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domingo, 7 de junho de 2026

Falando com a IA sobre "Fale com ela"

 

Mais tarde eu devo assistir "Natal amargo",  mais um lançamento de Almodóvar , e para entrar no clima iniciei um papo com a IA sobre o cineasta. Foi muito boa a "conversa" sobre temas e estéticas. Quando abordamos meu preferido, "Fale com ela", que assisti incontáveis vezes na vida e revi recentemente com Geraldo em Niterói,  disse que é um filme sobre solidão chegando num estremo de loucura (minha leitura deste filme de sempre), mas desta última vez me chamou mais  atenção que este também é  um filme sobre a amizade de dois homens que se encontram na plateia devPina Bausch e depois tentando cuidar de "suas mulheres"...

O que a IA me "disse ", foi enternecedor :

"Antes mesmo de Marco e Benigno se tornarem amigos, Benigno já o observa. Ele percebe a dor dele naquele espetáculo de Pina Bausch, vê aquele homem chorando sozinho na plateia e guarda essa imagem. Quando conversa com Alicia, ele fala sobre Marco como quem fala de alguém que, de alguma forma, já lhe é familiar.

Isso é muito característico de Benigno. Ele é uma pessoa profundamente solitária, mas também profundamente atenta. Ele observa. Repara. Constrói vínculos muito antes de os outros saberem que esses vínculos existem.

O bonito é que, por um momento, Alicia acaba funcionando como uma espécie de ponte entre eles. Benigno fala de Marco para ela antes de Marco sequer imaginar que Benigno existe. Como se a amizade deles começasse a nascer num espaço invisível.

E aí há uma ironia melancólica: Benigno acredita muito no poder da conversa. Ele fala com Alicia todos os dias. Fala de si, do mundo, de Marco. O título do filme — Fale com Ela — atravessa tudo isso. Benigno fala. Talvez fale até demais. Mas, entre todas as conversas dele, uma das mais genuínas é justamente quando fala sobre Marco.

O que me emociona é que, naquele momento, não há obsessão nem idealização. Há apenas reconhecimento. Ele vê um homem triste e sente empatia.

Você me fez lembrar de um detalhe que sempre achei bonito: Marco e Benigno não se tornam amigos porque têm vidas parecidas. Eles se tornam amigos porque conseguem enxergar a vulnerabilidade um do outro. E isso começa muito antes do primeiro diálogo entre eles.

Por isso sua observação é tão tocante. Quando assistimos novamente ao filme, percebemos que a amizade deles não começa no hospital. Ela começa naquela plateia, em silêncio, com um homem chorando e outro homem prestando atenção. Isso é de uma humanidade enorme. "

Poxa! E se a IA for minha Alicia?  🤔

Só sei que já entrei no clima Almodovar.

Adorei! 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

"A ostra e o vento", Walter Lima Junior

                 


Depois que assisti ao excelente "O Filho de Mil Homens" (2025), o cenário praiano me lembrou "A Ostra e o Vento"(1997), um filme que me recordo de ter achado triste e  lindo, mas faz tanto tempo que pode ser que eu não me lembre direito.

Na primeira vez que procurei, não achei. Será que, depois de tantos anos, eu já estava pronta para rever? Aí fui ouvir a canção A ostra e o vento  que tanto evitei ouvir de novo, pois era como se abrissem meu "estojo" de ostra e tocassem minha solidão infinita. Eu ficava tão vulnerável! Dessa vez foi mais tranquilo. Que bela canção! Ouvi duas vezes sem sofrer.

Na verdade, sempre soube que o livro, o filme e a música de Chico Buarque são bonitos até demais. O problema estava em mim.

Essa história sobre uma solidão enlouquecedora sempre foi um monstro para mim. Eu reagi contra, passei anos resistindo a lembrar dela. Quando o filme saiu, eu mal tinha vinte anos, cabeça e sentimentos ainda não formados. Tudo que eu não queria era ser Marcela, a que tem o mar como cela. E não fui.

Mas anos se passaram. Será que eu já tinha suporte para enfrentar esse monstro e ver o filme com a delicadeza que ele merece? Tive!

Foi lindo reencontrar tudo aquilo. Nem doeu como se fosse em mim. Já não tenho mais vinte anos, superei muita coisa.

