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quarta-feira, 7 de abril de 2021

RIP Alfredo Bosi: Obrigada!

 




Assisti a um curso sobre Gregório de Matos ministrado pelo Bosi como ouvinte quando escrevia projeto de mestrado em 2004, nele eu, historiadora simpatizante das letras, "aprendi" a ler poemas, mais ou menos assim: aproxima muito, lê em silêncio, lê em voz alta, se lambuza dele, depois se afasta para visualizar melhor . Esse "método" simples,.mas eficaz, me ajudou a ler Guimarães Rosa, só que, no caso, de forma amplificada (palavra por palavra) usei pra ler as estórias no mestrado e doutorado.
Me ajudou também a ser uma leitora menos "infantil"(no sentido de estar mais preocupada com a composição literária mesmo) no geral. Muito,muito grata! 💖
Sinto muito mesmo! Pandemia maldita, passa logo








segunda-feira, 3 de abril de 2017

SÍNTESE DO MEU PERCURSO ACADÊMICO : BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE

BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE - Precisei abrir meus resultados finais de pesquisa sobre as relações entre História e Literatura (Iniciação científica - mestrado - tese) e sabe de uma coisa? Me orgulhei muito deles!
Se na IC, sobre um romance de Saramago, eu já me interessava por questões teóricas e metodológicas, também já amava Ginzburg, mas ainda não conhecia outra orientação teórica mais específica na História para realizar esta operação com o literário, só que com minhas "visitas" às aulas nas Letras "conheci" o discurso dialógico de Bakhtin e pirei (até hoje piro nesse lance do diálogo) e adaptei isso para os fluxos da historiografia portuguesa, o que Laura de Melo e Sousa (orientadora) achou que ficou original. Como resultado final eu escrevi um artigo que ficou eternamente no prelo e nunca foi publicado, infelizmente.
Ilustrações  do livro Tutaméia: terceitórias de JGR (1967)
No mestrado eu quis mudar e mergulhei no livro Tutaméia de Rosa e na sua fortuna crítica, e isso me obrigou a mudar certas perspectivas : embora não seja o ideal, o texto de Saramago me permitia não analisá-lo detalhadamente, palavra por palavra, como o Alfredo Bosi ensinava analisar um poema. Já o rendado texto de Rosa sempre exige uma leitura "ulpianística" da coisa. Nesse trabalho, além do papai Ginzburg, eu mergulhei também nas ideias de Walter Benjamin e formou-se minha divina trindade:
Ginzburg-Rosa-Benjamin
O legal desse trabalho é que, como eu queria, ele ficou bem brasileiro, e embora não o cite textualmente nenhuma vez (não sei porque não o cito nunca!), por trás de tudo ali está embutido o ideário do que considero nosso maior historiador, que é o Sérgio Buarque de Holanda (sim, eu sou uma cria da USP!).
Recortes de desenhos que Rosa fez para sua neta Vera Tess
O doutorado poderia ter sido só a celebração da minha santíssima trindade descoberta no mestrado, mas como eu quis inserir as crianças, precisei experimentar novos métodos historiográficos e trouxe à tona os manuscritos literários, o que me levou a dialogar com a Crítica Genética e tal...e é um trabalho mais lúdico, mais lambuzado de Guimarães Rosa que eu simplesmente amei fazer.

No pós-doutorado, ainda inconcluso, voltei à historiografia mais clássica e brinco com a História Cultural, só que do humor. Para analisar minhas fontes, sigo o método do meu ex orientador e atual supervisor Elias Thomé Saliba : objetividade metodológica (leia e analise o documento) e subjetividade epistemológica (considere todos os que dialogarem com seu tema), que, na verdade, é mais uma forma possível de abordar a interdisciplinaridade na pesquisa em História.
Acho que, resumidamente, este é o grosso do meu percurso acadêmico até agora.

domingo, 23 de maio de 2010

DATAS SÃO PONTAS DE ICEBERGS


Cito Alfredo Bosi - meu magister- sobre questões que me incomodam desde que comecei a graduação em História:

"DATAS
1492,1792,1822,1922.
Datas. Mas o que são datas?
Datas são pontas de icebergs.

O navegador que singra a imensidão do mar bendiz a presença dessas emersas, sólidos geométricos, cubos e cilindros de gelo visíveis a olho nu e a grandes distâncias. Sem essas balizas naturais que cintilam até sob a luz noturna das estrelas, como evitar que a nau se espedace de encontro às massas submersas que não se vêem?
Datas são pontas de icebergs. (...)


1956 (...)

Debaixo dessa ponta de iceberg, o que vamos encontrar?

Em 1956 o presidente bossa-nova, Juscelino Kubitscheck, recém empossado, lança o seu ambicioso Programa de Metas que incluirá a mudança da Capital para o Oest, a ousada construção em pleno e ermo cerrado de uma cidade inteiramente planejada, Brasília, pensada por dois paladinos da nossa modernidade artística, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer.

1956 significará também a abertura do país ao capitalismo internacional e a criação da indústria automobilistica. 56, na cabeça dos políticos modernizadores, representa o ano do deslanche do desenvolvimento, a aceleração dos ritmos. Cinquenta anos em cinco, eis um lema sintomático que, para nós, tem tudo a ver com a imagem daquele tempo vectorial, daquele tempo-flecha que avança na direção de um estágio que deverá superar os anteriores. Um ritmo que quer queimar etapas; de resto, sabe-se que acelerar o processo se diz também: aquecer a economia.

Aos olhos de uma sociologia reducionista da cultura, pela qual o externo dos fatos sociais se converte no interno das criações da arte, o programa modernizador de Juscelino teria encontrado a sua imagem especular no lançamento da Poesia Concreta em São Paulo naquele mesmo ano quente de 56. (...)

1956 é também o ano em que Guimarães Rosa, o maior escritor brasileiro do século, lança o seu Grande sertão:Veredas.

Agora, debaixo da ponta do iceberg, as massas submersas apresentam outra e estranha consistência.

Em Rosa a linguagem narrativa não é só sitáxe, sequência, é também mito e poema. Como tal, alcança reviver, polifonicamente, as riquezas e os enigmas da sabedoria arcaica mediante a travessia pelas mentes e pelos corações sertanejos e pela sua oralidade tal como se manifestava nas Minas Gerais do começo do século.(...)
Mas onde estamos em 1956? No mito, na linguagem arcaica e popular, na evocação do contexto jagunço , na volta apaixonada^à natureza mais agreste? Ou na arrancada para a modernização definitiva?
João Guimarães Rosa, cidadão que, na vida profissional e pública, foi estreitamente ligado ao governo de Juscelino, dá as costas para qualquer veleidade modernizante. O seu tempo existencial é outro. Outra é a sua matéria vertente.(...)"
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BOSI, Alfredo. O tempo e os temposIn: NOVAES, Adalto (org.) Tempo e História. São Paulo: Cia das Letras. 1992 Pp. 19-32