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quinta-feira, 23 de março de 2023

Sobre Torto Arado, anos depois

 

De repente um livro
 se uniu ao outro

Quando li Torto Arado , do Itamar Vieira Junior,  a questão religiosa  foi a mais  opaca para mim, reconhecia e não reconhecia aqueles cultos, o Jarê poderia ser, sem dúvidas, uma religião inventada para o romance, depois soube que não é, mas pouco sabia sobre ela. Eu pensava coisas sobre esse livro, como ISSO. Sempre disse que não estava  preparada para abordar o Torto Arado. Não estou. Não vou julgar ou falar sobre uma obra desconhecida. É preciso mais maturidade, mais conhecimento de coisas que se aprende e não se aprende em livros (até porque Torto também me tocou por essas vias inconscientes).

Como historiadora eu lembrava muito das histórias das feiticeiras nas Minas Gerais colonial, julgadas e condenadas de antemão pelo que sequer entendiam, que foram  estudadas pela professora Laura de Mello e Souza (e também pelo historiador Carlo Ginzburg no contexto europeu). Sobre Jarê na obra de Itamar, mesmo sabendo que são situações diversas, embora parecidas em certo ponto:  aquelas são tradições católicas, trazidas à colônia pelos acusados de feitiçaria europeus num contexto de colonização, mas que aqui ganharam novas configurações e aglutinações. Em Torto Arado estamos falando de tradições também herdadas, mas agora dos africanos, que aqui foram escravizados e trouxeram todo um repertório cultural que, remodelado, acabou compondo a base do que entendemos como Brasil, em fenômenos como o Candomblé (religião de culto aos orixás e celebração da ancestralidade, criada por africanos  na Bahia no século XIX) .  

No livro O que é religião afro-brasileira, que achei na livraria da estação de metrô da Barra Funda no carnaval, quando fiquei presa lá por causa da chuva, o autor Mário A. Silva Filho,  fala do Jarê (religião citada em Torto Arado) : "é uma religião observada especificamente na Chapada Diamantina, na área central do Estado da Bahia, no século XIX. Sua prática é semelhante ao Candomblé de Caboclo, que foi abordado anteriormente, sendo que a ritualística do Jarê é muito mais próxima do culto aos Caboclos do que às divindades, que no caso do Jarê são os Orixás. Seus sacerdotes são chamados de Babá ou Pai, as sacerdotisas de Iyá ou Mãe. A exemplo de outras religiões afro-brasileiras, Jarê proporciona àqueles que o buscam a saúde do corpo e da alma e seu sacerdotes e sacerdotisas são chamados de "Curadores", além, é claro, de Pais e Mães de Santo (Cf. BANAGGIA, Gabriel. As forças do Jarê: movimento e criatividade na religião de matriz africana da Chapada Diamantina. Tese de doutoramento: UFRJ/MN, 2013). Em nota: "Para saber mais sobre o Jarê recomendo a obra do Prof. Dr. Ronaldo de Salles Senna: "Jarê - Uma face do candomblé". Feira de Santana: UFS, 1998. " (SILVA FILHO. "O que é religião afro-brasileira". São Paulo: Lafonte, 2021,  p. 79/80)

Bate com o que é retratado no romance, sendo Zeca Chapéu Grande, pai de duas narradoras, um curador. Só não sei ainda (vale consultar os livros referenciados) sobre as entidades do  Jarê, sobre Santa Rita Pescadora, seria ela inventada por Itamar? Questões... A presença de cultos e feiticeiras na literatura brasileira contemporânea me interessa, mas não pretendo estudar Torto Arado, pelo menos não  ainda, por enquanto ele não se revelar melhor para mim.

