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sexta-feira, 22 de agosto de 2025

Duo "Conversa Brasileira" no Instrumental

 


No dia 19 de agosto de  2025,  mais uma  terça feira gorda, com terapia e instrumental. Estava precisando muito da terapia e embora o dia estivesse agradável, a noite sempre vem com possibilidade de frio. Aliás foi o frio que me levou a faltar ao show semana passada! 

Me arrumei bem "básica", não vejo a hora de me despedir do inverno 

Toda de dourado 

Na terapia não tivemos uma sessão muito leve. Dias depois até escrevi:

" TERAPIA E LITERATURA: Agosto 2025 está passando rápido, mas parece estar me revelando algumas coisas não tão fáceis de aceitar. Talvez pelo grande impacto emocional do romance de Murakami sobre Tsukuru Tazaki, talvez pelo meu cansaço sem fim, ontem tive uma sessão bem densa de terapia. Falei do cansaço, da eterna sensação de estar perdida, da falta de reação. Não falei  da história de Tsukuru (seria importante, mas não tive tempo). Fiquei com a provocação para refletir na quinzena: "tudo é tão pesado, cansativo, seria tão bom se pudesse contar com um apoio real, não?" 

Poxa, imediatamente isso me lembrou o inesquecível livro "Ver : amor" de David Grossman. Nele, Momik menino na Jerusalém da década de 1950 (pós segunda guerra) queria e precisava do afeto de  avós. Tinha a vovó Henri, que não descia da cama,mas estava lá. Especialmente "ganhou"  Vassaman, um sequelado de campo de concentração que apareceu na sua casa e ele adotou como avô. Esse era mais próximo, sentava para almoçar com Momik todos os dias e isso o preenchia afetivamente demais,COMO SE ELE FOSSE UM AVÔ DE VERDADE, QUE  CONVERSASSE  e não ficasse só repetindo aquelas palavras  incompreensíveis.

Momik "inventava o cais", inventava o amor perfeito dos avós a partir do amor, talvez incompleto, que ele tinha. Mas tinha. Inventava como as crianças fazem sempre (para elas,tudo  o que não inventam é falso, diz o verso  de Manoel de Barros na minha camisa em 2019) e a gente pode fazer,na melhor das hipóteses.

Resistiremos ..."

Bom, super tocada, fui rumo ao SESC Consolação, encontrei amigos de sempre, conversa agradável. O show foi tipicamente instrumental, o Duo "Conversa Brasileira", que voce pode conferir aqui:



O som bem intimista  me levou às lágrimas algumas vezes (ainda pela terapia). No comentário posterior :

DUO CONVERSA BRASILEIRA NO INSTRUMENTAL: O duo formado por Vaisy Alencar (clarineta/clarone) e  e Marcos de Sá (piano e acordeon) apresentou um show lindo, rico e emocionante. Preocupados com pesquisas sobre como mesclar som erudito e popular, sobre música de câmara brasileira e apostando em muitos sons, eu chorei mais de uma vez de beleza e de emoção, curando as feridas da terapia. Hoje valeu a pena 👏🏾🎇

Muito bom show, algumas fotos reunidas


Dias depois eu ainda postei sobre o show no Instagram, falando da composição Passa ponte, uma homenagem ao Manuel Bandeira.

"No último instrumental, o duo CONVERSA BRASILEIRA tocou  uma composição autoral  chamada PASSA PONTE. Explicaram que é referência ao  poema Trem de ferro, no  qual o trem passa por muita gente e muita coisa, inclusive a ponte, e também uma homenagem ao Manuel Bandeira, "que a gente ama". Eu pensei : até eu 😍"

A música é essa


Som muito romântico,muito brasileiro, amei

Ainda bem que temos o Instrmental!





quarta-feira, 17 de julho de 2024

OBJETOS DELICADOS

 

OBJETOS DE ESTUDO DELICADOS: À direita acima: anedotários infantis de Pedro Bloch e à esquerda LP DE Zé Fortuna & Pitangueira. À direita à baixo LP Zico e Zeca e à esquerda livro "Cantando a própria História", de Ivan Vilela.

