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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Murakami: Um autor entre século

 


​HARUKI MURAKAMI, UM AUTOR ENTRE SÉCULOS

​Não estamos pensando tão cronologicamente, mas muito mais na captura da sensibilidade das épocas. Murakami escreve desde o século XX; muitas de suas obras mais lembradas se passam na década de 1980 (por exemplo, a trilogia 1Q84, Crônica do Pássaro de Corda, etc.), mas também escreveu depois, na passagem do século (anos 2000), e ainda escreve.

​Analisando por alto sua obra, que nem li toda ainda, é interessante observar elementos que indicam rupturas de tempo e ciclos já sentidas na última virada de século e que agora reaparecem em novas colorações: o que nos anos 1980 eram apenas indicações (solidão na vida adulta, dificuldade de nomear sentimentos, sensação de deslocamento, interações assustadoras com a tecnologia, rarefação dos afetos, a busca quase desesperada de uma fenda que serviria de portal para outras dimensões e que transformaria nossa percepção das coisas, etc.), tudo isso passou a ser um molde da vida que nós levamos no século XXI.

​Muito mal comparando, e brincando com conceitos de teoria literária, é como se Murakami fosse um autor entre séculos (na verdade ele realmente é), uma espécie de Baudelaire: aquela mente que ainda no século XIX já apontava a sensibilidade que viria a ser a dinâmica da vida humana no século XX. Murakami parece ser assim também, mas na passagem do XX para o XXI. Lemos as histórias da década de 1980,por exemplo, e elas nos parecem tão conectadas com nossa vida e percepção no século XXI! Julgo que deve ser por isso que todo mundo gosta de ler o que ele escreve. Gosta tanto a ponto de ele ser até desconsiderado por alguns, considerado um autor banal, coisa que, para mim, de fato ele não é. Que bom termos um Murakami: japonês, filosófico, metódico, literário, maratonista,amante de jazz...


segunda-feira, 23 de março de 2026

O jovem- Annie Ernaux


 ​"Se não escrevo as coisas,

elas não encontram seu termo,

são apenas vividas."

​O Jovem (2022), de Annie Ernaux, é um relato autobiográfico que narra a memória de um amor intenso entre uma mulher de mais de 50 anos e um rapaz décadas mais jovem. Sendo meu primeiro livro da autora, gostei muito da experiência. É um texto curto e poético.

​Para mim, aos 46 anos, foi salutar ingressar nas questões colocadas sobre mudança do corpo, sexualidade e o preconceito contra casais nesse modelo. Mas o principal aspecto foi perceber que a experiência do encontro ganhou os tons pastéis da memória e serviu de estímulo para a criação literária. Que belezinha de livro.

Belo trecho 


Frases...

"...produzia em mim a sensação, durante minutos, de que eu estava vagando pelo tempo inominável de um sonho." P. 19


"Certo verão,  em Chioggia, aguardando o vaporetto para voltar a Veneza, ele me disse: 'Eu queria estar dentro de você e sair de lá para me parecer  com  você." P.33


"...o papel desempenhado por ele - o de alguém que abria as portas do tempo na minha vida - tenha chegado ao fim..."p. 36




quinta-feira, 12 de março de 2026

CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO


CRÔNICA DO PÁSSARO DE CORDA: OBRA-PRIMA DE MURAKAMI OU O LIVRO DO POÇO

Talvez seja o maior (em número de páginas) livro que leio há tempos , um volume que contém, em si, uma trilogia. Dediquei-me a ele por três meses, pois logo percebi que estava diante de uma obra-prima. E, ao dizer isso, não afirmo que sintetize o cerne da obra de Murakami , ainda não li o suficiente do autor para tanto. Pelo contrário: talvez seja uma obra-prima justamente por se afastar de sua linguagem mais reconhecível e expandir o diálogo com grandes clássicos da literatura mundial, atravessando filosofia, história e humanidade.

Escrito inteiramente na linguagem do sonho, onde o surreal não é banalidade , acompanhamos, com Toru, uma descida ao inconsciente e aos questionamentos existenciais mais profundos. Essa jornada se materializa na imagem literal de descer ao fundo de um poço: parar, refletir e se transformar. De tirar o fôlego.

Imagem do Google imagens

Resumi-lo não é tão difícil, mas qualquer síntese mal arranha a experiência de mergulhar nesse “poço seco” do inconsciente que é a leitura. A trama acompanha Toru Okada, um homem de trinta anos em suspensão: deixa o emprego, o gato desaparece e, em seguida, sua esposa, Kumiko, também. A partir daí, inicia uma jornada de reinvenção.

Como em Alice no País das Maravilhas, a narrativa se constrói mais pelo sonho do que pela realidade. Surgem personagens simbólicos e inquietantes que ajudam a compor esse quebra-cabeça: a adolescente May Kasahara, amiga de Toru; as irmãs/ilhas  Malta e Creta Kano; e o vilão Noboru Wataya, cunhado de Toru, figura dominadora, para quem trabalha Ushikawa — uma das personagens mais marcantes. Intrusivo e desconfortável, o capanga  lembra o Gato de Cheshire:  intrusivo, desconfortante e persistente,  acaba sempre revelando o que está oculto.

Há também personagens ligados a um dos episódios mais traumáticos da história japonesa :a Invasão da Manchúria. O evento emerge como trauma do inconsciente coletivo, deixando marcas físicas, mentais e espirituais. Para abordar esse eixo central, surgem figuras como o Sr. Honda e o tenente Mamiya, cujo relato constitui uma das passagens mais duras sobre memória de guerra que já li ,é  quase insuportável.

Outros sobreviventes desse trauma aparecem sob codinomes, como Noz-moscada e seu filho Canela. Noz-moscada reconhece no rosto de Toru um hematoma azul ,marca simbólica herdada de um passado violento, e o introduz em um campo espiritual estranho e perturbador. Já Canela, jovem traumatizado que não fala há anos, é outro personagem-chave: belo, elegante, inteligente, trabalha ouvindo música clássica e é o autor de um livro chamado "Crônica do Pássaro de Corda ",  funcionando como uma espécie de alter ego do próprio Murakami.


Em última instância, o romance narra a travessia de Toru pelo inconsciente coletivo japonês, profundamente marcado pela violência da guerra. Desse movimento, emerge um Murakami crítico da imagem contemporânea do Japão , país pacífico e tecnológico ,que parece querer esquecer seu passado brutal. Mas o passado deixa marcas. Toru Okada que o diga.

Que livro sensacional. Amei.


