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segunda-feira, 22 de abril de 2024

"A pungente amargura daquele mel" de Lygia Fagundes Telles



"A PUNGENTE AMARGURA DAQUELE MEL" : essas palavras de Saramago são a melhor definição dos escritos de Lygia Fagundes Telles. Dizem que cabeça vazia é oficina do diabo, eu peguei esse fim de semana pra descansar e, no ócio, acessei meu pior lado. Como  sou leitora Lygiana, pela memória entrei de novo no ambiente do conto "Verde Lagarto amarelo" : "senti meu coração se fechar como uma concha. A dor era  quase física": eu também tenho sentimentos mesquinhos ... Demasiado humanos! Tudo no mel amargo das belas palavras Lygianas...

quinta-feira, 29 de junho de 2023

SUSPIROS: Fim de junho e o retorno aos mitos dos orixás

 

SUSPIROS: 2023, para mim, está sendo um ano marcado por pai Oxósssi. Lembrando uns itans  (mitos orais) que ouvi na vida, é comum que Oxum e Oxóssi sintam atração um pelo outro, mas nenhum dos dois sustenta isso por muito tempo: Odé se ocupa nas matas e  Oxum não aguenta a solidão da espera e segue outro caminho. Na vida "real" ficam  as marcas : umas frases, fotos, canções e, citando "Memorial do Convento" a obra prima de Saramago, algum SUSPIRO "como de quem nasce ou de quem morre", em um movimento de morte e renascimento sem fim. Quem sabe um dia pai Oxósssi e mãe Oxum se reencontrem nos meus  sonhos. Quem sabe...

terça-feira, 23 de agosto de 2022

História da feitiçaria e literatura

 


No começo da minha vida de pesquisadora, fiz um inusitado (para a época)  trabalho sobre o Portugal do século XVIII retratado no esplêndido romance "Memorial do Convento", de José Saramago, com a presença das racionalidades, dentre elas a mão forte da inquisição moderna ameaçando a todos, especialmente mulheres simples como a personagem Blimunda, que tinha poderes ocultos e teve mãe condenada pelo Tribunal do Santo Ofício logo no início da trama. 

Para entender um pouco melhor a racionalidades  da Europa moderna, os excepcionais trabalhos de Carlo Ginzburg sobre a feitiçaria, como esse "História noturna: decifrando o sabá" foram de muita importância. Na época esses livros não tinham sido traduzidos no Brasil, então lembro que li as edições portuguesas, presentes na maravilhosa Biblioteca da FFLCH. Leio a sinopse na capa da edição de bolso da Cia das Letras (2012) 


Esses temas também respingaram na História do Brasil colonial, pois muitas mulheres condenadas foram degradadas para o Brasil, trazendo aquelas crenças e racionalidades. Isso foi muito explorado nas pesquisas da minha primeira orientadora, professora Laura de Mello e Souza, que escreveu aquele trecho sobre Maria Padilha, que transcrevi aqui.

Certamente é um assunto muito interessante. Quem sabe não acho um gancho para estudar isso de novo? 










 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

Sobre “A Descoberta da América pelos turcos”, ou o dedo do gigante Jorge Amado

Bela edição da Record 1994

Continuo lendo mais obras de Jorge Amado, desta vez nesse, que foi um de seus últimos romances, cujo título sempre me deixou bem curiosa. Sabendo um pouco mais da obra, vi que esse é só o primeiro título, pois o livro, dialogando com a literatura oral e medieval,  tem ainda mais dois, sendo :

"A Descoberta da América pelos Turcos ou De como o Árabe Jamil Bichara, Desbravador de Florestas, de visita à cidade de Itabuna para dar Abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda Os Espansais de Adma"

Pois então, estamos  diante de uma obra assumidamente nordestina, com toda a herança moçárabe que carrega. No começo ei comentei assim:

DESCOBERTA DA AMÉRICA PELOS TURCOS -Ah, esse livro vem com uma introdução explicando porque ele foi escrito (aquela coisa do Jorge de contar causos), sobre as traduções e edições. Em certo momento ele manda: "... Acrescento que a edição turca, publicada nos começos de 1993, é linda; quanto a tradução, eu a considero perfeita: as traduções perfeitas são aquelas em línguas que o autor não pode ler."