Na minha pesquisa de pós-doutorado eu analisei objetos muito delicados, anedotas escritas a partir de falas peculiares de crianças ao Pedro Bloch, entre as décadas  de 1960 aos anos 2000. São delicadas , pois a história do som é muito particular e fluída , já que , parafraseando Manuel Bandeira, hoje não se ouve mais as vozes daquele tempo, até porque não se OUVE MAIS DO MODO como se ouvia naquele tempo. No entanto esses sons nos trazem preciosas informações "de época". Acabo de ler uma análise sobre  músicas caipiras das décadas 50/60 que se propunham a contar a versão de combatentes rurais sobre sua experiência na Segunda Guerra Mundial. Se os MODOS DE TOCAR E CANTAR  a música caipira foi, segundo Ivan Vilela,  a crônica legitima do cotidiano rural rural e grande mediadora entre  cultura camponesa e a da cidade durante o êxodo rural no centro-sudeste a partir das décadas de 1920, é essa crônica que também registrou a participação dos camponeses em eventos da História. No caso, sobre como foi para  aqueles  combatentes rurais que  foram "pracinhas" . Fui ouvir as músicas analisadas, elas trazem informações interessantes como a coragem,  um sentimento de patriotismo, a censura às informações de guerra,em uma aura bem romântica que achei a coisa mais delicada!Eu diria até emocionantes. Amei!



terça-feira, 10 de outubro de 2023

Pianista Luís Chamis no Sesc Instrumental

outro instrumental 

                               

Eu estava bem basiquinha , cheia de bororó 

Uso camiseta de samba no dia a dia

                        

O show era de um pianista 

                                                 

Mas antes teve um lanchinho, na boa cia do aluno de música, que conversa boa! Aprendo demais

O músico :

Tem fotos porque era muito bonito 



Escrevi minha opinião :
                               

Mas teve um momento mais do que especial, "a onda", faixa 4 do disco que você pode ouvir aqui, que foi  inspirada nesse poema:

Muito bonito. Se quiser, assista ao show completo aqui :


Como costumo dizer: acaba não, mundão!



quarta-feira, 22 de abril de 2015

Carta de Manuel Bandeira a Guimarães Rosa

Manuel Bandeira, Peregrino Jr., Curt Meyer-Clason (tradutor alemão), João Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Geraldo França FONTE Templo de Delfos


Diretamente do Templo de Delfos, uma carta que Manuel Bandeira escreveu a Guimarães Rosa:

AMIGO MEU, J. Guimarães Rosa, mano-velho, muito saudar!

Me desculpe, mas só agora pude campear tempo para ler o romance de Riobaldo.
omo que pudesse antes? Compromisso daqui, obrigação dacolá... Você sabe: a vida é um Itamarati - viver é muito dificultoso.
Ao despois de depois, andaram dizendo que você tinha inventado uma língua nova e eu não gosto de língua inventada. Sempre arreneguei de esperantos e volapuques.
Vai-se ver, não é língua nova nenhuma a do Riobaldo. Difícil é, às vezes. Quanta palavra do sertão! A princípio, muito aplicadamente, ia procurar a significação no dicionário. Não encontrava. Pena o título: Grande Sertão: Veredas. Nenhum dicionário dá a palavra "vereda" com o significado que você mesmo define à página 74: "Rio é só o São Francisco, o Rio do Chico. O resto pequeno é vereda." Tinha vezes que pelo contexto eu inteligia: "ciriri dos grilos", "gugo da juriti" etc. Mas até agora não sei, me ensine, o que é "arga", "suscenso", "lugugem" e um desadôro de outras vozes dos gerais. Tinha vezes que eu nem podia atinar se a palavra era nome de bicho vivente, plantinha ou coisa sem corpo nem côr nem coragem, abstrato que se diz, não é? Ou é? Ou será?
Ainda por cima disso, você fez Riobaldo poeta, como Shakespeare fez Macbeth poeta. Natural: por que um jagunço dos gerais demais do Urucuia não poderá ser poeta? Pode sim. Riobaldo é você se você fosse jagunço A sua invenção é essa: pôr o jagunço poeta inventando dentro da linguagem habitual dele. O vocabulário dele já é riquíssimo, dá a impressão que não ficou de fora nenhuma dicção de seus pagos e arredores; aumentado com os neologismos, sempre de boa formação lingüística, ficou um potosi, nossa! A gente acaba tendo que entregar os pontos, nem que seja um Gilberto Amado. O diabo é que depois de ler você a gente começa a se sentir e cantar eu sou pobre, pobre, pobre, rema, rema, rema, ré.
Só que acho que não precisava contar de um rojão só, como o Joyce do último capítulo de Ulysses, as 594 páginas da história de Riobaldo. Quantas horas levaria? Eu levei dias para ler. Ainda bem que você virgulou tudo, minudente. E o caso de Diadorim, seria mesmo possível? Você é dos gerais, você é que sabe. Mas eu tive a minha decepção quando se descobriu que Diadorim era mulher. Honni soit qui mal y pense, eu preferia Diadorim homem até o fim. Como você disfarçou bem! nunca que maldei nada.
Amigo meu J. Guimarães Rosa, mano-velho, o menino Guirigó e o cego Borromeu são duas criações geniais. Aliás todo esse mundo de gente vive com uma intensidade assombrosa. E o sertão?



