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quarta-feira, 2 de agosto de 2017

PEDRO BLOCH: UM ESCREVINHADOR DE CRIANÇA


PEDRO BLOCH: UM ESCREVINHADOR DE CRIANÇA
"O mundo infantil é cheio de mistério e poesia, suspense e humor. (..) Seria de desejar que todos os pais guardassem as frases mais expressivas dos filhos, como verdadeiros tesouros. Mas o que ocorre, normalmente, é que se conserva um flagrante fotográfico inexpressivo ou uma botinha, um boneco uma mecha de cabelo. Quase nunca percebe que o que a criança diz, em suas diferentes fases, são pedacinhos de alma dessa criança." 
(BLOCH, Pedro. 'Criança diz cada uma!', 1963, p. 1)

terça-feira, 25 de julho de 2017

Trecho final do relatório final de pós doc

Ilustração de Mariana Massarani , 1998
 Acabei a pesquisa de pós-doutorado e o último trecho do relatório final eu falei sobre aquilo que eu achei mais bonito de todo o trabalho de Pedro Bloch, que foi a valorização da  expressão da criança como ela é : 
"          Como parte de nossa investigação, conseguimos esboçar faces de como o projeto de ouvir a meninada e inseri-la no diálogo teria ficado guardado na memória cultural e pessoal das pessoas que nele estiveram envolvidas. Por outro lado, percebemos que, embora ele tenha sido muito famoso em vida, vai sendo gradativamente esquecido, seja porque sua atividade envolveu crianças há bastante tempo e elas nem sempre puderam guardar memória do ocorrido, ou pelo fato de terem participado da composição humorística e isso  não sido considerado importante  a ponto de permanecer na memória por muito tempo, ou mesmo por conta dos fluxos e refluxos da história cultural,  que se interessa por figuras assim, que brilharam muito, às margens dos grande personagens, e rapidamente ficaram de lado na narrativa.            Enfim, procuramos destacar a importância das anedotas infantis de Pedro Bloch porque vimos nelas marcas de uma mudança sutil em relação à própria ideia de criança que então estava em processo, sempre através do filtro mediador do humor, que foi o que permitiu que se ouvisse em alto e bom som a até então calada voz infantes, ainda que esse som nos viesse sempre cheio de estranhamento e comicidade.
            Como epígrafe de um de seus primeiros livros sobre foniatria, o autor narra: 
  
(BLOCH, O problema da gagueira, 1958)
                    Julgamos que esta epígrafe sintetiza todo o seu projeto com os pequenos , afinal fazia parte da sua pedagogia não deixar de dizer a toda criança que encontrava “você é boa, bonita, inteligente porque sei o que uma observação assim significa para um ser que brota" (BLOCH, Você tem personalidade?,1974, p. 193), então é como se conseguisse enxergar em suas crianças – fossem pacientes, leitoras, personagens ou coautoras – algo precioso que só então estava se revelando e elas lhe chegassem  lindas, inteligentes, divertidas, com uma porção de significados desconhecidos que o levava a olha-la e dizer : Fala, agora! Por que não falas?  E em suas anedotas as crianças enfim falaram,  contando como era o seu maravilhoso mundo encantado, no qual os adultos ainda não haviam arriscado adentrar. " (RODRIGUES, Camila. Anedotas infantis de Pedro Bloch: Narrativas de história cultural do humor e da criança (1960 - 2002), p. 92)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

Mais um parágrafo do relatório final

MAIS UM PARÁGRAFO IMPORTANTE:

"Sublinhamos a atitude de Pedro Bloch como autor, pois ele, já na década de 1960, ao assumir a criança não apenas como personagem representada em suas narrativas, mas também como sujeito coautor delas, deixando que o mirim expresse sua voz via comicidade, faz do humor uma chave para uma melhor a compreensão do fenômeno infância, contribuindo assim para o desenvolvimento de uma nova sensibilidade em relação à criança e à infância, aproximando-se do que depois Raymond Williams denominaria como nova “estrutura do sentimento” (WILLIAMS, 1977, p. 150-8), o que é de grande interesse para a História Cultural." Camila Rodrigues ""Anedotas infantis de Pedro Bloch : Narrativas de história cultural do humor e da criança (1960 - 2002" 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

