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segunda-feira, 15 de abril de 2024

ELABORANDO TANTAS COISAS: O SAMBA É PERTENCIMENTO!


Espirito da intimidade, esse livro lindo sobre sabedoria ancestral africana



Em  "Espírito da intimidade", um livro sobre os ensinamentos ancestrais de tribos africanas, Sobonfu Somé, ensina a ancestral sabedoria da tradição Dagara, tribo do Volta Superior, na África. É muito rico ler sobre aquelas tradições e perceber como fazem , ou não, sentido para a gente atualmente. Para mim, em 2024, um ponto faz muito sentido: no livro eu li :

"A ausência de uma comunidade para receber um recém nascido pode, inadvertidamente, apagar algo na psique. Essa perda, mais tarde, será sentida como um enorme vazio. Embora essa pessoa sinta uma enorme necessidade de se conectar com outros, poderá ter dificuldade em buscar apoio da comunidade, temendo a rejeição. O que essa pessoa buscará, quando entrar em um relacionamento íntimo, senão preencher aquele vazio?
Quando ela perceber que seu parceiro, por si só, não vai conseguir preencher esse vazio, um problema será criado. Embora a pessoa entre em um relacionamento para satisfazer sua necessidade de comunicação, não consegue fazê-lo desse modo. É preciso toda uma comunidade para fazer isso. Uma única pessoa não pode satisfaz todas as necessidades, nem compensar a falta de continuidade experimentada desde o nascimento. (Espírito da intimidade, p. 71/2)


 Pois bem, se aquele que foi abandonado ao nascer carrega um vazio em sua psique e depois pode  vai buscar preencher essa lacuna num relacionamento amoroso, pois qualquer  sensação de identificação afetiva pode confundir com alguma completude. No meu caso, como vim comentando nesse link, o canto da sereia veio sempre com promessas de pertencimento religioso, aproximação aos orixás, ao sagrado e ao especial, que minha carência de órfã e meu desejo misturou com ancestralidade e quando dá erro, dói muito.

Na minha ilusão, Xangô e Oxum simbolizavam
o pertencimento que me foi negado, mas que eu merecia

 Quando enfim despertamos do transe, percebemos que tem algo errado e os  problemas surgem, porque a sensação de completude é falsa e acaba sendo dolorosa frustração , pois aquele vazio não pode ser preenchido por uma só pessoa, mas só pelo ABRAÇO DA COMUNIDADE, que para mim, que sou uma pesquisadora que tem muito interesse nas divindades, sabedorias e mitos, mas não consegue se adequar aos dogmas religiosos, esse abraço  não vem da comunidade religiosa. 

Como adiantei, estou elaborando tudo isso e, nesse momento, esse é o resumo da minha vida nos últimos tempos: frustração amorosa e o acolhimento no samba, o meu abraço de pertencimento a algo maior, à uma ascendência sagrada. 

Gosto de contar assim: Completa pelo samba, talvez eu esteja pronta para viver um amor mais tranquilo, sem depositar nele tão grandes expectativas. Talvez. 

sexta-feira, 15 de março de 2024

Canto da sereia e o cancioneiro para os Orixás

 
Um dos meus livros da vida 😍

O CANTO DA SEREIA: De todas as decepções amorosas que tive na vida (quem nunca?), as mais dolorosas foram/são as com negros, que me contaram histórias, dizem revelar "segredos" desse passado ancestral que nos foi roubado. Quando se acha que essa busca de toda uma vida pode ter chegado ao fim, mas foi só mais uma ilusão, a punhalada é violenta. Como dói...

Aí eu volto a um dos meus livros da vida e vou buscar os orixás no belo cancioneiro brasileiro e tudo vale à pena.

Orô pandeiro

Orô viola 🎶

sábado, 11 de novembro de 2023

Livro do mês de outubro : "Logunedé: o santo menino que velho respeita", Nei Lopes


eu e minhas paixões de outubro 

Em outubro a vida chamou muitas vezes e o tempo foi mais corrido do que nunca.

Eu comecei lendo o delicioso "Haroun e o mar de histórias", de Salman Rushie. Achei que seria boa introdução ao autor, já que é livro infanto juvenil... porém a escrita é bem densa, exigia uma atenção que outubro não me permitiu dar, espero que novembro eu consiga concluir a leitura, mas o que aconteceu foi que, do nada,  no meio do mês, algo me levou a esse livrinho de Nei Lopes sobre Logunedé e esse acabou ficando o meu livro do mês.

Estou terminando de escrever sobre ele já quase em meio de novembro, não tô dando conta da vida, que dirá das leituras!

