijo  se proclamara. Grugulejou, sacudindo o        abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas  e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto - o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tonltriante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de se tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruzlou outro gluglo. O menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para o passeio.”O sentido de acesso de Guimarães Rosa ao mundo que o rodeia é de extremada inocência. Pega pelo sentido da criança, toda a matéria de que necessita. Fala preferencialmente de crianças e ao falar delas vai escorrendo um pensamento multifacetado e inventivo, de bom pueril. Faz sua sabedoria do arrepanhado de sensações de quem vê o mundo pela primeira vez, acrescenta a isto uma cultura que apenas sedimenta as impressões e as legaliza. Pesquisa a linguagem infantil (vide o conto “A menina de lá”) ressaltando  a pureza poética dos seus vestígios, fazendo disso acertos para sempre.Sobretudo, em cada conto começado temos uma história perfeita, sem palavra a mais, que nos dá, acima do conflito sempre positivo pelo movimento emocional de rara beleza e humanidade em que se interpreta, uma definição completamente nova de sombra, do raio, do animal, do verdor, da água, e de mil elementos naturais pelos quais passamos cotidianamente e que nossos olhos não mais distinguem sob o pó do hábito e de nossa nublada solidão.  Então temos em Guimarães Rosa o milagre de ver-o-mundo, nisto reside seu dom efetivamente divino: ele cria inelutavelmente a partir de um material estritamente seu, inimitável. Como contista só lhe encontro paralelo em Clarice Lispector, diferentemente, é claro. Clarice é menos panorâmica, é mais restritiva e febril em sua paixão penumbrosa. Guimarães Rosa faz um exercício rente permanente de saltimbanco e nos transmite lugares inesquecíveis, coloca as pessoas em paisagens certas, reflete costumes tribais de extrema fatalidade, tem muito sol, e uma saudade indefinível em cada alma posta ali em terreiros, matagais, ambientes de intima pobreza. A morte sobrevoa suas histórias-estórias, não podia ser de outra forma em se tratando de um poeta de raro acento. Mas há uma contante para a vida que emoldura seus enredos: para o menino que viajou enquanto a mãe sarava, e que ia perseguido pela ideia dos tucanos, disso tudo criando uma fábula dramática e forte, para este menino ele reserva a frase final do conto assim: “Sorria fechado: sorrisos e enigmas, seus. E vinha a vida”; para o outro menino num simples passeio onde vê tantas coisas, inclusive a estranheza de um peru e sua morte, um menino perplexo diante das coisas inexplicáveis para um menino, para este menino ele  reserva outra frase final, ou seja: “ Era, outra vez em quando, a Alegria”; para Sorôco, acabado de levar a um trem de partida a filha e a mãe, loucas, o contista reserva aquele abrigo:” A gente estava levando agora o Soroco para a casa dele, de verdade. A ,gente, com ele, ia até aonde que ia aquela cantiga.”Assim prossegue, abraçando todos os personagens numa emoção de lágrimas, este grande prosador, sobre o qual é muito perigoso falar com armas de técnica literária, de estilística ou coisas mais. Um prosador para estar nas escolas e na afeição singela do povo, pois o povo as que ele quer comunicar. Difícil, já o dissemos no princípio deste artigo.Mas como atingirmos esta outra facilidade de sua música, se não nos debatermos no difícil de sua cartilha.
E depois, aprendidos em ler, como nos são dadas delícias com seu desenho primitivo e gritante. Quantos revoos para nossa alma vazia, quanta cor para nossa solidão brumosa, quanto amor para o nosso momento de apatia.Prosseguimos o livro: de repente se adensa em considerações sobre o espelho, bem menos eficientes, a meu ver, do que as considerações sobre a vaquinha fugida. Mas é no Espelho que vamos surpreender por um momento a exigentíssima oficina de Guimarães Rosa. Ao confessar-se um perquiridor, surpreendido num determinado ângulo de um espelho, e desconhecendo-se repelindo-se sob esta visão, ele começa a praticar o seu ‘urgir científicos de surpreender outros estágios de fisionomia, então: Operava com toda a sorte de astúcias: o rapidíssimo relance, os golpes de esguelha, a longa obliqüidade apurada, as contra-surpresas, a finta de pálpebras, a tocaia com a luz de-repente acesa, os ângulos variados incessantemente. Sobretudo, uma Inembotável paciência. Mirava-me, também, em marcados momentos - de ira, medo, orgulho abatido ou dilatado, extrema alegria ou tristeza. Sobreabriam-se-me enigmas. Se, por exemplo, em estado de ódio, o senhor enfrenta objetivamente  a sua imagem, o ódio reflui e recrudesce, em tremendas multiplicações: e o senhor vê, então, que, de fato, só se odeia é a si mesmo. Olhos contra os olhos. Soube-o: os olhos da gente não têm fim.”
Eis o homem. Astucioso, incansável, lúcido. Com as palavras o mesmo. Sobretudo sabedor de que os olhos da gente não tem fim. Os olhos de sua inteligência literária são dessa natureza: indefinidos. Mergulhadores incansáveis de um caos enumerável, ordenadores de sequencias latentes de gramática, simplificador de complexidades. Que mais dizer de um alquimista tão inevitável? Nada. Apenas convidar, insistir, impelir, a ler seus contos de “primeiras estórias” onde encontramos os mais belos momentos desse gênero literário no Brasil. E podemos entender melhor o que é o novo. E a quem isso não interessar lhe servirá o eterno, inerente e claro na narrativa de João Guimarães Rosa.
         (Texto retirado da tese RODRIGUES, Camila. Escrevendo a lápis de cor: Infância e história na             escritura de Guimarães Rosa)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Palavras Bolha de Sabão de Guimarães Rosa : é como "a gente" fala em Minas


