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segunda-feira, 22 de junho de 2015

"Ver: amor", novamente

Não disseram que clássico é um livro que a gente sempre volta a ler novamenter?  Novamente volto ao meu clássico contemporâneo, de todo o coração:  "Ver: Amor" , de David Grossman:
"...Ele, o dito Zalmanson, começou a rir um riso tal que melhor seria não o tivesse ouvido! Uma especie de estertor e riso e choro junto, e de repente morreu. Morreu antes de todos! E é importante que você saiba, Shleimale: o judeu Shimeon Zalmanson, meu único amigo, editor da revista infantil 'Luzinhas', morreu de rir numa câmara de gás, e estou certo de que não há morte mais adequada para um homem como ele, que acreditava que Deus só se revela às pessoas através do humor. " 

David Grossman, 'Ver:Amor', p. 235 "

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Ver: Amor, novamente ...


Sempre achei estranhíssima  minha história com "Ver: Amor", livro que passou por mim como um trator ... claro que é um ótimo livro, Grossman é excelente escritor , mas a minha reação ao livro é forte demais, o que tem ali que me desmonta mil vezes? 

Mais estranho é que, mesmo eu sempre me perguntando isso, nunca tinha procurando nenhum texto sobre o livro até esta tarde na biblioteca... achei artigos da professora Bertha Waldman. Foi avassalador!
Como eu já falei aqui, me atrai especialmente a relação do menino Momik com o Vovô  Vassaman (um sequelado, sobrevivente de campo de concentração)... ao Bertha escreve:

"O  Vassaman de Momik não é só um personagem; é a própria história, um ser de linguagem, e por isso, não pode morrer. Apesar de alvejado tantas vezes, Vassaman não consegue morrer.” Betha Waldman 

Que ele era a narrativa eu tinha percebido, tem momentos que ele é Sherazade e tudo, mas a história... que demais, que demais! Tem, também, um depoimento de Grossman que me levou às lágrimas no ônibus, com trechos assim:
"...  para mim, 'Ver:Amor', que é uma história a respeito da Shoá, não é em absoluto uma história a respeito da morte, mas, de fato, uma tentativa de entender a própria vida. E o que nos perturba tanto é poque a Shoá pôde ocorrer do modo que ocorreu. Porque talvez, assim me parece, o assassinato maciço e anônimo pôde ocorrer de forma tão  eficiente apenas em um mundo em que a própria vida, a ideia de vida de humanidade, tornou-de algo anônimo, sem sentido, vazio,"

domingo, 12 de outubro de 2014

Ver:Amor, de novo, de novo ...

Aqui na minha cabeceira eu estou alternando a leitura de dois livros ótimos de literatura, o japonês "A Casa das belas adormecidas" e o final de "Um tal Lucas" do Cortázar... mas hoje não peguei nenhum dos dois para continuar a leitura, precisei voltar ao "Ver:Amor"... não sei o que eu tenho com esse livro, como ele me atrai! E olha que eu comecei a ler com má vontade, "mais um livro sobre o holocausto", e fui totalmente surpreendida, me faz pensar tanto em coisas sobre História, sobre a vida e sobre a necessidade /função de narrá-la. Abri aleatoriamente :

"Durante anos, depois que meu avô Anshel desapareceu, continuei a cantarolar internamente a melodia da história que ele contou para o alemão. Duas ou três vezes antes de eu viajar para a Polônia, sentei-me, escrevi, fracassei. Lentamente acumulou-se em meu interior um punhado complexo de raiva de mim mesmo e saudade dele, do velho que há anos circula numa história trancada, um navio fantasma que é rejeitado em todos os portos, e eu o único que posso salvá-lo e redimir a história, não sei e não ouso.
Comecei a procurar as obras do meu avô. Remexi em arquivos antigos, entoquei-me em bibliotecas empoeiradas de kibutzim remotos, li jornais velhos que se esfarelavam ao contato de minhas mãos; eram aos meus olhos como afrescos antigos nas paredes da cavernas, que se desintegravam assim que o facho das lanternas de pesquisadores pousavam sobre eles." p. 117

domingo, 11 de novembro de 2012

(Im) Possível retorno do vovô Anshel


Dois momentos do livro "Ver: Amor" de David Grossman, onde o garotinho Momik expressa seu grande desejo de resgatar o ser que acreditava existir ainda no velhinho que ele chamava de vovô Anshel (um sequelado vindo de campo de concentração ). Me emociona muito, porque tantas vezes eu me sinto como  Momik nos últimos tempos ...


"Esses números realmente o deixavam doido, porque não estavam escritos com caneta e não saiam com água ou cuspe. Momik tentou de tudo quando lavava os braços do avô, mas o número permanecia e, por causa disto, Momik começou a pensar que talvez fosse um número escrito não por fora, mas  por dentro; por isto ficou até mais convencido de que  talvez existisse mesmo alguém dentro do vovô (...) e teve uma sensação realmente forte de que a qualquer momento vovô abriria totalmente, se abriria no meio e ao comprido como uma vagem  de ervilha amarelada e se fenderia assim em dois, uma espécie de vovô pintinho, um avô pequeno, sorridente e de bom coração e que gostava de criança saltaria dali, isto não aconteceu, mas de repente Momik sentiu um aperto no coração e uma tristeza estranha, levantou-se, aproximou-se  deste seu avô, abraçou-o com força, e sentiu  como ele era quente, exatamente como um forno, então vovô parou de falar sozinho, e durante talvez meio minuto ele se calou, as mãos e o rosto repousaram, e ele pareceu prestar atenção a  todas as coisas que havia dentro de si, mas, como se sabe, era-lhe proibido deixar de falar por muito tempo.  " p. 17-18


"Então Momik pode jogar a mochila, despir o vovô do casaco grande e velho de papai, cheirá-lo um pouco bem rápido, sentá-lo à mesa e esquentar a comida para os dois. Para a vovó Heni era preciso trazer a comida na hora do almoço até o quarto dela, porque sozinha ela não descia da cama, mas vovô come com ele, e isto lhe é agradável, como se ele fosse um avô  verdadeiro com o qual é possível conversar e tudo mais." P.33