Eu sei que deveria estar postando a Retrospectiva e o Prêmios Melhores 2024, mas esses dão muito trabalho, por hora consegui adiantar o balanço das metas que tracei em janeiro, para ter uma ideia de que se o ano foi bom ou ruim. Vejamos quais foram cumpridas, parcialmente cumpridas ou não cumpridas :
1 - CONTINUAR VIVA
META CUMPRIDA : Não corri risco de vida em 2024, mas fiquei bem ruim
como nunca em abril e maio, com dengue e cirurgia. Mas cumpri a meta com
sucesso e cá estou vivíssima.
2 - VIVER EXPERIÊNCIAS SENTIMENTAIS E AUMENTAR MEU AMOR PRÓPRIO
META CUMPRIDA : Nesse ano eu diminui o alcance dessa meta, queria só
viver experiências sentimentais e isso consegui com sucesso, sem rasurar meu
amor próprio, que até aumentou, tanto que acredito que possa tomar algo maior como
meta em 2025. Veremos!
3-
ME REINVENTAR PROFISSIONALMENTE
META
NÃO CUMPRIDA: Estava tudo ruim nesse campo, sem luz no fim do túnel e continuou
assim. Na verdade, passou tão rápido, em deu tempo de me reinventar: tantas
prioridades, especialmente de saúde. Deixa pra 2025.
4- CONHECER E CURTIR SAMBAS E ROLÊS
META CUMPRIDA : Como sempre mantive uma rotina de samba em minha vida,
conheci novas rodas no Maria Zélia, inclusive
algumas tradicionais cariocas e no dia da Consciência
Negra, no Samba do Sol que sempre
é uma delicia. Além do instrumental, como sempre maravilhoso, eu também conheci
outros rolês, visitei exposições e foi maravilhoso flanar pelo centro de São Paulo fora do carnaval
e ganhar um pouco mais de São Paulo para mim. Isso ninguém me tira mais.
5- CONTINUAR TREINANDO O QUANTO PUDER
META CUMPRIDA : Cumpri mesmo, apesar de tudo! Fui treinar super fraca, com dengue e tudo, e no fim deu tudo certo,
ganhei até massa muscular nas pernas, ui ui ui...
6 -CUIDAR DE MIM E DE QUEM AMO
META CUMPRIDA : Cumpridíssima, eu diria. Cuidei muito de mim, dos meus
sentimentos, não me joguei de cabeça, me priorizei e quando senti que estava
sobrando, me levantei da mesa sem brigas ou alarde, só amor próprio. E em dezembro,
depois de cinco anos, acompanhei a alta da minha mãe no tratamento no Instituto
do Câncer, que foi minha maior conquista do ano! Continuemos!
7- LER PELO MENOS UM LIVRO POR MÊS
META CUMPRIDA : Continuando a pegada de 2023, li bastante, vinte e um
livros, bem mais do que um por mês, embora tenha tido meses que não li nenhum! Como
no ano passado, o destaque foi a Biblioteca do Sesc Pompéia, que me emprestou tantos volumes,mas até do que esses
que concluí a leitura, e que assim seja mais e mais em 2025! Além desses
empréstimos, eu também ganhei livros, o que foi uma delicia, porque me mostrou
que, apesar de parecer que vivo na total solidão lendo e escrevendo sobre
minhas leituras, tem sempre alguém que vê, que acompanha, que gosta que
gostaria de receber minha opinião sobre os livros. Esse ano eu só comprei um
livro usado, o Claro Enigma do
Drummond, que comprei depois de ler o volume da biblioteca e quis ter o meu.
Maravilhoso livro do tempo da madureza. Viva os livros, meus melhores amigos!
8- ESCREVER
META PARCIALMENTE CUMPRIDA : Meta difícil de cumprir todos os anos, dá
trabalho e não vem sendo cumprida desde 2022,nesse mundo sem leitores, escrever
é também é importante para mim, porque tem sempre alguém que lê e se nutre do
escrito.Esse ano, além do blog, que mantenho à duras penas e falta de tempo
para me sentar para escrever, também vim escrevendo pequenas resenhas imediatas após os shows
do instrumental, no ônibus mesmo, e publicado no Instagram, o que tem sido
interessante. Também escrevi (e li) sobre Caetano Veloso, que é sempre desconcertante. Sigamos!
