"A PUNGENTE AMARGURA DAQUELE MEL" : essas palavras de Saramago são a melhor definição dos escritos de Lygia Fagundes Telles. Dizem que cabeça vazia é oficina do diabo, eu peguei esse fim de semana pra descansar e, no ócio, acessei meu pior lado. Como sou leitora Lygiana, pela memória entrei de novo no ambiente do conto "Verde Lagarto amarelo" : "senti meu coração se fechar como uma concha. A dor era quase física": eu também tenho sentimentos mesquinhos ... Demasiado humanos! Tudo no mel amargo das belas palavras Lygianas...
segunda-feira, 22 de abril de 2024
quinta-feira, 29 de junho de 2023
SUSPIROS: Fim de junho e o retorno aos mitos dos orixás
SUSPIROS: 2023, para mim, está sendo um ano marcado por pai Oxósssi. Lembrando uns itans (mitos orais) que ouvi na vida, é comum que Oxum e Oxóssi sintam atração um pelo outro, mas nenhum dos dois sustenta isso por muito tempo: Odé se ocupa nas matas e Oxum não aguenta a solidão da espera e segue outro caminho. Na vida "real" ficam as marcas : umas frases, fotos, canções e, citando "Memorial do Convento" a obra prima de Saramago, algum SUSPIRO "como de quem nasce ou de quem morre", em um movimento de morte e renascimento sem fim. Quem sabe um dia pai Oxósssi e mãe Oxum se reencontrem nos meus sonhos. Quem sabe...
terça-feira, 23 de agosto de 2022
História da feitiçaria e literatura
No começo da minha vida de pesquisadora, fiz um inusitado (para a época) trabalho sobre o Portugal do século XVIII retratado no esplêndido romance "Memorial do Convento", de José Saramago, com a presença das racionalidades, dentre elas a mão forte da inquisição moderna ameaçando a todos, especialmente mulheres simples como a personagem Blimunda, que tinha poderes ocultos e teve mãe condenada pelo Tribunal do Santo Ofício logo no início da trama.
Para entender um pouco melhor a racionalidades da Europa moderna, os excepcionais trabalhos de Carlo Ginzburg sobre a feitiçaria, como esse "História noturna: decifrando o sabá" foram de muita importância. Na época esses livros não tinham sido traduzidos no Brasil, então lembro que li as edições portuguesas, presentes na maravilhosa Biblioteca da FFLCH. Leio a sinopse na capa da edição de bolso da Cia das Letras (2012)
Esses temas também respingaram na História do Brasil colonial, pois muitas mulheres condenadas foram degradadas para o Brasil, trazendo aquelas crenças e racionalidades. Isso foi muito explorado nas pesquisas da minha primeira orientadora, professora Laura de Mello e Souza, que escreveu aquele trecho sobre Maria Padilha, que transcrevi aqui.
Certamente é um assunto muito interessante. Quem sabe não acho um gancho para estudar isso de novo?
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
Sobre “A Descoberta da América pelos turcos”, ou o dedo do gigante Jorge Amado
![]() |
| Bela edição da Record 1994 |
Continuo lendo mais obras de Jorge Amado, desta vez nesse, que foi um de seus últimos romances, cujo título sempre me deixou bem curiosa. Sabendo um pouco mais da obra, vi que esse é só o primeiro título, pois o livro, dialogando com a literatura oral e medieval, tem ainda mais dois, sendo :
"A Descoberta da América pelos Turcos ou De como o Árabe Jamil Bichara, Desbravador de Florestas, de visita à cidade de Itabuna para dar Abasto ao corpo, ali lhe ofereceram fortuna e casamento ou ainda Os Espansais de Adma"
Pois então, estamos diante de uma obra assumidamente nordestina, com toda a herança moçárabe que carrega. No começo ei comentei assim:
DESCOBERTA DA AMÉRICA PELOS TURCOS -Ah, esse livro vem com uma introdução explicando porque ele foi escrito (aquela coisa do Jorge de contar causos), sobre as traduções e edições. Em certo momento ele manda: "... Acrescento que a edição turca, publicada nos começos de 1993, é linda; quanto a tradução, eu a considero perfeita: as traduções perfeitas são aquelas em línguas que o autor não pode ler."
