Mostrando postagens com marcador literatura infanto juvenil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador literatura infanto juvenil. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de julho de 2025

Susto das descobertas:"O Segredo", Lygia Fagundes Telles



 
Em meados de julho de 2025 emprestei da biblioteca do Sesc Pompéia e li a coletânea "O segredo e outras histórias de descoberta" (2018) de Lygia Fagundes Telles. O livro é uma seleção de cinco contos abordando o olhar curioso das crianças ou adolescentes descobrindo o mundo na obra de Lygia.
Namorando o livrinho 


O livro apresenta o posfácio "Retirando a venda dos olhos " (nada mais lygiano do que isso!), escrito pela professora e escritora Noemi Jafe, onde a analista lembra que descobrir é também retirar as vendas e a coletânea mostra momentos onde isso acontece com narradores tão jovens, em textos com linguagem contida, sem transbordamento,Lygia consegue transmitir a dor do conhecimento do amor,da morte, da solidão, da traição e da frustração de forma certeira.

Dos cinco contos - Herbrarium, O menino, O segredo, O gorro do pintor, A rosa verde", os dois primeiros eu já conhecia e amava. O primeiro, o belíssimo "Herbrarium", fala sobre a descoberta do amor de uma jovem por um homem mais velho e eu já linha comentado AQUI ;  o segundo, " O menino", é bem lygiano no sentido de desmascarar crueldades em trechos simples do cotidiano e fala sobre como um menino enxerga a verdadeira face de sua idealizada mãe em uma reveladora  ida ao cinema , como comentei AQUI

Os outros três foram descobertas para mim... E como são escritos por Lygia, minha preferida, foi uma grande experiência conhecê-los.

Em "O Segredo", uma menina vê o mundo. das prostitutas revelado pelas frestas de uma casa proibida, que só lhe acolhe em segredo absoluto, na qual todo o ambiente lhe é ambíguo e em constante mutação, como deve ser o mundo todo para os olhos de quem está nessas primeiras fases da vida.

Em "O gorro do pintor", Lygia volta ao tema da metalinguagem para explorar as diferenças e semelhanças entre ficção e realidade, tema enfrentado pela menina que primeiramente leva o drama do teatro a sério demais,até perceber que ele também pode lhe ser proibido. Muitas coisas são proibidas pra crianças ou adolescentes.

No último conto, o melancólico "A rosa verde", os temas são a morte, a loucura e a velhice, vividos e narrados com simplicidade por uma narradora órfã, que oscila entre o luto pelos pais, a loucura do tio e a velhice solitária e amarga da avó. Dessa experiência a menina encontra um respiro na aproximação do mundo poético do avô, que insiste em cultivar uma rosa verde, que segundo Jafe, seria uma metáfora da própria literatura.

Nesse belo livro encontramos gotas do que há de melhor na Literatura nacional,contos de Lygia Fagundes Telles.







sexta-feira, 22 de julho de 2022

Mito iorubá da criação para jovens, por Reginaldo Prandi

 


Esse trecho é de um livro infanto juvenil, escrito pelo antropólogo Reginaldo Prandi (pesquisador do candomblé),  que conta de forma acessível  lendas da mitologia iorubá que aqui se preservou contadas de boca em boca e são parte constitutiva da nossa cultura.


Quando Olorum incumbiu Oxalá de criar a humanidade, este o fez usando bonecos de lama:


"Oxalá modelou sua criatura e lhe deu vida. Fez corpo, cabeças e membros. Recheou com o coração, os pulmões, as tripas e os demais componentes que preenchem a barriga. Fez dois modelos quase iguais. Num pôs pênis e testículos; no outro, ovários, útero e vagina, e seios cheios de leite. Para que a criatura dotada de pênis penetrasse a criatura dotada de vagina, e suas sementes se misturassem e produzissem outras criaturas, sem mais trabalho para Oxalá, que assim poderia descansar.
Caprichou o quanto pôde. Só esqueceu de pôr alguma coisa dentro da cabeça. 
Dotados de vida, os seres, que foram chamados homem e mulher, não pensavam, não agiam, nem mesmo se interessavam um pelo outro. Bela reprodução! Pensou Oxalá desolado.
Foi consultar o adivinho Ifá para saber onde errara. (...)
O resultado da consulta ao oráculo foi bastante promissor. Disse Ifá:
"Está tudo certo, meu irmão. Você apenas esqueceu de dar a cada ser humano um DESTINO, as VONTADES e o RACIOCÍNIO PRÓPRIO.
"Ah, bom!", reagiu Oxalá aliviado.(...)
Combinou com o oleiro Ajalá que ele forneceria para cada homem ou mulher o recheio do crânio, que conteria o DESTINO e a PERSONALIDADE de cada um.
Assim foi feito.
Bastou que as criaturas recebessem o que está dentro da cabeça para saírem pelo mundo como seres humanos prontos para a vida.

De seu palácio, Olorum sorriu para Oxalá, agradecido e se retirou para seus aposentos. 

Oxalá estava cansado, muito cansado, mas a obra, enfim, estava feita." Reginaldo Prandi. "Contos e lendas afro-brasileiras: A criação do mundo" .São Paulo: Cia das letras, 2007 P. 36-8