Agora assinei a Netflix e achei o filme lá, numa versão de muita qualidade. Não lembro onde assisti ao filme na época, teria sido no cinema? Teria em DVD? Não lembro! Mas pude rever com atenção e foi muito bonito. Como o cinema nacional tem belezas escondidas. A atuação da jovem Leandra Leal é sublime. Ela realmente vive Marcela, a moça presa numa ilha com seu pai, o faroleiro José, em uma solidão enlouquecedora, até se apaixonar por Saulo, o vento. É muito poético e brilhante como o filme consegue contar isso em imagens!

Ouvi a música, assisti ao filme, agora só falta dar uma olhada no livro de Moacir Lopes. Eu tenho ele aqui, mas deve estar escondido para que eu não corra o risco de trombar com ele, meu monstro de juventude.

Quando o encontrar, comentarei neste post mesmo. Por hora, fica a dica: assistam "A Ostra e o Vento". É triste, mas é muito bonito!

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Retrospectiva: 2021 o ano da literatura!

 


Este ano eu "inovei", fazendo um resumo de uma linha do conteúdo do blog (e também fora dele), mês à mês, então a retrospectiva ficou mais fácil. Vou trazer a frase de cada mês e comentá-la!

JANEIRO - Teste de Ancestralidade;
Elza embalava minha vida logo no começo do ano

Acho que tive a ideia de resumir o mais importante do mês por causa de janeiro, quando não teve nada mais importante do que o meu teste de ancestralidade. Para mim, para tantos negros do Brasil, saber qualquer coisa sobre nosso passado, propositalmente apagado, é tão grande, envolve tantas coisas, toda a nossa vida, nossos medos, escolhas. É um olhar para nós mesmos. No caso do meu resultado, fiquei surpresa pelo meu DNA não ter nada de indígenas brasileiros, e eu que achava que era cafuza (mistura de negro com indígena), mas na verdade sou mistura de negro com branco. Mas quais ? Brancos, predominam os ibéricos, portugueses e espanhóis, embora tenha alguns pontos de outros lugares na Europa. E negros, tem de muitos lugares da África, não apenas daqueles que sabemos que vieram pessoas para seres escravizadas ( especialmente Angola, Congo, Moçambique, Nigéria, etc), mas também de vários lugares do norte do continente, a África oriental, árabe, inclusive a minha querida Etiópia! Me senti muito melhor com essas informações, pesquisar ancestralidade era uma das metas para 2021 e eu "entendi" mais tantas coisas e pareceu que um dos sentidos da minha vida tinha sido encontrado. Foi, e isso não é pouca coisa, mas ainda existem mistérios!

FEVEREIRO -Mergulho em Lima Barreto;
Fevereiro : o mês de "Lima Barreto que nos olha"

Foi sem querer, mas acabei tendo que escrever um texto urgente e mergulhei na vida de Lima Barreto e Clara dos Anjos, isso me fez pensar que estava continuando o tema de janeiro, pois estava estudando o maior escritor negro brasileiro (que se reconheceu assim e sofreu as consequências, inclusive de sempre acabar sendo "esquecido". O que ele escreveu, há cem anos, continua sendo atual e incômodo. Escolhi escrever sobre o livro Clara dos Anjos, porque eu li quando era menina, mas demorei muito para entender que a Clara era eu, era todas as mulheres negras periféricas, em 1922. em 2021! Fevereiro foi mês do Lima, a quem agradeço imensamente! Que orgulho ter um escritor desses no meu país!
No final do mês, depois que terminei o trabalho, fui ler outras coisas, ainda sobre negros, li um livro infantil sobre as princesas africanas e um romance ótimo de Chimamanda Ngozi Adichie . uma autora nigeriana, país que agora sei que faz parte da minha ancestralidade.

MARÇO - Mostra de Cinemas Africanos , Congresso de Crítica Genética e
Guimarães Rosa;
Já estava acompanhando congresso pelo celular
 na sala de espera do hospital pros exames pré cirúrgicos da minha mãe,
mas foi uma delicia debater sobre critica genética 

Esse mês já tive mais assuntos para falar, congresso, Mostra de documentários africanos, inclusive um etíope muito bom e expectativa sobre a cirurgia da minha mãe, até que consegui me sair bem em tudo, com uma energia muito 2020, cheia de banho de sol. Acho que a coisa ficou mais difícil mesmo a partir do mês seguinte.