segunda-feira, 21 de março de 2022

Os encantados



"As pessoas não morrem, ficam encantadas". João Guimarães Rosa.
Naquela conversa sobre Torto Arado entre Itamar Vieira Junior e o Silvio de Almeida no YouTube que comentei, uma outra fala de Itamar me volta sempre à cabeça: para ler Torto Arado é preciso se desvencilhar um pouco da perspectiva única de uma literatura mais clássica européia. Isso é bem difícil (por exemplo, eu sofri ao ver filmes africanos tentando de desvencilhar primeiro do colonial, depois até do decolonial, e ver uma matéria mais original). Em Torto Arado, uma das narradoras é a encantada Santa Rita Pescadeira, que sabe e conta sobre passados que não queremos lembrar...mas que só sua manifestação , a que não morreu só se encantou, veio reavivar. Essa encantada é como a própria narrativa, a História? Me arrepia pensar isso!



quarta-feira, 12 de maio de 2021

Teve live com Itamar Vieira Junior e Milton Hatoum

Eu adoro lives com escritores que gosto de ouvir, para saber delas eu uso Instagram, mas essa foi rapidinha  no Facebook, adorei.
Falaram da literatura brasileira contemporânea, com muitos autores brilhando e isso foi lindo!
Itamar, a simpatia em pessoa, comentou a causa do protagonismo feminino em "Torto Arado", afirmando que há personagens masculinas fortes, mas ele não tem culpa se ficaram ofuscados pelo brilho das protagonistas! 
Ai Milton, que é gentil e humilde,  se colocou no grupo da velha guarda dos contemporâneos, comentou muito sobre o trabalho de Itamar, que ficou lisonjeado e disse "nunca imaginei que Hatoum, um escritor referência para mim, iria comentar meu trabalho com tanto carinho":


Ai, em resposta a uma pergunta do chat em que o chamaram de professor, Hatoum negou a posição e citou Rosa: 
E o mediador da conversa, um português, comentando: agora sim, Hatoum citou Guimarães Rosa, estava sentindo falta, um dia ele nos explica esse fascínio por Rosa. Os dois autores deram risada, porque nem precisa explicar...

Delicia ter a oportunidade de ouvir nossos escritores em tempo real ! AMO!

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2021

Itamar Vieira Junior no centro do Roda Viva


 No dia 15 de fevereiro de 2021 o programa Roda Viva recebeu o autor de Torto Arado Itamar Vieira Junior para falar do grande sucesso que seu primeiro romance está fazendo no mundo todo. Eu li e adorei, escrevi sobre aqui . 
Itamar no Roda Viva: "Gosto de pensar no Brasil profundo porque pensamos em nossas raízes"


Eu assisti, estava toda preparada na logística para acompanhar : pipoca, lenços de papel lápis e
bloco de anotações e na hora achei que ele foi certeiro e galante, um príncipe, a gente pega um amor na Bebiana e Belonísia e, do nada, esse livro fica sendo tão importante! 


 Ainda sobre a entrevista eu  fiz dois comentários importante nas redes:

Esse perguntador, o Marwio Câmara do Jornal Rascunho,foi bem desagradável. Quem gosta de literatura jamais se referiria a ela como um "MERO exercício de fabulação", como se toda aquela aurivessaria fosse uma bobagem (foi assim que eu ouvi essa pergunta), daí peguei nojo, nem quis destacar o nome da figura que falou isso. Para mim que estudei Rosa e seu "reino das palavras" só metade da vida, esse tipo de colocação é quase uma ofensa. Eu li Torto Arado e gostei "sobremaneira" (Itamar sempre usa essa palavra em suas falas,acho de uma elegância ímpar, ou como poderia dizer Rosa, acho "galante"), mas acho muito diferente do trabalho que Rosa fez, embora quase sempre entrevistadores o coloquem como referência pro Itamar, mesmo que o próprio tenha cansado de falar (e quem conhece percebeu) que as referências são outras, estão na literatura sobre o campo dos anos 30, as ditas "regionais" e Rosa publicou só depois, com aquele compromissos acentuado com a "prosapoética"(vejo Grande Sertão como um poema épico, tipo Os Lusíadas, por exemplo)... mas tudo é literatura e trabalho com as palavras e isso não pode ser desmerecido. Afora a cronologia é evidentemente que se trata de projetos literários diferentes, muito diferentes (vejo mais influência rosiana na fala e na obra de Hatoum do que em Torto Arado). Mas são impressões minhas e quero dizer que bom que temos esses tesouros.  
Eu assistindo a entrevista pra qual me preparei dias , toda uma  logística pro evento e tal,  PRECISEI PARAR DE VER E VIR AQUI FAZER UMA POSTAGEM INDIGNADA! Quem é esse cara pra falar isso? Peguei ranço (não gosto dessa palavra, mas ele merece). Ainda bem que Itamar, um verdadeiro príncipe, respondeu galantemente... Fosse eu, tinha chutado o pau da barraca : vade retrô kkk