ESTUDAR GUIMARÃES ROSA É UM SENTIDO PARA A VIDA. Depois de cerca de 10 anos estudando Rosa, me surge uma leitura totalmente nova:
"DIADORIM: Não é nem feminino, nem masculino, é neutro, é como mais um palavra bolha de sabão de Guimarães Rosa, que não se concretizam porque o gênero, de fato, da maneira como a gente fala em Minas é o que menos importa, a gente reduz e tira o gênero porque a gente tirou o final q não sabe se é O ou se é A e isso muito curioso porque muitas vezes, nesse contato com essas pessoas, muitas vezes elas tratam esssa questão com uma simplicidade , elas não complexifica até o final para chegar no gênero , elas quebram antes, então às vezes as pessoas quebram o esteriótipo de gênero e vivem a vida delas sem pensar que estão fazendo isso, elas nem sabem o que é esteriótipo nem sabem o que é gênero, nem querem saber, elas estão vivendo, estão sendo ali" ( Fred Botrell)
Acho que ssa leitura é maravilhosa, super valoriza a oralidade, os modos da fala como agentes na realidade em Guimarães Rosa, Me arrepio toda!
(Fonte: https://www.youtube.com/watch?v=cykjdyHRf6s)

segunda-feira, 14 de maio de 2018

Teoria não é manual de instruções

Imagem de uma garotinha aprendendo a andar, representando Djaiaí

Sou e quero ser uma historiadora da teoria. Nós pesquisadores deveríamos saber todo o tempo, mas tantas vezes nos esquecemos, de que teoria é  muito importante sim, ainda mais nesse contexto fragmentado e sutil que vivemos, é preciso ter um chão  (ainda que de barro ) para nos sustentar. O mais importante, a meu ver, é o modo que vamos lidar com ela: depois de cerca de dez anos estudando o desbunde de invenção de Rosa pela Teoria da História, não consigo mais enxergá-la como método ou receita, mas sim como um convite  ao pensamento, à reflexão mais aprofundada que leva a uma constante recriação de tudo .  Dessa tendência não me desligo, ainda que ela me faça, novamente, a ser expulsa da História  porque não rezei sua missa direitinho (nem para frente, nem para trás)... Não posso deixar de ser quem me tornei depois de travessias profundas no sertão e na teoria para voltar a categorizar as fontes. Nos rituais tribais, depois de uma conquista, o indivíduo  costuma receber um novo nome, como que renascido. Também no conto Tresaventura de Rosa, que analisei na tese,  a protagonista é  uma menininha que, ainda aprendendo a andar, foge de casa em direção ao sonhado (no sentido de sonho como acesso ao inconsciente mesmo) arrozal. Para suas curtas perninhas o caminho é longuíssimo e ela percorre apenas uma pequena parte. No entanto, porque concluiu corajosamente a travessia como podia naquele momento, ao final recebe seu nome e o leitor conhece Djaiaí. Lembrando da reflexão de Heidegger que comecei com o Nicolau, depois de abrir uma picada na mata fechada - no caso não com uma faca, mas com anedotas infantis, lembrando que anedota é "contra Historia, escreveu o Rosa em 1967 e eu estudei no mestrado -, não volto atrás e talvez tenha mesmo que mudar de nome. Talvez adote um mais ligado aos meus ancestrais tribais ... Quem sabe...

segunda-feira, 3 de abril de 2017

SÍNTESE DO MEU PERCURSO ACADÊMICO : BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE

BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE - Precisei abrir meus resultados finais de pesquisa sobre as relações entre História e Literatura (Iniciação científica - mestrado - tese) e sabe de uma coisa? Me orgulhei muito deles!
Se na IC, sobre um romance de Saramago, eu já me interessava por questões teóricas e metodológicas, também já amava Ginzburg, mas ainda não conhecia outra orientação teórica mais específica na História para realizar esta operação com o literário, só que com minhas "visitas" às aulas nas Letras "conheci" o discurso dialógico de Bakhtin e pirei (até hoje piro nesse lance do diálogo) e adaptei isso para os fluxos da historiografia portuguesa, o que Laura de Melo e Sousa (orientadora) achou que ficou original. Como resultado final eu escrevi um artigo que ficou eternamente no prelo e nunca foi publicado, infelizmente.
Ilustrações  do livro Tutaméia: terceitórias de JGR (1967)
No mestrado eu quis mudar e mergulhei no livro Tutaméia de Rosa e na sua fortuna crítica, e isso me obrigou a mudar certas perspectivas : embora não seja o ideal, o texto de Saramago me permitia não analisá-lo detalhadamente, palavra por palavra, como o Alfredo Bosi ensinava analisar um poema. Já o rendado texto de Rosa sempre exige uma leitura "ulpianística" da coisa. Nesse trabalho, além do papai Ginzburg, eu mergulhei também nas ideias de Walter Benjamin e formou-se minha divina trindade:
Ginzburg-Rosa-Benjamin
O legal desse trabalho é que, como eu queria, ele ficou bem brasileiro, e embora não o cite textualmente nenhuma vez (não sei porque não o cito nunca!), por trás de tudo ali está embutido o ideário do que considero nosso maior historiador, que é o Sérgio Buarque de Holanda (sim, eu sou uma cria da USP!).
Recortes de desenhos que Rosa fez para sua neta Vera Tess
O doutorado poderia ter sido só a celebração da minha santíssima trindade descoberta no mestrado, mas como eu quis inserir as crianças, precisei experimentar novos métodos historiográficos e trouxe à tona os manuscritos literários, o que me levou a dialogar com a Crítica Genética e tal...e é um trabalho mais lúdico, mais lambuzado de Guimarães Rosa que eu simplesmente amei fazer.

No pós-doutorado, ainda inconcluso, voltei à historiografia mais clássica e brinco com a História Cultural, só que do humor. Para analisar minhas fontes, sigo o método do meu ex orientador e atual supervisor Elias Thomé Saliba : objetividade metodológica (leia e analise o documento) e subjetividade epistemológica (considere todos os que dialogarem com seu tema), que, na verdade, é mais uma forma possível de abordar a interdisciplinaridade na pesquisa em História.
Acho que, resumidamente, este é o grosso do meu percurso acadêmico até agora.

domingo, 21 de fevereiro de 2016

Desenredo - João Guimarães Rosa


Colo aqui o texto completo da estória Desenredo, de Guimarães Rosa (original está no livro "Tutaméia:Terceiras estórias". Rio de Janeiro: José Olympio, 1967, p. 38-40), que encontrei nesse link.




Desenredo –  Guimarães Rosa
Do narrador seus ouvintes:

– Jó Joaquim, cliente, era quieto, respeitado, bom como o cheiro de cerveja. Tinha o para não ser célebre. Com elas quem pode, porém? Foi Adão dormir e Eva nascer. Chamando-se Livíria, Rivília ou Irlívia, a que, nesta observação, a Jó Joaquim apareceu.