DROPS do RELATÓRIO FINAL DO PÓS DOC

Seleção de anedotários bloquianos que uso como uma das  fontes de pesquisa no pós-doc em História Cultural do Humor

DROPS RELATÓRIO FINAL - Pensando historicamente nos anedotários bloquianos:

"Em relação ao conteúdo, as anedotas, além de provocarem risos ou sorrisos, elas nos desenham diversificadas faces das vivências de crianças desde a década de 1960 até o decênio de 1990 e, de forma genérica, permitem que percebamos como os mirins, e também a consideração de como o que é ser criança, foi se transformando socialmente. 
Nos primeiros volumes encontramos ditos infantis em maior quantidade, na narração de sacadas e definições, enquanto que nos publicados já às vésperas do século XXI, observamos mais interferências e reflexões do autor sobre sua trajetória como pensador do universo infantil. "

Perceber esse tipo de mudança sutil faz parte do ofício do historiador de História Cultural, especialmente a do Humor, que lida diretamente com motivações emocionais dos agentes...

domingo, 29 de janeiro de 2017

terça-feira, 13 de setembro de 2016

Anedotas de Pedro Bloch e Guimarães Rosa


Guimarães Rosa era amigo, vizinho e leitor das anedotas infantis de Pedro Bloch, tanto que cita algumas no prefácio de seu livro Tutaméia (1967), introdudizo-as assim:

“deixemos vir os pequenos em geral notáveis intérpretes, convocando-os do livro ‘Criança diz cada uma!’, de Pedro Bloch”. Destas selecionei uma referente ao humor infantil:
“A RISADA. A menina – estavam de visita ao protético – repentinamente entrou na sala, com uma dentadura articulada, que descobrira em alguma prateleira: - Titia! Titia! Encontrei uma risada!” (ROSA, Guimarães. Tutaméia, 1967, p. 08-09).