O sertão é uma espera enorme.



E o silêncio?
O vento é verde. Aí, no intervalo, o senhor pega o silêncio, põe no colo.
Tão deleitável tudo, nem que estar nos braços da linda moça Rosa'uarda, ou de Nhorinhá, de Ana Dazuza filha, ou daquela prostitutriz que proseava gentil sobre as sérias imoralidades.



Ah Rosa, mano-velho, invejo é o que você sabe:



O diabo não há! Existe é o homem humano.
Soscrevo.

13/03/1957

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Auto descoberta como mulher

Capa de "O tempo, Camila- mini contos", de Elias José (1971)


Estranho,mas esses mini contos de Elias José, que achei certa vez na biblioteca da FFLCH, juntamente com outros  autores (as) como Hilda Hilst, Manuel Bandeira e Clarice Lispector, ajudaram a  formar a Camila mulher ali na passagem do século XX para o XXI!  E outras narrativas que já não me servem mais, naquele momento foram fundamentais, como algumas canções "femininas" de Chico Buarque,
  a paixão de Maria Bethânia, a solidão poética do livro  A Ostra e Vento de Moacir C. Lopes, tal qual sua adaptação para o cinema de Walter Lima Junior. E sobretudo Almodóvar e a solidão crônica de seu Fale com ela, a quem devo a honra de soltar meus cachos sempre, doa a quem doer

A respeito dessas coisas todas, nesse meu momento atual, só me lembro do fim de  Elogio da Sombra, de Jorge Luis Borges :"Agora posso esquecê-las. Chego a meu centro"

Mas antes, vamos ao mini conto de Elias José:


Camilamor
Camila, mande à merda a tristeza. Me possua, me destricha, faça de meu corpo sala e quarto, onde se entra e sai quando quer. E, no ato da posse, esqueça tudo. Vamos resumir o mundo em nossos corpo se em cada movimento nosso o mundo se movimentará; em cada sorriso teremos a certeza de que a vida ficou mais bonita. Vamos singularizar nossos sonhos e você verá como cabem aqui. Não mais distâncias. Seremos gêmeos, nascidos num só corpo. E os homens, vendo nossos corpos unidos, pensarão em fantasmas, bichos anormais, metade peludo, metade sem pelo. Nós vamos rir dos homens. Um riso grande de duas bocas fundidas numa só.Camila? Por que Camila? Porque se for mulher é Camila. Se não for Camila nem é mulher.Os russos vão a Marte. Os americanos voltam à Lua. Eu me desliguei do mundo e faço, calmo, a eterna viagem no que no corpo de Camila.

Elias José 

terça-feira, 30 de outubro de 2012

A chave do poema - Manuel Bandeira


A Chave do Poema – Manuel Bandeira

A poesia concreta pode que seja uma maluqueira e até que não seja poesia. Mas que está despertando interesse,  está. Vivo assediado de perguntas ‘em forma de cavalo-marinho’, velhos, moços e moças que me pedem que defina o que seja a poesia concreta. O diabo é que ainda não descobri o endereço de Ferreira Gullar para encaminhar toda essa gente para ele. Ora bem, declaro em público e raso que não sei o que é um poema concreto. As três experiências que fiz, inspirado nos processos dos irmãos Campos e de Décio Pignatari, não creio que sejam poemas concretos: serão paraconcretos ou preconcretos, sei lá! Diagramas líricos, dois uma simples modalidade de palavras cruzadas: sempre gostei de palavras cruzadas, os irmãos Pongetti que o digam, sempre adivinhei um conteúdo poético nos seus problemas.

 

O meu “Poema de amor”, publicado no último suplemento literário do Jornal do Brasil, é puro diagrama de um grito passional, rojão de lágrimas felizes, portanto a ler-se na direção do vetor, isto é, de baixo para cima. Tradução: Rosa tumultuada te adoro.