TIPO ISSO ​:

Toru Okada desce ao poço para encontrar a si mesmo, mas acaba encontrando as feridas de uma nação. 

​Em Crônica do Pássaro de Corda, Murakami conecta uma crise doméstica ao inconsciente coletivo japonês, traumatizado pelos horrores da guerra.

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

Eu li "A mais recôndita memória dos homens", de M.M. Sarr

 

Com o livro, na biblioteca 


Terminei essa leitura que achei que seria incrível, que tinha tudo pra ser o livro da minha vida, que tem tudo a ver comigo ...mas sei lá,termino um pouco decepcionada.  

Com ele? Comigo?

Me repensei muito como leitora, tive altas conversas com o CHATGPT sobre o livro e no fim sai aliviada de ter concluído a leitura. Quem sabe ainda venha a assimilar a leitura. Mas por hora: grande livro!


LEITURAS 

18 de agosto de 2025



RECÔNDITA- Estou lendo "A mais recôndita memória dos homens", do senegalês Mohamed Mbougar Sarr. Além de ser uma aquisição recente do acervo da Biblioteca do SESC Pompéia, o exemplar está novinho 🤩: primeira edição brasileira, publicada pela Editora Fósforo em 2023, na tradução do francês por Diogo Cardoso. Trata-se de mais um retrato da colonização — tema que me interessa na literatura mundial contemporânea — escrito por um autor senegalês radicado na França. Pelo que soube, Sarr não se apresenta como francês e inclusive recusa a cidadania europeia.

Espero que seja um grande livro (altas expectativas), mas, por enquanto, só posso afirmar que é um livro grande: quase 400 páginas, divididas em três partes de cerca de 100 páginas cada, com letras miúdas e discussões densas.

Pelo que li em sinopses — e pelo pouco que entendi até agora — o narrador, Diégane Latyr Faye, é um jovem escritor senegalês do século XXI que entra em contato (ainda não sei se diretamente ou apenas por ouvir falar) com o livro "O labirinto do inumano", de T.C. Elimane. Esse livro, fictício, seria uma obra prima  das “literaturas negras" do entreguerras, mas acabou gradualmente esquecida, assim como seu autor, após uma polêmica acusação de plágio.

A partir desse autor e dessa obra inventados, Mohamed Sarr constrói metáforas potentes para discutir a literatura pós-colonial. Se for isso mesmo (ainda estou muito no começo para confirmar), o enredo é bom, mas a escrita surpreende quem busca apenas uma narrativa envolvente: trata-se de um romance carregado de reflexões teóricas sobre livros, história da literatura, autores e colonização. Provavelmente vou demorar uma vida para concluir — mas não tenho pressa!

Aos poucos, vou compartilhando minhas impressões com vocês por aqui.😝

1 de setembro de 2025

RECÔNDITA: Continuo a leitura, "daquele jeito" tartaruga, e estou  na metade. Já me entediei, já me surpreendi, já me emocionei e sobretudo,já me confundi toda com os nomes das personagens africanas! Agora continuo achando que é um livro ótimo, possivelmente a mais bem desenvolvida reflexão sobre os sentidos da literatura expressa na ficção do século XXI até agora (por isso estou lendo e não quero parar), mas até agora, eu preciso dizer, não é lá um livro dos mais envolventes. Como leitora, o comparo ao instigante "se eu viajante numa noite de inverno" do Italo Calvino, que, embora não seja referência pra ninguém que lê esse livro, pra mim é, pois o italiano também se propõe a discutir os sentidos da  literatura, mas numa trama de onde você  NUNCA MAIS VAI SAIR.  Claro que o  "recôndita" pode, e vai, me surpreender , desde que eu aguente firme e não abandone a leitura, o que seria uma covardia. Que setembro me traga a conclusão dessa LEITURA!

4 de setembro 


5 de setembro de 2025

LENDO COM A IA: Não é ruim conversar sobre leituras com a IA, não. Com mil questionamentos a partir da leitura de "A mais recôndita memória dos homens", pedi ao CHATGPT um balanço da recepção crítica do romance. Claro que ela mostrou as mais positivas e elogiosas. Aí comentei que minha experiência de leitura está indo pelo caminho contrário: embora ache os temas  importantes, o livro não me prende, tenho vontade de abandonar a leitura sempre. Só aí que ela disse que muitos leitores relatam algo parecido e que talvez esse livro conquiste mais pela ideia de tê-lo lido do que pelo prazer de ler"  . Tipo: é isso! Kkkk

Aí ela perguntou se vou insistir na leitura ou se quero dicas de livros  mais envolventes, inclusive com o mesmo tema. Respondi que agora que passei da metade, vou até o final, na esperança do prazer posterior de ter lido 😜 Freud explica!


9 de setembro de 2025


RECÔNDITA: Voltei a ler ... Não está tão devagar a narrativa,mas confesso que já não me importo nem um pouco com o destino de Elimane, especialmente depois de ler a carta de 1940 atribuída a ele, nem com o "Labirinto inumano"... Estou no último capitulo, está indo por osmose,vai ter que ter uma reviravolta forte pra eu me empolgar nessa leitura. Sigamos...


12 de setembro de 2025


RECÔNDITA (FINAL): Acabei de terminar a leitura. Tenho que admitir que o fim do livro é muito bonito; imaginei tudo como se fosse um filme africano e fiquei feliz. Mas, quando comecei a ler o epílogo, pensei: "Pra que toda essa história tão longa? Por que esse labirinto?" 🤔

O fato é que, do meio para o final, o livro foi perdendo a graça. Fui pegando certo ranço dele, do seu personagem principal, o autor Elimane, e do seu único livro, o proibido "O Labirinto do Inumano". Daí que, no tão aguardado final, não me emocionei nem me surpreendi (não dessa vez). Só estou exausta, como se tivesse corrido uma maratona.

Claro que vou precisar de um tempo para assimilar melhor, mas termino na certeza de que é um livro para escritores. Para mim, não foi empolgante; foi mais cansativo do que proveitoso. No entanto, apesar do cansaço e de certa decepção, acho o livro excelente (notem tantos post-its!). Recomendo a leitura para quem gosta de literatura, para quem é escritor e, sobretudo, para quem não tem medo do labirinto.