ABRIL- Cirurgia de mamãe e anais do Congresso APCG;
Na Páscoa com minha mão ainda não sabíamos quando ia ser a cirurgia

Em abril começamos bem, eu escrevi o texto para os anais do congresso de março e eu e minha mãe passamos uma páscoa feliz aqui em casa, tiramos fotos felizes, mas dias depois, naquela mesma semana, ela foi chamada para retirar a colostomia, que achávamos que seria mais simples. Como era contexto de pandemia, não pudemos acompanhar, só por telefone. A tensão era enorme, passei os dias aqui em casa, esperando uma ligação do médico, deu tudo certo e ela voltou para casa, muito debilitada. Ela precisava de cuidados todo o tempo, dei uma pausa nas caminhadas pois ela precisava de cuidados dia e noite, alimentação, precisava trocas as fraldas, ela sentia dores, estava ferida, incomodada, irritada, Muito tenso. Ninguém vinha me ajudar porque só ela, que é idosa, tinha se vacinado, então tive que me virar sozinha e acho que consegui me sair até bem, pelo que me lembro, não perdi a doçura e o bom humor ao lidar com ela, mesmo que ela, com toda razão, estivesse sempre uma pilha de nervos. Mas eu cansei muito esse mês. As máscaras caíram.

MAIO - Vacina Pfizer parte 1; Gabo, Acioli, Juan Rulfo e racismo e Jeferson Tenório;
Dei uma passada no posto e tomei a vacina
Estava gorda e descabelada, bem diferente da Camila soar de março.
Eu tinha pressa,  não podia deixar minha mãe sozinha!

Em maio a situação melhorou um pouco, ela deixou as fraldas, podia comer melhor, mas ainda estava fraquinha e continuava precisando de mim todo o tempo, não podia sair por muito tempo, então aproveitei para ler mais, reler realismo fantástico, Gabo e li o maravilhoso Pedro Páramo . No meio daquela situação tão tensa que passava em casa, continuando o tema da ancestralidade que abriu o ano, li o melhor livro contemporâneo de 2021, O avesso da Pele, de Jéferson Tenório que, assim que terminei de ler, soube que era diferente! Mas teve uma coisa ótima esse mês, eu tomei a vacina! Que emoção, quanta esperança!

JUNHO - Boa e má literatura latino americana; Bernardo Brayner; biografias com livros e Prince;
Lendo Bicho Geográfico, do meu amigo Bernardo Brayner

Junho foi parecido com maio, muito ocupada com mamãe, só dava tempo para ler antes de dormir, quis ler outros autores latino americanos, além do Gabo, li um contemporâneo que não gostei. Li um livro lindo , do meu amigo Bernardo Brayner, e fiquei nostálgica sobre como começou nossa amizade há décadas. Comprei a bio da Elza, que só fui ler em dezembro, e me apaixonei pelo Prince!

JULHO - Prince, morte e amor com Gabo; Trianon, capítulo de livro e Nicolai Gogol;
Estava frio, eu queria me esconder atrás dos livros

Nesse mês um capítulo de livro que escrevi no ano passado foi publicado, fiquei contente. Sai pra passear pela primeira vez na Pandemia, fui ao parque Trianon com meu amigo Rafael.
Só em julho as coisas começaram a melhorar em casa, minha mãe mais fortinha, o que me deixou enxergar o quanto eu estava acabada, gorda, sem vaidade, sem alegria, sem conversa, sem contato. Esse período foi de cárcere mesmo, só falava ao vivo com minha mãe e com a terapeuta a cada quinze dias. Um dia fui a farmácia para minha mãe, me pesei e vi que estava muito gorda, tinha descuidado muito de mim, não podia ter feito isso, ainda mais sabendo que nem podia sair para caminhar, chorei muito aquele dia e a sensação de que tinha ficado velha e feia em poucos meses não me abandonou o resto do ano, mesmo assim comecei uma dieta por conta própria. Minha alegria era ouvir Prince, tantos sons e musicalidades!

AGOSTO -Prince; Vacina Pfizer parte 2; voz literária de Odilon Esteves ;Paulo Scott incômodo; Jorge Amado; Stênio Gardel e aulas de Guilherme Arantes;
A palavra que resta de Stênio Gardel e Mar Morto de Jorge Amado
Leituras poéticas e lindas

Agosto ia ser o mês de tomar a segunda dose da vacina, estava com muita expectativa de poder me libertar mais um pouquinho. Foi um mês que eu tive que sair mais, tinha meus exames anuais para fazer e levava sempre um livro para me acompanhar. Podia ser um livro lindo e poético como o Mar Morto, do Jorge Amado ou A Palavra que resta, de Stênio Gardel, ou incômodo como O ano em que vivi de literatura , de Paulo Scott. Me vacinei no dia 20 e só em setembro poderia voltar a academia, tudo o que eu mais queria. Aprendi música com Guilherme Arantes no Facebook.