9- CONTINUAR A BUSCA PELA MINHA ANCESTRALIDADE E ESPIRITUALIDADE
META CUMPRIDA : Essa ligação nunca é cortada e me dá ânimo de acordar a
cada novo dia. Assim seja no próximo ano, pelo resto do ano pelo resto da vida!
10- PROSPERAR
META PARCIALMENTE CUMPRIDA : Sim, mantive minha saúde apesar das pestes,
evolui bastante, enriqueci espiritualmente
e espalhei alegria e conhecimento por onde andei. Não me acertei no campo
profissional, embora tenha trabalho com produção de conhecimento o tempo todo,
um dia vai dar frutos. Não encontrei o amor no tempo da madureza, mas vivi experiências muito boas,
estou na fé que estou pronta para amar e ser amada de novo. Falta ainda ter
mais forças para me libertar mais e andar com minhas próprias pernas, mas tudo
tem seu tempo e o meu será em breve !
Em se tratando de metas, 2024 foi melhor do que 2023. Se no ano passado tive seis metas cumpridas, 1 parcialmente cumprida e três não cumpridas, esse ano cumpri sete metas, tive duas parcialmente cumpridas e apenas uma não cumprida. Aos poucos a vida vem melhorando. Assim seja!
O CANTO DA SEREIA: De todas as decepções amorosas que tive na vida (quem nunca?), as mais dolorosas foram/são as com negros, que me contaram histórias, dizem revelar "segredos" desse passado ancestral que nos foi roubado. Quando se acha que essa busca de toda uma vida pode ter chegado ao fim, mas foi só mais uma ilusão, a punhalada é violenta. Como dói...
Aí eu volto a um dos meus livros da vida e vou buscar os orixás no belo cancioneiro brasileiro e tudo vale à pena.
À esquerda, a capa de Torto Arado, por Linoca Souza À direita, a foto de Giovanni Marrozzini em Nouvelle (2010)
Venho dizendo que é muito
difícil falar desse livro, mas é impossível não falar. Como sei que nunca vou
conseguir escrever sobre como ele merece, então vou tentar pontuar algumas questões que julgo importantes
e , evitando dar spoiler, pelo menos não muito, mas é que tem coisas que acho
que preciso comentar. Quis muito que esse livro fosse bom, fosse mágico, fosse
arrebatador, mas como quase nunca meu desejo é realizado, comecei a ler sem
expectativas. Planejava ler até a virada do ano e se fosse preciso, no começo
de janeiro, mas comprei na primeira semana, dia 8 de dezembro, mas só recebi
dez dias depois, comecei a ler dia 18 e
terminei dia 26: o Livro de dezembro! Presente de Natal!
Durante a leitura já fui sentindo
essa dificuldade de falar sobre ele, é tão mágico, não dá para comentar muito,
mas é urgente recomendá-lo. Na hora que terminei, no final de um ano apocalíptico
como foi 2020, não sabendo o que dizer, disse apenas: Que tiro foi esse?
Como demorou um pouco para chegar
(os pedidos ultrapassaram o previsto em dezembro e foram precisas novas
edições), eu assisti as resenhas no Youtube, todas eram unânimes : se trata de um
livro que nasceu clássico. Um dos Youtubers disse que tem tantas coisas
nesse livro que é impossível comentar. Não foi só eu. Estou tentando escrever
sobre faz tempo, mas é tão enorme, que eu acho um pecado profanar. Vou tentar
ler a partir de três tópicos que mais me chamaram a atenção porque se ampliam e podem meio que sintetizar o romance. Avisando que
avisandoestes não são os únicos que
julgo importantes do livro, nem os únicos que eu gostei, mas são os que mais me
tocaram e sobre eles me sinto ligeiramente confortável para comentar:1 Terra – Escravidão- Servidão; 2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria - Ancestralidade ;3- Mulheres fortes e unidas;
1 Terra – Escravidão- Servidão O livro é sobre uma comunidade rural, a partir da história da família do
curador Zeca Chapéu Grande, sua esposa a parteira Salu e seus quatro filhos, que
passaram a viver de “morada” na fazenda Água Negra com o fim da escravidão, no
interior da Bahia, e foram trabalhar em regime de servidão. Quem narra são as duas irmãs mais velhas, Bibiana e Belonisia (cada uma narra um capítulo).