Mas o livrinho é uma delicia, sobre tanta coisa sobre esse orixá meu irmão (filho de oxum e oxóssi), admirei e cada vez mais achei que ele me lembra tanto o Caetano Veloso! Que belo!



Algumas postagens nas redes:


Segundo Ney Lopes o animal votivo de Logunedé é o Cavalo Marinho , que não é um peixe qualquer, altivo,não possui o menor aspecto estrutural de um peixe, a começar pela posição vertical,de cabeça erguida (...)um dado instigante do cavalo marinho remete ao mistério de logunedé(orixá metade macho como o pai Oxóssi/metade fêmea como a mãe Oxum), pois as funções gestacionais naturalmente competem somente às fêmeas no mundo animal, mas é o macho cavalo marinho que recebe e seu corpo os óvulos , engravidando e dando a luz, como qualquer criatura feminina " ("Logunedé santo menino que velho respeita", Ney Lopes, 74/5) sobre o nascimento de Logunedé, filho de Oxum e Enrilé, que no Brasil é  associado a Oxóssi. 😍😍💙💙💙💛💛💛

(LOPES, Nei. Logunedé: santo menino que velho respeita". 2a. Ed. Rio de Janeiro:Pallas, 2002, p. 164).

Referência citada: 

VERGER,Pierre Fatumbi. Orixás. São Paulo: Círculo do Livro/Salvador: Corrupio, 1981.

Conta-se q Logunedé é fruto do
encontro dos rios Oxum Enrilé,
Na Nigéria 
😍😍😍😍😍😍



Para mim, Logunedé sempre lembrou Caetano Veloso, primeiro por essa canção linda 

Caetano até já comentou que pensou nas divindades hindus azuis, mas gente, pra nós aqui do Brasil, especialmente Caetano que é baiano, quando se fala de um menino de corpo azul dourado, cuja lenda (segredo) só se revela quando "a flor do seu seu sexo abrir as pétalas para o universo" e ENTAO HAVERÁ MAIS FUTURO QUE JAMAIS HOUVE... Aí que lindo 🤩😍

Caetano também lei esse poema lindo e ritmado de Eduardo Brechó,  chamado Logunedé, que você pode entrar escrito aqui

Da profundeza da beleza do rio Oxum
Ibualama é quem chama o menino Logun
É de longe a flecha

Mecha dourada que infesta a floresta
Seta que aponta a certeza que resta
Nem duzentas e tantas contas dão conta

O pescoço de moço do caçador
Homem caroço do pomo maior
Príncipe caça o princípio que for

Dono da fome que mata o que come
Não some o teu nome de chefe senhor
Não dorme. Toma

Domina Ijexá

Camarão do abdômen de fogo. Orixá
Nativo na mão abebé de ipondá
Erinlé, Pai Odé, efusivo no Ofá

Altivo do peito bem feito
Se move do jeito do seu ancestral
Peixe do feixe vermelho

A mancha de sangue se deixa no sal
Bico de papagaio, pata de elefante
Elegante na frente do fronte

Não sente a patente de ser general




(Arranjo: Serena Assumpção, Gustavo Ruiz, DiPa
Texto: Eduardo Brechó
Serena Assumpção: Voz
Ed Teodoro: Voz
Caetano Veloso: Voz (texto)

Gustavo Ruiz: Baixo
Sergio Machado: Bateria
Pepe Cisneros: Piano Rhodes
Guilherme Held: Guitarra e Efeitos
Rômulo Nardes: Batá
Coro: Eduardo Brechó, Ed Teodoro, Serena Assumpção

               Produção: Gustavo Ruiz, Pipo Pegoraro e DiPa)

Tem um trecho da leitura nesse link.
É tudo tão lindo ... Salve cavalo marinho 😍

quinta-feira, 23 de março de 2023

Sobre Torto Arado, anos depois

 

De repente um livro
 se uniu ao outro

Quando li Torto Arado , do Itamar Vieira Junior,  a questão religiosa  foi a mais  opaca para mim, reconhecia e não reconhecia aqueles cultos, o Jarê poderia ser, sem dúvidas, uma religião inventada para o romance, depois soube que não é, mas pouco sabia sobre ela. Eu pensava coisas sobre esse livro, como ISSO. Sempre disse que não estava  preparada para abordar o Torto Arado. Não estou. Não vou julgar ou falar sobre uma obra desconhecida. É preciso mais maturidade, mais conhecimento de coisas que se aprende e não se aprende em livros (até porque Torto também me tocou por essas vias inconscientes).

