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quinta-feira, 29 de junho de 2023

SUSPIROS: Fim de junho e o retorno aos mitos dos orixás

 

SUSPIROS: 2023, para mim, está sendo um ano marcado por pai Oxósssi. Lembrando uns itans  (mitos orais) que ouvi na vida, é comum que Oxum e Oxóssi sintam atração um pelo outro, mas nenhum dos dois sustenta isso por muito tempo: Odé se ocupa nas matas e  Oxum não aguenta a solidão da espera e segue outro caminho. Na vida "real" ficam  as marcas : umas frases, fotos, canções e, citando "Memorial do Convento" a obra prima de Saramago, algum SUSPIRO "como de quem nasce ou de quem morre", em um movimento de morte e renascimento sem fim. Quem sabe um dia pai Oxósssi e mãe Oxum se reencontrem nos meus  sonhos. Quem sabe...

terça-feira, 23 de agosto de 2022

História da feitiçaria e literatura

 


No começo da minha vida de pesquisadora, fiz um inusitado (para a época)  trabalho sobre o Portugal do século XVIII retratado no esplêndido romance "Memorial do Convento", de José Saramago, com a presença das racionalidades, dentre elas a mão forte da inquisição moderna ameaçando a todos, especialmente mulheres simples como a personagem Blimunda, que tinha poderes ocultos e teve mãe condenada pelo Tribunal do Santo Ofício logo no início da trama. 

Para entender um pouco melhor a racionalidades  da Europa moderna, os excepcionais trabalhos de Carlo Ginzburg sobre a feitiçaria, como esse "História noturna: decifrando o sabá" foram de muita importância. Na época esses livros não tinham sido traduzidos no Brasil, então lembro que li as edições portuguesas, presentes na maravilhosa Biblioteca da FFLCH. Leio a sinopse na capa da edição de bolso da Cia das Letras (2012) 


Esses temas também respingaram na História do Brasil colonial, pois muitas mulheres condenadas foram degradadas para o Brasil, trazendo aquelas crenças e racionalidades. Isso foi muito explorado nas pesquisas da minha primeira orientadora, professora Laura de Mello e Souza, que escreveu aquele trecho sobre Maria Padilha, que transcrevi aqui.

Certamente é um assunto muito interessante. Quem sabe não acho um gancho para estudar isso de novo? 










 

sábado, 9 de junho de 2018

TRADUÇÃO E PESQUISA

Capa de DUBY, Georges. Tempo das Catedrais: a arte e a Sociedade : 980 – 1420.
Trad. José Saramago. Lisboa : Estampa. 1988.
Cês sabem que eu fui estudar História por causa do romance Memorial do Convento de José Saramago, e que minha primeira pesquisa foi sobre esse romance, ainda na graduação.  Minha proposta cotejar a representação de história apresentada no romance e o ideário da escola historiográfica mais destacada no começo do século XX, a minha recém conhecida Nova História francesa. Havia muitas semelhanças e diferenças, mas para justificar a execução desta pesquisa, uma peculiaridade foi fundamental. Falamos de 1999, ainda não existia a biblioteca unificada da FFLCH e tínhamos apenas uma biblioteca de História no prédio do DH. Pois bem, por curiosidade, busquei pelo nome José Saramago no catálogo eletrônico dali, achando que não ia encontrar nada, pois toda a literatura estava na biblioteca de Letras... mas me enganei. Ele aparecia ali, sim, como tradutor da obra do novo historiador ligado aos Annales Georges Duby! Depois de um tempo vim  saber que, durante um período de sua vida, Saramago sobreviveu das traduções de textos franceses para o português e eu estava defronre a um exemplo sensacional, não apenas porque eu  já estava assistindo aulas sobre Crítica Genética e recepção no IEB e me importando muito com a maneira que os autores liam os outros, mas também porque ela mostrou que Saramago conhecia bem  a produção da Nova História (caso eu tivesse alguma dúvida!), mas especialmente  porque ele conheceu bem ESTA OBRA na qual Duby justifica que não falará da suntuosidade das Catedrais porque para obsevar isso, basta olhá-las, o que ele quer fazer é "reconstituir em redor delas o conjunto cultural que lhes dá plena significação" (DUBY, 1988, p.9). Quem leu o Memorial sabe que o retrato que o romancista pinta do "Convento de Mafra" caminha por caminho semelhante, ao descrever a opulência daquela obra com bastante ironia e destacando outros pontos mais relevantes, como por exemplo de quem eram as mãos de quem realmente, o construiu.
Saudade das minha primeiras anedotas de pesquisadora... 