RESENHA PRA GRUPOS DE LEITURA E SITE BIBLIOTECA


A MAIS RECÔNDITA MEMÓRIA DOS HOMENS- Terminei a leitura deste livro, sobre o qual tinha muitas expectativas, já que autores que admiro -como Socorro Acioli - o recomendaram vivamente. Trata-se de uma narrativa pós-colonial, escrita por um senegalês radicado em Paris, que acompanha a trajetória de autores africanos, com seu repertório natal, tentando escrever na Europa, lidando com a língua e as referências do colonizador — e, nesse processo, levantando muitos questionamentos.
Nesse campo, conheço e admiro  os livros da angolana radicada em Lisboa, Djamila Pereira de Almeida, que cria ficções envolventes sem perder a densidade crítica. Já o texto de Sarr é mais erudito, dialoga de forma direta e transversal com autores teóricos que conheço apenas de passagem — como Jorge Luis Borges e Roberto Bolaño —, o que torna esse  romance menos envolvente para mim.
A forma não linear e labiríntica, que recorre a diferentes linguagens (diários, cartas, depoimentos etc.), não é exatamente inédita; parece mais uma marca da literatura contemporânea. Neste caso, porém, soma-se o fato de ser um livro extenso — quase quatrocentas páginas, tornando a leitura cansativa. Apesar disso, admito que o final seja muito bonito: imaginei tudo como um filme africano e senti um certo respiro. Mas, ao começar a ler o “Epílogo”, já na página 393, não resisti a pensar: “Pra que tanta história? Por que esse labirinto todo?” 🤔
O fato é que, da metade para o final, o romance foi perdendo a força. Fui criando certo “ranço” tanto do livro quanto do personagem principal, Elimane, autor do renegado "Labirinto do Inumano". No tão aguardado desfecho, já não me emocionei nem me surpreendi como no início — apenas fiquei exausta, como se tivesse corrido uma maratona. O que talvez seja uma reação esperada a partir de um texto tão mental.
Claro que essa leitura ainda vai se sedimentar em mim com o tempo. Mas termino com a sensação de que é um livro escrito para escritores. Para mim, como simples leitora, foi menos empolgante e mais desgastante do que proveitoso. Ainda assim, apesar do cansaço e da decepção causada pela expectativa prévia, reconheço que é um grande livro (vide a quantidade de post-its na foto). Recomendo a leitura a quem ama literatura, a quem escreve e, sobretudo, a quem não tem medo de se perder no labirinto.


sexta-feira, 15 de agosto de 2025

MURAKAMI:Entre a parede e o ovo

 

Referência: Google imagens 

MURAKAMI: ENTRE A PAREDE E O OVO


Em um vídeo de 2009 que circula na internet, Haruki Murakami discursa em inglês ao receber o Prêmio Jerusalém pela Liberdade do Indivíduo na Sociedade (Jerusalem Prize), já concedido anteriormente a escritores como Milan Kundera (1985). Nesse discurso, o autor pronuncia uma frase emblemática: “Entre uma parede alta e sólida e um ovo que se quebra contra ela, eu sempre ficarei ao lado do ovo.”


Com essa metáfora, Murakami expressa um posicionamento ético: a defesa incondicional da subjetividade — mesmo quando isso significa confrontar o peso de uma coletividade capaz de esmagar o indivíduo.


Embora seja uma figura engajada em seu país, essa postura não se manifesta de forma direta em sua ficção. Seus romances e contos preferem explorar universos fantásticos e subjetivos, em diálogo constante com outras literaturas, com a música e com diversas referências culturais.


Sua defesa da subjetividade sugere que um personagem (indivíduo ), mesmo  ao  voltar-se para si mesmo, pode não apenas refletir o coletivo, mas atuar sobre ele de forma indireta. Desta forma sua literatura parece ressoar  com questões centrais para o leitor do século XXI.


É esse tipo de debate que um autor de sua envergadura — lido amplamente no Japão e traduzido em todo o mundo — oferece à literatura contemporânea.


Que bom termos Haruki Murakami!

quinta-feira, 31 de julho de 2025

"Após o anoitecer", de Murakami: o livro que queria ser filme

 





"Após o anoitecer" (2009) , de Murakami foi um livro indicado um grupo de leitura do Facebook  e que comprei usado e gostei em julho de 2025. Meu terceiro Murakami (além de "Sono" e o inesquecível "Homens sem mulheres" que em agosto completa um ano da primeira leitura inesquecível!), esse chegou um dia antes do gélido feriado de 9 de julho e foi meu companheiro no mês mais gelado do ano. 

Levei até pra viajar e foi um ótimo companheiro!

A partir de pouco antes da meia noite até um pouco depois das seis horas da manhã, um relógio vai contando as horas de uma madrugada em Tóquio e o que acontece na vida de alguns personagens naquele período. Não sei se a obra tem algum protagonista, mas destaco como principal a história das irmãs Mari e Eri Asai. Mari é uma universitária tímida que fala chinês e ,por algum motivo não revelado de cara,escolheu passar a noite lendo em um café. Ela é irmã  mais nova nova da modelo  Eri, que se encontra dormindo em casa há dois meses, por algum motivo que também não é revelado. A trama delas é muito interessante, uma é o oposto da outra (uma não consegue acordar, a outra não consegue dormir,uma ligada a aparecia a outra a essência,etc ) e o problema principal está na dificuldade de comunicação (tema caro aos japoneses). Por isso chamei esse livro de um romance sobre amor fraternal.

Ao redor delas surgem outros personagens como o TROMBONISTA (coloco em caixa alta porque não foram bem um bem dois resenhistas que o descreveram como trompetista! Para mim não é detalhe) Takahashi toma um café com Mari antes de passar a madrugada ensaiando com a banda num porão.  Depois disso surgem outras personagens do submundo de Tokio, como Kaoru,uma mulher grande, dona do Motel Alphaville, onde uma chinesa teria sido agredida. Como ela não fala japonês, chamam Mari para  fazer a tradução do seu depoimento. Ai surge outra trama na história,a agressão da prostituta e o submundo das máfias chinesa e japonesa atuando nas ruas de Tokio. Nesta trama surge Shirakawa, um trabalhador pai de família e acima de qualquer suspeita, mas até na verdade esconde uma face violenta e tenebrosa e ouve as  cantatas de Alessandro Scarlatti pelo contratenor estadunidense de origem japonesa Brian Asawa. 

Esses e outras personagens, exceto Eri Asai que só dorme, vivem aquela madrugada acordados e se transformando em algo que não eram antes daquele amanhecer.

Tudo isso é enriquecido por uma rica e variada trilha sonora (como já vida de todo mundo)  ,  que vai até vai de cantatas de Alessandro Scarlatti do século XVII, até sucessos do Pet Shot boys , não esquecendo o destaque para o repertório de jazz e blues do trombonista, uma das coisas mais belas do livro.