Minha paixão literária dividida com Itamar Vieira Junior.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Live "Tempo de Érico" com Itamar Viera Junior e Paulo Scott, no site do IMS



Mais um presente que a quarentena me deu! Quando que eu ia ouvir os meus novos autores queridos falando ao mesmo tempo e poder até conversar com eles por pergunta e resposta no site. Momentos únicos!
Registro do evento 

Para ambos os atores, os mais  comentados da leitura contemporânea, foi lindo saber o quanto Érico Veríssimo (cujo acervo está aos cuidados do IMS) foi forte referência, para Itamar pela questão da lavoura e para Scott, por serem dois autores gaúchos.
*
ITAMAR : Obra de Érico traz questões que não se esgotam, fala de Cruz Alta, de Porto Alegre, mas para tratar de questões humanas: Sul era personagem, não apenas cenário.
O tempo e o vento é obra mosaico, começa tratando da fundação nos 1700, história do desbravamento e pois debate político: o importante é o conjunto da imensa saga.
*
SCOTT:  Quando era adolescente  sentiu que a vida não fazia mais sentido, e que talvez isso se resolvesse se ele fosse um escritor, mas ele sabia que não tinha talento para tando, então uma amiga recomendou que ele imaginasse estar tendo um diálogo com um autor importante para o RS e ele pensou logo numa conversa com Érico, uma grande referência.
*
Scott trouxe a questão de como alguns autores muito lidos, como o Érico ou o Jorge Amado, são praticamente ignorados pelos críticos acadêmicos, e como até mesmo os estudantes de letras são levados a abandonar a leitura de autores muito populares e, com isso, perdem muito.
Eu lembrei, e cheguei a comentar  no chat, que ao contrário do curso de letras,  dentre os historiadores já se tentava fazer leituras históricas da oba de Érico, até coloquei a referência de um livro que eu vou querer ler, assim que eu reler o Tempo e o Vento :

ÉRICO VERÍSSIMO: O ROMANCE DA HISTÓRIA.
De: Sandra Jatahy Pesavento, Jacques Leenhardt, Lígia Chiappini, Flávio Aguiar.
 Editora: Nova Alexandria.

ÉRICO VERÍSSIMO: O ROMANCE DA HISTÓRIA. De: Sandra Jatahy Pesavento, Jacques Leenhardt, Lígia Chiappini, Flávio Aguiar. Editora: Nova Alexandria.

Ficou a dica! Amo!

                                                *

Mas o melhor momento mesmo foi esse :


Não é uma resposta linda? Melhor do que eu esperava.

Disse também que personagens de O tempo e o vento fazem parte do seu imaginário de escritor e quando quis escrever um personagem neutro, chamou de "A. Terra", referência a Ana Terra. Ele também disse que em sua casa na chapada, no fim da tarde, parece que ouve os sons dos ventos, da roca dos Terra Cambará.

Agora estou escrevendo aqui, fico tão feliz com esses diálogos, vocês nem sabem. Eu achei linda a resposta e fiquei tão feliz de dialogar com os autores, mesmo na enlouquecedora  quarentena, obrigada vida! 