Em tempo, fala-se de pessoas que saíram da escravidão e passaram à servidão,
até o surgimento de novos tempos com lutas sociais.
A epígrafe do romance é só TODO o
capítulo 28 de Lavoura Arcaica de Raduam Nassar (livro que reli imediatamente após terminar Torto, ainda em 2020)
capítulo 28 de Lavoura Arcaica, de Raduam Nassar
Nesta entrevista Itamar
conta que o arado torto que aparece no romance é um instrumento de trabalho
arcaico, que veio dos antepassados de Belonísia e que "se deformou com o tempo,
mas ainda continua rasgando a terra para semear a vida”. Itamar diz também
que a ideia do título foi retirado de um trecho de Marília de Dirceu, de Thomás
Antonio Gonzaga, e todo o imaginário do trabalho com a terra na literatura
brasileira é pontuado no romance. Foi fácil encontrar na internet:
Percebe-se de cara que é uma história de gente que tem a
terra como parte de si, do seu corpo , e seu habitat, afinal como os donos da fazenda não os permitia
ter nenhum bem durável,não tinham casas
de alvenaria,e até vivem em casas feitas
de barro (terra). Segundo conta a filha de Zeca Chapéu Grande, Belonísia, a mais ligada ao pai:
“Meu pai, quando encontrava
um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para seu
interior, para decidir o que usar, o que fazer,onde avançar, onde recuar.
Como um médico à procura do coração." p.100
Além de Belonísia, que não se via separada da terra, para todos eles a terra também era tudo, mas embora nela labutassem dia a dia para dar a terça parte da produção ao seu dono (tipo na idade média mesmo) e ainda
agradecendo-lhes pela chance de poder trabalhar naquele chão, a vida que levavam ao cultivar para
alimentação própria, sem dinheiro, quase sem autonomia não era justa, como conta Bebiana:
“se algo acontecesse a eles, não teríamos direito à
casa, nem mesmo à terra onde plantavam sua roça. Não teríamos direito a nada, sairíamos
da fazenda carregando nossos próprios pertences. Se não pudéssemos trabalhar,
seríamos convidados a deixar Água Negra, terra onde toda uma geração de
filhos de trabalhadores haviam nascido. Aquele sistema de exploração já estava
claro para mim.”p.83
Nada é exposto diretamente pelas narradoras, nenhuma das três, mas a
narrativa vai nos fazendo ver, cada vez mais claramente, a realidade daquele
povo, juntamente com o momento em que eles mesmos vão se enxergando como são :
escravos não são mais, não recebem mais açoite (embora a mãe de Zeca narre
lembranças dessa época sofrida na tal fazenda Caxangá ), mas às vezes se dizem
índios porque sabem que há lei para protegê-los; sabem que são
trabalhadores, mas a qualquer hora os donos podem chegar e tomar-lhes o
plantio, sem dó. É uma vida muito “análoga à da escravidão”. Demora um pouco,
no tempo e na narrativa, para que os irmão mais jovens das protagonistas e netos
de Zeca Chapéu Grande passem a falar em
termos como “quilombolas”, que poderia inseri-los sob a proteção legal:
“Não podemos
mais viver assim. Temos direito à terra. Somos quilombolas” p.187
Nada acontece por acaso, mas não posso deixar de tomar como curioso que,
ao mesmo tempo em que lia, fico sabendo da história do resgate
de Madalena Gordiano (46 anos), essa mulher tão bonita, que viveu 38 em
regime análogo à escravidão na casa de uma família, em Patos de Minas (MG). Escrava
em pleno século XXI? Pois é. Como no romance, a historia nãopara nela , maspossivelmente
se estende a sua família ,suairmã .
