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sexta-feira, 1 de maio de 2026

"O CASTELO ANIMADO", o Dark do Ghibli?

 


O CASTELO ANIMADO (2004) é uma animação de Hayao Miyazaki inspirada no romance homônimo da escritora britânica Diana Wynne Jones. Produzido pelo Studio Ghibli, o filme é uma das obras mais aclamadas do estúdio, sendo indicado ao Oscar de Melhor Animação e celebrado mundialmente por sua riqueza visual , filosófica e poética. Conta a história de Sophie, uma jovem transformada em idosa por uma maldição, que acaba encontrando abrigo no misterioso castelo ambulante do mago Howl, um homem lindo, onde se vê diante de questões envolvendo magia, guerra, identidade e amor.
Apesar da tradução ruim do título (Castelo Movente seria melhor), assisti ontem e fiquei maravilhada pela beleza estética e pela profundidade  existencial. A  presença da magia oferece uma sensação de movimentação temporal: repentinamente, Sophie é jovem, vira idosa e torna a ser jovem novamente, bastando sofrer alterações internas. Parecia um episódio de Dark, só que animado por Miyazaki! Com bruxas, fadas e demônios, cada um com sua carga simbólica bem robusta, típica do diretor. O  filme explora  voos e deslocamentos: tem aeroplanos, portas e portais para outros tempos (de novo Dark na minha mente) e dimensões. Um possível spoiler: quando acabou, o fim me levou a perguntar se, na cena em que Howl conhece Sophie no começo, ele  é desconhecido para ela, mesmo assim, o jovem  logo diz que a estava procurando fazia tempo. Não seria porque, como ficamos sabendo no final, ela já teria visitado seu passado? Talvez já fosse sua conhecida de lá! Mais Dark que isso, muito difícil 🤣😂
Mas achei belíssimo, romântico, engraçado... tudo de bom. Viva Miyazaki ❤️

terça-feira, 7 de abril de 2026

DARK : O inimigo é o tempo

 

 

DARK — Terminei de assistir a serie alemã e pirou meu cabeção!. Apesar do tema viagem no tempo ser muito batido, definitivamente ela se destaca. Passando-se em uma cidade alemã fictícia, onde está instalada uma usina nuclear, a história começa em 2019, quando o jovem Jonas tenta se recuperar da morte do pai, que se enforcou, enquanto outros garotos desaparecem, o que dá o mote para investigações nesse e em outros tempos.

Primeiro, um comentário técnico: que fotografia perfeita. Acompanhando o clima de tensão da série, é tudo sempre muito escuro: usina nuclear, bunker, floresta, cavernas... e chove tempestades na maior parte do tempo. Para completar a ambientação,  uma atenção uma trilha sonora incidental precisa, que imita discretamente uma sirene, nos fazendo lembrar que estamos perto da usina.

Foto da tela :"O homem pode,  de fato, fazer o quer, mas não pode querer o que quer"
Uma epígrafe 

Sobre a série em si, não esperem que eu faça nenhum comentário “explicativo”: há gente que está vendo há anos e ainda tenta entender. É que a ideia é muito boa, sustentada por teorias da física e da filosofia (alemães, né?), para colocar o Tempo como o vilão da trama. Claro que me lembrei da minha dissertação de mestrado sobre a negação do tempo e da história em Tutameia, de Guimarães Rosa. Muitos símbolos, muitas ideias. 

Ele não é citado na série, mas me lembrei muito da Wakter Benjamin assistindo.  Especialmente do conceito de Jetztzeit : o passado irrompe no presente como um relâmpago e ilumina presente passado futuro por alguns segundos.

Mais a cara de Dark que isso não há!

A  série é boa de assistir? Depende muito do tipo de espectador que você é. Como é labiríntica, digamos que não é só entretenimento: é preciso prestar muita atenção para tentar entender a trama, a árvore genealógica e, mesmo assim, toda hora nos perguntamos, junto com os personagens, muitas vezes tão perdidos quanto nós: “o que é isso?”, “quem é esse?” e, sobretudo, “quando foi isso?”.

