Confesso que a iniciativa partiu do filme de 2004, de mesmo título, dirigido por Alex Proyas e estrelado por Will Smith, e gostei mais do que imaginava. Meu interesse era observar como os anos 2000 imaginavam a interação do ser humano com a tecnologia, e me surpreendi ao notar que muita coisa já é realidade para nós.
Então, peguei emprestado na biblioteca do SESC Pompeia um belo exemplar de 2014, da editora Aleph, desta obra de 1950, que reúne contos publicados por Asimov em revistas científicas na década de 1940! Para amarrá-los em formato de livro, o autor traz a personagem Susan Calvin, psicóloga roboticista da U.S. Robots and Mechanical Men, Inc., que comanda os trabalhos na virada do século XX para o XXI.
Esses interessantes textos apresentam robôs muito desenvolvidos, dotados de "cérebros positrônicos", que devem seguir as Três Leis da Robótica:
"1ª. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano venha a ser ferido. 2ª. Um robô deve obedecer às ordens dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens entrem em conflito com a Primeira Lei. 3ª. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com a Primeira ou a Segunda Lei." (p. 65)
Tudo parece muito bom e seguro, mas o autor escreve essas histórias mostrando o quanto a aplicação dessas regras pode causar conflitos.
Como exemplo, destaco duas narrativas:
Em "Razão", o robô Cutie não sabe quem ou o que o criou, mas sabe que existe, já que é capaz de pensar e concluir que é muito melhor que um humano e, portanto, deve substituí-lo na liderança.
Em "Mentiroso", Herbie é capaz de ler mentes. A partir disso, conclui que elas são muito mais complexas do que qualquer levantamento de dados e, por isso, prefere ler romances a relatórios científicos. O impasse começa quando, sabendo o que as pessoas pensam, para obedecer à Primeira Lei ele decide nunca dizer coisas que possam ferir seus sentimentos, mesmo que precise mentir. Muito parecido com o modo como interagimos com as IAs sempre agradáveis da atualidade!
Claramente, a intenção da literatura de Asimov não é simplesmente louvar o avanço tecnológico. Pelo contrário, é justamente apontar o quanto essa tecnologia pode questionar a existência das máquinas e do próprio ser humano, tornando a obra um material profundamente filosófico.