quarta-feira, 1 de abril de 2026

 DIA DA MENTIRA

Em uma das histórias do filme Chungking Express (Amores Expressos), um dos que sempre quis ver com você, o garoto tem dificuldade de aceitar que a namorada realmente terminou tudo com ele em 1º de abril. Podia ser mentira, podia ser brincadeira… mas os meses passam, e ela nunca deixa uma mensagem na caixa postal , cuja senha é “amor eterno” , desmentindo a piada.

Sem muito contato contigo nesses dias, por causa do concurso e de outros motivos, eu poderia terminar tudo com você hoje. E, como sou mais do riso do que do choro, você provavelmente acharia que é pegadinha. Não seria.

É que eu realmente estou mais desconfortável com o nosso namoro hoje do que eu gostaria , ou do que já estive antes. Mais do que você imagina.

Não aprendi nada sobre Modern Love. Não aprendi a amar em fragmentos, a dividir o homem que me leva a tantos êxtases com outras possibilidades, nem a competir com mil validações que inflam o seu ego. Isso azedou um pouco o meu pudim de leite.

Posso aprender? Talvez. Mas será que eu quero esse aprendizado tão radical?

É tão bom ser inteira, única. É tão bom ser só sua, não é?

Ainda mais nesse momento importante para você , com  essa grande oportunidade , e eu estou, de verdade, na sua torcida. Você é capaz. Ver você brilhar já faz parte dos meus sonhos: já imaginei como  comemorar a sua aprovação. Desde sempre, “todo dia você me fornece material pro sonho”, lembra? E eu aprendi a sonhar muito com você.

Sonhei ,e ainda sonho , com Rio de Janeiro, praias oceânicas, Búzios, “um amor desses de cinema”, Djavan, ser mais livre…ultimamente  sonhei até em ter uma toalha de banho só minha na sua casa (eu até escolhi). Sonhei em ser a Imperatriz do seu reino , e isso virou um pouco realidade, porque você quis. Me quis. E isso é uma delícia de lembrar e pensar.

Fecho os olhos e vejo as estrelas do meu sonho, que é você. Porque você sabe me fazer feliz de um jeito inexplicável. 

Desde que  voltei daí,  sinto que você deseja nadar em águas mais  calmas do que esse meu "velho amor ainda e sempre" dos anos 1990 e penso na dolorosa (,confesso) ideia de deixar meu condor  voar se assim ele quiser,  porque aqui ,no dia da mentura ou não,  a senha é sempre será amor eterno!

segunda-feira, 30 de março de 2026

PAPEL MARCHÊ

 

Lilás,  cor do mar...

PAPEL MARCHÊ

À noite, um casal de jovens namorava na praia quase vazia. Era uma exploração lenta e mútua: carinho, desejo, fascinação por estarem juntos, se descobrindo, fora do tempo.

— Olha que cena de cinema! — disse eu.

— Ah, eles devem não ter onde transar, então ficam na praia, que é de graça.

— Não acho que seja tão cru. Transar, todo mundo transa em algum lugar. O que eles fazem ali é outra coisa, mais rara. É como “voltar a nascer violeta e azul, outro ser…”

— É… “fazer amor” na praia?

— Sim. E ouvindo João Bosco!


domingo, 29 de março de 2026

O amante duplo (2017), François Ozon



O Amante Duplo, dirigido por François Ozon, conta a história de Chloé, uma jovem francesa que procura ajuda psicológica para resolver uma dor abdominal persistente. Ela acaba envolvida em uma trama psicológica complexa sobre gêmeos e segredos muito mais intensos que as dores iniciais.

​Assisti a este filme por recomendação do Prime Video, já que gosto de suspenses psicológicos e obras esteticamente interessantes. Sendo meu primeiro contato com o trabalho de Ozon, foi fácil identificar um cuidado visual meticuloso, característica típica de filmes com assinatura autoral. Diferente de outros títulos do gênero que vi até agora, o longa promete muito e quase entrega o suficiente.

​Achei a obra extremamente "psicanalítica" no sentido tradicional, pois aborda questões de identidade, projeções e o tema do duplo ou dos gêmeos, assunto que estudei brevemente em interpretação literária. Além disso, o filme traz para o centro da trama a força da pulsão sexual, temática central da psicanálise.