Dando uma olhada nas resenhas dos booktubies , a maioria gostou ou achou ok.

Destaco esse vídeo, onde a jovem defende que esse livro é uma ótima opção para começar a ler Murakami,porque ele é curto e aborda de forma "concisa e domada" alguns dos temas/ambientes comuns na obra do autor, como humor distorcido, histórias dramáticas,"realismo mágico", histórias estranhamente sexuais ou violentas, funcionando como uma espécie de sumário daquela escrita.

Mas, pessoalmente, eu destacaria a forma de contar como o grande diferencial do livro. Não só porque é marcado pelo relógio, mas especialmente pelo fico narrativo diferenciado. Narrado em terceira pessoa, o narrador, que é uma espécie de "POV", um ponto de vista , e narra  assim 

Esse ponto de vista de camera, avisa o leitor,apenas descreve os acontecimentos sem interferi neles. (P. 157)

E conta a história a partir de uma câmera imaginária,por isso o livro parece sempre querer ser um filme .

Todo esse cenário desenvolvido por Murakami me lembra  muito o que se pode observar nos filmes e séries da Netflix, que são o que há de mais moderno na produção de narrativas.

Por essas e por outras, adorei ter feito essa leitura.

ALGUMAS POSTAGENS NAS REDES SOCIAIS DURANTES A LEITURA 

21 de julho 

"-Fico pensando... Será que as lembranças não seriam o combustível de que os homens precisam para viver? Se essas lembranças são ou não realmente importantes para a manutenção da vida, não vem ao caso. Elas podem ser apenas um combustível. Seja uma propaganda de jornal, um livro filosófico, uma foto pornográfica ou um maço de notas de dez mil ienes, tudo isso não passa de papel na hora de queimar, não é mesmo? O fogo não queima tudo questionando "Nossa! Isso é Kant"  ou "Isto é a edição vespertina do Yomiuri" ou "Puxa! Que peitos!", concorda? Para o fogo, tudo não passa de papel. É a mesma coisa com a memória. As lembranças importantes, ou até as que não têm importância nenhuma, tudo, indiscriminadamente, é apenas matéria de combustão.

Koirogui balança a cabeça concordando consigo mesmo e continua :

- É por isso que, se eu não tivesse esse tipo de combustível em mim, se eu não tivesse essa gaveta de lembranças dentro de mim, eu já teria morrido há muito tempo. Eu estaria em algum lugar horrível, abraçando meus filhos joelhos, morta e abandonada na estrada. Na medida em que posso usar, de acordo com minhas necessidades, as inúmeras lembranças que tenho, sejam elas importantes ou não, é que consigo me manter viva, mesmo sendo essa vida de pesadelos. Mesmo que eu pense que não dá mais, que não posso mais continuar, consigo de alguma maneira superar isso. " P. 173

23 de julho 

"Sala do subsolo que parece um depósito. Estamos no local onde a banda se reúne para ensaiar durante a noite. (...) Takahashi toca um solo longo com seu trombone acompanhado de piano elétrico,contrabaixo e bateria. É "Sonnymoon for Two", de Sonny Rollins. Um blues de ritmo moderado. A performance de Takahashi não é nada má: além da técnica, ele  tem um modo de desenvolver frases e variações temáticas que resultam num diálogo musical. É em momentos assim que se revela a personalidade do músico. Ele fecha os olhos e se entrega à música." (Haruki Murakami. " Após o anoitecer",p.175)

28 de julho 

A hora passando ...


APÓS: É real, estou a poucas páginas de concluir minha terceira leitura de Muraksmi, e dessa vez um romance e  um exemplar meu! 😍

Achei que ia concluir na volta da viagem, na qual ele foi meu  companheiro fiel, mas não é tão aleatoriamente assim que nos despedimos de um livro de Murakami, tem que ter aquele tempo do medo da despedida. Estou nele: o romance se passa em uma madrugada , a partir da meia noite, e segundo o reloginho que inicia os breves capítulos já estamos quase em cinco da manhã :  mais breve do que eu gostaria concluo mais uma leitura deste autor incrível. Virá outra, ler Murakami e gostar é só começar 😍

Na madrugada, terminando de ler


29 de julho 

APÓS: Acabei  de ler. Não era minha intenção terminar  hoje, já estava até dormindo (fato irônico em relação a esse romance), mas recebi uma ligação  e a conversa não pôde se desenvolver no tempo e como eu estava acordada,   restou-me cair nos braços do livro. Que na real é uma história de suspense muito bem contada. Do pouquíssimo que conheço de Murakami, já  identifiquei que os temas comuns vão de música , ao fascínio por mulheres, invariavelmente filtrado por questões envolvendo o sono. Nesse livro o centro é o amor fraternal e a dificuldade de comunicação. Mas há também, de forma coadjuvante,traços de uma forma  lindíssima de falar do apaixonar-se como um filtro de vida para os olhos de quem está vivendo (que aparece também no conto "Samsa apaixonado").  Neste nosso século  dos amores líquidos, destaco que em Murakami ainda temos o "velho amor ainda e sempre", o que espera, que deseja trocar longas cartas, que planeja encontros cotidianos para o próximo verão e que vão ser  incríveis  só por estarmos  juntos novamente! Pode parecer ultrapassado, mas na verdade é o amor mais bonito e ainda resta em livros, belíssimos como este!


sexta-feira, 18 de abril de 2025

Sobre "Verme", Geraldo Pedro



"Todo dia você me fornece 
 material pro sonho" 
Geraldo Pedro



Em abril de 2025 eu tive a oportunidade de ler o livro digital "Verme", de Geraldo Pedro, meu primeiro livro de abril de 2025. Resultado de uma experiência de escrita coletiva via Facebook do mórbido ano de 2016,  no qual os  brasileiros sentiram verdadeiramente todas as frágeis estruturas democráticas realmente estremecidas pela primeira vez no século XXI:
Talvez o  dia em que me senti mais sozinha no
mundo, devido a um acontecimento 
da história pública do Brasil . 