Antes bonita, olhos de viva mosca, morena mel e pão. Aliás, casada. Sorriram-se, viram-se. Era infinitamente maio e Jó Joaquim pegou o amor. Enfim, entenderam-se. Voando o mais em ímpeto de nau tangida a vela e vento. Mas tendo tudo de ser secreto, claro, coberto de sete capas.
Porque o marido se fazia notório, na valentia com ciúme; e as aldeias são a alheia vigilância. Então ao rigor geral os dois se sujeitaram, conforme o clandestino amor em sua forma local, conforme o mundo é mundo. Todo abismo é navegável a barquinhos de papel.
Não se via quando e como se viam. Jó Joaquim, além disso, existindo só retraído, minuciosamente. Esperar é reconhecer-se incompleto. Dependiam eles de enorme milagre. O inebriado engano.
Até que -deu-se o desmastreio. O trágico não vem a conta-gotas. Apanhara o marido a mulher: com outro, um terceiro… Sem mais cá nem mais lá, mediante revólver, assustou-a e matou-o. Diz-se, também, que a ferira, leviano modo.
Jó Joaquim, derrubadamente surpreso, no absurdo desistia de crer, e foi para o decúbito dorsal, por dores, frios, calores, quiçá lágrimas, devolvido ao barro, entre o inefável e o infando. Imaginara-a jamais a ter o pé em três estribos; chegou a maldizer de seus próprios e gratos abusufrutos. Reteve-se de vê-la. Proibia-se de ser pseudo personagem, em lance de tão vermelha e preta amplitude.
Ela -longe- sempre ou ao máximo mais formosa, já sarada e sã. Ele exercitava-se a agüentar-se, nas defeituosas emoções.
Enquanto, ora, as coisas amaduravam. Todo fim é impossível? Azarado fugitivo, e como à Providência praz, o marido faleceu, afogado ou de tifo. O tempo é engenhoso.
Soube-o logo Jó Joaquim, em seu franciscanato, dolorido mas já medicado. Vai, pois, com a amada se encontrou -ela sutil como uma colher de chá, grude de engodos, o firme fascínio. Nela acreditou, num abrir e não fechar de ouvidos. Daí, de repente, casaram-se. Alegres, sim, para feliz escândalo popular, por que forma fosse.
Mas.
Sempre vem imprevisível o abominoso? Ou: os tempos se seguem e parafraseiam-se. Deu-se a entrada dos demônios.
Da vez, Jó Joaquim foi quem a deparou, em péssima hora: traído e traidora. De amor não a matou, que não era para truz de tigre ou leão. Expulsou-a apenas, apostrofando-se, como inédito poeta e homem. E viajou a mulher, a desconhecido destino.
Tudo aplaudiu e reprovou o povo, repartido. Pelo fato, Jó Joaquim sentiu-se histórico, quase criminoso, reincidente. Triste, pois que tão calado. Suas lágrimas corriam atrás dela, como formiguinhas brancas. Mas, no frágio da barca, de novo respeitado, quieto. Vá-se a camisa, que não o dela dentro. Era o seu um amor meditado, a prova de remorsos. Dedicou-se a endireitar-se.
Mais.
No decorrer e comenos, Jó Joaquim entrou sensível a aplicar-se, a progressivo, jeitoso afã. A bonança nada tem a ver com a tempestade. Crível? Sábio sempre foi Ulisses, que começou por se fazer de louco. Desejava ele, Jó Joaquim, a felicidade -idéia inata. Entregou-se a remir, redimir a mulher, à conte inteira. Incrível? É de notar que o ar vem do ar. De sofrer e amar, a gente não se desafaz. Ele queria os arquétipos, platonizava. Ela era um aroma.
Nunca tivera ela amantes! Não um. Não dois. Disse-se e dizia isso Jó Joaquim. Reportava a lenda a embustes, falsas lérias escabrosas. Cumpria-lhe descaluniá-la, obrigava-se por tudo. Trouxe à boca-de-cena do mundo, de caso raso, o que fora tão claro como água suja. Demonstrando-o, amatemático, contrário ao público pensamento e à lógica, desde que Aristóteles a fundou. O que não era tão fácil como fritar almôndegas. Sem malícia, com paciência, sem insistência, principalmente.
O ponto está em que o soube, de tal arte: por antipesquisas, acronologia miúda, conversinhas escudadas, remendados testemunhos. Jó Joaquim, genial, operava o passado -plástico e contraditório rascunho. Criava nova, transformada realidade, mais alta. Mais certa?
Celebrava-a, ufanático, tendo-a por justa e averiguada, com convicção manifesta. Haja o absoluto amar -e qualquer causa se irrefuta.
Pois produziu efeito. Surtiu bem. Sumiram-se os pontos das reticências, o tempo secou o assunto. Total o transato desmanchava-se, a anterior evidência e seu nevoeiro. O real e válido, na árvore, é a reta que vai para cima. Todos já acreditavam. Jó Joaquim primeiro que todos.
Mesmo a mulher, até, por fim. Chegou-lhe lá a notícia, onde se achava, em ignota, defendida, perfeita distância. Soube-se nua e pura. Veio sem culpa. Voltou, com dengos e fofos de bandeira ao vento.
Três vezes passa perto da gente a felicidade. Jó Joaquim e Vilíria retomaram-se, e conviveram, convolados, o verdadeiro e melhor de sua útil vida.
E pôs-se a fábula em ata.


segunda-feira, 21 de julho de 2014

"ESCUTA E DIÁLOGO COM O UNIVERSO POÉTICO INFANTIL”- bate papo com Camila Rodrigues


"ESCUTA E DIÁLOGO COM O UNIVERSO POÉTICO INFANTIL”- bate papo com Camila Rodrigues