                                            *

Ao final Paulo Scott, com aquele delicioso sotaque gaúcho, nos deu uma dica para a vida:

"SOBREVIVER DEMORA" Paulo Scott  



 

domingo, 10 de janeiro de 2021

Torto Arado: Servidão - Ancestralidade - Mulher

 

À esquerda, a capa de Torto Arado, por Linoca Souza
À direita, a foto de Giovanni Marrozzini em Nouvelle (2010)

Venho dizendo que é muito difícil falar desse livro, mas é impossível não falar. Como sei que nunca vou conseguir escrever sobre como ele merece, então vou tentar  pontuar algumas questões que julgo importantes e , evitando dar spoiler, pelo menos não muito, mas é que tem coisas que acho que preciso comentar. Quis muito que esse livro fosse bom, fosse mágico, fosse arrebatador, mas como quase nunca meu desejo é realizado, comecei a ler sem expectativas. Planejava ler até a virada do ano e se fosse preciso, no começo de janeiro, mas comprei na primeira semana, dia 8 de dezembro, mas só recebi dez dias depois, comecei a ler dia 18  e terminei dia 26: o Livro de dezembro! Presente de Natal!

Durante a leitura já fui sentindo essa dificuldade de falar sobre ele, é tão mágico, não dá para comentar muito, mas é urgente recomendá-lo. Na hora que terminei, no final de um ano apocalíptico como foi 2020, não sabendo o que dizer, disse apenas: Que tiro foi esse?

Como demorou um pouco para chegar (os pedidos ultrapassaram o previsto em dezembro e foram precisas novas edições), eu assisti as resenhas no Youtube, todas eram unânimes : se trata de um livro que nasceu clássico.   Um dos Youtubers disse que tem tantas coisas nesse livro que é impossível comentar. Não foi só eu. Estou tentando escrever sobre faz tempo, mas é tão enorme, que eu acho um pecado profanar. Vou tentar ler a partir de três tópicos que mais me chamaram a atenção  porque se ampliam  e podem meio que sintetizar o romance. Avisando que avisando  estes não são os únicos que julgo  importantes do livro, nem os  únicos que eu gostei, mas são os que mais me tocaram e sobre eles me sinto ligeiramente confortável para comentar: 1 Terra – Escravidão- Servidão;  2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria  - Ancestralidade ;3-  Mulheres fortes e unidas;

1 Terra – Escravidão- Servidão
O livro é sobre  uma comunidade rural, a partir da história da família do curador Zeca Chapéu Grande, sua esposa a parteira Salu e seus quatro filhos, que passaram a viver de “morada” na fazenda Água Negra com o fim da escravidão, no interior da Bahia, e foram trabalhar em regime de servidão. Quem narra são as duas irmãs mais velhas, Bibiana e Belonisia (cada uma narra um capítulo). Em tempo, fala-se de pessoas que saíram da escravidão e passaram à servidão, até o surgimento de novos tempos com lutas sociais.

A epígrafe do romance é só TODO o capítulo 28 de Lavoura Arcaica de Raduam Nassar (livro que reli imediatamente  após terminar Torto, ainda em 2020)  

capítulo 28 de Lavoura Arcaica, de Raduam Nassar

Nesta entrevista Itamar conta que o arado torto que aparece no romance é um instrumento de trabalho arcaico, que veio dos antepassados de Belonísia e que "se deformou com o tempo, mas ainda continua rasgando a terra para semear a vida”. Itamar diz  também que a ideia do título foi retirado de um trecho de Marília de Dirceu, de Thomás Antonio Gonzaga, e todo o imaginário do trabalho com a terra na literatura brasileira é pontuado no romance. Foi fácil encontrar na internet:

“A devorante mão da negra Morte

Acaba de roubar o bem que temos;

Até na triste campa não podemos

Zombar do braço da inconstante sorte:

Qual fica no sepulcro,

Que seus avós ergueram, descansado;

Qual no campo, e lhe arranca os frios ossos

Ferro do torto arado.”  (Marília de Dirceu)

 

Percebe-se de  cara que é uma história de gente que tem a terra como parte de si, do seu corpo , e seu habitat, afinal  como os donos da fazenda não os permitia ter nenhum bem durável,  não tinham casas de alvenaria,e até  vivem em casas feitas de barro (terra). Segundo conta a filha de Zeca Chapéu Grande,  Belonísia, a mais ligada ao pai:

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu interior, para decidir o que usar, o que fazer,onde avançar, onde recuar.