Na verdade, o  livro, ou "romancinho", foi uma encomenda feita em virtude das comemorações do   quinto centenário da "Descoberta da América" em 1992. 

Ilustrações: à esquerda a tropa de burros e o episódio romântico;
à direita a intimidade de Adma e seu esposo;


O texto , juntamente com um do norte americano Norman Mailer, um do mexicano Carlos Fuentes, circularia nas viagens aéreas do período, porém era tudo golpe e Jorge precisou lançar depois por conta própria.

 Livro muito engraçado, contando a história de um árabe e um libanês, o jovem Jamil Bichara "sultão dos bordéis" e o cinquentão erudito  contador de histórias Raduan Murad, que chegam a Bahia no começo do século XX, instalam-se na Bahia, para "descobrir a América".


Isso é uma espécie de epígrafe de "A Descoberta da América pelos turcos". Nos tempos em que vieram os "turcos" descobrir a América, tiveram ainda  que procurar outra dádiva, a que tem um anjo por dentro kkkkkkkkk

 Além da edição da Record anos 90, a mesma que li os primeiros Gabos, a letra grande,  o vocabulário leve e até chulo, próprios de Jorge e as ilustrações magníficas de Pedro Costa, atestam a data do livro, vencedor do Jabuti,  e  mantém a diversão. Me lembrou tanto um Ariano Suassuna, algumas xilogravuras "amorais", bem cultura popular.

"A DESCOBERTA" E EU 


Acho que entendi um pouco mais o projeto  literário do Jorge Amado depois do Tenda dos Milagres (❤️) e esse livrinho, último dele, é pra mim um bom final, mesmo não estando entre os melhores de Jorge, mas é  um dos seus livros mais  DIVERTIDOS.

 Claro que as booktubers novinhas  cancelaram o Jorge Amado, acusaram de MISOGENIA (justo ele, o autor das heroínas!), não acho que caiba na conta de Jorge Amado, pessoalmente, a descrição dos costumes de uma Bahia no começo do século XX, se eles nos parecem terríveis hoje, é porque o tempo veio esclarecer muitas coisas, do século passado para esse, ou seja, homens violentos sempre existiram e não é porque Jorge os retrata que seu livro deixa de ser bom, ou que o autor seja cópia fiel desse ou daquele comportamento. Para terminar eu fui ler o posfácio que Saramago escreveu (e inspirou o título deste post), que colo  aqui:

Uma certa inocência

José Saramago

Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi uma surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural, da sociedade brasileira. A generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias, perspectiva essa que, em todo caso, já vinha sendo progressivamente corrigida, ainda que de maneira desigual, pelas dinâmicas do desenvolvimento nos múltiplos sectores e actividades sociais do país, recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido. Não ignorávamos a emigração portuguesa histórica nem, em diferente escala e em épocas diferentes, a alemã e a italiana, mas foi Jorge Amado quem veio pôr-nos diante dos olhos o pouco que sabíamos sobre a matéria. O leque étnico que refrescava a terra brasileira era muito mais rico e diversificado do que as percepções europeias, sempre contaminadas pelos hábitos selectivos do colonialismo, pretendiam dar a entender: afinal, havia também que contar com a 12631 - Descoberta da América multidão de turcos, sírios, libaneses e tutti quanti que, a partir do século XIX e durante o século XX, praticamente até aos tempos actuais, tinham deixado os seus países de origem para entregar-se, em corpo e alma, às seduções, mas também aos perigos, do eldorado brasileiro. E também para que Jorge Amado lhes abrisse de par em par as portas dos seus livros. Tomo como exemplo do que venho dizendo este pequeno e delicioso livro cujo título — A descoberta da América pelos turcos — é capaz de mobilizar de imediato a atenção do mais apático dos leitores. Aí se vai contar, em princípio, a história de dois turcos, que não eram turcos, diz Jorge Amado, mas árabes, Raduan Murad e Jamil Bichara, que decidiram emigrar à América à conquista de dinheiro e mulheres. Não tardou muito, porém, que a história, que parecia prometer unidade, se subdividisse em outras histórias em que entram dezenas de personagens, homens violentos, putanheiros e beberrões, mulheres tão sedentas de sexo como de felicidade doméstica, tudo isto no quadro distrital de Itabuna, Bahia, onde Jorge Amado (coincidência?) precisamente veio a nascer. Esta picaresca brasileira não é menos violenta que a ibérica. Estamos em terra de jagunços, de roças de cacau que eram minas de ouro, de brigas resolvidas a golpes de facão, de coronéis que exercem sem lei um poder que ninguém é capaz de compreender como foi que lhes chegou, de prostíbulos onde as prostitutas são disputadas como as mais puras das esposas. Esta gente não pensa mais que em fornicar, acumular dinheiro, amantes e bebedeiras. São carne para o Juízo Final, para a condenação eterna. E contudo… E, contudo, ao longo desta história turbulenta e de mau conselho, respira-se (perante o desconcerto do leitor) uma espécie de inocência, tão natural como o vento que sopra ou a água que corre, tão espontânea como a erva que nasceu depois da chuvada. Prodígio da arte de narrar, A descoberta da América pelos turcos, não obstante a sua brevidade quase esquemática e a sua aparente singeleza, merece ocupar um lugar ao lado dos grandes murais romanescos, como Jubiabá, Tenda dos Milagres ou Terras do sem-fim. Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado. 