 

Puerilidade? Então me deixem ir para junto de Jesus, que disse Sinite parvulos venire ad me.

 

Ora direis: ‘Mas isso não é poesia, é enigma’, Eu vos direi no entanto que toda poesia é enigma. Toda palavra, antes que lhe conheçamos o significado, é um enigma formidável. Claro enigma chamou o poeta Carlos a um de seus livros e no soneto da “Oficina irritada” claro enigma é Acturo, a estrela de primeira grandeza na cauda da Ursa Maior. Que haverá de mais poético (concreto no duro!) que o universo?  Que maior poeta que Deus? (No entanto os seus desígnios , consultem o Corção, são muitas vezes impenetráveis.) Mesmo o Deus feito carne, o Deus  feito homem se exprimiria por poesia enigma. Hoje todos sabemos o que o Cristo queria dizer quando falou : ‘Quem come a minha carne e bebe o meu sangue pertence a mim e eu nele. Porque a  minha carne verdadeiramente é comida e o meu sangue verdadeiramente é bebida .’ Mas o tempo, para os seus discípulos, isso soava a enigma e muitos deles, ouvindo-os, se puseram a dizer : ‘ Duro é este discurso;quem o pode entender?’

 

Os enigmas da poesia concreta têm isto de bom: é que são todos decifráveis, porque todos resultam de um esforço consciente da inteligência. Não era assim com os do surrealismo, que nasciam feitos, do subconsciente, recesso tão tenebroso quanto aquele porão do conto de Otto Lara Resende. Porque é decifrável, o poema  concreto convence, uma vez explicado; o leitor comum deseja é compreender, porque o que ele mais teme é ser empulhado. Uma senhora que não tinha entendido o meu poema de domingo telefonou-me pedindo a tradução. Disse-lha e ouvi-a  sorrir do outro lado, encantada. ‘Ah, é!’ Por pouco que não me chamou ‘o  maior’.  3/4/1957

sábado, 22 de setembro de 2012

Trechinho de "A chave do poema", de Manuel Bandeira

"Mas isso não é poesia, é enigma". Eu vos direi no entanto que toda poesia é enigma. Toda palavra, antes que lhe conheçamos o significado, é um enigma formidável." (A Chave do Poema, Flauta de Papel - Manuel Bandeira)

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Brincar de tempo-será

Tempo Será

A Eternidade está longe
(Menos longe que o estirão
Que existe entre o meu desejo
E a palma da minha mão).

Um dia serei feliz?
Sim, mas não há de ser já:
A Eternidade está longe,
Brinca de tempo-será.
(Manuel Bandeira)

Mas que brincadeira é essa de 'tempo-será'?
Segundo
este site, é um jogo de pique que quando o pegador é escolhido, as outras crianças repetem o seguinte diálogo cantado:

— Tempo será.
— De cericecó.
— Laranja da China.
— Pimenta em pó.
— Pinto que pia?
— Pi-pi-ri-pi.
— Galo que canta.
— Cocorocó
— Quem é o durão?
— Só eu só.
— Olha que lhe pego.
— Não é capaz.
— Olha que lhe pego.
— Se for capaz...


Quando acaba todos se põem a fugir do pegador. O primeiro que for pego será o pegador da rodada seguinte. Brincadeira bem brasilira, não? O interessante é pensar nos "tempos outros" das crianças, que no máximo obedecem às temporalidades dos jogos e brincadeiras, estes sempre à parte do tempo cronológico linear dos adultos!

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

No ritual do Poema

Tenho vivido momentos de contato próximo com o ritual poema, me lambuzando dele (para além das palavras). me transformando nele...
Esta semana a Praça do Relógio virou mesmo a FLORESTA NEGRA (a dos contos de fadas) sob uma escandalosa lua cheia, falamos das experiências da temporalidade no poema e - como sempre acontece quando entramos no ritual POEMA - tudo ao redor mudou, gente viu coisas maravilhosas acontecendo no mundo, como se vissemos tudo como se fosse a primeira vez e a vida falava mais alto que a linguagem, assim como acontecia nos primeiros anos de nossas vidas-então abriram-se os portais do "devir criança".
A última vez que experimentei isso foi quando fui aluna do Claudio Willer em 2006 e recebia serenatas de violino na Paulista, ou vivia toda uma história de amor no tempo imediato do metrô...era a experiência do poema atuando na minha vida e fazendo tudo estar em movimento!
Desta vez nós VIMOS ATÉ UMA LAGARTA no meio do caminho e eu pude até perguntar, como no poema de Bandeira:
"-Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listrada?"
E alguma esfera de comunicação partiu dele, como se me informasse: "A gente começa a experiência poema"
Eu acho que mereço, merecemos pois sempre foi esta nossa busca!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010