SETEMBRO -Fabiane Guimarães e os rich people problems; Live Pedro Bloch e humor infantil; academia; Tenda dos Milagres e Prince;
Minha felicidade em voltar a treinar é inenarrável

Muitos assuntos em setembro, o mais importante foi voltar a academia, isso significou que eu estava imunizada e que minha mãe estava melhor, mais independente e eu podendo cuidar um pouco de mim. Voltar a academia significou pegar sol, ver e interagir com pessoas, foi como nascer de novo. Mas também esse recomeço me mostro o quanto esses quase dois anos sem treinar me enfraqueceu! Eu não conseguia fazer muita coisa, pedia ajuda de Deus e dos Orixás pra não desistir, porque eu acreditava que como era antes nunca mais ia ser ser. Mas não desisti. Fiz live para falar da minha pesquisa de pós doc e li o pior livro do ano, Apague a luz se for chorar, da Fabiane Guimarães e também Tenda dos Milagres, outro maravilhoso do Jorge Amado. Nesse ínterim, aprendia cada vez mais sobre música com o Guilherme Arantes pelo Facebook e foi maravlihoso quando ele falo do Prince.
OUTUBRO - Adaptações de Tenda dos Milagres; Mostra de Cinemas Africanos; Artigo sobre Cinemas Africanos, Lygia Fagundes Telles; Encontro Critica Genética; Abraço no Prince;
Abraçando Prince


Teve Mostra de Cinemas Africanos, pena eu estar tão cansada, mas consegui assistir tudo: AMO!
Fui ver adaptações do romance Tenda dos Milagres como minissérie da Globo em 1985 e como filme de Nelson Pereira dos Santos em 1977, gostei muito da trilha sonora e de Nelson Xavier como Ojuobá Pedro Arcanjo na TV , embora a série tenha mudado tudo de lugar, ficou bonita, já o filme é mais fiel ao romance, mas destaco a cena em que Pedro Arcanjo explica porque, sendo um materialista, continuava frequentando o candomblé, é que ai vemos como esse personagem é uma espécie de alter ego do Jorge Amado e como eu, tantas vezes, me identifico com ele. Li o fantástico Antes do baile verde , da Lygia Fagundes Telles, participei de outro congresso de critica genética, mas como estava muito mais exausta do que em março, foi bem light. Foi meu aniversário e eu dei um jeito de, enfim, dar um abraço no Prince, meu crush!

NOVEMBRO -Nutricionista; Hilda Hist e Rosa; Jorge Amado e Saramago; Lima Barreto na Consciência negra; Congresso de Estudos sobre infância;J . Tenório vence Prêmio Jabuti; Marçal Aquino é bom, mas não tudo aquilo, Prince;
No dia da consciência negra, recomendei
a leitura de Lima Barreto

Continuava exausta no treino, procurei uma nutricionista para me ajudar a ter mais disposição, foi a melhor coisa que eu fiz, com orientação profissional, passei a me sentir bem melhor. Li o divertido A Descoberta da América pelos turcos, do Jorge Amado, com prefácio do Saramago. Recomendei que lessem "Clara dos Anjos" ou "Recordações do escrivão Isaías Caminha", de Lima Barreto se quisessem saber o que era "consciência negra". Participei de um congresso sobre estudos de infância na UERJ, falei do Pato Fu, mas senti que podia ter me saído melhor. Como suspeitei, O Avesso da pele começou a ser reconhecido, ganhou prêmio Jabuti de melhor romance literário de 2021 e eu vibrei! Li o recomendadíssimo "Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios", do Marçal Aquino e não achei nada de tudo aquilo que me falaram. Acontece! Continuei com Prince na cabeça e no coração.

DEZEMBRO - Publicação do meu livro, Vacina gripe, Dose de reforço contra covid, biografia da Elza Soares
Na live de lançamento do meu livro 

Em dezembro tomei muitas vacinas, contra gripe e a de reforço da covid, teve o lançamento do meu livro Escrevendo a lápis de cor: Infância e História na escritura de Guimarães Rosa, foi uma grande emoção.


O livro mesmo me chegou na véspera de natal, com um presente e foi lindo só li a biografia da Elza e ouvi muita coisa dela, em várias fases, depois escrevo melhor sobre.