Como história bem contada, tem muitas referências, como o teatro, o mito de Ariadne e cientistas, além de inúmeros detalhes. Soma-se a isso o fato de que todo mundo tem a mesma cara (alemães iguais) e cada personagem tem sua versão jovem, adulta, idosa e até em outra dimensão, e a cada momento estão em um tempo diferente. É muito bom para se confundir!

Como eu maratonei as três temporadas seguidas e, mesmo assim, me confundi, imaginei como foi assistir em tempo real, esperando dias, meses ou até um ano para a continuação. Dureza...

Mas é muito boa. Uma das melhores surpresas que o streaming me ofereceu!


quarta-feira, 29 de novembro de 2023

Tempo literário

 
Meu livro de novembro 2023

SEM TEMPO, IRMÃOS: Lendo o livro de contos de Lygia Fagundes Telles (minha contista brasileira favorita) penso como cada pedacinho daqueles é,pode ser, um mundo que exige tudo de mim, percebo que não tenho tempo para informações que só me desconcentram. Guimarães Rosa estava certo, o tempo literário  não é o cronológico, informativo. Literatura é muito maior e é dela que preciso.

sábado, 4 de novembro de 2017

Rappa Mundi, 20 anos depois


Ganhei esse disco quando completei 18 anos, há 20 anos e ouvido hoje percebo que ele  continua DEMAIS! É um disco para ouvir inteirinho, ainda agrada do começo ao fim.  Ouvindo todo eu percebendo que as críticas sociais continuam valendo tanto quando há 20 anos : a miséria da mendicância, o racismo, a violência do uso de armas... se fosse um disco lançado hoje, estaria super atual. Raridade isso!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Tempo e Quintana


"A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo…
Quando se vê, já é 6ª-feira…
Quando se vê, passaram 60 anos…
Agora, é tarde demais para ser reprovado…
E se me dessem – um dia – uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre, sempre em frente…

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.“

Mário Quintana, “Seiscentos e Sessenta e Seis

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O tempo nos Cadernos Manuscritos de Guimarães Rosa

 
Um pedaço da minha tese onde eu trato do tempo nos Cadernos Manuscritos de Guimarães Rosa  :
 
"Destaca-se nesse material, especialmente para nós que desejamos repensar os questionamentos da História ali executados, que, tal qual acontece na experiência vocal, o tempo cronológico não é decisivo ali: na maioria dos Cadernos não encontramos nenhuma data, embora esses documentos, ainda assim, possuam sua historicidade . De qualquer forma, também é possível localizar neles algumas sutis marcas temporais, como quando Guimarães Rosa cita a neta Ooó (Vera Tess) ou algum dos textos que escreveu para a revista Pulso, indicando que aquelas inscrições foram feitas por volta da década de 1960, período no qual o autor contribuiu para tal periódico. Mas esse tipo de referência não cristaliza o tempo no manuscrito: não podemos dizer, por exemplo, que todo ou parte do Caderno no qual a data aparece foi preenchido naquele mesmo período, porque não podemos nos esquecer de que, na verdade, estamos defronte de um manuscrito literário e que seu tempo é aquele não linear da criação. Como o escritor possuía grande quantidade de Cadernos e poucos foram preenchidos até a última página, podemos cogitar que eles não eram usados de forma contínua, mas sim que seu emprego obedecia a alguma regra de utilização que desconhecemos. É justamente por causa de tal indeterminação temporal do manuscrito que é possível que coexistam ali as várias temporalidades distorcidas do processo de criação: a de quando a enunciação vocal foi ouvida, a de quando o autor a registrou, a de quando ele a reenunciou; a de quando ela foi revisada; e a de quando foi reinventada pela escritura."
 