segunda-feira, 1 de junho de 2015

Walter Benjamin e a infância rememorada


Como sabem e eu já tinha postado aqui, eu adoro as traduções de Benjamin de João Barrento, publicadas no Brasil pela editora Autêntica em volumes como este. Abaixo apresento um  aperitivo delicioso, onde adentramos aquele espaço cambiante das rememorações de infância de Benjamin e provamos o gosto agridoce, porém finalmente feliz, da lógica infantil :   
"BLUMESHOF 12
(95)"Não havia campainha com som mais agradável. Passado o limiar daquela casa, sentia-me mais protegido e aconchegado do que na dos meus pais. Aliás, o nome da rua não era “Blumes Hof”, mas Blume-zof’[1], /(96) e a casa era gigantesca flor de pelúcia que assim se abria como se saísse de um invólucro amarrotado. No seu interior estava sentada a avó, a mãe da minha mãe. Era viúva. Quem visitasse a velha senhora, na sua janela de sacada, atapetada, guarnecida de uma pequena balaustrada e dando para o pátio, dificilmente  poderia imaginá-la nas grande viagens marítimas ou mesmo em excursões ao deserto, que de tempos em tempos fazia,  através da agência de viagens “Stangens Reisendisi,”. De todas as casas de luxo que eu visitava, essa era a única com um  toque de grande mundo. Madonna di Campiglio e Brindisi, Westrland e Atenas e todos os outros  lugares de onde mandava postais  ilustrados – em todos eles a base das imagens ou se acastelava em nuvens no céu  mostrava-os de de tal maneira habitado por minha avó que ele se transformavam em colônias de Blumeshof. Quando , depois, a terra natal a a recebia de novo, eu pisava as tábuas do seu assoalho com tanto respeito que parecia que elas tinham dançado com sua dona nas ondas do Bósforo, e que  nos tapetes persa se escondia ainda a poeira de Samarcanda.
Que palavras poderão descrever o sentimento imemorial de segurança burguesa que irradiava dessa casa? O recheio dos meus muitos quartos não honraria hoje um ferro-velho. É que, embora os produtos dos anos setenta fossem muito mais sólidos do que os que vieram depois com a Arte-Nova[2], o seu toque  inconfundível estava na complacência com que abandonava as coisas ao correr do tempo e, quanto ao seu futuro, no modo como apenas confiavam na resistência do material e nunca em princípio de funcionalidade. Aqui, dominava  um tipo de móveis que, devido à persistência com qua acumulavam ornamentos de muitos séculos, respiravam confiança e durabilidade. A miséria não podia ter lugar nessas salas, por onde nem sequer a morte passava. Nelas , a morte não estava prevista. Por isso pareciam tão confortáveis de dia, e à noite transformavam-se em cenários de maus sonhos. A caixa da escada, quando entrava nela, surgia-me como lugar de um pesadelo que me fazia ficar de pernas pesadas e sem força, para finalmente me dominar por completo quando apenas alguns passos me separavam da almejada soleira. Tais sonhos eram o preço que  eu tinha de pagar pelo aconchego./
(97) A avó não morreu em Blumeshof. Na casa em frente morou durante muito tempo a mãe de meu pai, que era mais velha. Também ela não morreu ai. Assim a rua se me tornou uma espécie de Elísio,um reino de sombras de avós imortais, mas afinal desaparecidas. E como a fantasia, uma vez lançado o seu véu sobre a região, gosta que as suas margens se deixem enredar em estranhos caprichos, ela fez de uma mercearia próxima um monumento ao meu avô, que era comerciante, só porque o dono se chamava também Georg. O retrato de meio-corpo desse homem precocemente falecido cobria, em tamanho natural e fazendo par com o da mulher, a parede do corredor que levava às zonas mais recatadas da casa. As ocasiões mais diversas serviam para animá-las. A visita de uma filha casada fazia abrir uma sala com guarda-roupas há muito fora de uso; um outro quarto dos fundos recebia-me quando os adultos dormiam a sesta; de um terceiro vinha o matraquear da máquina de costura nos dias em que a modista ia na casa. A mais importante dessas divisões das traseiras era para mim a loggia, ou porque, por estar mais modestamente mobiliada, não era muito apreciada pelos adultos, ou porque aí chegava, abafado, o ruído da rua, ou então porque ela me permitia  ver os outros pátios, com os seus porteiros, as crianças e os homens do realejo. Aliás, eram mais vozes que figuras o que se distinguia dessa varanda.  