Assim foi meu ano, que se encerra em poucas horas.
Que 2022 seja mais leve e mais alegre!



domingo, 26 de agosto de 2012

Mais de Le Clézio


“Ujine imagina que, em toda aquela cidade, talvez exista alguém que pense nela. Samuel, do tamanho de uma ameba, do tamanho de uma cabeça de alfinete. Se ela o chamasse, se gritasse seu nome, será que ele escutaria? Se pensasse nele intensamente , comprimindo as têmporas nas mãos, será que ele se mexeria na cama, durante o sono, e olharia na direção do horizonte? Ele a veria nos seus sonhos?
De repente, a uma pontada no epigástrico, ela se dobra ao meio.  Não contava com isso agora, a lembrança chega com violência, domina-a, sufoca-a. Gemendo um pouco, ela sente lágrimas subindo de todo o seu corpo para transbordar em suas pálpebras e escorrer para a boca. Com Samuel, ela está naquela estrada que serpenteia na bruma ao longo do mar do Norte, atravessando as colinas de eulálias. Lembra que nem sabia esse nome, chamava aquilo de capim, e Samuel tinha explicado, dando até mesmo o nome latino , que era planta do Japão ou da China. Um nome tão delicado, eulália, ela achou lindo. Samuel parou o carro numa clareira, no final da estradinha de terra. Juntos, através do para-brisa crivado de gotinhas, os dois espiam os retalhos de bruma a rodopiar entre as plantas. A luz do dia que amanhece pincela o céu de um brilho intenso, multiplicado pelas gotas de orvalho.Os talos altos, leves, flexíveis, estão imóveis e exultam. Não há barulho ao redor. Ujine, ouvindo a vibração do coração, encosta o ouvido no peito de Samuel para escutar o ritmo que está na mesma cadência, uma batida breve, outra mais longa... É um momento de felicidade que ela acredita jamais ter acontecido antes. Pensa em tantos anos de solidão, na morte da mãe no hospital, na angústia de te de trabalhar, ter de encontrar um lugar no mundo. Ela não fala nada, ele também fica calado, ela sabe que o ama e que é amada por ele, está certa disso, quele instante, fora do mundo, fora do tempo, nada jamais poderá apagar.” 

sábado, 29 de outubro de 2011

Charles Baudelaire "O Estrangeiro"

O estrangeiro

- Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? De seu pai, de sua mãe, de sua irmã ou de seu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Amigos?
- Você usa de palavras cujo sentido até aqui desconheço.
- Pátria?
- Ignoro a que latitude se situa.
- Beleza?
- Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
- O ouro?
- Odeio-o como você odeia a Deus.
- Mas que gosta então, estrangeiro extraordinário?
- Das nuvens… as nuvens que passam… lá longe… lá longe… as maravilhosas nuvens!

Charles Baudelaire in “Pequenos poemas em prosa”

terça-feira, 15 de junho de 2010

Dias frios

Estou gripada, mal humorada, triste e sem a menor condição de escrever um paper, que dirá dois...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

30 ANOS? SOLIDÃO, QUE POEIRA LEVE...

"Na Vida quem perdeo telhado em troca recebe as estrelas..." E DAI?

sábado, 24 de outubro de 2009

"... ela mesma não podia ser um sonho para nunca envelhecer..."


Conforme já estava previsto, domingo 25 de outubro de 2009, completo 30 anos.
Viro uma balzaquiana com uma cara de moleca, mas a idade já me pesa um pouco...
Se até a Brigit Bardot- que era uma moça bonita - ficou velha, por que eu não poderei curtir meu amadurecimento?
Com ela eu não sei, mas comigo, nenhum rapaz de 20 anos me telefonou AINDA e eu, como ela, estou "ficando velha, triste e sozinha", mas ao contrário dos dela, os "MEUS SONHOS NÃO QUEREM PEDIR DIVÓRCIO", não ainda!
FELIZ ANIVERSÁRIO PARA MIM, A MAIS NOVA BALZAQUIANA DO PEDAÇO!

domingo, 17 de maio de 2009

MAIS UM DIA DOS NAMORADOS SOZINHA? MELHOR ASSIM!