Como historiadora eu lembrava muito das histórias das feiticeiras nas Minas Gerais colonial, julgadas e condenadas de antemão pelo que sequer entendiam, que foram  estudadas pela professora Laura de Mello e Souza (e também pelo historiador Carlo Ginzburg no contexto europeu). Sobre Jarê na obra de Itamar, mesmo sabendo que são situações diversas, embora parecidas em certo ponto:  aquelas são tradições católicas, trazidas à colônia pelos acusados de feitiçaria europeus num contexto de colonização, mas que aqui ganharam novas configurações e aglutinações. Em Torto Arado estamos falando de tradições também herdadas, mas agora dos africanos, que aqui foram escravizados e trouxeram todo um repertório cultural que, remodelado, acabou compondo a base do que entendemos como Brasil, em fenômenos como o Candomblé (religião de culto aos orixás e celebração da ancestralidade, criada por africanos  na Bahia no século XIX) .  

No livro O que é religião afro-brasileira, que achei na livraria da estação de metrô da Barra Funda no carnaval, quando fiquei presa lá por causa da chuva, o autor Mário A. Silva Filho,  fala do Jarê (religião citada em Torto Arado) : "é uma religião observada especificamente na Chapada Diamantina, na área central do Estado da Bahia, no século XIX. Sua prática é semelhante ao Candomblé de Caboclo, que foi abordado anteriormente, sendo que a ritualística do Jarê é muito mais próxima do culto aos Caboclos do que às divindades, que no caso do Jarê são os Orixás. Seus sacerdotes são chamados de Babá ou Pai, as sacerdotisas de Iyá ou Mãe. A exemplo de outras religiões afro-brasileiras, Jarê proporciona àqueles que o buscam a saúde do corpo e da alma e seu sacerdotes e sacerdotisas são chamados de "Curadores", além, é claro, de Pais e Mães de Santo (Cf. BANAGGIA, Gabriel. As forças do Jarê: movimento e criatividade na religião de matriz africana da Chapada Diamantina. Tese de doutoramento: UFRJ/MN, 2013). Em nota: "Para saber mais sobre o Jarê recomendo a obra do Prof. Dr. Ronaldo de Salles Senna: "Jarê - Uma face do candomblé". Feira de Santana: UFS, 1998. " (SILVA FILHO. "O que é religião afro-brasileira". São Paulo: Lafonte, 2021,  p. 79/80)

Bate com o que é retratado no romance, sendo Zeca Chapéu Grande, pai de duas narradoras, um curador. Só não sei ainda (vale consultar os livros referenciados) sobre as entidades do  Jarê, sobre Santa Rita Pescadora, seria ela inventada por Itamar? Questões... A presença de cultos e feiticeiras na literatura brasileira contemporânea me interessa, mas não pretendo estudar Torto Arado, pelo menos não  ainda, por enquanto ele não se revelar melhor para mim.

quarta-feira, 26 de outubro de 2022

25 de outubro : meu aniversário em 2022, sinceramente

 

Com olheiras e exausta, depois de começar
treino novo na academia, estava até bonitinha

Dia 25 é meu dia e como todo ano estou muito cansada. 2022 termina e não foi muito fácil. Escrevi sobre isso


Mas o dia mesmo, como de costume, foi um chá de solidão, os que importam se importaram, como deve ser. A diferença dessa vez foi que, nessa altura do campeonato, mais de quarenta e depois de tanta porrada que levei na cara em 2022, achei foi muito bom, mesmo que  o dia tenha terminado sem nenhuma surpresa ou alívio para minha realidade desgastante, irritante e sem luz no fim do túnel por enquanto 😑

Mas ganhei um presente lindo que foi ter a chance de passar pelo menos umas horas  de paz, fazendo o que gosto, na cia de alguém que realmente me ama, que sou eu mesma. Dei um chega pra lá em todo mundo, não tenho clima de comemoração nesse ano de fracassos, e fui fazer o que acaricia minha alma, tomar uma sopa no Sesc Consolação e assistir ao Instrumental SESC Brasil.


Tive a sorte de assistir apresentação da Black Mantra, super grupo de funk Soul pra chacoalhar o esqueleto. Você pode ver aqui:



Adorei muito mesmo 🤩 Era tudo o que eu pedia a Deus e aos orixás: me traga alegria, e eles me trouxeram alguma. Mesmo que hoje tudo de pesado tenha voltado a imperar. 
O melhor está por vir! 


terça-feira, 9 de agosto de 2022

Qualidades da Oxum

 


AS QUALIDADES MAIS CONHECIDAS SÃO:


☆OXUM ABALÔ - É uma velha Oxum, de culto antigo, considerada Iyá Ominibú. Tem ligação com Oyá, Ogum e Oxossi, veste-se de cores claras, usa abebé e alfange.