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O luto lento


Não faz nem um mês ainda, mas foram tantos os acontecimentos que parece que só agora eu eu vou realizando a perda definitiva do meu pai e estou entrando nessa realidade ... e sinto o luto como o Miguilim sentiu o de Dito, porque o meu Rosa sabia das coisas:
Quando chegava o poder de chorar, era até bom - enquanto estava chorando, parecia que a alma tôda (sic) se sacudia, misturando ao vivo tôdas (sic) as lembranças, as mais novas e as muito antigas.Mas, no mais das horas, êle (sic) estava cansado. Cansado e como que assustado. Sufocado. Êle (sic) não era êle (sic) mesmo. Diante dêle (sic),as pessoas, as coisa s , perdiam o pêso (sic) de ser. "
 João Guimarães Rosa, Campo Geral, p. 79.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

Passeios pela infância, com Walter Benjamin

Neste livro, em uma tradução e seleção diferente, eu achei neste livro outros flagras do que Walter Benjamin pensava sobre infância:


Belas imagens como :

"Como uma mãe que aperta ao peito o recém-nascido sem o acordar, assim a vida trata durante muito tempo a recordação ainda tênue da infância." (Walter Benjamin, Varandas. In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento, p. 70.)

Ou mesmo :

"Todo mundo têm uma fada a quem podem pedir a realização de um desejo. Mas só poucos são capazes de se lembrar do desejo que formularam; e por isso só poucos reconhecem mais tarde, ao longo da vida, que o seu desejo foi satisfeito. (...) " Walter Benjamin, Manhã de inverno.In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento,  p. 82-3. 

Inclusive, sobre esta imagem, achei neste link uma figura com ele todinha :


 E, voltando ao livo,  pude reler uma das mais belas :
Walter Benjamin, A Meia.In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento,  p. 101.

Na minha opinião esta é uma das  imagens mais sublimes de Benjamin:
"nada me dava mais prazer do que enfiar a mão por elas adentro, o mais fundo possível. Não o fazia para lhes sentir o calor. O que me atraia para aquelas profundezas era antes 'o que eu trazia comigo', na mão que descia ao seu interior enrolado... "

Bela, cotidiana, sensual, literária,poética,  histórica, psicanalítica, filosófica, infantil... tudo isso que Benjamin via onde muitos de nós enxerga só uma criança e seus afazeres...  
Na minha opinião esta é uma das  imagens mais sublimes de Benjamin:

"nada me dava mais prazer do que enfiar a mão por elas adentro, o mais fundo possível. Não o fazia para lhes sentir o calor. O que me atraia para aquelas profundezas era antes 'o que eu trazia comigo', na mão que descia ao seu interior enrolado... "

Bela, cotidiana, sensual, literária,poética,  histórica, psicanalítica, filosófica, infantil... tudo isso que Benjamin via onde muitos de nós enxerga só uma criança e seus afazeres...  

Mas como Benjamin não para de abrir caminhos para pensar o tempo e a criança (em outras palavras, em História e Infância), vou lendo e garimpando preciosidades como esta descrição de um adulto do seu sentimento ao ter sido uma criança constantemente doente:
Walter Benjamin, A Febre.In:Infância berlinense 1900, trad João Barrento,  p. 88. 

Como vimos no trecho acima, quando fala da infância,Benjamin é  profundamente proustiano ao abrir seu  repertório de sensações. Neste, talvez o  diálogo mais direto seja com Henri Bergson e a ideia de tempo como  duração (durée), e portanto uma dialética com o espaço e as atuações cotidianas...

Só uma pergunta: dá para não amar? 

terça-feira, 13 de março de 2012

Sobre o Tempo


"O tempo não exite em si, afirma Norbert Elias - não é nem um dado objetivo, como sustentava Newton, nem uma estrutura a priori do espírito, como queria Kant. O tempo é antes de tudo um símbolo social, resultado de um longo processo de aprendizagem. Nesta vasta exploração da experiência do tempo ao longo das eras, Norbert Elias nos convida a refletir sobre um aspecto fundamental do processo civilizador." Comentário da segunda capa do livro.
ORA, 'REFLETIR SOBRE A EXPERIÊNCIA DO TEMPO' NÃO É (OU DEVERIA SER) TAREFA PRINCIPAL DO OFÍCIO DO HISTORIADOR? LOGO AQUI ESTAMOS FALANDO DE HISTÓRIA PURA, OU NÃO?