Resumindo: Adorei está leitura. Que venha agora um livro contemporâneo para preencher meu novembro!



quarta-feira, 22 de julho de 2020

"A História contra os mitos da lusitanidade em José Saramago", Camila Rodrigues


Neste livro saiu um  capítulo de livro sobre minha pesquisa na área de História, a respeito do romance Memorial do Convento, de José Saramago. Publico abaixo qui a minha pequena contribuição.





























REFERÊNCIA
(RODRIGUES, Camila. História contra os mitos da lusitanidade em José Saramago. In: SÁ, Charles Nascimento de; OLIVEIRA, D.E.S.D; SAMPAIO, T.H.. (Org.). História e Literatura: Conexões, abordagens e perspectivas. 1ed.Jundiaí: Paco, 2020, v. 1, p. 187-199.)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

Sobre minha rejeição ao romance de Saramago

O Homem Duplicado

Se houver algum motivo concreto para essa rejeição, ela tem caráter circunstancial, mas não a encontrei , por isso não vai estar expressa didaticamente aqui. Posto isso, devo dizer que depois de muitos anos fui reler comecei a ler O Homem Duplicado, de José Saramago (minha primeira pesquisa com  História e Literatura), que eu tinha aqui faz tempo, mas nunca tinha lido.  Tenho que dizer que fui ler meio à contragosto, porque estava ainda tentando sair  da sinestésica de Dois irmãos, que tinha me arrebatado, ai tive que me jogar num texto mais real do que poético. 

Eis que eu estava vivendo novamente um dos maiores conflitos da minha vida intelectual, que atingiu seu auge quando me formei em 2003 e tinha acabado minha primeira pesquisa sobre literatura a partir da História, tendo como objeto a obra saramaguiana dos anos 80, e ao afinal  toda aquela relação de causa e efeito me irritou, eu queria outros fatores literários (jogos de linguagem, poesia, memória, o Brasil...),dai ter mergulhado fundo no Guimarães Rosa e não quis mais estudar Saramago. Isso permanece verdade.

Não que o livro de Saramago tenha tanta realidade que deixe ser literário, é literatura e das boas (imagine o duplo de professor de história chamado "Tertuliano Máximo Afonso" que, por sua vez, é ator e por isso seu normal é assumir diversas identidades), é uma baita construção ficional, mas para mim é muito racional  para eu suportar  nesses tempos difíceis, daí que meu eu profundo rejeitou  muito essa leitura agora, mesmo se tratando  de um professor de história, do que eu precisava era de mais prosa poética. 

Seria eu um duplo da leitora apaixonada que um dia já fui?