☆OXUM IJIMÚ - É outro tipo de Oxum velha. Veste-se de dourado, amarelo e lilás. Leva abèbé e alfange, tem ligação com as Yámi, é responsável por todos os otás dos rios.


☆OXUM ABOTÔ OU OXOGBO - Também uma velha Oxum de culto antigo, ligada as Yámi, feiticeira, carrega Abebê e alfange. Tem ligação com Nanã e Oyá de culto Igbalé. É a Oxum que ajuda as mulheres a terem os seus filhos durante o parto. É a ela que devem se dirigir todas as mulheres que queiram dar à luz ou que procuram saúde para toda a gestação.


☆OXUM OPARÁ OU APARÁ - Seria a mais jovem das Oxuns, é um tipo guerreiro que acompanha Ogum, vivendo com ele pelas estrada.

Leva uma espada na mão. Usa um abebé e um alfange (adaga) ou espada. Caminha com Oyá Onira, com quem muitas vezes é confundida. 


☆OXUM AJAGURÁ - Tem um enredo com Aganju, uma qualidade de Xangô mais carregado e ligado ao fogo. Outra Oxum guerreira que leva espada, é jovem, tem ligação com Yemanjá.


☆OXUM OKÊ - Oxum jovem guerreira, muito ligada a Oxossi, carrega ofá e erukere.


☆OXUM IPONDÁ - É também uma Oxum guerreira ligada a Ibualamo. Yeyê Ipondá é rainha da cidade que leva seu nome Ipondá, leva uma espada e veste-se de amarelo ouro 

e branco quando acompanha Oxaguiã.


☆OXUM OGA - É uma Oxum velha e muito guerreira, carrega abebé e alfange.


☆OXUM KARÉ - É uma Oxum jovem e guerreira, ligada a Odé Karé e Logun Edé. Veste azul e dourado, cor do ouro. Usa um abebé e um ofá dourados.


☆OXUM IPETU - É uma Oxum de culto muito antigo, no interior da floresta, na nascente dos rios, ligada a Ossayn.


☆OXUM AYALÁ - É a avó, que foi mulher de Oxalá, veste branco.  Tem uma forte ligação com Olum Alabedé, o “ferreiro do céu”. Também pode ser chamada de Oxum Alá.


☆OXUM OTIN - Oxum com estreita ligação com Ínlè, ligada a caça e usa ofá e abebé.


☆OXUM MERIM OU IBERIN - Oxun nova, concentra a vaidade e toda beleza e elegância de uma Oxum.


☆OXUM POPOLOKUN- Oxum de culto raro, ligado aos lagos e lagoas.


☆OXUM OLOKÓ- Oxum guerreira , vive na floresta nos grandes poços de água, padroeira do poço.


☆OXUM OMINIBU - É uma Oxum mais nova. É a que vive na nascente do rio.


Salve todas as belas qualidades de Oxum 💛


Oore yèyé oò Oxum  💛👑🌻🐝🍯🐠💛


Créditos: Filhas de Oxum Ofc

#filhasdeoxumofc #candomble

terça-feira, 19 de julho de 2022

Alguns toques no candomblé Ketu

 No grupo Conhecendo Ketu, no Facebook, o professor de atabaque @dougmoraesoficial  nos presenteou também no Instagram com essas informações valiosas, compartilho com todos:















quarta-feira, 26 de janeiro de 2022

Tereza Batista : a defendida dos orixás

Vários Orixás ajudaram  Tereza Batista nas guerras
E também quiseram seu tanto da cabeça da valente mulher


 Estou no maravilhoso capítulo final deste livro incrível, em breve escrevo um comentário sobre ele todo, mas acabe de ler um dos trechos mais lindos e emocionantes de todo o Jorge Amado que conheço, é sobre a disputa dos orixás pela guarda de Tereza Batista, a grande heroína de cordel. Vejamos:

”... Deseja saber a verdade sobre o santo de Tereza Batista, quem lhe determina a vida e a protege contra o mal, o anjo-da-guarda, o dono da cabeça? (...) 

Em se tratando de Tereza deixe que lhe diga haver motivo de sobra para confusão ; até quem muito sabe, nesse caso se atrapalha na leitura dos búzios sobre a mesa. Muita gente andou vendo por aí e não houve acordo. Os mais antigos falaram Yansã, os mais recentes Yemanjá. A si disseram Oxalá, Xangô. Oxóssi, não é verdade? Euá e Oxumaré, ainda mais? Não se esqueça de Ogum e de Nanã, tampouco de Omolu.

Também eu fiz o jogo e olhei no fundo. Vou lhe contar: nunca vi uma coisa assim e há mais de cinquenta anos sou feita neste peji e há mais de vinte anos zelo por Xangô.