Na verdade, o livro, ou "romancinho", foi uma encomenda feita em virtude das comemorações do quinto centenário da "Descoberta da América" em 1992.
![]() |
| Ilustrações: à esquerda a tropa de burros e o episódio romântico; à direita a intimidade de Adma e seu esposo; |
O texto , juntamente com um do norte americano Norman Mailer, um do mexicano Carlos Fuentes, circularia nas viagens aéreas do período, porém era tudo golpe e Jorge precisou lançar depois por conta própria.
Livro muito engraçado, contando a história de um árabe e um libanês, o jovem Jamil Bichara "sultão dos bordéis" e o cinquentão erudito contador de histórias Raduan Murad, que chegam a Bahia no começo do século XX, instalam-se na Bahia, para "descobrir a América".
Isso é uma espécie de epígrafe de "A Descoberta da América pelos turcos". Nos tempos em que vieram os "turcos" descobrir a América, tiveram ainda que procurar outra dádiva, a que tem um anjo por dentro kkkkkkkkk
Além da edição da Record anos 90, a mesma que li os primeiros Gabos, a letra grande, o vocabulário leve e até chulo, próprios de Jorge e as ilustrações magníficas de Pedro Costa, atestam a data do livro, vencedor do Jabuti, e mantém a diversão. Me lembrou tanto um Ariano Suassuna, algumas xilogravuras "amorais", bem cultura popular.
"A DESCOBERTA" E EU
Acho que entendi um pouco mais o projeto literário do Jorge Amado depois do Tenda dos Milagres (❤️) e esse livrinho, último dele, é pra mim um bom final, mesmo não estando entre os melhores de Jorge, mas é um dos seus livros mais DIVERTIDOS.
Claro que as booktubers novinhas cancelaram o Jorge Amado, acusaram de MISOGENIA (justo ele, o autor das heroínas!), não acho que caiba na conta de Jorge Amado, pessoalmente, a descrição dos costumes de uma Bahia no começo do século XX, se eles nos parecem terríveis hoje, é porque o tempo veio esclarecer muitas coisas, do século passado para esse, ou seja, homens violentos sempre existiram e não é porque Jorge os retrata que seu livro deixa de ser bom, ou que o autor seja cópia fiel desse ou daquele comportamento. Para terminar eu fui ler o posfácio que Saramago escreveu (e inspirou o título deste post), que colo aqui:
Uma certa inocência
José Saramago
Durante muitos anos Jorge Amado quis e soube ser a voz, o sentido e a alegria do Brasil. Poucas vezes um escritor terá conseguido tornar-se, tanto como ele, o espelho e o retrato de um povo inteiro. Uma parte importante do mundo leitor estrangeiro começou a conhecer o Brasil quando começou a ler Jorge Amado. E para muita gente foi uma surpresa descobrir nos livros de Jorge Amado, com a mais transparente das evidências, a complexa heterogeneidade, não só racial, mas cultural, da sociedade brasileira. A generalizada e estereotipada visão de que o Brasil seria reduzível à soma mecânica das populações brancas, negras, mulatas e índias, perspectiva essa que, em todo caso, já vinha sendo progressivamente corrigida, ainda que de maneira desigual, pelas dinâmicas do desenvolvimento nos múltiplos sectores e actividades sociais do país, recebeu, com a obra de Jorge Amado, o mais solene e ao mesmo tempo aprazível desmentido. Não ignorávamos a emigração portuguesa histórica nem, em diferente escala e em épocas diferentes, a alemã e a italiana, mas foi Jorge Amado quem veio pôr-nos diante dos olhos o pouco que sabíamos sobre a matéria. O leque étnico que refrescava a terra brasileira era muito mais rico e diversificado do que as percepções europeias, sempre contaminadas pelos hábitos selectivos do colonialismo, pretendiam dar a entender: afinal, havia também que contar com a 12631 - Descoberta da América multidão