Não sei, só sei que  terminar a leitura foi um  alívio.  Mesmo que o final tenha agitado um pouco o enredo,até de forma surpreendente, a narrativa quase toda monótona ( como era Tertuliano Máximo Afonso e sua rotina ) ainda reverbera. Como romance, construção literária, tem seus pontos (muitos até) de brilho e o maior deles é mesmo o final, mas o fato é que não me agradou. 

Talvez minha identidade não esteja tão comprometida para me sensibilizar com as alegorias da obra, embora as tenha reconhecido todas, não as compreendi de verdade. Julguei sempre serem apoios narrativos ( tipo, jamais faria nada daquilo se encontrasse um duplo meu).

Resumido, não gostei do livro, mas já não sei se é por possíveis deficiências dele ou por deficiências da minha leitura. Alguém lei e quer me questionar? Estejam a vontade.
 Se não, sigamos com outro livro.

sábado, 9 de junho de 2018

TRADUÇÃO E PESQUISA

Capa de DUBY, Georges. Tempo das Catedrais: a arte e a Sociedade : 980 – 1420.
Trad. José Saramago. Lisboa : Estampa. 1988.
Cês sabem que eu fui estudar História por causa do romance Memorial do Convento de José Saramago, e que minha primeira pesquisa foi sobre esse romance, ainda na graduação.  Minha proposta cotejar a representação de história apresentada no romance e o ideário da escola historiográfica mais destacada no começo do século XX, a minha recém conhecida Nova História francesa. Havia muitas semelhanças e diferenças, mas para justificar a execução desta pesquisa, uma peculiaridade foi fundamental. Falamos de 1999, ainda não existia a biblioteca unificada da FFLCH e tínhamos apenas uma biblioteca de História no prédio do DH. Pois bem, por curiosidade, busquei pelo nome José Saramago no catálogo eletrônico dali, achando que não ia encontrar nada, pois toda a literatura estava na biblioteca de Letras... mas me enganei. Ele aparecia ali, sim, como tradutor da obra do novo historiador ligado aos Annales Georges Duby! Depois de um tempo vim  saber que, durante um período de sua vida, Saramago sobreviveu das traduções de textos franceses para o português e eu estava defronre a um exemplo sensacional, não apenas porque eu  já estava assistindo aulas sobre Crítica Genética e recepção no IEB e me importando muito com a maneira que os autores liam os outros, mas também porque ela mostrou que Saramago conhecia bem  a produção da Nova História (caso eu tivesse alguma dúvida!), mas especialmente  porque ele conheceu bem ESTA OBRA na qual Duby justifica que não falará da suntuosidade das Catedrais porque para obsevar isso, basta olhá-las, o que ele quer fazer é "reconstituir em redor delas o conjunto cultural que lhes dá plena significação" (DUBY, 1988, p.9). Quem leu o Memorial sabe que o retrato que o romancista pinta do "Convento de Mafra" caminha por caminho semelhante, ao descrever a opulência daquela obra com bastante ironia e destacando outros pontos mais relevantes, como por exemplo de quem eram as mãos de quem realmente, o construiu.
Saudade das minha primeiras anedotas de pesquisadora... 

segunda-feira, 3 de abril de 2017

SÍNTESE DO MEU PERCURSO ACADÊMICO : BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE

BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE - Precisei abrir meus resultados finais de pesquisa sobre as relações entre História e Literatura (Iniciação científica - mestrado - tese) e sabe de uma coisa? Me orgulhei muito deles!
Se na IC, sobre um romance de Saramago, eu já me interessava por questões teóricas e metodológicas, também já amava Ginzburg, mas ainda não conhecia outra orientação teórica mais específica na História para realizar esta operação com o literário, só que com minhas "visitas" às aulas nas Letras "conheci" o discurso dialógico de Bakhtin e pirei (até hoje piro nesse lance do diálogo) e adaptei isso para os fluxos da historiografia portuguesa, o que Laura de Melo e Sousa (orientadora) achou que ficou original. Como resultado final eu escrevi um artigo que ficou eternamente no prelo e nunca foi publicado, infelizmente.
Ilustrações  do livro Tutaméia: terceitórias de JGR (1967)
No mestrado eu quis mudar e mergulhei no livro Tutaméia de Rosa e na sua fortuna crítica, e isso me obrigou a mudar certas perspectivas : embora não seja o ideal, o texto de Saramago me permitia não analisá-lo detalhadamente, palavra por palavra, como o Alfredo Bosi ensinava analisar um poema. Já o rendado texto de Rosa sempre exige uma leitura "ulpianística" da coisa. Nesse trabalho, além do papai Ginzburg, eu mergulhei também nas ideias de Walter Benjamin e formou-se minha divina trindade:
Ginzburg-Rosa-Benjamin
O legal desse trabalho é que, como eu queria, ele ficou bem brasileiro, e embora não o cite textualmente nenhuma vez (não sei porque não o cito nunca!), por trás de tudo ali está embutido o ideário do que considero nosso maior historiador, que é o Sérgio Buarque de Holanda (sim, eu sou uma cria da USP!).
Recortes de desenhos que Rosa fez para sua neta Vera Tess
O doutorado poderia ter sido só a celebração da minha santíssima trindade descoberta no mestrado, mas como eu quis inserir as crianças, precisei experimentar novos métodos historiográficos e trouxe à tona os manuscritos literários, o que me levou a dialogar com a Crítica Genética e tal...e é um trabalho mais lúdico, mais lambuzado de Guimarães Rosa que eu simplesmente amei fazer.

No pós-doutorado, ainda inconcluso, voltei à historiografia mais clássica e brinco com a História Cultural, só que do humor. Para analisar minhas fontes, sigo o método do meu ex orientador e atual supervisor Elias Thomé Saliba : objetividade metodológica (leia e analise o documento) e subjetividade epistemológica (considere todos os que dialogarem com seu tema), que, na verdade, é mais uma forma possível de abordar a interdisciplinaridade na pesquisa em História.
Acho que, resumidamente, este é o grosso do meu percurso acadêmico até agora.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Do abraço ao grunhido: a Web!

Um amigo, meio que em tom de brincadeira, disse sentir saudade das comunidades do Orkut. Eu lhe respondi da seguinte forma:

'Eu também sinto falta das comunidades do orkut ativas. Pelo que eu penso, elas foram a última tentativa de aproximar pessoas do mundo todo, que moravam longe uma da outra, mas que tinham interesses semelhantes. Não me importando que vão dizer que estou velha (porque isso eu estou mesmo), mas lembro das White Pages do ICQ...  Mas as coisas foram ficando cada vez mais individualistas. Veja por exemplo o Twitter, que é algo ao contrário a aproximação, como disse José Saramago em uma das suas últimas ranzizices :

"Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."

Bom, concordo em partes com Saramago, pois eu estudo comunicação "de" e "com" bebês, por isso não acho os grunhidos algo assim sem importância, mas como são sons primitivos do corpo, mesmo eles são mais expressivos que os 140 caracteres padronizados do Twitter (não me acostumo com eles)... Os tempos da web já foram bem mais interessantes...

domingo, 30 de setembro de 2012

O Palácio Convento de Mafra




 O PALÁCIO/ CONVENTO DE MAFRA -Como século XVIII foi de grande prosperidade econômica para Portugal em virtude da descoberta de ouro na colônia em Minas Gerais. A construção se estendeu de 1717 até 1730 .Ao todo são 37790 metros quadrados. O edifício tem 880 salas e quartos, 300 celas, 4500 portas e janelas, 154 escadarias e 29 pátios; os sinos da basílica pesam cerca de 217 toneladas; a biblioteca possui mais de 40.000 livros. Para concluir a edificação foram reunidos cerca de 45000 operários, além de 7000 soldados. A história oficial deste convento é conhecida dos portugueses e geral, mas foi entre 1980 e 1982 quando José Saramago teria estado em Mafra por várias vezes, para pesquisar e imaginar como seria contá-la de outra forma, assim como apresentará em seu romance Memorial do Convento (1982). (CALBUCCI, Eduardo. Saramago- Um roteiro para romances. Cotia: Ateliê Editorial. 1999.p. 25-6)



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Suspiro assim, como quem morre ou de quem nasce...