domingo, 30 de setembro de 2012

O Palácio Convento de Mafra




 O PALÁCIO/ CONVENTO DE MAFRA -Como século XVIII foi de grande prosperidade econômica para Portugal em virtude da descoberta de ouro na colônia em Minas Gerais. A construção se estendeu de 1717 até 1730 .Ao todo são 37790 metros quadrados. O edifício tem 880 salas e quartos, 300 celas, 4500 portas e janelas, 154 escadarias e 29 pátios; os sinos da basílica pesam cerca de 217 toneladas; a biblioteca possui mais de 40.000 livros. Para concluir a edificação foram reunidos cerca de 45000 operários, além de 7000 soldados. A história oficial deste convento é conhecida dos portugueses e geral, mas foi entre 1980 e 1982 quando José Saramago teria estado em Mafra por várias vezes, para pesquisar e imaginar como seria contá-la de outra forma, assim como apresentará em seu romance Memorial do Convento (1982). (CALBUCCI, Eduardo. Saramago- Um roteiro para romances. Cotia: Ateliê Editorial. 1999.p. 25-6)



sexta-feira, 13 de julho de 2012

Suspiro assim, como quem morre ou de quem nasce...


"...Não esperaria Blimunda que, ouvindo a música, o peito lhe dilatasse tanto, um suspiro assim, como quem morre ou de quem nasce, debruçou-se Baltasar para ela, temendo que ali se acabasse quem afinal estava retornando. Nessa noite Domenico Scarlatti ficou na quinta, tocando horas e horas, até de madrugada, já Blimunda estava de olhos abertos, corriam-lhe devagar as lágrimas ..."
 (José Saramago . Memorial do Convento. p. 179)

quinta-feira, 12 de julho de 2012

História e ficção na literatura portuguesa



"Como a ficção de Saramago e em particular a que o celebrizou tem como quadro o passado, longíquo, próximo ou mítico, uma certa crítica incluiu-a dentro da categoria do 'romance histórico' de romântica memória ou no círculo de um revivalismo, hoje muito comum, dessa famosa corrente. A inscrição do seu imaginário no 'passado' não é um simples caprichoou uma característica sem significado na sua ficção. Assinala-a logo como 'não realista', mas de uma maneira diferente da do romance histórico para quem 'o passado' deveria ser evocado como presente no Passado. A óptica de Saramago é inversa : é o Passado que é Presente. Mesmo quando retoma as cores de "romance histórico", como no Memorial (do Convento), a sua ficção é sempre em segundo grau, o de uma narrativa sobre a História, não uma fictícia ressureição dela (...) A sua ficção nasce de um propósito de reescrever uma história que já está escrita, e que como tal se vive ou é vivida enquanto 'verdade' de uma época ou de um mundo, ou da humanidade quando ela é a sua ficção não inocente. A realidade - no passado ou no presente - não é nunca acessível na sua opacidade ou transcendência, é sempre e já uma narrativa e é essa narrativa que devemos revisitar, recriar para ter acesso birtual ao "eterno presente" do sentido dela para nós, o centro fora do tempo onde tudo conflui, de onde tudo reflui. Só que tal centro não é um lugar, nem uma substâcia, realidade que possa ser circunscrita de uma vez por todas, mas a própria invenção dela, o seu sonho, em suma, a sua ficção. Como os peixes do Lago de Tiberíades esperam que o homem chamado Jesus lance sua rede, como só ele a podia lançar, a realidade, a do mundo da experiência comum ou da História, espera que o olhar que a ficciona repare nela para que o milagre de uma outra pesca que nos torna criadores aconteça. (...) dela O fim da sua (de Saramago) ficção, o fim de toda ficção é voar, elevar-se sobrevoando, não céus inexistentes nem realidades mágicas, mas descolar da sua própria realidade humana, pesada, obscura, opaca para ver melhor ou de outra maneira a luz que ela oculta, a claridade original de cada ser humano ofuscada pelo peso do mundo que pode ser apenas o de nossa própria treva. Dessa poética - que é o eco natural da poesia que em nós habita -se encontra no Memorial (do Convento) a expressão ficcional, mas também artesanal, aquela que na arte de Scarlatti e na de Bartolomeu Lourenço se configuram. Duas faces do mesmo milagre da criação, uma como se nem o criador necessitasse como o da música e outra verbo a música - e às vezes mais - terá condão de nos restituir à nossa condição natural de seres destinados a voar, quer dizer, a escapar ao tempo e à morte. (Saramago um teólogo no fio da navalha. In: O Canto do Signo - existência e literatura 1957 1993). p. 186-7)