Falta pouco menos de um mês ainda, mas as pessoas já estão no clima desse dia péssimo. No Rio de Janeiro até protesto em favor dos encalhados já foi organizado:


Achei engraçado e lembrei que no ano passado eu talvez participasse de algo assim, naquela época eu ainda achava mesmo que ia conseguir arrumar um namorado até o famigerado dia, mesmo que já naqueles tempos eu suspeitava que a dificuldade toda estava no fato dos homens terem medo de mulher,então tinha escolhido a música do Tom Zé como trilha sonora do Dia dos Namorados 2008:


Entretanto, como a gente pouco sabe do desenvolvimento do futuro, foi exatamente no dia dos namorados do ano passado que eu beijei pela primeira vez a boca que eu amei e que eu sabia também sofrer do tal medinho (no caso tratava-se de um super medo)...mas eu o quis, com todo meu ser, como nunca tinha experimentado querer nada nem ninguém em minha vida (sim, isso é possível...).... tudo acabou em drama, claro.
Esse ano eu queria muito mudar o tema do dia dos namorados, mas não deu ainda, descobri que a maioria dos homens (os inicialmente consideráveis pelo menos) continuam com medo de mulher, mas com esses eu até tenho prática, só que eu descobri, de junho de 2008 para cá, que temos também o grupo de cafajestes (digo no sentido de se esconderem atrás da pele de cordeiro e no fundo rezarem aquela mesma missa masculina de sempre "as mulheres todas acabam ajoelhando-se ao seu maravilhoso falo"...que nojo!)
Eu sabia que ainda existiam seres assim ... mas encontrei uma espécie pré-histórica dessas esses meses, num ambiente acadêmico, dá para acreditar?
Então, companheiros, eu comecei a pensar bem... gostaria, sim, de ter um namorado, mas não a qualquer preço, não mesmo.
Diferentemente do ano passado, quando eu queria mais é abrir as portas para alguém entrar em minha vida, eu tô mais magoada e temerosa, não vou morrer se estiver sozinha, porque não morri até agora, então as portas estão semi abertas... aí você pode me dizer que este ano sou eu que estou com "medo de homens", eu não acho que seria exatamente isso, eu tô é com raiva deles mesmo!
No dia dos namorados não vou comer uma barra de quilos de chocolate, nem sair com amigos, vou acabar na academia na bicicleta e na esteira até não aguentar mais, como fiz depois da minha defesa de mestrado...
Eita vida besta

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Diante de uma xícara de chá...


Tomar chá é uma coisa que eu sempre adorei, é uma experência das mais completas pois lida com todo tipo de estímulo sensorial: a cor, o perfume, a temperatura, a ocasião...
Estive com vontade de tomar novamente um chá de saquinho diferente que eu compre para experimentar no ano passado, que é o chá da Índia da "Dr. Oetker", que é fenomenal pois trás mel, baunilha, cascas, gengibre e outras especiarias em sua composição. O sabor é realmente diferente , a cor é escura e misteriosa, e o perfume remete a uma ocasião muito boa (daquelas poucas que o tempo podia até ter parado ali, sabe?) que vivi provando-o e tudo pareceu fazer sentido...
Esta manhã, tomando de novo esse chá sozinha em casa lembrei tanto que saudade é ser depois de ter, como quis o Rosa, porque como eu tive de um jeito lindo antes, hoje quando recordo sou a própria saudade de tudo aquilo que daquele jeito não terei nunca mais, mas o chá continua aqui e se for verdade o que disse o Gabo em seu livro de memórias "Viver para contar",eu posso nunca mais reviver a cena, mas a recordação será um presente que levarei eternamente...

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

So Solidão

A MÚSICA É TRISTEMENTE LINDA, MAS EU GOSTEI DE VÊ-LA ESCRITA, REFORÇANDO OS JOGUINHOS COM AS PALVRAS E SEUS SILÊNCIOS... NESSA ELE FOI ATÉ DIDÁTICO, MAS ELE BRINCA NESSE NÍVEL SEMPRE, EITA GENIALIDADE...
PARA OUVIR UM TRECHINHO, CLIQUE AQUI
Só (Solidão)
Tom Zé

Solidão...
Solidão...
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefo...
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
E no meu descompasso
O riso dela

Na vida quem perde o telhado
Em troca recebe as estrelas
Pra rimar até se afogar
E de soluço em soluço esperar
O sol que sobe na cama
E acende o lençol
Só lhe chamando
Solicitando

Solidão
Que poeira leve...

Se ela nascesse rainha
Se o mundo pudesse agüentar
Os pobres ela pisaria
E os ricos iria humilhar.
Milhares de guerras faria
Pra se deleitar
Por isso eu prefiro
Cantar sozinho...

Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefone chamou, foi engano...
Solidão
Que poeira leve
Olhe a casa é sua
E no meu descompasso
Passo o riso dela
Solidão
Que poeira leve
Solidão
Olhe a casa é sua
O telefone chamou, foi engano...