Impeachment da presidenta Dilma, forjado meses antes em uma das manobras mais canalhas e machistas que acompanhei na vida foi um baque para mim, senti mesmo 'vontade de deixar de ser'  nesse país. Depois de derrubarem presidenta "coração valente", a instauração  da dominação masculina, do  conservadorismo, o retrocesso! Que aninho difícil, amigos.  Com vocês a minha trilha sonora de 2016


Na época eu não conhecia Geraldo Pedro -uma pena, pois poderíamos ter trocado um abraço de condolências pelo projeto de país democrático que, momentaneamente, ali se acabava-, mas lendo seus pequenos textos, suas vozes de reação , eu consegui voltar um pouco àquele clima pesado.
E como Pedro responde a esse contexto fétido nesse livro?  Em textos muito confessionais, como se fossem uma espécie de terapia, muito necessária para todos os momentos do Brasil, aquele em especial. Em geral, nos textos encontramos muita arte, literatura, cinema, música ... respiros culturais de um Brasil que aquela  cena política murídea não poderiam jamais sequer arranhar.

VERME
Sobre o livro, como a leitura foi muito fluída e despertou em mim as mais diversas reações mentais e emocionais , pois eu também senti a navalha de 2016 romper a minha pele, não pretendo comentar texto por texto. Na verdade, não pretendo comentar nenhum texto individualmente, mas selecionei cerca de quinze deles que me chamaram a atenção e dividi em quatro grupos temáticos de assuntos do meu interesse e que acredito terem força para sustentar a resistência a 2016, proposta pelo livro : Literatura; afetos; música; humor e crítica; 

LITERATURA

Assunto que permeia os textos desde a epígrafe de Fernando Sabino e as três certezas: “estamos começando”, precisamos continuar e podemos ser interrompidos. Façamos delas traços para novos desenhos, criemos uma nova realidade, diferente daquele tão asfixiante 2016, um ano de perdas.

No prefácio, texto mais confessional de um livro tão confessional, vemos mais claramente a cara e a alma do autor Geraldo Pedro, que se autodefine como autor marginal estreante, admirador de Machado de Assis, Umberto Eco, Drummond, Hendrix, Bergman, Lygia Fagundes Telles, Leminski, Caio Fernando Abreu, Otto Lara Resende e Veríssimo, figuras “presentes em tudo o que escrevo”. De fato, essas referências, literárias em sua maioria, pipocam na obra de um jeito interessante, às vezes doce, às vezes cortante, como é a vida e a literatura.

Outra referência literária importante é a poesia marginal. Ela aparece não apenas como citações à Ana Cristina César, por exemplo , mas sobre a evocação de um contexto marginal e sobretudo pela tentativa de emulação da forma curta e ágil de escrita e a própria ideia do livro : marginal, com autorização prévia para ser reproduzido. Aqui Pedro esboça a si mesmo como escritor ao desenhar sua linhagem: um vândalo herói, esquisitão, um verme – que primeiro roeu s frias carnes do cadáver de Brás Cubas?

Depois fala especialmente de Lygia, também minha favorita, e a coloca como nossa coringa! Como não amar um autor fã de Lygia?

E Drummond? De quem Pedro roubou a água e tomou sopro poético! Imagens !

AFETOS

É o tema mais abordado desse livro, que é meio que sessão de terapia pública e crítica. Só na seleção que fiz, destaquei mais de 5 textos afetuosos! As formas de tratar o afeto são diversas. No primeiro texto, sobre as mães mortas e suas possíveis ou impossíveis substitutas já me trouxe certa compreensão a respeito desse tema tão delicado para mim. E para tantos. Depois tratou dos solitários, mas não sozinhos, ali em uma legião deles, que se apoiam em uma frase muito cara a Gilberto Pedro, meio desesperada, meio consoladora , como se o interlocutor implorasse que alguém também lhe dissesse “Você não está sozinho”. Agora talvez não mais, talvez não tanto, mas em 2016, naquela quarta feira terrível, todos estávamos!

Em “Não se mate”, outra frase roubada de Drummond e que é muito a cara de Geraldo Pedro. No texto, triste , mas bonito, ele fala da morte do poeta. Da impossibilidade de viver após certa dor. Não há quem não entenda, de alguma forma!

Agora um momento ternurinha, um belo texto sobre Jimi Hendrix, um sujeito de bom coração. E Pedro determina

“o bom coração é a base de sustentação do grande amor no universo” (p.69)

Em “Equilibro” Pedro trata das dificuldades da vida e conclui com um autodiagnóstico que pode servir para tantos, especialmente essa que voz fala: “Eu sou uma criança desajeitada à guisa de me tornar um adulto equilibrado. Quem sabe um dia?... “ (p.78)

Depois em "Dia dos pais", onde se ganha sonhos , melhor presente! Pedro, nosso autor, é mesmo alguém muito versado em sonhos.

Há também um texto muito bom chamado “O Amor está no inferno”, onde a saga comercial e sobretudo romântico/amorosa que envolve o Dia dos Namorados é plenamente desconstruída, para, sim, ser refeita no final, onde se ouve a voz de Pedro? Nossa própria voz, clamando que ninguém é condenado ao inferno por ter ou não ter namorado no dia dos namorados, afinal estamos na vida, cheia de possibilidades. Ou não.

E a cicatriz que enfim enfeita a cara do homem viril marginal que sempre quis ser, mas que luta só com seu bom coração ...é que nem sempre apenas um bom coração pode fazer de você um herói. Isso faz doer o bom coração.

MÚSICA

Desse tema já citei um pouco, quando falei de Hendrix, mas aparece melhor em “Não isso. Mas aquilo”, quando nosso autor elenca um tanto de seu gosto, dessa vez o destaque é musical e é interessante perceber sua sensibilidade e olhar crítico, aquilo que viria a ser o gosto musical brasileiro atual, ali ainda em fase embrionária. Artistas olham o mundo de um jeito diferente e algumas vezes conseguem antecipar acontecimentos com sua sensibilidade.

HUMOR CRÍTICO

O verme do título é um personagem que se mistura e interage com o autor o tempo todo no livro e, por ser um verme, traz também um tom humorístico a qualquer ação que participe. Um recurso muito bem empregado, que deu liga a tantos fragmentos de texto.

Outro momento onde o humor se destaca é “Porco Trump” e que hoje, em 2025, é tão intragável que quase nem conseguimos rir das piadas de Pedro. Trump, Bolsonaro, a fascismo, o golpismo continuam ditando cartas, como se, de certa forma, 2016 nem tivesse acabado. Ou como no poema de Drummond, “De tudo resta um pouco. Não muito”. No caso, acho que restou demais!

Na série de textos “Dê a bunda”, o tom debochado e muitas vezes amargo de quem sabe que está vivendo um momento de ruptura e o futuro é uma possibilidade fugaz. O tom me lembra um pouco o do Pasquim. Na verdade eu lembrei mesmo da antiga revista Bundas ,essa sim , reedição de uma publicação ao modo Pasquim, mas nem lembro de quando. No caso do livro Verme, esses textos são os mais humorísticos, engraçados e amargos pois também apresentam grandes reflexões e citações sobre temas.