É muito ter a "nossa saga" brasileira jogada na cara. Como
prosseguir?
Do outro lado dessa vida de trabalho braçal sem fim na roça, temos um dos trechos mais
bonitos do livro em minha opinião, quando Bibiana conta
“Meu pai não era
alfabetizado, assinava com o dedo de cortes e calos de colher frutos e espinhos
da mata. Escondia as mãos com a tinta escura quando precisava deixar as digitais
em algum documento. De tudo que vi meu pai bem-querer na vida, talvez fosse a
escrita e a leitura dos filhos o que perseguia com mais afinco. Quem
acompanhasse sua vida de lida na terra ou a seriedade com que guardava as
crenças do jarê, acharia que eram os bens maiores de sua existência.Mas pessoas
como nós, quando viam o orgulho qe sentia dos filhos aprendendo a ler e o valor
que davam ao ensino, saberiam que era o bem que mais queria poder nos legar.”P.
66
Emocionou-me muito essa parte porque ele me remeteu, de alguma forma, ao meu pai, que não era analfabeto, mas estudou menos do que gostaria, só que gostava dos livros e do saber e, segundo
minha mãe conta, quando casou levou duas malas, uma de roupas e outra de livros
para nova vida. Já idoso e começando a ter esquecimentos, lia todo dia, o dia
todo, uma cópia impressa com erros da minha dissertação que
ficava no quartinho dele. Certamente tinha orgulho de mim, e eu dele tenho
muito.
2 Brincadeiras de Jarê- Encantaria- Ancestralidade
Outra das maiores belezas de Torto Arado é todo seu caráter mágico. Muitas
vezes, lendo sobre a infância de Bebiana e Belonísia, pensei que estivesse
lendo estórias mágicas das crianças de Guimarães Rosa (minha especialidade), ou mesmo
em outras descrições do decorrer do livo, parecia queestava lendo algum texto de realismo
fantástico. Isso porque, junto às personagens, estão sempre seus ancestrais,
encantados, santos,espíritos e outras manifestações mágicas, o que é muito
bonito e importante.
Zeca Chapéu Grande é um curador de Jaré,
pai espiritual de toda a comunidade, que o procurava para curar males do corpo
(já que medicina estava distante), mas especialmente da alma. Quando apareciam
doentes assim, ficavam alguns dias em sua casa, conta Bebiana
“Não eram
hóspedes, visitas ou convidados. Eram pessoas desconectadas de seu eu,
desconectadas de parentes e de si. Eram pessoas com encosto ruim, conhecidos e
também desconhecidos de todos. (...) O que mais chegava à nossa porta eram as
moléstias do espírito dividido, gente esquecida de suas histórias, memórias,
apartadas do seu próprio eu” P. 33 e
39
Religião daquele povo, as “brincadeiras de jarê” tratam-se de
“uma religião de
matriz africana, mais especificamente um candomblé de caboclo, que existe
exclusivamente em cidades do Parque Nacional da Chapada Diamantina (...)Uma de
suas principais particularidades é o grande sincretismo religioso, com
influência do catolicismo, da umbanda e do espiritismo kardecista. Pode ser
considerado um amálgama das nações bantu e nagô, as quais se uniram o culto aos
caboclos.” (Wikipédia)
Nada mais brasileiro e bonito. Nessas
práticas, no romance, quem comanda as festas e as homenagens é o curador Zeca Chapéu
Grande, mas ele também recebe a ajuda, incorporadoou não, de Encantados,que, diferentemente das
entidades da umbanda,
“não são
necessariamente de origem afro-brasileira e não morreram, e sim, se
"encantaram", ou seja, desapareceram misteriosamente, tornaram-se
invisíveis ou se transformaram em um animal, planta, pedra, ou até mesmo em
seres mitológicos e do folclore brasileiro como sereias, botos e curupiras. Na Encantaria, as entidades
estão agrupados em famílias e possuem
nome, sobrenome e geralmente sabem contar a sua história de quando viveram na
terra antes de se encantarem.” (Wikipédia)
A confiança nessas forças e energias, ao que parece,
está sustentada na presença constante dos ancestrais para dar apoio e proteção
em todos os momentos da vida. Os encantados e encantadas,
que viveram desde antes, sabem de tudo, conheceram os ancestrais mais longínquos,
sabiam quais das coisas que acontecem agora são repetições de acontecidos com ancestrais
nessa terra. Saber (não apensas acreditar) da sua importância como guias para a vida das personagens é o que me parece dar a sentido àquelas vidas tão sofrida que levam. Eis o verdadeiro tesouro do povo preto.