Quem se apresentou na frente com o alfanje rutilante foi Yansã, dizendo: ela é valente e boa de peleja, a mim pertence, sou a dona da cabeça e ai de quem lhe faça mal! Logo atrás compareceram Oxóssi e Yemanjá. Com Oxóssi Tereza veio da mata espessa, do agreste ralo, da caatinga seca, do sertão ardido e desolado. Sob o manto de Yemanjá cruzou o golfo para acender a aurora no Recôncavo, depois de guerrear por ceca e meca. Vida de combate de começo ao fim, para ajudá-la na briga feia e crua, além de Yansã, a primeira e principal, vieram Xangô e Oxumaré, Euá e Nanã, Ossain trazendo as folhas. Com o paxorô da sabedoria, Oxalufã, Oxalá velho, meu pai, lhe abriu o caminho certo onde passar.

Não estava Omolu montado no lombo de Tereza na cidade de Buquim durante a epidemia de bexiga negra? Não foi ele quem mastigou a peste com o dente de ouro e a pôs em fuga? Não a designou Tereza de Omolu na festa dos macumbeiros de Maricapeba? E então? Omolu veio brabo, aberto em chagas, reclamar o seu cavalo.

Veja que grande confusão se armou. Não tive outra saída senão chamar Oxum, minha mãe, para ela apaziguar os senhores encantados. Chegou nos dengues e nos panos amarelos, luzindo ouro nas pulseiras, nos colares, a própria faceirice. Logo se acomodaram os orixás, todos a seus pés enamorados, machos e fêmeas, a começar por Oxóssi e por Xangô, seus dois maridos. Aos pés igualmente de Tereza, em torno da formosura, pois Tereza tem de Oxum o requebro e o mel, o gosto de viver e a cor de cobre. O fulgor dos olhos negros, porém , é de Yansã, ninguém lhe tira.

Vendo Tereza Batista por todos os lados cercada e defendida, os orixás em seu redor, eu lhe disse, resumindo o jogo: mesmo no pior aperto, no maior cansaço, não desista, não se entregue, confie na vida e e siga avante.

Contudo, existe sempre um instante de desânimo, quando até o mais valente se dá por acabado, resolve largar as armas e abandonar a luta. Também com ela sucedeu, pergunte por aí e saberá. Mais não posso lhe dizer por não ter tirado a limpo. Para mim, todavia, quem guiou os passos do afogado nos becos da cidade até o esconderijo de Tereza foi Exu. Para armar baderna, Está sozinho. Quem melhor conhece travessas e atalhos, quem mais gosta de acabar com festas?(...) Sobre esse assinto, lhe disse tudo o quanto sei.” (Jorge Amado. Tereza Batista cansada de guerra, p. 346-7)


Não é lindo? Me parece tanto como eu vejo a guarda dos orixás nas nossas vidas, sendo nossos pais/mães de cabeça ou não, são a eles todos que nós chamamos para nos guardarem em cada momento da vida.

Jorge Amado me representa tanto, suas mulheres então, nem comento!

Capa do livro didático sobre Jorge

De todas as coisas que me interessam na literatura de Jorge Amado é, inegavelmente, a presença das divindades de origem africanas. Quantas vezes não me peguei desejando ler um do Jorge, para ficar mais perto dos orixás? Tem muitos outros temas importantes, que causam extrema identificação, mas esse é o que aquece meu ❤️. Emocionada com o trecho de Tereza comentado acima, dei uma olhada, bem por cima, em um  livro didático sobre Jorge que comprei e no  começo do texto "Religião e sincretismo em Jorge Amado", do antropólogo de Reginaldo Prandi (que admiro muito) e ele fala exatamente sobre o que me toca na literatura amadiana: a ancestralidade, na construção das tramas, das personagens, do cotidiano, assim como também é na vida (alguns atos cotidianos são feitos, conscientemente, para agradar aos orixás, por exemplo). Diz Prandi:

"A religião na Bahia(acrescento:no Brasil), como em Jorge Amado, não se separa do mundo real, que se mostra cheio de mistério, segredo, esse cotidiano também está sempre permeado de ciladas e enganos  e até de falsidades e mentiras. A vida nunca é exatamente o que parece ser, nem deixa de ser o que de fato é. Ingrediente excepcional para fazer crescer um bom enredo. De um lado, homens e mulheres que se comportam como os deuses se comportariam se vivessem na Terra; do outro, orixás que precisam dos seres humanos para se alimentar no repasto dos  ebós, para dançar na roda das feitas, para rememorar no transe das iaôs suas míticas aventuras. Sem nunca perder-deuses e mortais- a sensualidade, a malícia e a alegria de ser. "(P 49)