Esse livro é um grande depoimento sobre desastre que foi o ano de 2016 e só quem viveu se lembra, e foi muito bom ter tido a honra de conhecer a obra por intermédio de seu autor, alguém que passei a conhecer um pouco mais desde então! Adorei!



domingo, 24 de setembro de 2023

A falsa simplicidade das crianças na escrita de Ondjaki

 

Eu com o voluminho

Hoje é 30 de setembro, último dia do mês, e estou preparando um post mais elaborado sobre este livro e a escrita de Ondjaki, mas como estou atrasada nas postagens, resolvi abrir essa. no dia 24, dia seguinte em que terminei a leitura,  e completar na semana que vem. Até breve.


terça-feira, 20 de dezembro de 2022

2022: ano de poucas leituras

 Leituras 2022:

De baixo pra cima (os q + gostei ganharam ❤️): 

*Elza- Zeca Camargo
*Modernismo a 1922-2022-Gênese Andrade(org)
*Desde que o samba é samba- Paulo Lins
*Gabriela cravo e canela- Jorge Amado
*O sumiço da santa - Jorge Amado
*Tereza Batista cansada de guerra♥️- Jorge Amado
*Nem sinal de asas♥️- Marcela Dantés
*João Maria Matilde-Marcela Dantés
*Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres♥️-Clarice Lispector
*Além do riso - Elias Thomé Saliba, Thais Leão Vieira , Leandro Almeida (org)
*Notas para uma definição de leitor ♥️ Aberto Manguel
*O movimento negro educador-Nilma Lino Gomes
*Estela sem Deus- Jeferson Tenório
*O beijo na parede♥️ Jeferson Tenório
* Dom Quixote -Miguel de Cervantes
*A visão das plantas❤️- Djamilia Pereira de Almeida
*O sêmen do rinoceronte branco- Cinthia Kriemler
*Estética e raça: Ensaios sobre Literatura Negra- Luiz Maurício Azevedo
*Eu, Tituba-Maryse Condé
*Sagatrissuinorana- João Luiz Guimarães e Nelson Cruz

Se em 2021, ano ainda dá quarentena,  eu me realizei como leitora, li muito bem lidos e comentei mais de 30 livros de literatura, de diversos tipos e procedência, como comentei aqui,  em 2022 a ideia era ler menos quantidade, mas manter e ampliar a qualidade, mas  foi parcialmente cumprida.

Com a progressiva volta do mundo ao "normal", nem tudo se manteve tão organizado ou fixo como eu gostaria e agora no final, juntei 21 livros que comecei a ler, li, concluí ou reli pra fotografar. 

Nem tudo é literatura, tem textos de trabalho/pesquisa, e nem todos ganharam comentários aqui no blog (algo que mais lamento).

De literatura, terminei as protagonistas mulheres do Jorge Amado com Tereza Batista e Gabriela (livro mais chato dele, achei) e também li o delicioso o sumiço a santa. Esse pretendo reler quando tiver com a cabeça mais fria, 2022 foi muito opressor!

Li dois livros de um autor e de uma autora contemporâneos, Jeferson Tenório e Marcela Dantés, gosto muito dos dois! 

Li a festejada Djamilia Pereira de Almeida e achei uma baita experiência, livro curto porém denso! Amei! 

Li alguma teoria  sobre literatura negra e história da literatura. Não li nada de poesia, o que acho triste.

Também há casos excepcionais. Tem um livro, o "We: a chave da psicologia do amor romântico", de Robert  Johnson, indicação da minha terapeuta, que tenho físico m comprei usado na Estante Virtual:


Me lembro que foi muito importante para mim, inclusive para ajudar a entender as leituras literárias , pois elas sim, contém "chaves" e questionamentos sobre tudo nessa vida. Mas  inexplicavelmente, não achei o livro pra foto!☹️

Teve também livros  escritos por autores (as) negros que li pra trabalho: "Racismo estrutural"❤️, de Silvio Almeida, "Lugar de fala", Djamila Ribeiro e "Literatura negro brasileira"❤️, do Cuti. Esses li com rapidez e afinco nas versões digitais que chegaram até mim, e que ainda não tenho impresso. Mas terei porque eles abrem novas janelas para o mundo, depois  deles nada ficou no mesmo lugar. 

Super recomendo, especialmente o do Ricardo Almeida, que todo mundo acha que conhece , que nem precisa ler pra saber, mas precisa sim, ainda que para lê-lo, carece de ter coragem.

Com esses, completei  a leitura de 25 livros. Espero que ano que vem eu leia mais literatura e mais atentamente. Sigamos!

Gente, onde eu estava com a cabeça? Quase ia esquecendo porque já tinha devolvido na estante, mas faltaram na foto das leituras os livros 3 livros  sobre história da feitiçaria(por causa do sumiço da santa e Tituba) que li ou reli e comentei :  História Noturna e Andarilhos do bem, do C. Ginzburg  e o Maria Padilha Padilha e toda sua quadrinha de Marlyse Meter. 

Queria pensar na História da feitiçaria
Porque li "Sumiço da Santa" e 
"Eu, Tituba",mas como a ideia miou,
tinha guardado os livros por enquanto...

Tudo somado, 28 livros esse ano 🤩

Se eu lembrar de mais algum insiro aqui 🤣😂

terça-feira, 23 de agosto de 2022

História da feitiçaria e literatura

 


No começo da minha vida de pesquisadora, fiz um inusitado (para a época)  trabalho sobre o Portugal do século XVIII retratado no esplêndido romance "Memorial do Convento", de José Saramago, com a presença das racionalidades, dentre elas a mão forte da inquisição moderna ameaçando a todos, especialmente mulheres simples como a personagem Blimunda, que tinha poderes ocultos e teve mãe condenada pelo Tribunal do Santo Ofício logo no início da trama. 

Para entender um pouco melhor a racionalidades  da Europa moderna, os excepcionais trabalhos de Carlo Ginzburg sobre a feitiçaria, como esse "História noturna: decifrando o sabá" foram de muita importância. Na época esses livros não tinham sido traduzidos no Brasil, então lembro que li as edições portuguesas, presentes na maravilhosa Biblioteca da FFLCH. Leio a sinopse na capa da edição de bolso da Cia das Letras (2012) 


Esses temas também respingaram na História do Brasil colonial, pois muitas mulheres condenadas foram degradadas para o Brasil, trazendo aquelas crenças e racionalidades. Isso foi muito explorado nas pesquisas da minha primeira orientadora, professora Laura de Mello e Souza, que escreveu aquele trecho sobre Maria Padilha, que transcrevi aqui.