O bairro era fino, e nos seus pátios nunca havia muita alfazema; alguma coisa da serenidade dos ricos, para quem o trabalho aí era feito, tinha passado para eles, e em toda semana havia alguma coisa de domingo. Por isso o domingo era o dia da loggia . O domingo de que os outros quartos, que eram como que defeituosos, nunca se apercebiam, porque ele passava por eles e escoava-se- só a  loggia, que dava para o pátio com as armações de bater os tapetes e as outras varandas, o apreendia, e nenhuma das vibrações do repicar dos sinos vindas das igrejas dos Doze Apóstolos de S. Mateus dela se desprendia, ficando, pelo contrário, aí acumuladas até a noite.   
Os quartos dessa casa não eram apenas muitos, alguns deles eram também muito espaçosos. Para dar um bom-dia à avó na sua varanda, onde, ao lado da caixa de costura, ela tinha sempre ou fruta ou chocolates, eu tinha de atravessar  a enorme sala de jantar e a sala que dava para a varanda. Só no dia de Natal se via para que serviam aquelas salas. As longas mesas onde eram colocados os presentes estavam repletas, porque eram muitos os que os iam receber.[cr1]  Os lugares estavam muito (98) apertados, e não havia a garantia  de não  perder o lugar  quando à tarde, depois de terminada a refeição principal, era preciso pôr mais um lugar para um velho criado ou para o filho do porteiro.Mas essa ainda não era a grande dificuldade do dia;  essa chegava no princípio, quando  se abria a porta  de  dois batentes . Ao fundo da grande sala refulgia a árvore. Nas grandes  mesas  não havia um espaço livre, sem ter pelo menos um prato colorido com marzipã e ramos de abeto a chamar por nós; e  muitos deles acenavam brinquedos e livros. O melhor era não lhes dar demasiada atenção.  Eu poderia ter estragado o meu dia se me fixasse  precipitadamente  em  presentes que depois teriam noutros seu legítimo proprietário. Para fugir a isso, ficava especado na soleira, com um sorriso nos lábios; e ninguém seria capaz de dizer se ele era suscitado  pelo brilho da árvore ou pelo dos presentes que me estavam destinados e dos quais eu, completamente fascinado, não ousava aproximar-me. Mas por fim acabava  por ser uma  terceira coisa que determinava meu comportamento, mais profunda do que minhas pretensas ou autênticas razões. De fato,  por enquanto os presentes pertenciam ainda mais a quem os dava do que a mim.  Eram frágeis e eu tinha medo  de lhes tocar desajeitadamente à vista de todos. Só lá fora, no vestíbulo, onde a criada as embrulhava e fazia  desaparecer  em trouxas e caixas, deixando-nos o seu peso como caução, nós estávamos seguros das nossas novas posses.
Isso só acontecia muitas horas depois. Quando então, com as coisas bem embrulhadas e atadas debaixo do braço, saímos para o lusco-fusco, a tipoia nos esperava à porta da casa e a neve repousava intacta sobre as cornijas e vedações, mais suja no pavimento, se ouvia o tilintar de um trenó do lado da Lützowufer, e os candeeiros a gás, acendendo-se um após o outro, denunciavam o caminho do funcionário que os ascendia e que até nessa noite  dos doces tinha de pôr  a vara ao ombro – então, a cidade ficava tão mergulhada em si  mesma quanto um saco cheio de mim e da minha felicidade.  "
 BENJAMIN, Walter. "BLUMESHOF 12". In: Rua de mão única e Infância berlinense:1900. Trad. João Barrento. Belo Horizonte: Autêntica, 2013, p. 95-8. (Notas da edição brasileira e grifos meus)
[1] A primeira leitura, Blumes-hof, significaria “Pátio de Flores”, e corresponde ao verdadeiro nome da rua; a segunda, Blume-Zof(e), é uma corruptela com o significado de “Dama da Flor”, mais condizente coma imagem da avó que é dada a seguir.
[2] Jugendstill, verso alemão do estilo Art Nouveau. 