Coisa linda, né? Acho linda essa coisa de representar as divindades africanas participando da vida e do cotidiano dos humanos, o pouco que aprendi sobre as religiões afro brasileiras isso foi uma das certezas que levo pra vida. ❤️ 
Na literatura de Jorge, os orixás são tudo, são temíveis, guerreiros, heróis...com isso alimenta nosso imaginário sobre outras narrativas, passados e futuros possíveis.
Teria sido Jorge Amado um dos nossos primeiros "afro futuristas"? Só amo! 


quarta-feira, 29 de dezembro de 2021

Balaço das metas para 2021


2021 foi um ano atípico, mesmo pensando em 2020, o ano da pandemia! Pra mim não foi nada fácil, especialmente porque tive que lidar com problemas que não eram só meus, foi um ano regido pela Oxum, muitas máscaras caíram e pude ver e sentir quem é quem ao meu redor. Consegui me sair até bem, mesmo tendo sentido minhas forças se esvaírem quase por completo, tive que me reinventar e termino o ano satisfeita porque consegui cuidar de quem precisou de mim e depois cuidar de mim mesma, como pede mamãe Oxum.

Como era o segundo ano da pandemia, as  metas que eu tinha traçado são as de sempre ou então são muito subjetivas, o que eu jamais esperaria é que eu vivesse um ano tão pé no chão, de trabalhos manuais, solidão e preocupações.  Hoje eu olho para 2021 e nem sei onde arrumei forças para atravessá-lo, mas atravessei. Vejamos as metas.

 1 - CONTINUAR VIVA:  META CUMPRIDA

 Essa é a meta da vida e no meio de um ano pandêmico, ela é a meta de todos, sempre. No meu caso, muito mais do que no ano passado, eu pensei muito nela durante o ano, quando me vi, sozinha, tendo que resolver problemas sérios, cuidado de alguém doente, tendo medo e paciência possível, vendo que , sem mim, não sabemos como outra pessoa teria sobrevivido, isso respondeu ao questionamento do ano passado: para que eu estou viva. Agora sei e, como desejei nas metas para esse ano, nem precisei me questionar tanto sobre isso. Cresci muito esse ano!

2 - ACHAR UM MOZÃO : META NÃO CUMPRIDA

Tudo bem que essa meta aparece todo ano e nunca é cumprida, mas esse ano, de verdade, nem procurei nada. Não tive tempo, nem auto estima para isso, embora nunca tenha lamentado tanto estar passando por tudo o que passei tão sozinha, como quase toda a vida, e  mais para o fim do ano, senti como se não soubesse mais o que é me interessar por alguém de novo, pedi ajuda a Hilda Hilst, que sempre manteve acesa a chama da paixão em sua vida e poesia. Não sei se me resolvi. Estou mesmo é cansada! 2021 foi tão desafiador, espero ter feito tudo bem para, quem sabe, merecer dias não tão tristes e solitários em 2022.

 3- TRABALHAR MAIS: META CUMPRIDA

 Faz tempo que tem essa meta nos anos, mas no meio da pandemia, não sabia nunca o que significava essa meta, com tanto desemprego, falências, fome. Precisei estar disponível full time boa parte desse ano, não tive tempo para fazer muita coisa, no começo do ano, ainda acompanhei congresso online pelo celular, da recepção do hospital, mas com o tempo não tive mais cabeça e disposição, fui ficando falida mesmo. Ao mesmo tempo, como consegui produzir muito em 2020, esse ano foi um ano de colheitas: publicações, artigos, palestras, até minha tese foi publicada em livro, meu primeiro livro, meu pai Oxóssi me presenteou com tanta prosperidade, vi meu nome estampado numa estante e pensei muito no meu pai, em como ele se orgulharia, mais do que todo mundo. Essa conquista, dedico a ele!  Que 2022 seja um ano de trabalho, da retomada da vida "mais normal" e recomeço de uma vida que eu quero para mim, depois de ter me anulado tanto tempo, por motivos de força maior.

4- TREINAR O MÁXIMO POSSÍVEL: META CUMPRIDA

Como esse ano foi o tão sonhado ano da vacina, tanto para mim quanto para minha mãe, em algum momento, no caso meu caso, no fim de agosto eu  estava imunizada com duas doses da Pfizer. A primeira coisa que eu fiz foi me matricular na academia. Tinha engordado muito, estava fraca, deprimida, achando que nunca mais voltaria ao que era antes, porque teve um período, um longo período, que nem caminhar eu podia mais. No começo foi muito duro, pessoas novas, horários novos, muita solidão e medo porque meus hormônios deram alterados. Achei que precisava de ajuda médica, procurei uma endocrino e uma nutri, precisava de disposição para continuar. Tem dado tudo certo, emagreci   e logo  me senti mais forte, mas minha auto estima não aumentou, ainda não tenho coragem de sair de casa. Espero que em 2022 eu continue melhorando.