Muito emocionante.
3- Mulheres fortes e unidas
O último tópico, mas não menos importante (muito ao
contrário, talvez o mais importante mesmo) seja a união das mulheres nessa saga
toda. Além das duas irmãs narradoras, que possuem uma ligação muito íntima, que
os acontecimentos da trama só reforçam e que, mesmo quando elas se afastam,
nunca morre, também temos as suas ancestrais
e até mesmo as encantadas são a marca feminina desse romance. Na entrevista do
autor, citada acima, ele lembra que no cenário rural do sertão da Bahia as
mulheres têm protagonismo muito forte na família e na comunidade, porque elas
sobrevivem mais tempo, guardam as memórias.
Encerro este texto com outro trecho que muito me tocou:
Amigas, afeto
O afeto que Belonísia ganha, sem querer, de sua amiga Maria Cabocla e nunca vai saber como lhe agradecer. Eu não tenho os cabelos crespos, mas é cacheado e,
como cresci numa família branca, de gente de cabelo liso, eu também demorei muito para receber um
carinho na cabeça, e foi fora da família, como se aquele meu cabelo diferente não tivesse o direito de
receber um carinho, não por maldade, mas porque , inconscientemente, funciona
assim. Eu sei como é e só agradeço aos meus orixás e encantados por, ainda que tarde, tenha tido essa oportunidade na vida. E mais de uma vez.
A
tradicional retrospectiva do blog Pequenidades em 2019, o ano que não podia ter
sido, mas será que foi? Vou dividir em duas partes, para caber no Blogger um comentário mês a mês. Vamos ao primeiro semestre:
JANEIRO - Comecei com muito medo da tragédia que o ano estava ensaiando ser, mas tentei levar de boa, como uma continuidade do ano de 2018, curtindo muito a Casa das Caldeiras, que
eu sabia que me salvava a vida mas não sabia que seria por tão pouco tempo. Vale observar que no primeiro rolê do ano eu estava toda na defensiva, vestida com as roupas e as armas de Jorge
Pilantragi janeiro 2019
Desde o início 2019 era oano com gosto de"até quando vou sobreviver"? O panorama
político, que já ia de mal a pior, desde janeiro foi resumido pelo poema
deAugusto deCampos
Poema de "O Mito", de Augusto de Campos, jan, 2019
FEVEREIRO– Desde o ano passado estava muito preocupada
com a saúde de minha mãe, sabíamos que ela ia passar por uma cirurgia grande,
estávamos esperando ser chamada. Mas em fevereiro eu ministrei uma palestra abordando cem anos de representação da menina negra na literatura infantil brasileira em três momentos (Flor Encarnada de Arnaldo Oliveira Barreto, 1921; A Menina bonita do laço de fita, de Ana Maria Machado, 1986 e Menina Pretinha. da Mc Soffia, 2016),
para o Sesc, começando a destacar a questão do ano: a ANCESTRALIDADE.
personagens
Ainda em janeiro ganhei um cd do raper Gui do Guetto rap na rua, e me voltei para essa cultura black. Mas ao mesmo tempo, como todos os anos nessa
época, eu já estava ansiosa para o
carnaval, que seria só em março, eu achava que seria bem na hora do carnaval, por
isso quis aproveitar muito o pré carnaval e aproveitei todos os ensaios, foi
muito gostoso.