Como um médico à procura do coração." p.100

Além de Belonísia, que não se via separada da terra, para todos eles a terra  também era tudo, mas embora nela labutassem dia a dia para dar a terça parte da produção ao seu dono (tipo na idade média mesmo) e ainda agradecendo-lhes pela chance de poder trabalhar naquele chão, a vida que levavam ao cultivar para alimentação própria, sem dinheiro, quase sem autonomia não era justa, como conta Bebiana:

“se algo acontecesse a eles, não teríamos direito à casa, nem mesmo à terra onde plantavam sua roça. Não teríamos direito a nada, sairíamos da fazenda carregando nossos próprios pertences. Se não pudéssemos trabalhar, seríamos convidados a deixar Água Negra, terra onde toda uma geração de filhos de trabalhadores haviam nascido. Aquele sistema de exploração já estava claro para mim.”p.83

Isso tudo me lembrava o tempo todo a canção Estrela Maga dos ciganos, do Elomar Figueira Melo:

"É tanta coisa pur dever tanto pagar

Sem receber tanto que dar

Chega! Já num guento mais não

 (...)

E inquanto na face da terra havê tiranos,

Vassalos e susseranos

Sinhorio e servidão

Fico lá incima hospedado com os Reis Mago

Nos camim de São Tiago

Num boto os pé nesse chã"


Nada é exposto diretamente pelas narradoras, nenhuma das três, mas a narrativa vai nos fazendo ver, cada vez mais claramente, a realidade daquele povo, juntamente com o momento em que eles mesmos vão se enxergando como são : escravos não são mais, não recebem mais açoite (embora a mãe de Zeca narre lembranças dessa época sofrida na tal fazenda Caxangá ), mas às vezes se dizem índios porque sabem que há lei para protegê-los; sabem que são trabalhadores, mas a qualquer hora os donos podem chegar e tomar-lhes o plantio, sem dó. É uma vida muito “análoga à da escravidão”. Demora um pouco, no tempo e na narrativa, para que os irmão mais jovens das protagonistas e netos de Zeca Chapéu Grande  passem a falar em termos  como “quilombolas”, que poderia inseri-los  sob a proteção legal:

“Não podemos mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas” p.187

Nada acontece por acaso, mas não posso deixar de tomar como curioso que, ao mesmo tempo em que lia,  fico sabendo da história do resgate de Madalena Gordiano (46 anos), essa mulher tão bonita, que viveu 38 em regime análogo à escravidão na casa de uma família, em Patos de Minas (MG). Escrava em pleno século XXI? Pois é. Como no romance, a historia não  para nela , mas  possivelmente se estende a sua família ,sua  irmã . É muito ter a "nossa saga" brasileira jogada na cara. Como prosseguir?

Do outro lado dessa vida de trabalho braçal  sem fim na roça, temos um dos trechos mais bonitos do livro em minha opinião, quando Bibiana conta  

“Meu pai não era alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar as digitais em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a escrita e a leitura dos filhos o que perseguia com mais afinco. Quem acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência.Mas pessoas como nós, quando viam o orgulho qe sentia dos filhos aprendendo a ler e o valor que davam ao ensino, saberiam que era o bem que mais queria poder nos legar.”P. 66

Emocionou-me muito essa parte porque ele me remeteu, de alguma forma,  ao meu pai, que não era analfabeto, mas estudou menos do que gostaria, só que  gostava dos livros e do saber e, segundo minha mãe conta, quando casou levou duas malas, uma de roupas e outra de livros para nova vida. Já idoso e começando a ter esquecimentos, lia todo dia, o dia todo, uma cópia impressa com erros da minha dissertação  que ficava no quartinho dele. Certamente tinha orgulho de mim, e eu dele tenho muito.