de turcos, sírios, libaneses e tutti quanti que, a partir do século XIX e durante o século XX, praticamente até aos tempos actuais, tinham deixado os seus países de origem para entregar-se, em corpo e alma, às seduções, mas também aos perigos, do eldorado brasileiro. E também para que Jorge Amado lhes abrisse de par em par as portas dos seus livros. Tomo como exemplo do que venho dizendo este pequeno e delicioso livro cujo título — A descoberta da América pelos turcos — é capaz de mobilizar de imediato a atenção do mais apático dos leitores. Aí se vai contar, em princípio, a história de dois turcos, que não eram turcos, diz Jorge Amado, mas árabes, Raduan Murad e Jamil Bichara, que decidiram emigrar à América à conquista de dinheiro e mulheres. Não tardou muito, porém, que a história, que parecia prometer unidade, se subdividisse em outras histórias em que entram dezenas de personagens, homens violentos, putanheiros e beberrões, mulheres tão sedentas de sexo como de felicidade doméstica, tudo isto no quadro distrital de Itabuna, Bahia, onde Jorge Amado (coincidência?) precisamente veio a nascer. Esta picaresca brasileira não é menos violenta que a ibérica. Estamos em terra de jagunços, de roças de cacau que eram minas de ouro, de brigas resolvidas a golpes de facão, de coronéis que exercem sem lei um poder que ninguém é capaz de compreender como foi que lhes chegou, de prostíbulos onde as prostitutas são disputadas como as mais puras das esposas. Esta gente não pensa mais que em fornicar, acumular dinheiro, amantes e bebedeiras. São carne para o Juízo Final, para a condenação eterna. E contudo… E, contudo, ao longo desta história turbulenta e de mau conselho, respira-se (perante o desconcerto do leitor) uma espécie de inocência, tão natural como o vento que sopra ou a água que corre, tão espontânea como a erva que nasceu depois da chuvada. Prodígio da arte de narrar, A descoberta da América pelos turcos, não obstante a sua brevidade quase esquemática e a sua aparente singeleza, merece ocupar um lugar ao lado dos grandes murais romanescos, como Jubiabá, Tenda dos Milagres ou Terras do sem-fim. Diz-se que pelo dedo se conhece o gigante. Aí está, pois, o dedo do gigante, o dedo de Jorge Amado.
Resumindo: Adorei está leitura. Que venha agora um livro contemporâneo para preencher meu novembro!
quarta-feira, 22 de julho de 2020
"A História contra os mitos da lusitanidade em José Saramago", Camila Rodrigues
terça-feira, 3 de setembro de 2019
Sobre minha rejeição ao romance de Saramago
![]() |
| O Homem Duplicado |
sábado, 9 de junho de 2018
TRADUÇÃO E PESQUISA
![]() |
| Capa de DUBY, Georges. Tempo das Catedrais: a arte e a Sociedade : 980 – 1420. Trad. José Saramago. Lisboa : Estampa. 1988. |
Saudade das minha primeiras anedotas de pesquisadora...
segunda-feira, 3 de abril de 2017
SÍNTESE DO MEU PERCURSO ACADÊMICO : BUSCA PELA INTERDISCIPLINARIDADE
![]() |
| Recortes de desenhos que Rosa fez para sua neta Vera Tess |
sábado, 2 de abril de 2016
terça-feira, 18 de dezembro de 2012
Do abraço ao grunhido: a Web!
'Eu também sinto falta das comunidades do orkut ativas. Pelo que eu penso, elas foram a última tentativa de aproximar pessoas do mundo todo, que moravam longe uma da outra, mas que tinham interesses semelhantes. Não me importando que vão dizer que estou velha (porque isso eu estou mesmo), mas lembro das White Pages do ICQ... Mas as coisas foram ficando cada vez mais individualistas. Veja por exemplo o Twitter, que é algo ao contrário a aproximação, como disse José Saramago em uma das suas últimas ranzizices :
"Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido."