domingo, 28 de outubro de 2012

Partimpim Tlês - Release


Adriana Partimpim voltou a gravar um CD (oba!) e agora, ao contrário do que aconteceu no PARTIMPIM DOIS, ela não cresceu, mas diminuiu ! Aqui vai o release do trabalho, que eu baixei do seu site: divirtam-se:

Um, dois, tlês e...
Por Leonardo Lichote.


Partimpim mostra a mão, três dedos para cima, polegar e indicador juntos fazendo um círculo. É o sinal de ok. É o três. É seu terceiro disco. Na língua de criança que ainda não domina os erres e eles do mundo adulto – e assim os reinventa, provocadora -, ela diz “Tlês”.
“Tlês”, dito assim, é fala de gente muito pequena. Partimpim vem da densidade (infantil, mas densa) de “Dois” - com seu “Alexandre”, seu “Trenzinho do caipira” –, um claro amadurecimento da menina esperta que aparecera no disco de estreia, em 2004. Estaria Partimpim agora, portanto, regredindo, desamadurecendo? Nada. Sua lógica é outra, seu espaço-tempo tem regras próprias. Adriana Calcanhotto, alter-ego mais comportado de Partimpim, é quem dá o diagnóstico certeiro:
- Ela encolheu.
Isso. Como Alice, como a carruagem que virou abóbora depois da meia-noite, como um príncipe enfeitiçado por bruxa, como a molecada de “Querida, encolhi as crianças”. Partimpim agora canta canções em tom menor – licença ao maestro, a conversa não é de teoria musical, ou seja, tom menor aqui é menor de encolhido. Tão encolhido que a Partimpim de “Tlês” mede poucos centímetros, como aparece na foto da capa do CD, em sua encarnação atual, como boneca.
Menor, mas sem tatibitate. “Tlês” carrega a mesma sofisticação musical e poética de seus antecessores. Na superfície de suas 11 faixas, um apelo direto aos pequenos, sensorial, em seus arranjos lúdicos. Descendo uma camada, uma palavra estranha aqui ou um timbre inesperado ali acendem a luz de alerta nos ouvintes, aguçam a curiosidade, o comichão de entender o porquê daquele som, daquele verso (“Por que os peixes falam francês, não alemão?” é apenas uma das charadas do CD). Indo mais fundo, os mais velhos perceberão o diálogo sagaz entre as versões de Partimpim e as originais de Chico Buarque ou Jorge Ben Jor ou Dorival Caymmi. E assim, camada a camada, se penetra até chegar a leves reflexões filosóficas para todas as idades – sobre a vida, sobre a infância e sobre a música brasileira, sua tradição e como Partimpim, brincando, entra aí.
“Filosófica”, “tradição”, “sofisticação”, “diálogo”... Melhor dar o play. Na primeira vez, por favor, sem o shuffle, porque mesmo a anárquica Partimpim sabe que, nas horas certas e em certas horas, alguma ordem faz bem.
***
Antes, porém, uma pausa para que se entenda como as coisas foram dar no “Tlês”:
Calcanhotto estava em turnê com o show de “Micróbio do samba”. Em julho, Domenico Lancellotti, baterista da banda, tirou uma licença, e a artista, longe dos palcos, resolveu entrar em estúdio com algumas ideias que há um tempo já circulavam em sua cabeça para o novo CD de Partimpim. Em outubro de 2011, o nome “Tlês” já se anunciara a ela. Havia canções que Calcanhotto pensava para Partimpim desde o primeiro CD, como “Taj Mahal”, “De onde vem o baião”, “Acalanto”. Outras novas surgiram - como “Salada russa”, letra que Paula Toller deu a ela numa noite, ela musicou na manhã seguinte e gravou de tarde (“É a primeira vez que fiz algo assim, nem sabia que isso existia”, brinca).
- O disco acabou ficando num equilíbrio entre, de um lado, um universo fantasioso, de histórias para dormir, canções de ninar, e do outro lado essas músicas que queria trazer para a Partimpim, esses ready-mades, músicas que têm apelo para crianças mas que hoje estão em outros contextos – diz, trazendo para perto o conceito de Marcel Duchamp e sugerindo chaves para se entrar na cabeça de Partimpim.
Uma das ideias iniciais era fazer o disco com poucos elementos. Mas, com os músicos soltos livremente no estúdio Monoaural, não demorou muito para que as regras fossem diluídas:
- Num primeiro momento, pensei numa coisa pouca, três guitarras e só. Mas não adianta, quando você junta os músicos, sai do controle. O Alberto (Continentino, baixista do “Micróbio”) já foi para o mais grave, pegou a guitarra barítono. Os músicos amigos começaram a querer tocar, Kassin, Berna... O Rodrigo (Amarante) que ia tocar numa faixa acabou voltando em várias. Então vi que não tinha porque parar isso e me prender na ideia de três guitarras. A primeira canção que se gravou foi “Taj Mahal”, que começou nesse espírito mais vazio, mas virou outra coisa.
 Além dos citados Alberto, Kassin, Berna e Amarante, o núcleo musical do disco inclui Domenico, Moreno Veloso, Pedro Sá e Davi Moraes. Ao lado dos convencionais baixo, piano e guitarra (que muitas vezes soam nada convencionais), eles seguem a onda brincadeira-experimentalismo de Partimpim. Basta ler a ficha técnica: estão listados lá instrumentos como “moeda no captador de guitarra”, “onça”, “parede e coxa”, “desentupidor de pia no prato com água”. Sem contar os sintetizadores mil.
Barulhos inclassificáveis à parte, esse é talvez o disco em que Partimpim mais se aproxima de uma sonoridade do pop contemporâneo. Partimpindie.
***
Agora sim, o play. Na ordem.
“Salada russa”, a parceria com Paula Toller, abre o CD com uma lista de coisas que tem o nome “geograficamente errado” (“O queijo de Parma vem de Minas/ A vagem francesa de Campinas”). Quando o adulto pensa que pegou a lógica, ela conclui com uma rasteira: “Cachorro quente de Cabo Frio”.
“Taj Mahal” evoca no sintetizador com timbres retrô um passado futurista que nos lança nas mil e uma noites de Ben Jor. A mais linda história de amor que o compositor anuncia que vai contar nunca é contada, se desfaz em “tetê-teteretê”. Cada um cria a sua narrativa, portanto, “a gente mesmo faz”, como o Parangolé Pamplona (“É o Parangolé Mahal”, brinca Calcanhotto). Curiosidade: em vez de “tetê-teteretê”, Partimpim canta “dedê-dederedê”.
- Ouvi uma gravação de Ben Jor assim no YouTube, no “Acústico” da MTV. Achei que “dê” era mais “Tlês”, mais macio, que “tê” – explica Calcanhotto.
 “Lindo lago do amor”, de Gonzaguinha, é a primeira das muitas canções com bichos do disco, introduzindo uma atmosfera de fábula que atravessa o álbum. Timbres aquáticos mágicos – ouça e entenda. É uma das que Calcanhotto imaginava para Partimpim desde sempre.
“O pato”, de Jayme Silva e Neusa Teixeira, tornado clássico em gravações como a de João Gilberto, traz Adriana fazendo a voz de pato com o auxílio do pistom cretino, instrumento criado por Walter Smetak - músico, escultor, mago inventor de instrumentos musicais personalíssimos, mestre de tropicalistas como Tom Zé e Gilberto Gil. A faixa tem um caráter quase didático.
- Aquele “quen quen, quen quen” (canta, reproduzindo a o balanço sincopado dos grasnados), se você entende isso você entende o que é o samba ‑ diz Calcanhotto.
“Criança crionça”, de Cid Campos e Augusto de Campos, é introduzida pelo ronco de uma onça (espécie de cuíca bem mais grave) tocada por Domenico. Em torno da onça (o instrumento), constrói-se o arranjo sertanejo-erudito-experimental (com viola caipira, violoncelo e guitarras). E contrói-se também a história da onça (o bicho) que desonça ao dançar certa dança e dispensa sua comilança, para descanso dos outros bichos da floresta. É uma delícia de ouvir o desfiar da trama repleta de anças, ensas e, claro, onças. É a terceira vez que Partimpim bebe em Cid e Augusto (no CD de estreia, havia “Canção da falsa tartaruga”, e no “Dois”, “Alface”).
“Por que os peixes falam francês?”, de Alberto Continentino e Domenico, trafega na mesma seara mágica-aquática de “Lindo lago do amor”, mas de forma mais etérea, com sintetizadores flutuantes, cantos de baleia e desentupidores. A canção faz parte da trilha da peça “O menino que vendia palavras”, na qual aparece em outra gravação, também com Partimpim.
Em “Passaredo”, de Francis Hime e Chico Buarque, Partimpim lista os pássaros da floresta como se estivesse cumprimentando-os, saltitando pela floresta ao ritmo da guitarra marcada e das flautas. O mesmo espírito leve atravessa o refrão (“O homem vem aí”), que não traz a tensão alarmista da gravação original.