​Ainda que o enredo sejar labiríntico, não consegui me envolver ou me projetar na história. Em nenhum momento senti que a loucura da protagonista poderia ser a minha, que é o meu tipo de abordagem favorita no cinema. Por isso, não o considero o melhor filme do gênero, nem o mais sexualmente estimulante. As cenas de sexo não são belas ou instigantes; elas me pareceram mais próximas ao terror, superando até a crueza das imagens de exposição do corpo, seja em exames internos ou em estados de doença.

​No balanço geral, foi uma experiência válida e espero que venham outros filmes e séries sobre o tema.


sábado, 28 de março de 2026

Guida, Rosana Urbes

 
 



GUIDA : O curta-metragem de animação Guida (2014), disponível por completo na plataforma Itaú Cultural Play (plataforma  gratuita),  dirigido por Rosana Urbes, fala de uma idosa que rompe com sua rotina solitária e seu trabalho burocrático ao se tornar modelo vivo, explorando novas formas de liberdade e beleza.

Acabei de achar o filme no YouTube nesse LINK 

Em cerca de 12 minutos de animação, é lindo perceber a forma fluida e encantadora com que Rosana Urbes nos conduz pela travessia da entrada de uma mulher na velhice. Guida passa a se olhar com mais interesse e gentileza: exibe seu corpo maduro com altivez, pois sabe que ali há uma vida inteira,  e também sensualidade (por que não?). Assim, a vida se reafirma como algo que vale a pena ser vivido até o fim. Mais do que um filme, é um presente delicado para nós, mulheres 40+.



sexta-feira, 27 de março de 2026

Ushikawa : o gato Cheshere de Murakami

 
Caricatura de Ushikawa pela IA

USHIKAWA

"O homem usava uma camisa branca, gravata vermelho-escura e paletó marrom, tudo de baixa qualidade e muito puído. Saltava aos olhos que aquele homem não tinha nenhum interesse nem fascínio por roupas. Simplesmente vestia qualquer coisa por pura necessidade, por não poder se encontrar nu diante das pessoas."(Crônica do pássaro de corda, p. 536)


Pedi a uma IA uma caricatura de Ushikawa usando essa descrição e achei que ficou ótima.

Embora não seja muito comentado, para mim o capanga Ushikawa é o melhor personagem de Murakami que encontrei até agora. É ele quem dá liga à narrativa imensa de Crônica do pássaro de corda, ele é  o que descrevo como intrusivo  e desconfortante. É pegajoso, desagradável, mas revela o que estava escondido, como o gato de Cheshire em Alice no País das Maravilhas.

Passados muitos anos, é dele que vou lembrar,  invadindo os espaços com sua humildade de humilhado.

quinta-feira, 26 de março de 2026

Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano, Henrique Dantas

           

FILHOS DE JOÃO – Acabei de assistir ao documentário Os Filhos de João: o Admirável Mundo Novo Baiano (2009), de Henrique Dantas, na Netflix. Para quem ama João Gilberto e os Novos Baianos, como eu, é uma preciosidade. É o complemento audiovisual do maravilhoso livro Acabou Chorare: o rock'n'roll encontra a batida de João Gilberto (2020), de Márcio Gaspar, só que com sons, depoimentos e imagens de época. É muito emocionante ouvi-los cantando a própria história. Foi um presentinho fofo para o fim deste dia quente e pesado. Super recomendo.


quarta-feira, 25 de março de 2026

"O museu da inocência " (série): a história do "Que mal" 😕

 




MUSEU DA INOCÊNCIA (romance: 2008; série: 2024)

Inspirada no romance homônimo do autor turco, Nobel de Literatura, Orhan Pamuk, que eu não li, a série da Netflix me desencorajou totalmente a ler. Não porque esteja mal feita, muito ao contrário: a exuberância estética da recriação de uma Istambul dos anos 1970, com imagens que contam a história de forma belíssima, foi o que me manteve até o último episódio, enquanto Geraldo largou logo no começo.

A trama conta a história do rico Kemal, que vou chamar de “Que Mal” (combina mais com o personagem), que, mesmo noivo da rica Sibel, se envolve de maneira doentia com a bela Füsun, uma prima pobre distante a quem manipula e tenta dominar o tempo todo. “Que Mal” é um vacilão e, mesmo tentando considerar as diferenças culturais entre Oriente e Ocidente e o período em que a história se passa, nada me empolgou ou envolveu.

Para esse tipo de narrativa, prefiro Dom Casmurro, que é do século retrasado. O livro eu não sei, mas a série eu não recomendo.