"...Não esperaria Blimunda que, ouvindo a música, o peito lhe dilatasse tanto, um suspiro assim, como quem morre ou de quem nasce, debruçou-se Baltasar para ela, temendo que ali se acabasse quem afinal estava retornando. Nessa noite Domenico Scarlatti ficou na quinta, tocando horas e horas, até de madrugada, já Blimunda estava de olhos abertos, corriam-lhe devagar as lágrimas ..."
 (José Saramago . Memorial do Convento. p. 179)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

História e ficção na literatura portuguesa



"Como a ficção de Saramago e em particular a que o celebrizou tem como quadro o passado, longíquo, próximo ou mítico, uma certa crítica incluiu-a dentro da categoria do 'romance histórico' de romântica memória ou no círculo de um revivalismo, hoje muito comum, dessa famosa corrente. A inscrição do seu imaginário no 'passado' não é um simples caprichoou uma característica sem significado na sua ficção. Assinala-a logo como 'não realista', mas de uma maneira diferente da do romance histórico para quem 'o passado' deveria ser evocado como presente no Passado. A óptica de Saramago é inversa : é o Passado que é Presente. Mesmo quando retoma as cores de "romance histórico", como no Memorial (do Convento), a sua ficção é sempre em segundo grau, o de uma narrativa sobre a História, não uma fictícia ressureição dela (...) A sua ficção nasce de um propósito de reescrever uma história que já está escrita, e que como tal se vive ou é vivida enquanto 'verdade' de uma época ou de um mundo, ou da humanidade quando ela é a sua ficção não inocente. A realidade - no passado ou no presente - não é nunca acessível na sua opacidade ou transcendência, é sempre e já uma narrativa e é essa narrativa que devemos revisitar, recriar para ter acesso birtual ao "eterno presente" do sentido dela para nós, o centro fora do tempo onde tudo conflui, de onde tudo reflui. Só que tal centro não é um lugar, nem uma substâcia, realidade que possa ser circunscrita de uma vez por todas, mas a própria invenção dela, o seu sonho, em suma, a sua ficção. Como os peixes do Lago de Tiberíades esperam que o homem chamado Jesus lance sua rede, como só ele a podia lançar, a realidade, a do mundo da experiência comum ou da História, espera que o olhar que a ficciona repare nela para que o milagre de uma outra pesca que nos torna criadores aconteça. (...) dela O fim da sua (de Saramago) ficção, o fim de toda ficção é voar, elevar-se sobrevoando, não céus inexistentes nem realidades mágicas, mas descolar da sua própria realidade humana, pesada, obscura, opaca para ver melhor ou de outra maneira a luz que ela oculta, a claridade original de cada ser humano ofuscada pelo peso do mundo que pode ser apenas o de nossa própria treva. Dessa poética - que é o eco natural da poesia que em nós habita -se encontra no Memorial (do Convento) a expressão ficcional, mas também artesanal, aquela que na arte de Scarlatti e na de Bartolomeu Lourenço se configuram. Duas faces do mesmo milagre da criação, uma como se nem o criador necessitasse como o da música e outra verbo a música - e às vezes mais - terá condão de nos restituir à nossa condição natural de seres destinados a voar, quer dizer, a escapar ao tempo e à morte. (Saramago um teólogo no fio da navalha. In: O Canto do Signo - existência e literatura 1957 1993). p. 186-7)

sábado, 7 de julho de 2012

Os Cadernos de Saramago ainda emocionam...


José Saramago manteve um blog, O Caderno de Saramago, que deixou de funcionar em 2007 "por falta de tempo para atualizar". Mas a  Fundação José Saramago ainda mantém ativo um blog com textos do autor: Outros Cadernos de Saramago . Ok, mas hoje, por curiosidade, entrei no link daquele antigo blog  e vi que ele está apenas "quase desativado". Junto a uma foto do autor,  consta ainda ,no alto da página, uma citação do meu amado livro Memorial do Convento (que é o que eu tenho autografado pelo Nobel!):

"Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia. José Saramago 1922-2010".

Me emocionou muito, ainda mais agora que soubemos da situação de saúde do Gabo...não podemos deixar de lembrar dos autores dos anos 1980, que foram muito muito bons! 

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Se está escrito, é verdade!