Balõezinhos


Na feira do arrabaldezinho
Um homem loquaz apregoa balõezinhos de cor:
— "O melhor divertimento para as crianças!"
Em redor dele há um ajuntamento de menininhos pobres,
Fitando com olhos muito redondos os grandes balõezinhos muito redondos.


No entanto a feira burburinha.
Vão chegando as burguesinhas pobres,
E as criadas das burguesinhas ricas,
E mulheres do povo, e as lavadeiras da redondeza.


Nas bancas de peixe,
Nas barraquinhas de cereais,
Junto às cestas de hortaliças
O tostão é regateado com acrimônia.


Os meninos pobres não vêem as ervilhas tenras,
Os tomatinhos vermelhos,
Nem as frutas,
Nem nada.


Sente-se bem que para eles ali na feira os balõezinhos de cor são a única mercadoria útil e verdadeiramente indispensável.


O vendedor infatigável apregoa:
— "O melhor divertimento para as crianças!"
E em torno do homem loquaz os menininhos pobres fazem um círculo inamovível de desejo e espanto.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Melancólicos setembros


Quando eu era mais jovem eu amava setembros, era um mês alegre, da volta do sol, da alegria, do colorido das flores...
Meu primeiro beijo na boca foi dado num dia 08 de setembro, quando eu tinha 11 aninhos (é, eu sei que hoje eu estaria muito velha, mas na época era normal...), minha primeira sobrinha nasceu em um 21 de setembro, trazendo alegrias várias...
Mas de lá para cá, os setembros me troxeram memórias mais amarguinhas ... A pior de todas foi no ano passado, um novo contato violento com o abandono extremo, depois de vinte e oito anos...foi bem terrível (sempre é!), mas eu achei que tinha superado. Negativo.

Ontem, quinta feira, na terapia, eu falei do show do Roberto Carlos que assisti na quarta e porque tudo aquilo me lembrava uma história de amor e desamor recente, entramos em contato com com aquele meu primeiro abandono, que eu achei estar superado, mas não estava. Não está.

Saí tremendo muito de lá, e "sai pensando na morte, mas a morte não chegava", como diz o poema de Drummond, mas o que chegou foi a aula do Tatit, na qual passei tremendo a primeira parte toda, mas na segunda, eu parei com essas coisas, como manda uma canção do Rei, e lembrei que já era Setembro... o mês cinza e nem sempre repleto de flores coloridas.

Viver setembro cinzas são coisas que acontecem com pessoas como eu.

O que posso fazer? "A única coisa a fazer é tocar um tango argentino", como no poema de Bandeira?

Nada disso: Escrever no blog!

segunda-feira, 30 de março de 2009

AO FINAL SOBRAM APENAS RESTOS CHEIOS DE SIGNIFICADOS...

Minha vida nunca foi cheia de coisas e agora estou perdendo lenta e gradativamente tudo o que eu achei que tivesse! Mas sobram restos cheios de significados: aquela última rosa desabrochando, última lua cheia impactante, último debate de idéias caloroso, última canção ao violão, última cachaça, último presente... não mais aconteceu (e acho que não mais acontecerá), mas seus significados estão comigo e sempre estarão... uma pena eu não ter vivido esses momentos finais, uma pena.
Enquanto isso, vou me escondendo atrás de um escudo de mil palavras vazias, ininterruptas e enfadonhas (porque não possuem mais paixão nenhuma)... e me pergunto: Para quê continuar viva, então?
Perguntar não ofende, né?
Leiamos Bandeira e sua coleção de elementos ausentes, mas cheios de significados:

Canção do Vento e da Minha Vida- Manuel Bandeira

O vento varria as folhas,
O vento varria os frutos,
O vento varria as flores...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
O vento varria as músicas,
O vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
E varria as amizades...
O vento varria as mulheres...
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De afetos e de mulheres

O vento varria os meses
E varria os teus sorrisos...
O vento varria tudo!
E a minha vida ficava
Cada vez mais cheia
De tudo.