Na manhã de  19 de julho de 2014 estive com os professores de  crianças de 0 a 4 anos da CEI Vila Calu, em Itapecerica da Serra, falando  um pouco  do que estudei sobre  a importância do diálogo e a interatividade com os infantes,  o incentivo a criatividade e ao desenvolvimento de várias linguagens com as quais as crianças se comunicam, como desenhos, brinquedos, cantigas. Também consegui comentar com eles sobre experiências no sentido de incentivar as práticas de vida adquiridas pelos  adultos em contato direto com o  criativo universo infantil, como a do escritor João  Guimarães Rosa que já era um  autor consagrado quando teve o  interesse e a  humildade em se voltar a linguagem da neta de pouca idade em cartões postais que enviou a ela e nos quais experimentou abrir seu leque de linguagens caras aos pequenos com cores, desenhos, cantigas que abriam caminhos novos em  direção a criatividade.  Também pude falar da experiência do fonoaudiólogo Pedro Bloch, que não só escrevia  mas também  publicava as falas infantis em livros; do conjunto de conhecimentos desenvolvidos para crianças na  primeira infância, na Reggio Emilia, na Itália, onde a ideia é a de  buscar o  pleno desenvolvimento das linguagens infantis   antes da entrada  na linguagem; ou mesmo dos discos e shows "Música de Brinquedo", da banda Pato fu, que é todo ele tocado com instrumentos de brinquedo, juntamente com as crianças.

Foi muito bom perceber o quanto isso foi bem recebido pelos professores, que interagiram comigo, demonstraram muito interesse  pelo que eu estava expondo. Do meu ponto de vista,  também foi bastante rico escutar  o que eles tinham para me falar, porque eu pude ouvir um pouco da experiência de cada um na Educação infantil - que ainda continua sendo  tomada como  um ramo menor da educação,  ou como mero  assistencialismo, quando na verdade é um um dos trabalhos mais impotantes para o ser humano, pois lida com as primeiras aprendizagens de todo mundo,  o acompanhamento das  vivências iniciais  e o sutil desenvolvimento da interação e percepção.

Nas narrativas dos professores sobre  o  trato cotidiano com as crianças pequenas, alguns depoimentos me emocionaram especialmente, como do Nei, que falou sobre como foi importante para uma maior proximidade com as crianças, passar na postura de 'Homem ereto' que olha todas  por cima delas, e se abaixar para se unir elas sentado no chão, olhando o mundo da mesma perspectiva dos pequenos para interegir; ou da Renata, que falou que os professores da E.I., até pelo convívio intenso com pequenos tão criativos, também apresentam grandes ideias  até mesmo sobre a própria educação.

Por fim, consegui visualisar perfetamente isso tudo ao visitar as salas do CEI: deu para regitrar o tamanho do cuidado e da criatividade desses professores que convivem com os pequeninos: como eles inventam e criam coisas lindas para esses seresinhos! Foi fundamental e enriquecedor, só tenho a agradecer aos professores, a cordenadora Roberta Villa e, sobretudo, às crianças, por existirem como verdeira esperança de um futuro melhor. 

Referências :

Livros apresentados:

BLOCH, Pedro. Criança é isso aí. Rio de Janeiro: Bloch Ed. ,1980.
____________.Dicionário de anedotas de crianças para adultos. Rio de
       Janeiro:Revinter,2001.
____________. Essas crianças de hoje! Rio de Janeiro: Bloch Ed.,1970.
EDWARDS, Carolyn; FORMAN,George & GANDINI, Lella. As Cem Linguagens da
      Criança - A abordagem de Reggio Emilia na Educação da Primeira Infância. Trad

 Dayse Batista, Porto Alegre: Artmed,1999.
NARANJO, Javier (org). Casa das Estrelas: O Universo contado pelas crianças. Trad.
         Carla Branco. Ilustração Carla Branco. Rio de Janeiro: Foz, 2013, p. 49.
ROSA,  João Guimarães. Ooó do vovô: correspondência de João Guimarães Rosa, o vovô
          Joãozinho, com Vera e Beatriz Helena Tess, de setembro de 1966 a novembro de 1967.
           São Paulo Edusp; Imprensa oficial do Estado de São Paulo;Belo Horizonte: Ed. PUC/ Minas, 2003.

Discos e DVDs comentados:

CD  PATO FU, Música de brinquedo, Brasil, 2010.
DVD PATO FU Música de Brinquedo ao vivo, Brasil, 2011.