Pré Carnaval TaradoNiVocê
MARÇO –
Era carnaval e eu pulei os quatro dias, deliciosamente, escrevi detalhes sobre todos
os dias aqui. Foi um carnaval sem palmitagem, glória a Deus! Ao mesmo tempo, li um livro indicado pelo amigo Luiz Henrique, era Espírito da Intimidade e foi
muito importante para pensar questões sentimentais entre pretos e pretas e novamente, sobre a palavra do ano, ancestralidade, com trechinhos lindos assim:
"A intimidade, em termos gerais, é uma canção
do espírito, que convida duas pessoas a compartilharem seu espírito. É uma
canção que ninguém pode resistir. Acordados ou dormindo, em comunidade ou
sozinhos, ouvimos a canção. Não conseguimos ignorá-la."
(Sobonfu
Somé. O Espírito da Intimidade - Ensinamentos ancestrais africanos sobre
maneiras de se relacionar. Trad. Deborah Weinberg. 2a. ed. Odysseus Ed., 2007, p. 25.)
ABRIL- Cirurgia de mamãe. Foi muito tenso, mas estivemos todos juntos em nome de
um bem maior que era a recuperação dela e tudo ocorreu da melhor forma. Afora
isso, eu estava curtindo muito meu cabelão, mal sabia que, em breve, ele seria cancelado, lamentavelmente. Mas com esse cabelão eu fui ao último Samba Rock
plural na Casa das Caldeiras, querendo mais contato com a ancestralidade, mas ainda foram tentativas frustradas, só que renderam para o ano todo, como neste diálogo:
Sorrisos negros
Também em abril eu fui a uma festa de Hip Hop nas Caldeiras, foi amor à
primeira vista...depois acabei me especializando um pouco nesse ritmo, mas tudo começou ali!
novos óculos
MAIO- Comecei a querer modificar meu visual, o que se estendeu o ano todo e nem sempre foi para melhor, mas em maio foi positivo, pois comecei a usar
óculos roxos, bem charmosos.
Mas era o mês da Virada Cultural e o Sesc
Pompéia fez uma linda homenagem à Cultura Africana, era perto e deu para curtir um pouco e voltar depressa para ficar com mamãe, e ter curtido foi ótimo, pois me levou a retomar aquela essencial busca pela ancestralidade, sonhada há tanto tempo e que agora parecia estar mais próxima. Na Virada eu me diverti no show Essênc'Iyá: lê Aiyê convida Paula Lima e Ellen
Oléria
cartaz do show na Virada
Até que, infelizmente, chagamos no último rolê do projeto
Todo Domingo Musical na Casa das Caldeiras e tentamos nos divertir ao máximo!
JUNHO- Nesse mês as coisas
começaram a ficar mais corridas, pois passei a acompanhar minha mãe no hospital para
tratamento toda semana, o que me sugava muita energia. Como tinha tempo livre na sala de espera, usei para ler bastante, começando pela biografia Matinho
da Vila: Reflexos no espelho, que
comentei neste post.
Ainda nas leituras, preocupada com ancestralidade, conheci e comentei aqui
sobre o conto de Conceição Evaristo, A
gente combinamos de não morrer, que fala tanto sobre a realidade do negro
no Brasil do atual governo. Ainda neste mês teve o lançamento de Almodóvar,
muito bem acompanhada da minha amiga Rosane, sobre o filme, postei nesse link. Aliás, junho foi um mês que eu passei com Rosane algumas vezes, numa delas conheci o belo Sesc 24 de maio, onde tirei essa foto, bela, mas cheia de melancolia
São Paulo, no Sesc 24 de maio
Assim foram os primeiros seis meses de 2019, muita coisa mudaria depois, mas elas só comento na semana que vem! :)
Primeiro chegou a mim a fala de Ricardo Aleixo nessevídeo:
"... ter convivido com meus pais, que foram as duas pessoas mais admiráveis que eu já tive a chance de conhecer, significou a a possibilidade de pensar a ideia de ancestralidade não como é comum a boa parte dos negros no Brasil - pensar em uma África mítica - a minha África é a minha casa. E pensar, também, a partir do momento em que foram nascendo os filhos ... foi o momento em que eu comecei a pensar na ancestralidade não como aquilo que está dado, mas a partir da poética da cosmogonia africana : ancestre é também aquele que ainda não veio e isso é o que determina a circularidade e a sobreposição dos tempos ..." (27' e 29')