5- BUSCAR OS SENTIDOS DA VIDA : META CUMPRIDA

Como disse acima, nesse ano complicado eu descobri um sentido da vida, um sentido até espiritual: tenho que cuidar da minha mãe, que é minha família. Que eu tenha força para isso, porque muitas vezes temo que não terei. Mas com fé em Deus e nos Orixás, vou levando a vida sa forma menos triste possível, em sintonia com minha ancestralidade em 2022.  




Em 2022 Oxum entrega  a regência do ano para Iemanjá, espero que tenhamos um ano mais amoroso, com mais carinho, estamos tão cansados, tão carentes! Merecemos!
Que venha 2022!

segunda-feira, 11 de outubro de 2021

ROMANCE E ADAPTAÇÕES

 


Com o termino da Mostra de Cinemas Africanos ontem, já comecei a cumprir minha promessa de retornar ao Ojuobá. Assisti a todos os vídeos da série "Tenda dos Milagres" (1985) disponíveis no Youtube e achei bem bonito, claro. Muitos atores negros e "mestiços" (Nelson Xavier, Milton Gonçalves, Chica Xavier, Gracindo Júnior, Antônio Pompeo, Solange Couto, Joel Silva, Antônio Pitanga, Tony Tornado, Tânia Alves, Dhu Moraes.etc) se saindo muito bem e essa trilha sonora é da gente levar pra vida:

01. MILAGRES DO POVO – Caetano Veloso

02. LIVRE – Beth Bruno

03. OLHOS DE XANGÔ (AFOXÉ) – Moraes Moreira

04. É D’OXUM – MPB 4

05. ELOIÁ – Dudu Moraes

06. FLOR DA BAHIA – Nana Caymmi

07. OIÁ – Danilo Caymmi

08. AMOR DE MATAR – Tânia Alves

09. AFOXÉ – Dorival Caymmi

10. MALUCO PRA TE VER – Wálter Queiróz

Produção musical: Guto Graça Mello

Não sei se alguma dessas canções foi composta para a série, sei que o tema de Caetano  foi uma homenagem ao Jorge Amado, que teria dito em entrevista, a maravilhosa frase que abre a canção "quem é ateu e viu milagres como eu ", o que é a cara de Jorge e a alma do romance Tenda dos Milagres!  

Como é uma adaptação para TV, ela é e não é fiel ao livro. No romance temos dois tempos diferentes, o da vida de Pedro Arcanjo o intelectual orgânico nas décadas de 1920/1930 e toda a discussão (inclusive teórica, científica da época) sobre posição do negro na sociedade num país que tinha nem 30 anos de abolição da escravatura, a perseguição ao candomblé e capoeira e etc. E também tem o tempo da redescoberta de Pedro Arcanjo na década de 1960, que foi alçado ídolo da Bahia pelo Nobel em sociologia estadunidense James Dean Leverson, trazendo à tona e todo cenário ideológico binário do contexto da ditadura militar : todo mundo queria um pouquinho da memória de Arcanjo pra sua luta.
Sabemos, e nos relembra a Wikipédia, que as personagens dos livros de Jorge Amado foram baseadas em
"pessoas reais,- quando não as inseriu com os próprios nomes em suas obras. O rábula João Romão foi baseado em Cosme de Farias - um célebre defensor dos pobres em Salvador. O professor Silva Virajá era o médico também célebre Pirajá da Silva. O delegado Pedrito Gordo era o chefe de polícia Pedrito Gordilho, famoso por perseguir o candomblé e os capoeiristas.

Até o personagem principal, Pedro Archanjo, foi inspirado numa pessoa real, o negro Manuel Querino. Como no livro de Jorge Amado, Manuel Querino notabilizou-se por escrever vários livros de caráter antropológicos e étnicos (um deles sobre a culinária baiana e um outro, considerado muito importante, que traça a genealogia da elite branca de Salvador, mostrando a sua miscigenação com a raça negra). O adversário intelectual de Pedro Arcanjo é Nilo Argolo, provavelmente inspirado na figura do médico e antropólogo brasileiro Nina Rodrigues que ficou conhecido por suas afinidades com as teorias racistas de Lombroso e outros." Tenda dos Milagres