Vídeo   recomendado:

Reportagem sobre a Escola em Reggio Emilia, Itália
https://www.youtube.com/watch?v=4j8mtA_iDss

quinta-feira, 28 de março de 2013

João, o menino Rosa e a Coleção Brasileirinhos

 
João Guimarães Rosa foi uma das figuras da cultura nacional escolhida para ser personagens de um dos livros paradidáticos da Coleção Brasileirinhos, destinada a apresentar às crianças e jovens biografias de personalidades consideradas "do bem".
Jakson Ferreira de Alencar, organizador da coleção, explica AOS EDUCADORES, não aos leitores: 

“Vivemos uma grande carência de paradigmas éticos. As tão propaladas ‘celebridades’ dos nossos dias, em grande parte, não tem muitos méritos, nem artísticos, nem éticos (entendendo-se por ética não um conjunto de regrinhas, mas uma maneira de bem orientar a vida, individualmente e em relação com os outros e com os valores humanos). Reina uma mentalidade forte segundo a qual o que vale é a fama e o dinheiro a qualquer custo. Com isso ficam ocultadas as verdadeiras celebridades, as grandes personalidades que não quiseram fama e dinheiro a qualquer custo, mas que se dedicaram a edificar um mundo melhor e a elevar o nível da humanidade, pessoas que verdadeiramente ‘fizeram a diferença’ no mundo, seja na arte, na educação, na espiritualidade, no trabalho ou na cultura em geral. Por isso a Coleção Brasileirirnhos apresenta algumas dessas personalidades paradigmáticas de nosso país , as quais podem servir de inspiração para nossas crianças construírem seu futuro. A vida de cada uma delas é apresentada desde a infância, mostrando elementos que contribuíram para que fossem o que foram. A intenção não é apresentar modelos a serem seguidos, pois ninguém repete ninguém, e cada um segue o seu caminho, mas realmente apresentar inspirações.Os textos não são pedantes nem chatos, nem moralistas; pelo contrário, foram escritos de maneira literária, poética, gostosa de ler, como se fossem narrativas poéticas mesmo. Acreditamos que os leitores apreciarão muito saborear esses livros."

Partindo das propostas da coleção, acho difícil que os livros não sejam lidos como moralizantes. Sinto, de leve, um tom de preconceito cultural nesta proposta - coisa com a qual Rosa jamais concordaria -, mas o que importa é edificar a imagem de mais um vulto nacional. Em pleno século XXI acho no mínimo digno de nota.

 

 

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Um trabalho de vovô...


Como seria esse "trabalho de vovô" que Verinha ia arranjar para seu vovô Joãozinho, quando o trouxesse para São Paulo, em 1967? (rs)

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Fita Verde no Cabelo (Nova velha estória) João Guimarães Rosa


Fita Verde no Cabelo (Nova velha estória)

João Guimarães Rosa


Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam, homens e mulheres que esperavam, e meninos e meninas que nasciam e cresciam. Todos em juízo, suficientemente, menos uma meninazinha, a que por enquanto. Aquela, um dia, saiu de lá, com uma fita verde inventada no cabelo.
Sua mãe mandara-a, com um cesto e um pote, à avó, que a amava, a uma outra e quase igualzinha aldeia. Fita-Verde partiu, sobre logo, ela a linda, tudo era uma vez. O pote continha um doce em calda, e o cesto estava vazio, que para buscar framboesas.
Daí, que, indo, no atravessar o bosque, viu só os lenhadores, que por lá lenhavam; mas o lobo nenhum, desconhecido nem peludo. Pois os lenhadores tinham exterminado o lobo. Então, ela, mesma, era quem se dizia: – “Vou à vovó, com cesto e pote, e a fita verde no cabelo, o tanto que a mamãe me mandou”. A aldeia e a casa esperando-a acolá, depois daquele moinho, que a gente pensa que vê, e das horas, que a gente não vê que não são.
E ela mesma resolveu escolher tomar este caminho de cá, louco e longo, e não o outro, encurtoso. Saiu, atrás de suas asas ligeiras, sua sombra também vindo-lhe correndo, em pós. Divertia-se com ver as avelãs do chão não voarem, com inalcançar essas borboletas nunca em buquê nem em botão, e com ignorar se cada uma em seu lugar as plebeiinhas flores, princesinhas e incomuns, quando a gente tanto por elas passa. Vinha sobejadamente.
Demorou, para dar com avó em casa, que assim lhe respondeu, quando ela, toque, toque, bateu:
- “Quem é?”
- “Sou eu…” – e Fita-Verde descansou a voz. – “Sou sua linda netinha, com cesto e pote, com a fita verde no cabelo, que a mamãe me mandou.”
Vai, a vovó, difícil, disse: – “Puxa o ferrolho de pau da porta, entra e abre. Deus te abençõe.”
Fita-Verde assim fez, e entrou e olhou.
A avó estava na cama, rebuçada e só. Devia, para falar agagado e fraco e rouco, assim, de ter apanhado um ruim defluxo. Dizendo: – “Depõe o pote e o cesto na arca, e vem para perto de mim, enquanto é tempo.”
Mas agora Fita-Verde se espantava, além de entristecer-se de ver que perdera em caminho sua grande fita verde no cabelo atada; e estava suada, com enorme fome de almoço. Ela perguntou:
- “Vovozinha, que braços tão magros, os seus, e que mãos tão trementes!”
- É porque não vou poder nunca mais te abraçar, minha neta…” – a avó murmurou.
- “Vovozinha, mas que lábios, aí, tão arroxeados!”
- É porque não vou nunca mais poder te beijar, minha neta…” – a avó suspirou.
- “Vovozinha, e que olhos tão fundos e parados, nesse rosto encovado, pálido!”
- “É porque já não te estou vendo, nunca mais, minha netinha…” – a avó ainda gemeu.
Fita-Verde mais se assustou, como se fosse ter juízo pela primeira vez.
Gritou: – “Vovozinha, eu tenho medo do Lobo!…”
Mas a avó não estava mais lá, sendo que demasiado ausente, a não ser pelo frio, triste e tão repentino corpo.