"... com a mão firme segura a esferográfica e acrescenta uma palavra à página, uma palavra que o historiador não escreveu, que em nome da verdade histórica não poderia ter escrito nunca, a palavra NÃO, agora que o livro passou a dizer é que os cruzados Não auxiliarão os portugueses a conquistar Lisboa, assim está escrito e portanto passou a ser verdade, ainda que diferente, o que chamamos de falso prevaleceu sobre o que chamamos de verdadeiro, tomou o seu lugar, alguém teria de vir contar a história nova..." José Saramago - História do cerco de Lisboa. P. 50

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

SOBRE OBAMA E O NOBEL DA PAZ


Todo mundo sabe que eu considero Obama "tudibom", que homem chique, elegante, influente e lindo! Mas agora ele veio a receber o Nobel da Paz, e claro que os narizes tortos não sossegaram em se contorcer ainda mais... calei-me, mas Saramago não... concordo plenamente com ele e ofereço a todos esse link com sua opinião, que também é a minha... se quiserem, confiram...
Investimento em esperança é acreditar na construçãode algum um tipo de HERANÇA IMATERIAL e apostar em Obama é tentar pintar a história com outras cores, não é?
Vejamos...

quinta-feira, 26 de março de 2009

Mais um link do Cadernos de Saramago

Desta vez ele escreve sobre a questão racial. O texto é excelente, mais uma vez...

sábado, 21 de março de 2009

JUSTO EU, QUE NUNCA GOSTEI DE CACHORROS...

É verdade, nunca gostei de cachorros ( barulhentos, invasivos e fedorentos demais...)
Entretanto eu tenho pensado que talvez eu estivesse há longos vinte e nove anos espeando a vinda do CÃO CONTANTE, personagem da Jangada de Pedra, o que leva embora a ponta do fio de lã azul da meia que Maria Guavaira tecia e quando volta, trás consigo Joaquim Sassa, o homem que consegue enxergá-la a partir de dentro, e descobre a mulher mais bonita entre todas, tão bonita que só mesmo ele ele poderia ter visualizado!
Novamente estória de Conto de fada, porque sem imaginação a vida só tem gosto amargo!
E também, os cachorros devem ter alguma coisa de bom, né?
Sei lá, por enquanto em minha vida, nada de cachorro, fio azul muito menos príncipe que descubra algo de realmente belo no meu mundo!

domingo, 15 de março de 2009

UM POST MARAVILHOSO

Não sou de fazer propaganda de posts de outros blogs, isso porque eu não sou propriamente uma leitora assídua de blogs, apesar de acompanhar alguns ( que significa conferir diariamente as últimas atualizaçãoes, mas muito dificilmente eu acesso o link para ler o texto completo, admito).
Uma atualização no blog do Saramago, no dia 11 de março, parecia merecer ser lida com atenção, coisa que eu só fui fazer hoje ... e não me arrependi!
Saramago falava sobre a beleza do sentimento de SOLIDARIEDADE, que ele exergava vivo em sociedades que foram vítimas de crueldades e anulações violentas, como a argentina e a espanhola. Penso que esse fenômeno - de aprender a ser melhor com experiências cruéis - não se deu no Brasil, porque aqui a herança da ditadura militar, por exemplo, sempre foi, é, e sempre será marcada pela tentativa de anular ou diminuir a intensidade da questão, quando no fundo alguns poucos dentre nós sabemos bem quanto de resquício nossa mentalidade ainda carrega daqueles momentos. Acho que quem pode abrir os olhos das pessoas são os professores (não só eles...). Quando eu dei aulas de sociologia, no ano passado, eu tratei bastante da herança da Ditadura Militar e a relação com a idéia da solidariedade...
Se eu tinha cerca de 100 alunos, considerarei um luxo se ao menos 10 se lembrarem dessas questões no futuro (na verdade, pra mim 1 que seja já é lucro). O que não pode acontecer nunca é deixar de alertar a quem puder, quando puder, sobre coisas que aconteceram, estão acontecendo e acontecerão, por debaixo dos panos....
Nessa travessia escritores como Saramago me acompanham. Confiram a beleza do que ele escreveu aqui!