sábado, 9 de julho de 2011

A ESCRIVANINHA

O médico achou que eu era míope. E me prescreveu não só óculos, mas também uma escrivaninha. Era engenhosamente construída. Podia se deslocar o assento de modo que ficasse mais próximo ou mais afastado da prancha inclinada, onde se escrevia. Além disso, havia uma trave horizontal no espaldar, que dava apoio às costas, sem falar de um pequeno suporte de livro removível e que coroava o conjunto. Essa escrivaninha junto à janela logo se tornou meu recanto favorito. O pequeno armário oculto sob o assento continha não só os livros de que eu precisava na escola, mas também o álbum de selos e outros três ocupados pelos cartões-postais. E no gancho firme da lateral da escrivaninha ficavam pendurados, ao lado da madeira, não só minha pasta, mas também o sabre do uniforme de hussardo e o tambor de herborista. Frequentemente, ao voltar da escola, a primeira coisa que eu fazia era festejar meu reencontro com a escrivaninha, ao mesmo tempo em que já a transformava no palco de uma de minhas ocupações prediletas – a decalcomania, por exemplo. Num instante, no lugar antes tomado pelo tinteiro, surgia uma xícara de água morna, e eu começava a recortar as figuras. Quanto me prometia o véu atrás do qual me fitavam das folhas dobradas e dos cadernos! O sapateiro inclinado sobre as encóspias e as crianças sentadas nos galhos da árvore colhendo maçãs, o leiteiro diante da porta com a soleira coberta de neve, o tigre que se dobra para saltar sobre o caçador, cuja espingarda acaba de detonar, o pescador na relva diante de um riacho azul e a classe atenta ao professor que ensina algo no quadro-negro, o farmacêutico à entrada de sua loja bem sortida e cheia de cores, o farol com o veleiro em frente – tudo isso era coberto por um sopro de névoa. Porém, quando, suavemente iluminadas, repousavam na folha de papel; quando a grossa capa saía em rolinhos delgados sob a ponta de meus dedos que, cautelosamente, girando, esfregavam e raspavam seu reverso;quando, por fim, a cor despontava, doce e íntegra, do reverso fendido e esfolado, era como se irrompesse sobre a turva manhã de um mundo descolorido o sol radiante de setembro, e todas as coisas, ainda umedecidas pelo orvalho que refrescava no crepúsculo, ardessem agora com a chegada de um novo dia da Criação. Embora, afinal, eu me fartasse também daquele passatempo, era assim que sempre encontrava um pretexto de adiar os deveres de casa. Era com prazer que revia velhos cadernos, dotados agora de um valor especial, que era o de eu tê-los resgatado do domínio do professor, que teria direito sobre eles. Agora deixava o olhar recair sobre as correções ali registradas em tinta vermelha, e um prazer sereno me tomava. Pois, assim como os nomes dos mortos gravados nas sepulturas já não podem ser úteis ou prejudiciais, ali estavam notas que haviam entregado todo seu poder a outras mais antigas. Com outro espírito e com a consciência mais tranquila eu podia perder horas na escrivaninha tratando dos cadernos e dos livros escolares. Os livros exigiam capa feita de papelão azul, e quanto aos cadernos, o regulamento insistia que a cada um se juntasse o respectivo mata-borrão de forma que este não se perdesse. Para esse fim havia pequenos cordéis que se vendiam em todas as cores. Prendiam-se esses cordõezinhos na capa de cada caderno e no mata-borrão por meio de obreiras. Se quiséssemos obter uma riqueza cromática, poderíamos forjar arranjos variados, dos mais sóbrios aos mais vistosos. Assim, aquela escrivaninha guardava, sem dúvida, certa semelhança ao banco escolar, mas sua vantagem era que nela eu ficava protegido e dispunha de espaço para esconder coisas de que ele não devia saber. A escrivaninha e eu éramos solidários frente a ele. E mal me havia recuperado após um aborrecido dia de aula, ela já me cedia novo vigor. Eu podia me sentir não só em casa, mas também numa cela como a daqueles clérigos que se veem nas iluminiras medievais, ora em seu genuflexório, ora em sua mesa de trabalho, como se estivessem dentro de uma couraça. Nesta cela comecei a ler Dédito e crédito, Duas cidades. Buscava a hora mais calma do dia e esse lugar, o mais isolado de todos. Então, ao abrir a primeira página, sentia-me tão solene como quem pisa num novo continente. De fato, tratava-se de um novo continente, no qual a Criméia e o Cairo, a Babilônia e Bagdá, o Alasca e Taschkent, Delfos e Detróit, se comprimiam uns sobre os outros tão compactamente como as medalhas douradas das caixas de charuto de minha coleção. Nada mais reconfortante do que permanecer assim cercado por todos os instrumentos de minha tortura – vocabulários, compassos, dicionários – num lugar onde de nada valiam suas reivindicações.

BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas II- Rua de mão única. São Paulo: Brasiliense.1995.Pp.118-120

domingo, 27 de dezembro de 2009

Caleidoscópio





"A gente bota essas experiências fortes de lado, mas elas ficam acontecidas dentro da gente; e os fragmentos delas formam um novo desenho lá no fundo do nosso caleidoscópio. Um caleidoscópio que o Tempo vai virando. Só que no nosso caleidoscópio as imagens viradas -mesmo parecendo que nunca mais vão voltar,acabam aparecendo de novo - porque a gente não deixa de se cada desenho que criou. "

Lygia Bojunga Nunes :Apud CORTEZ, Mariana. Palavra e imagem: Diálogo intersemiótico

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

GUIMARÃES ROSA: TRADIÇÃO DA RUPTURA?

A idéia famosa desenvolvida no texto "Tradição da ruptura",de Octávio Paz, aponta a modernidade como um tempo só possível de tratar se partirmos do paradoxo, que é o seu cerne! Nas palavras de Paz, entendemos melhor que, para ser moderno:

"Basta con que se presente como una negación de la tradición y que nos proponga otra. Ungido por los mismos poderes polémicos que lo nuevo, lo antiquíssimo no es un pasado: es un comienzo. La pasión contradictoria lo resuscita, lo anima y lo convierte en nuestro contemporáneo." [Octavio PAZ. Los hijos del limo. P. 21]

Poxa, isso parece ser interessante, não é? Alguns não gostam da idéia (como o professor que ministou o curso que eu fiz sobre poesia mexicana), mas para mim - que estudo Guimarães Rosa a partir da História - é absurdamente genial.Isso porque Rosa declarou a seu mais conhecido entrevistador :

“Não sou um revolucionário da língua. Quem afirme isto não
tem qualquer sentido da língua, pois julga segundo as aparências. Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem.” [Günter LORENZ. Diálogo com Guimarães Rosa.P. 84]

Segundo Paz, pontos de vista como este são possíveis no contexto da modernidade porque este fenômeno histórico provocou tamanha aceleração do tempo histórico que a sua concepção de tempo assumiu outra configuração, onde não havia mais passado, presente e futuro perfeitamente definidos, mas sim uma unidade de tempo onde estas categorias borravam-se freqüentemente.

É por isso, talvez, que Paz, em "Signos em rotação", sentiu-se à vontade em defender idéias como a de que

"Nossa atitude diante da vida não está condicionada pelos fatos históricos, ao menos da maneira rigorosa com que, no mundo da mecânica, a velocidade ou a trajetória de um projétil encontra-se determinada por um conjunto de fatores conhecidos totalmente, pois mudança e indeterminação são as únicas constantes de seu ser - também é história." [P. 249]

Pois é, camaradas, meu mestrado defende essse tipo de idéia, que é algo muito diferente (disse diferente, nem melhor, nem pior...) do que muitos intérpretes do "conteúdo histórico" nas obras literárias fazem...Se pensarmos na crítica de Rosa então - na qual jagunços já foram interpretados como alegorias de grandes personagens históricos, por exemplo- qualquer coisa que eu falar, mesmo tendo um cabedal de peso me ancorando, vai ser meio que cutucar as onças...