Certamente é um assunto muito interessante. Quem sabe não acho um gancho para estudar isso de novo? 










 

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Retrospectiva: 2021 o ano da literatura!

 


Este ano eu "inovei", fazendo um resumo de uma linha do conteúdo do blog (e também fora dele), mês à mês, então a retrospectiva ficou mais fácil. Vou trazer a frase de cada mês e comentá-la!

JANEIRO - Teste de Ancestralidade;
Elza embalava minha vida logo no começo do ano

Acho que tive a ideia de resumir o mais importante do mês por causa de janeiro, quando não teve nada mais importante do que o meu teste de ancestralidade. Para mim, para tantos negros do Brasil, saber qualquer coisa sobre nosso passado, propositalmente apagado, é tão grande, envolve tantas coisas, toda a nossa vida, nossos medos, escolhas. É um olhar para nós mesmos. No caso do meu resultado, fiquei surpresa pelo meu DNA não ter nada de indígenas brasileiros, e eu que achava que era cafuza (mistura de negro com indígena), mas na verdade sou mistura de negro com branco. Mas quais ? Brancos, predominam os ibéricos, portugueses e espanhóis, embora tenha alguns pontos de outros lugares na Europa. E negros, tem de muitos lugares da África, não apenas daqueles que sabemos que vieram pessoas para seres escravizadas ( especialmente Angola, Congo, Moçambique, Nigéria, etc), mas também de vários lugares do norte do continente, a África oriental, árabe, inclusive a minha querida Etiópia! Me senti muito melhor com essas informações, pesquisar ancestralidade era uma das metas para 2021 e eu "entendi" mais tantas coisas e pareceu que um dos sentidos da minha vida tinha sido encontrado. Foi, e isso não é pouca coisa, mas ainda existem mistérios!

FEVEREIRO -Mergulho em Lima Barreto;
Fevereiro : o mês de "Lima Barreto que nos olha"

Foi sem querer, mas acabei tendo que escrever um texto urgente e mergulhei na vida de Lima Barreto e Clara dos Anjos, isso me fez pensar que estava continuando o tema de janeiro, pois estava estudando o maior escritor negro brasileiro (que se reconheceu assim e sofreu as consequências, inclusive de sempre acabar sendo "esquecido". O que ele escreveu, há cem anos, continua sendo atual e incômodo. Escolhi escrever sobre o livro Clara dos Anjos, porque eu li quando era menina, mas demorei muito para entender que a Clara era eu, era todas as mulheres negras periféricas, em 1922. em 2021! Fevereiro foi mês do Lima, a quem agradeço imensamente! Que orgulho ter um escritor desses no meu país!
No final do mês, depois que terminei o trabalho, fui ler outras coisas, ainda sobre negros, li um livro infantil sobre as princesas africanas e um romance ótimo de Chimamanda Ngozi Adichie . uma autora nigeriana, país que agora sei que faz parte da minha ancestralidade.

MARÇO - Mostra de Cinemas Africanos , Congresso de Crítica Genética e
Guimarães Rosa;
Já estava acompanhando congresso pelo celular
 na sala de espera do hospital pros exames pré cirúrgicos da minha mãe,
mas foi uma delicia debater sobre critica genética 

Esse mês já tive mais assuntos para falar, congresso, Mostra de documentários africanos, inclusive um etíope muito bom e expectativa sobre a cirurgia da minha mãe, até que consegui me sair bem em tudo, com uma energia muito 2020, cheia de banho de sol. Acho que a coisa ficou mais difícil mesmo a partir do mês seguinte.

ABRIL- Cirurgia de mamãe e anais do Congresso APCG;
Na Páscoa com minha mão ainda não sabíamos quando ia ser a cirurgia

Em abril começamos bem, eu escrevi o texto para os anais do congresso de março e eu e minha mãe passamos uma páscoa feliz aqui em casa, tiramos fotos felizes, mas dias depois, naquela mesma semana, ela foi chamada para retirar a colostomia, que achávamos que seria mais simples. Como era contexto de pandemia, não pudemos acompanhar, só por telefone. A tensão era enorme, passei os dias aqui em casa, esperando uma ligação do médico, deu tudo certo e ela voltou para casa, muito debilitada. Ela precisava de cuidados todo o tempo, dei uma pausa nas caminhadas pois ela precisava de cuidados dia e noite, alimentação, precisava trocas as fraldas, ela sentia dores, estava ferida, incomodada, irritada, Muito tenso. Ninguém vinha me ajudar porque só ela, que é idosa, tinha se vacinado, então tive que me virar sozinha e acho que consegui me sair até bem, pelo que me lembro, não perdi a doçura e o bom humor ao lidar com ela, mesmo que ela, com toda razão, estivesse sempre uma pilha de nervos. Mas eu cansei muito esse mês. As máscaras caíram.

MAIO - Vacina Pfizer parte 1; Gabo, Acioli, Juan Rulfo e racismo e Jeferson Tenório;
Dei uma passada no posto e tomei a vacina
Estava gorda e descabelada, bem diferente da Camila soar de março.
Eu tinha pressa,  não podia deixar minha mãe sozinha!

Em maio a situação melhorou um pouco, ela deixou as fraldas, podia comer melhor, mas ainda estava fraquinha e continuava precisando de mim todo o tempo, não podia sair por muito tempo, então aproveitei para ler mais, reler realismo fantástico, Gabo e li o maravilhoso Pedro Páramo . No meio daquela situação tão tensa que passava em casa, continuando o tema da ancestralidade que abriu o ano, li o melhor livro contemporâneo de 2021, O avesso da Pele, de Jéferson Tenório que, assim que terminei de ler, soube que era diferente! Mas teve uma coisa ótima esse mês, eu tomei a vacina! Que emoção, quanta esperança!

JUNHO - Boa e má literatura latino americana; Bernardo Brayner; biografias com livros e Prince;
Lendo Bicho Geográfico, do meu amigo Bernardo Brayner

Junho foi parecido com maio, muito ocupada com mamãe, só dava tempo para ler antes de dormir, quis ler outros autores latino americanos, além do Gabo, li um contemporâneo que não gostei. Li um livro lindo , do meu amigo Bernardo Brayner, e fiquei nostálgica sobre como começou nossa amizade há décadas. Comprei a bio da Elza, que só fui ler em dezembro, e me apaixonei pelo Prince!