Na série global, pelo que deu para ver (20 episódios, quase tudo), temos retratado só a primeira parte, a da Bahia nos anos 30. Eles tem esse direito e a Globo sempre faz esse tipo de recorte ( depois fizeram a mesma coisa com o "O Tempo e o Vento", retiraram a parte das discussões políticas mais atuais). Sobre o Tenda, só destaco que, por exemplo, se na série Ana Mercedes vira par romântico de Pedro Arcanjo, no romance ela nunca chegou a conhecê-lo, tendo nascido depois que ele morreu , pois no romance ela é só a namorada do poeta ("vate, amante e côrno") Fausto Pena, o narrador do livro, que por alguns dólares, aceita escrever sobre como ela o traiu com o tal do nobel americano (Jorge Amado me diverte rsrs) Sobre a trilha sonora eu achei irretocável, maravilhosa, somada à imagem dos atores, a gente realmente se ambienta numa cidade "mestiça" (a ideia mestra de Jorge Amado, de sua época, e do livro) dos anos 20/30 (Salvador).

Só alguns comentários...

Sobre o filme (1977) de Nelson Pereira dos Santos,
ele é mais fiel à história original, começa com a redescoberta de Pedro Arcanjo, Ana Mercedes, namorada do Fauto Pena , no papel que lhe é devido, e ao redor do professor James Dean Leverson. Mas é bem ambientado nos anos 70, mostra o conflito sugerido no livro de Amado, mas no filme aparecem outras coisas como comícios, onde Arcanjo morre, inclusive. discute-o, mas a questão teórica fica à parte e nisso é bem ao contrário da adaptação da Globo, que é esteticamente mais bonita. No filme eu destaco apenas lindíssima cena (no livro está na p.200-2) na qual o professor Fraga Neto e Pedro Arcanjo discutem sobre a legitimidade de um cientista frequentar o Candomblé e Pedro argumenta que é possível para ele, que é mestiço e tem o objetivo compreender a cultura do Brasil, nem de branco nem de negro, mas mestiça, para a qual não basta apenas ser materialista, é preciso conciliar teoria e vida para o bem do povo e a clareza e confiança de Arcanjo vai golpeando o professor amigo com palavras, que ao final conclui que ele tem razão e deveria estar em uma cátedra na Universidade e Pedro responde que não quer subir, que anda é para frente, no filme a cena vai de (1 hora :44 minutos a 1 hora : 48 minutos).esta peleja, que sintetiza a obra, vale pelo filme todo.

Neste vídeo, a partir de 3' 25", é dito que a obra de Jorge sofreu processo de simplificação, muito devido às adaptações para TV e cinema, que acabam apagando parte das discussões colocadas nos romances, como eu coloco acima.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2020

Sobre Oxum , por Van Sena Omoloji



Oxum "Òsun òyéyéni mò" (Oxum é cheia de compreensão).

Oxum, cortadora de cabeças

Oxum assumiu na diáspora o papel da mãezinha cuidadora pela necessidade dos pretos órfãos buscarem em seu colo o acolhimento necessário para sobreviver às violências da escravidão. ⠀⠀
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Sim, ela cuidava das suas subjetividades, das suas emoções enxugava as suas lágrimas. Oxum, entretanto, não é apenas sensibilidade e delicadeza. Quando ela traz a espada, a guerra se enche d’água que afoga. ⠀⠀
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Não existe homem capaz de vencer a sua lâmina afiada. Estrategista, ela vê o inimigo com olhar da paixão. O encanta. Seu feitiço entra pelos olhos. O que ela deseja, no entanto, é saber seu ponto vital. ⠀⠀
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Oxum não derruba para desequilibrar apenas. Em guerra, Oxum é a potência feminina que dar a rasteira e o homem caído jamais conseguirá se levantar. ⠀⠀
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A Oxum acolhedora traz o rio na espada. Defende seus filhos como leoa faminta. Ela não mais perguntará, pois já fez todas as perguntas antes e as corujas de olhos grandes lhe trouxeram as respostas. A verdade é o seu julgamento. ⠀⠀
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Quando toma seu inimigo não tem pena. A força da guerreira sai do fundo do seu útero. Ela elimina uma comunidade de aborós agressores de mulheres pela espada. ⠀⠀
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Montada em seu cavalo, afia sua lâmina em água corrente, brava e forte. Manda chuva, alaga a aldeia, os homens correm, e com espada em punhos, Oxum elimina um a um. Decepa suas cabeças, traz para os pés das iyabás e anuncia ao mundo o seu poder cuidador e mortal. ⠀⠀
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Assim, Oxum mostra que não existe uma dicotomia entre o ser sensível e o ser da guerra. Que o feminino não representa apenas sensibilidade e delicadeza, mas também é vigor, estratégia e luta. Oxum é a água doce que gera a vida e também é a água límpida que afoga e leva à morte.

Texto: Van Sena Omoloji - @nagoterapia ⠀

Imagem, Arte: Breno Loeser