Bom, concordo em partes com Saramago, pois eu estudo comunicação "de" e "com" bebês, por isso não acho os grunhidos algo assim sem importância, mas como são sons primitivos do corpo, mesmo eles são mais expressivos que os 140 caracteres padronizados do Twitter (não me acostumo com eles)... Os tempos da web já foram bem mais interessantes...
domingo, 30 de setembro de 2012
O Palácio Convento de Mafra
sexta-feira, 13 de julho de 2012
Suspiro assim, como quem morre ou de quem nasce...
quinta-feira, 12 de julho de 2012
História e ficção na literatura portuguesa
sábado, 7 de julho de 2012
Os Cadernos de Saramago ainda emocionam...
"Mas não subiu para as estrelas, se à terra pertencia. José Saramago 1922-2010".
Me emocionou muito, ainda mais agora que soubemos da situação de saúde do Gabo...não podemos deixar de lembrar dos autores dos anos 1980, que foram muito muito bons!
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Se está escrito, é verdade!
segunda-feira, 21 de junho de 2010
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
SOBRE OBAMA E O NOBEL DA PAZ
Investimento em esperança é acreditar na construçãode algum um tipo de HERANÇA IMATERIAL e apostar em Obama é tentar pintar a história com outras cores, não é?
Vejamos...
quinta-feira, 26 de março de 2009
Mais um link do Cadernos de Saramago
sábado, 21 de março de 2009
JUSTO EU, QUE NUNCA GOSTEI DE CACHORROS...
Entretanto eu tenho pensado que talvez eu estivesse há longos vinte e nove anos espeando a vinda do CÃO CONTANTE, personagem da Jangada de Pedra, o que leva embora a ponta do fio de lã azul da meia que Maria Guavaira tecia e quando volta, trás consigo Joaquim Sassa, o homem que consegue enxergá-la a partir de dentro, e descobre a mulher mais bonita entre todas, tão bonita que só mesmo ele ele poderia ter visualizado!
Novamente estória de Conto de fada, porque sem imaginação a vida só tem gosto amargo!
E também, os cachorros devem ter alguma coisa de bom, né?
Sei lá, por enquanto em minha vida, nada de cachorro, fio azul muito menos príncipe que descubra algo de realmente belo no meu mundo!
domingo, 15 de março de 2009
UM POST MARAVILHOSO
Uma atualização no blog do Saramago, no dia 11 de março, parecia merecer ser lida com atenção, coisa que eu só fui fazer hoje ... e não me arrependi!
Saramago falava sobre a beleza do sentimento de SOLIDARIEDADE, que ele exergava vivo em sociedades que foram vítimas de crueldades e anulações violentas, como a argentina e a espanhola. Penso que esse fenômeno - de aprender a ser melhor com experiências cruéis - não se deu no Brasil, porque aqui a herança da ditadura militar, por exemplo, sempre foi, é, e sempre será marcada pela tentativa de anular ou diminuir a intensidade da questão, quando no fundo alguns poucos dentre nós sabemos bem quanto de resquício nossa mentalidade ainda carrega daqueles momentos. Acho que quem pode abrir os olhos das pessoas são os professores (não só eles...). Quando eu dei aulas de sociologia, no ano passado, eu tratei bastante da herança da Ditadura Militar e a relação com a idéia da solidariedade...
Se eu tinha cerca de 100 alunos, considerarei um luxo se ao menos 10 se lembrarem dessas questões no futuro (na verdade, pra mim 1 que seja já é lucro). O que não pode acontecer nunca é deixar de alertar a quem puder, quando puder, sobre coisas que aconteceram, estão acontecendo e acontecerão, por debaixo dos panos....
Nessa travessia escritores como Saramago me acompanham. Confiram a beleza do que ele escreveu aqui!






