JULHO - Prince, morte e amor com Gabo; Trianon, capítulo de livro e Nicolai Gogol;
Estava frio, eu queria me esconder atrás dos livros

Nesse mês um capítulo de livro que escrevi no ano passado foi publicado, fiquei contente. Sai pra passear pela primeira vez na Pandemia, fui ao parque Trianon com meu amigo Rafael.
Só em julho as coisas começaram a melhorar em casa, minha mãe mais fortinha, o que me deixou enxergar o quanto eu estava acabada, gorda, sem vaidade, sem alegria, sem conversa, sem contato. Esse período foi de cárcere mesmo, só falava ao vivo com minha mãe e com a terapeuta a cada quinze dias. Um dia fui a farmácia para minha mãe, me pesei e vi que estava muito gorda, tinha descuidado muito de mim, não podia ter feito isso, ainda mais sabendo que nem podia sair para caminhar, chorei muito aquele dia e a sensação de que tinha ficado velha e feia em poucos meses não me abandonou o resto do ano, mesmo assim comecei uma dieta por conta própria. Minha alegria era ouvir Prince, tantos sons e musicalidades!

AGOSTO -Prince; Vacina Pfizer parte 2; voz literária de Odilon Esteves ;Paulo Scott incômodo; Jorge Amado; Stênio Gardel e aulas de Guilherme Arantes;
A palavra que resta de Stênio Gardel e Mar Morto de Jorge Amado
Leituras poéticas e lindas

Agosto ia ser o mês de tomar a segunda dose da vacina, estava com muita expectativa de poder me libertar mais um pouquinho. Foi um mês que eu tive que sair mais, tinha meus exames anuais para fazer e levava sempre um livro para me acompanhar. Podia ser um livro lindo e poético como o Mar Morto, do Jorge Amado ou A Palavra que resta, de Stênio Gardel, ou incômodo como O ano em que vivi de literatura , de Paulo Scott. Me vacinei no dia 20 e só em setembro poderia voltar a academia, tudo o que eu mais queria. Aprendi música com Guilherme Arantes no Facebook.

SETEMBRO -Fabiane Guimarães e os rich people problems; Live Pedro Bloch e humor infantil; academia; Tenda dos Milagres e Prince;
Minha felicidade em voltar a treinar é inenarrável

Muitos assuntos em setembro, o mais importante foi voltar a academia, isso significou que eu estava imunizada e que minha mãe estava melhor, mais independente e eu podendo cuidar um pouco de mim. Voltar a academia significou pegar sol, ver e interagir com pessoas, foi como nascer de novo. Mas também esse recomeço me mostro o quanto esses quase dois anos sem treinar me enfraqueceu! Eu não conseguia fazer muita coisa, pedia ajuda de Deus e dos Orixás pra não desistir, porque eu acreditava que como era antes nunca mais ia ser ser. Mas não desisti. Fiz live para falar da minha pesquisa de pós doc e li o pior livro do ano, Apague a luz se for chorar, da Fabiane Guimarães e também Tenda dos Milagres, outro maravilhoso do Jorge Amado. Nesse ínterim, aprendia cada vez mais sobre música com o Guilherme Arantes pelo Facebook e foi maravlihoso quando ele falo do Prince.
OUTUBRO - Adaptações de Tenda dos Milagres; Mostra de Cinemas Africanos; Artigo sobre Cinemas Africanos, Lygia Fagundes Telles; Encontro Critica Genética; Abraço no Prince;
Abraçando Prince


Teve Mostra de Cinemas Africanos, pena eu estar tão cansada, mas consegui assistir tudo: AMO!
Fui ver adaptações do romance Tenda dos Milagres como minissérie da Globo em 1985 e como filme de Nelson Pereira dos Santos em 1977, gostei muito da trilha sonora e de Nelson Xavier como Ojuobá Pedro Arcanjo na TV , embora a série tenha mudado tudo de lugar, ficou bonita, já o filme é mais fiel ao romance, mas destaco a cena em que Pedro Arcanjo explica porque, sendo um materialista, continuava frequentando o candomblé, é que ai vemos como esse personagem é uma espécie de alter ego do Jorge Amado e como eu, tantas vezes, me identifico com ele. Li o fantástico Antes do baile verde , da Lygia Fagundes Telles, participei de outro congresso de critica genética, mas como estava muito mais exausta do que em março, foi bem light. Foi meu aniversário e eu dei um jeito de, enfim, dar um abraço no Prince, meu crush!

NOVEMBRO -Nutricionista; Hilda Hist e Rosa; Jorge Amado e Saramago; Lima Barreto na Consciência negra; Congresso de Estudos sobre infância;J . Tenório vence Prêmio Jabuti; Marçal Aquino é bom, mas não tudo aquilo, Prince;
No dia da consciência negra, recomendei
a leitura de Lima Barreto

Continuava exausta no treino, procurei uma nutricionista para me ajudar a ter mais disposição, foi a melhor coisa que eu fiz, com orientação profissional, passei a me sentir bem melhor. Li o divertido A Descoberta da América pelos turcos, do Jorge Amado, com prefácio do Saramago. Recomendei que lessem "Clara dos Anjos" ou "Recordações do escrivão Isaías Caminha", de Lima Barreto se quisessem saber o que era "consciência negra". Participei de um congresso sobre estudos de infância na UERJ, falei do Pato Fu, mas senti que podia ter me saído melhor. Como suspeitei, O Avesso da pele começou a ser reconhecido, ganhou prêmio Jabuti de melhor romance literário de 2021 e eu vibrei! Li o recomendadíssimo "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", do Marçal Aquino e não achei nada de tudo aquilo que me falaram. Acontece! Continuei com Prince na cabeça e no coração.

DEZEMBRO - Publicação do meu livro, Vacina gripe, Dose de reforço contra covid, biografia da Elza Soares
Na live de lançamento do meu livro 

Em dezembro tomei muitas vacinas, contra gripe e a de reforço da covid, teve o lançamento do meu livro Escrevendo a lápis de cor: Infância e História na escritura de Guimarães Rosa, foi uma grande emoção.


O livro mesmo me chegou na véspera de natal, com um presente e foi lindo só li a biografia da Elza e ouvi muita coisa dela, em várias fases, depois escrevo melhor sobre.

Assim foi meu ano, que se encerra em poucas horas.
Que 2022 seja mais leve e mais alegre!