IN : O Estado de São Paulo de 08/02/1964

domingo, 23 de maio de 2010

DATAS SÃO PONTAS DE ICEBERGS


Cito Alfredo Bosi - meu magister- sobre questões que me incomodam desde que comecei a graduação em História:

"DATAS
1492,1792,1822,1922.
Datas. Mas o que são datas?
Datas são pontas de icebergs.

O navegador que singra a imensidão do mar bendiz a presença dessas emersas, sólidos geométricos, cubos e cilindros de gelo visíveis a olho nu e a grandes distâncias. Sem essas balizas naturais que cintilam até sob a luz noturna das estrelas, como evitar que a nau se espedace de encontro às massas submersas que não se vêem?
Datas são pontas de icebergs. (...)


1956 (...)

Debaixo dessa ponta de iceberg, o que vamos encontrar?

Em 1956 o presidente bossa-nova, Juscelino Kubitscheck, recém empossado, lança o seu ambicioso Programa de Metas que incluirá a mudança da Capital para o Oest, a ousada construção em pleno e ermo cerrado de uma cidade inteiramente planejada, Brasília, pensada por dois paladinos da nossa modernidade artística, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

1956 significará também a abertura do país ao capitalismo internacional e a criação da indústria automobilistica. 56, na cabeça dos políticos modernizadores, representa o ano do deslanche do desenvolvimento, a aceleração dos ritmos. Cinquenta anos em cinco, eis um lema sintomático que, para nós, tem tudo a ver com a imagem daquele tempo vectorial, daquele tempo-flecha que avança na direção de um estágio que deverá superar os anteriores. Um ritmo que quer queimar etapas; de resto, sabe-se que acelerar o processo se diz também: aquecer a economia.

Aos olhos de uma sociologia reducionista da cultura, pela qual o externo dos fatos sociais se converte no interno das criações da arte, o programa modernizador de Juscelino teria encontrado a sua imagem especular no lançamento da Poesia Concreta em São Paulo naquele mesmo ano quente de 56. (...)

1956 é também o ano em que Guimarães Rosa, o maior escritor brasileiro do século, lança o seu Grande sertão:Veredas.

Agora, debaixo da ponta do iceberg, as massas submersas apresentam outra e estranha consistência.

Em Rosa a linguagem narrativa não é só sitáxe, sequência, é também mito e poema. Como tal, alcança reviver, polifonicamente, as riquezas e os enigmas da sabedoria arcaica mediante a travessia pelas mentes e pelos corações sertanejos e pela sua oralidade tal como se manifestava nas Minas Gerais do começo do século.(...)
Mas onde estamos em 1956? No mito, na linguagem arcaica e popular, na evocação do contexto jagunço , na volta apaixonada^à natureza mais agreste? Ou na arrancada para a modernização definitiva?
João Guimarães Rosa, cidadão que, na vida profissional e pública, foi estreitamente ligado ao governo de Juscelino, dá as costas para qualquer veleidade modernizante. O seu tempo existencial é outro. Outra é a sua matéria vertente.(...)"
________________________________________________________
BOSI, Alfredo. O tempo e os temposIn: NOVAES, Adalto (org.) Tempo e História. São Paulo: Cia das Letras. 1992 Pp. 19-32

quarta-feira, 3 de março de 2010

A Coruja tailandesa e Guimarães Rosa

Nas imagens do dia do portal UOL vemos a fotografia de uma coruja tailandesa piscando em Bancoc. Vejamos:

Vocês podem me perguntar: E daí?
Eu respondo: Daí que me lembrei da minha dissertação, pois em Tutaméia, Guimarães Rosa colocava ao fim de cada conto ou o desenho de um caranguejo ou o de uma coruja...
Sobre a coruja eu escrevi o seguinte nas páginas 37-8:

"Esta é uma ave que assumiu a simbologia da inteligência, do ser ensimesmado, dotado de um olhar sábio, pois possui a capacidade de ver no escuro, daí que este animal também é associado à transformação dos processos, algumas vezes trazida pela idéia de morte de uma ordem anterior, uma tradição.
Segundo uma conhecida afirmação de Hegel sobre o papel da filosofia em sua época, esta assemelha-se à coruja de Minerva, que é uma ave que só levanta vôo ao entardecer e, nesse aspecto, aponta para o que só pode ser compreendido quando começa a deixar de acontecer.
Esta referência já havia sido indicada por Guimarães Rosa em seu texto A estória de Lélio e Lina, quando Lina – a velhinha – apresenta-se assim a Lélio – o seu mocinho:
'Rosalina. Você acha bonito o nome? Já fui mesmo rosa. Não pude ser mais tempo. Ninguém pode... Estou na desflôr. Mas estas mãos já foram muito beijadas. De seda... Depois, fui vendo que o tempo mudava, não estive querendo ser como a coruja – de tardinha, não se voa...'
Pensando neste texto de Guimarães Rosa, a imagem da coruja como representação de mudanças rápidas no cotidiano, trazidas por progressos ou modernidades - quando Rosalina foi vendo 'que o tempo mudava'- era preocupação comum nas representações literárias executadas pelas obras rosianas. " RODRIGUES, Camila. Mãos vazias e pássaros voando: Memória, invenção e História em Tutaméia de Guimarães Rosa. Pp. 37-8

O que acham dessas simbologias?

Eu acho muito interessante!


segunda-feira, 1 de março de 2010

Meu momento íntimo com José Midlin



Ontem, dia 28 de fevereiro de 2010 morreu o bibliófilo José Mindlin.
Não vou escrever sobre a Biblioteca Brasiliana (que está sendo organizada sob a coordenação do meu ex professor de História do Brasil colonial na USP, o Pedro Puntoni), nem sobre o amor aos livros e ao conhecimento - que são as mais difundidas características deste homem notável - porque sobre isso qualquer um pode pesquisar na Web e "aprender" sobre...
Quero escrever sobre um rápido momento de intimidade que vivi com Mindlin já nos anos 2000, afinal narrativa alguma pode superar a força da morte, que só pode ser vencida pelos sentimentos, como o que nasceu depois daquele momento "íntimo"!
Foi no inesquecível dia 15 de maio de 2006 (o dia do ataque do PCC), quando foram inaugurados os trabalhos do Seminário internacional "Cinqüentenário Grande Sertão: Veredas e Corpo de Baile" aqui na USP...
Mindlin e Antonio Cândido foram os convidados para a inesquecível palestra inicial e eu estava no céu: De repente todos os rosianos, toda a bibliografia no meu mestrado estava ali para ouvir, em pessoa! (rs)
Foi uma emoção sem par... mas o momento que me recordo sempre com emoção foi quando, ao fim da primeira manhã dos trabalhos, antes de sairmos do anfiteatro para o almoço, vi Mindlin sozinho aguardando a chegada de alguém para acompaná-lo (ele estava bem velhinho já) e com a minha cara de pau característica não pude perder a oportunidade de falar com ele, queria dizer que adorava, todas as noites, ir dormir ouvindo ele ler o "Encontro de Riobaldo com o menino" no CD "7 Episódios do Grande Sertão: Veredas":






Mindlin não conseguia me ouvir direito em meio ao barulho de tanta gente , então me pediu que falasse bem perto do seu ouvido, assim eu fiz e ele abriu um sorriso lindo, como se me reconhecesse "aqui uma outra amante de Rosa!" e disse que a maravilha estava toda no texto de Rosa, que ele apenas havia tentado ler com a grandiosidade que ele emanava!
Que prazer foi aquele momento!
Eu ainda ouço o CD com a leitura de Mindlin com freqüência e nada pagará esta memória de mim!
Eu poderei dizer que compartilhei com Mindlin nosso amor pelo maior escritor brasileiro, João Guimarães Rosa