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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2023

A poesia concreta de Josinei de Souza Arevalo

 

Revista de literatura & arte Germina 

link

https://www.germinaliteratura.com.br/josinei_de_souza_arevalo.htm


Os sortidos poemas do nortista Josinei de Souza Arevalo, publicados na revista de literatura & arte Germina, disponíveis  Nesse link,  são um passeio por átimos poéticos instigantes.

Como não sou poeta, nem crítica e  tenho pouco repertório de poesia concreta, confesso que lendo-os foram muito inusitados para mim, realmente surpreendentes. Ao explorar diversos aspetos da palavra, Josinei flerta com o humor em mensagens surpreendentes que, em último caso, despertam em nós um sorriso, como por exemplo:

"o W é um M dizendo vem."

Como uma leitora comum, para me sentir mais confortável com os estímulos que emanavam,  revisitei as memórias de leitura dos livros/cadernos modernistas como os de Oswald de Andrade, no  inicio do século XX, que conheço melhor e, para mim,  sublinham "espetacularmente" o poético sempre presente no prosaico, como nessa batalha entre o P e o T:

"duas putas disputam

brutament

um poste" (grifos meus)


Como se atendendo à sugestão de Drummond em sua "Procura da poesia", 

os poemas de  Josinei nos convidam a "penetrar surdamente no reino das palavras", e lá podemos  brincar livremente (como fazem as crianças na fase de aquisição da linguagem)  com a  composição dos vocábulos , dividindo-os e rearticulando-os, em um jogo de linguagem  onde um vocábulo se mistura ou se separa do outro e a vida é a própria linguagem poética, como nesse exemplo: 

"Casa

Toca onde o homem se entoca

para ninguém à noite o tocar" (grifo meu)


Mais ao modo do que se imagina popularmente como "poesia concreta", Josinei também investe na articulação entre o escrito e formas não escritas,  para criação de uma mensagem de valor poético mais elevado, como aqui :




Enfim, aos interessados em mergulhos poéticos, recomendo a leitura dos poemas destes e de outros poemas de Josinei de Souza Arevalo, uma grata surpresa no cenário da poesia brasileira.


sexta-feira, 12 de maio de 2017

Antonio Cândido e um almoço com 'declaração em juízo", de Drummond


UM ALMOÇO COM ANTONIO CÂNDIDO- Foi em junho de 2006, em um um evento em comemoração aos 50 anos da publicação de "Grande Sertão: Veredas" na FFLCH que eu e minha amiga Vera Maria Pereira Theodozio almoçamos com Antonio Cândido. Na verdade, falo isso, mas devo alertar que não foi um almoço marcado, nem mesmo pessoal, mas ele se sentou em nossa mesa na antiga lanchonete do Português do DH - o único lugar fora o bandejão, que servia comida na época e ele queria comer arroz com feijão. É verdade também que sua filha Marina me apresentou a ele: "Papai, esta é a Camila, ela foi aluna da Laura, estudou Saramago com ela", e ele se lembrou vagamente de que a Laura tinha mesmo comentado algo sobre Saramago com ele...
Era uma pessoa admirável, gostava de conversar e lembro com força de que,entre outras coisas, ele já lamentava que todos os seus amigos de geração estavam morrendo, o que o fazia se sentir muito solitário.
Então eu comentei que isso me fazia lembrar de "Declaração Em Juízo", de Drummond e ele apenas sorriu.
Cândido foi, é e sempre será nossa referência e, ainda que eu, em meus estudos literários, tenha enveredado por outros autores e tentado me manter há uma distância segura da sua teoria forte, nem sempre foi possível.
O que posso dizer nesta data de seu falecimento aos 98 anos é que só temos que agradecer por tudo, mas me lembrando daquele almoço, imagino o quão aliviado ele deve estar por não ser mais o único corpo de sua geração que sobreviveu. Mas em ideias, sobrevive e sobreviverá!
Muito obrigada, professor!

terça-feira, 12 de abril de 2016

Vamos de mãos dadas...

"Rosa e Azul" Renoir (detalhe)

"O presente é tão grande, não nos afastemos
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas" 

Drummond

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Da Primavera - Carlos Drummond de Andrade

Capas da 1a. ed  "Primeiras Estórias" de João Guimarães Rosa, 1962, desenhada por Luiz Jardim 

Com a entrada da primavera fui reler  uma crônica de Drummond escrita em 1962 para o Correio da Manhã, na qual ele cita o lançamento do livro "Primeiras Estórias" e que foi muito citada em outros textos da recepção crítica guardada por Rosa. Um trechinho dela:

"...Mas comparece outro sinal de primavera. Da mesma cor do ipê amarelo é a capa, desenhada por Luís Jardim, do livro de João Guimarães Rosa, com que a Editora José Olympio celebra a nova estação: “Primeiras Estórias”. E o próprio livro é primaveril, como tudo que sai da  cabeça mágica do Rosa : a língua se enfestoa de formas e arranjos novos, alguns  tão cheirando a terra que é como se brotassem do chão. O sentimento sutil que ele capta no coração da gente chamada simples lembra as flores e folhas passadas a limpo pela natureza, tão complexas em sua exatidão. Tudo é novo de novo, e tocado de um alegre mistério, sem embargo do trágico de certas situações. E mais uma vez, não facilitem com o Rosa: ele diz sempre ‘outra coisa’ além do que está dizendo; sua arte não fica nas palavras, vai à captação do sentido metafísico do universo." Carlos Drummond de Andrade. Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 de setembro de 1962

Um último comentário: Eu mesma (e só eu própria) me surpreendo com o trabalho que eu fiz nesse doutorado. Todos os textos de recepção das estórias guardados por Rosa (cerca de 300) estão transcritos e organizados em  planilhas comentadas, por isso é bem fácil encontrar o que se quer nesse material...
Será que um dia eu serei tão feliz com um trabalho como fui nesse, que nem sentia como um trabalho, mas um enorme deleite?