- Talvez tenha pensado que esse “o homem vem aí” mais tenso era algo datado, pré-ecologia como a entendemos hoje – explica a artista. – E quis botar flautas, claro. Felipe Pinaud foi tão passarinho!
“De onde vem o baião”, de Gilberto Gil, completa a aula iniciada em “O pato”, no curso de música-brasileira-em-duas-lições:
- Concordo com Gil, que diz que o que não é samba é baião ‑ cita Calcanhotto.
A presença do fraseado de guitarra paraense de Davi, o prato-e-faca do Recôncavo de Moreno, tudo abençoado pela o sample da voz de Gonzagão (“‘Vamos remelexendo’, que ele fala na música, é o mote desse disco”, brinca Calcanhotto) reafirma, na prática, o pensamento de Gil.
- Em meio a tantos bichos do disco, essa é a canção do humano – avalia Adriana, que revela outra música de Gil que está desde sempre na cabeça de Partimpim. – Queria fazer “Buda nagô” (sobre Dorival Caymmi). Quando falei com Gil, ele disse: “você tem razão, é uma música infantil”.
É de Caymmi “Tia Nastácia”, da trilha do “Sítio do Picapau Amarelo”, de 1977. A história do sinhozinho branco que busca o colo quente e as palavras da velha negra soa mais potente hoje, com o debate recente sobre o racismo de Monteiro Lobato e a entrada em cena da obra-prima “Sinhá”, de João Bosco e Chico Buarque, que trata das relações de opressão e afeto entre negro e branco que formaram o povo brasileiro.
- “Tia Nastácia” tem a ver com as coisas de que falo no “Tlês”, é uma canção linda  explica Calcanhotto. - Mas mais que isso é uma forma de tocar no assunto do Lobato, algo que queria fazer. E da maneira como a letra faz, falando de tantos sinhozinhos, de tanta gente branca que foi criada e amamentada por Tias Nastácias... É Gilberto Freyre em sua glória.
“Também vocês”, inédita parceria de João Callado e Partimpim, é canção de ninar para criança cantar para adulto. Adriana leu em textos de Luís Fernando Veríssimo referências a monstros debaixo da cama e fez versos, como explica na dedicatória, para sua netinha Lucinda cantar para ele não ter medo. Neles, depois de pôr os monstros para dormir, Partimpim ensina aos mais velhos lições como “Nunca dizer nunca” e “Gostar de gostar”.
“Acalanto”, também de Caymmi, fecha o disco. A música que Dorival fez para ninar Nana, afirma-se por sua doçura e por sua força de canção de ninar definitiva da música brasileira – por Caymmi, por Nana, pela proximidade com o terreno atemporal do folclore de “Boi da cara preta”. Guitarras e barulhinhos carregam a canção na ponta dos dedos. Alice Caymmi, neta do compositor, faz contracantos que sintetizam todo o clã Caymmi em si, sobretudo a tia Nana, num diálogo de gerações que tece todo o disco – a presença de Moreno evocando Santo Amaro ancestral e o Rio contemporâneo, Davi e seu berço Novos Baianos, Gonzagão e Gonzaguinha, o coro com os netos de Chico, Moraes Moreira, Vinicius e os filhos de Domenico e Kassin...
- É um emaranhado que tem mais a ver com ideia de trama, teia, do que com o conceito de linha evolutiva. Reflete mais como as coisas são na música, a meu ver - diz a artista.
E silêncio. Partimpim vai dormir e continuar o sonho. Até alguém dar play e começar tudo de novo, talvez agora com shuffle, porque surpresa também é terreno dela.

Assessoria Adriana Partimpim / Factoria Comunicação
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terça-feira, 10 de julho de 2012

É CENOURA?!

Outro dia eu estava comendo um saquinho destes no ponto de ônibus em frente ao Departamento de  História na FFLCH, quando uma mulher me abordou com muito estranhamento e certa cara de nojo:
 "Nossa, pensei que ISSO que você está comendo era salgadinho, mas É CENOURORA?" KKKKKKK achei bizarro demais! Parecia que eu estava chupando limão! kkkk

Eu ainda disse: "Sim, é cenoura, é lanchinho de criança, bem docinha", mas não convenci a mulher, que continuou me olhando como se eu fosse marciana! rs