2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria  - Ancestralidade

Outra das maiores belezas de Torto Arado é todo seu caráter mágico. Muitas vezes, lendo sobre a infância de Bebiana e Belonísia, pensei que estivesse lendo estórias mágicas das crianças de Guimarães Rosa (minha especialidade), ou mesmo em outras descrições do decorrer do livo, parecia que  estava lendo algum texto de realismo fantástico. Isso porque, junto às personagens, estão sempre seus ancestrais, encantados, santos,espíritos e outras manifestações mágicas, o que é muito bonito e importante.
Zeca Chapéu Grande é um curador de Jaré, pai espiritual de toda a comunidade, que o procurava para curar males do corpo (já que medicina estava distante), mas especialmente da alma. Quando apareciam doentes assim, ficavam alguns dias em sua casa, conta Bebiana

“Não eram hóspedes, visitas ou convidados. Eram pessoas desconectadas de seu eu, desconectadas de parentes e de si. Eram pessoas com encosto ruim, conhecidos e também desconhecidos de todos. (...) O que mais chegava à nossa porta eram as moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias, apartadas  do seu próprio eu” P. 33 e 39  

Religião daquele povo, as “brincadeiras de jarê” tratam-se de

“uma religião de matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, que existe exclusivamente em cidades do Parque Nacional da Chapada Diamantina (...)Uma de suas principais particularidades é o grande sincretismo religioso, com influência do catolicismo, da umbanda e do espiritismo kardecista. Pode ser considerado um amálgama das nações bantu e nagô, as quais se uniram o culto aos caboclos.” (Wikipédia)

 Nada mais brasileiro e bonito. Nessas práticas, no romance, quem comanda as festas e as homenagens é o curador Zeca Chapéu Grande, mas ele também recebe a ajuda, incorporado  ou não, de Encantados,que, diferentemente das entidades da umbanda,

“não são necessariamente de origem afro-brasileira e não morreram, e sim, se "encantaram", ou seja, desapareceram misteriosamente, tornaram-se invisíveis ou se transformaram em um animal, planta, pedra, ou até mesmo em seres mitológicos e do folclore brasileiro como sereias, botos e curupiras. Na Encantaria, as entidades estão agrupados em famílias e  possuem nome, sobrenome e geralmente sabem contar a sua história de quando viveram na terra antes de se encantarem.” (Wikipédia)

A confiança nessas forças e energias, ao que parece, está sustentada na presença constante dos ancestrais para dar apoio e proteção em todos os momentos da vida. Os encantados e encantadas, que viveram desde antes, sabem de tudo, conheceram os ancestrais mais longínquos, sabiam quais das coisas que acontecem agora são repetições de acontecidos com ancestrais nessa terra. Saber (não apensas acreditar) da sua importância  como guias para  a vida das personagens é o que me parece dar a sentido àquelas vidas tão sofrida que levam.  Eis  o verdadeiro tesouro do povo preto. Muito emocionante.

3-  Mulheres fortes e unidas  

O último tópico, mas não menos importante (muito ao contrário, talvez o mais importante mesmo) seja a união das mulheres nessa saga toda. Além das duas irmãs narradoras, que possuem uma ligação muito íntima, que os acontecimentos da trama só reforçam e que, mesmo quando elas se afastam, nunca morre, também temos as suas  ancestrais e até mesmo as encantadas são a marca feminina desse romance. Na entrevista do autor, citada acima, ele lembra que no cenário rural do sertão da Bahia as mulheres têm protagonismo muito forte na família e na comunidade, porque elas sobrevivem mais tempo, guardam as memórias.

Encerro este texto com outro trecho que muito me tocou:

Amigas, afeto

O afeto que Belonísia ganha, sem querer, de sua amiga Maria Cabocla e nunca vai saber como lhe agradecer. Eu não tenho os cabelos crespos, mas é cacheado e, como cresci numa família branca, de gente de cabelo liso, eu também demorei muito para receber um carinho na cabeça, e foi fora da família, como se aquele meu cabelo diferente não tivesse o direito de receber um carinho, não por maldade, mas porque , inconscientemente, funciona assim. Eu sei como é e só agradeço aos meus orixás e encantados por, ainda que tarde, tenha tido essa oportunidade na vida. E mais de uma vez.

Que livro, gente! Que livro!