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

São só dois lados da mesma viagem ...

Já falei aqui sobre uma verdade que sempre nos causa estranhamento: O amor acaba. E isso nunca  nos parece natural, já que  nascemos para amar, dependemos disso tanto quanto do ar para respirar então é inconcebível que ele também acabe, e acaba mesmo muitas vezes na vida. Pensar nisso é bastante asfixiante. Já perguntava  Drummond:
 
"Que pode uma criatura senão,
entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar? "
 
 
Mas os relacionamentos acabam, a gente acha que o amor acabou, mas talvez ele só tenha que se renovar, em outras direções com outras pessoas.Isso acontece no espaço do mundo. No meu caso pessoal, existe pelo menos um lugar na cidade onde eu posso identificar claramente esse movimento: a esquina das ruas Clélia e Turiassu na Pompéia. Foi lá que, anos e anos atrás, aconteceu o meu primeiro beijo, e também foi lá que (ocasionalmente?), ontem aconteceu o beijo de despedida da  história de amor mais recente que vivi: O espaço do encontro é também o da despedida... por isso que minhas últimas  palavras, apesar da situação de final, apontavam para um futuro, não porque o amor tinha acabado completamente, mas porque ele apenas mudaria de direção : "tchau meu amor, seja feliz"
 
Um dia a gente aprende que, apesar da sensação de estar em 'terra arrasada' que nos coloca o fim de uma relação, ela acaba fazer o amor renascer , é inevitável... e isso pode ser no mesmo lugar (a tal terra arrasada)  e tempo (o presente radical onde morreu) : são só dois lados da mesma viagem...
 

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Flicts: O coração da cor

 

Flicts: O CORAÇAO DA COR

Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro, 22 de agosto de
1969.
O mundo não é uma coleção de objetos naturais com suas formas respectivas, testemunhadas pela evidência ou pela ciência, o mundo é cor.A vida não é uma série de funções da substância organizada, desde a mais humilde até a de maior requinte, a vida são coresTudo é cor. O que existe, existe na cor e pela cor. A cor ama, brinca, exalta, repele, dá sentido e expressão ao sítio ou à aparência onde ela pousa.
Cores são seres individualizados e super-poderosos, que se servem de nosso veículo óptico para proclamar sua verdade.
Nossas verdadinhas concretas empalidecem ao sol múltiplo que elas concentram.
Aprendo isso, tão tarde! Com Ziraldo. Ou mais propriamente com Flicts, criação de Ziraldo, que se torna independente do criador, e vive e vibra por si.
Que é Flicts? Não digo, não quero dizer.
Cada um que trave contato pessoal com Flicts, e sinta o que eu sinto ao conhecê-la um deslumbramento, um pasmo radiante, a felicidade de renascer diante do espetáculo das coisas em estado puro.
Flicts faz a gente voltar ao ponto de partida, que, paradoxalmente, é ponto de chegada. No princípio era cor, e no fim será cor, alegria da percepção. Ou nem haverá fim, se concebermos a cor em si, flutuando no possível, desinteressada de pouso e tempo.
Flicts já flutua no bôjo desta idéia. Mais um passo, e não precisará de ponto de referência, ela que rodou por toda a parte para afirmar-se, e acabou se encontrando… onde, não digo, não quero dizer. Você é que tem que chegar lá para vê-la. O conto contado por Ziraldo só merece um adjetivo, infelizmente desmoralizado: maravilhoso. Não há outro, e sinto a pobreza do meu cartuchame verbal, para definir Flicts: não carece de definição. É.
Mestre do traço desmitificador ou generoso (Supermãe, Jeremias), Ziraldo abriu mão de suas artimanhas todas para revelar Flicts com absoluta economia de meios, ou, antes, sem meio algum. E dá-nos a festa da cor como realidade profunda, e não mera impressão da luz no olho. Sua revelação é fulgurante. Faz explodir a carga emocional e mental que as cores trazem consigo.
Disse que me faltam palavras: entretanto, o próprio Ziraldo, monstro inventor de Caratinga, soube encontrá-las, compondo com elas não uma explicação de Flicts, mas um guia lacônico de viagem, para acompanharmos o giro ancoso de Flicts pelo universo. Este guia saiu um poema exato. Do resto, que é Flicts senão poesia formulada de outra maneira por Ziraldo? E o consórcio das duas poesias forma uma terceira, dom maior deste livro.
Flicts é a iluminação – afinal, brotou a palavra – mais fascinante de um achado: a cor, muito além de fenômeno visual, é estado de ser, e é a própria imagem. Desprende-se da faculdade de simbolizar, e revela-se aquilo em torno do qual os símbolos circulam, voejam, volitam, esvoaçam – fly, flit, fling – no desejo de encarnar-se. Mas para que símbolos se captamos o coração da cor? Ziraldo realizou a façanha em seu livro.

ANDRADE, Carlos Drummond de. In: “Flicts: o coração da cor”. Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 22 de agosto de 1969.


É assim deste jeito (ou de uma forma muito parecida com essa) que as crianças percebem as cores? Suponho que sim!